Entrada da sede/Foto de Iano Andrade

Renato Alves

Os turistas têm mais um bom motivo para visitar Pirenópolis. Famosa por suas cachoeiras e construções centenárias, a cidade goiana ganhou de volta o brilho de uma das suas jóias arquitetônicas. Único prédio do gênero tombado na região Centro-Oeste, a sede da Fazenda Babilônia foi restaurada. Está como há 200 anos, quando era a maior empresa agrícola de Goiás.

Objetos para montaria/Foto de Iano AndradeAs visitas podem ver, fotografar e até tocar algumas das preciosidades recuperadas por técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em um trabalho de quase dois. Construída por escravos entre 1800 e 1805, a propriedade ainda guarda muitas das relíquias originais dos seus tempos áureos.

Sala de estar/Foto de Iano AndradeA sede da Babilônia, um casarão em estilo colonial, é marcada pela beleza de suas obras de arte e os exageros. O prédio de 2 mil metros quadrados é sustentado por grossos esteios e vigas de madeiras, com paredes de adobe e pau-a-pique. Algumas vigas medem dois palmos de largura e atravessam vãos de até 15m.

Cozinha da fazenda Babilônia/Foto de Iano AndradeO telhado, coberto com telhas-coxa, é feito de caibros roliços, com cerca de 20cm de diâmetro, próximos uns dos outros. O madeirame é unido por encaixes precisos e cavilhas de madeiras. Até as dobradiças das portas são em madeiras. Havia carência de metal no início do século 19, devido à dificuldade da importação por causa do custo da longa viagem.

Os pregos usados na construção, principalmente nos assoalhos, são quadrados, feitos manualmente em bigornas. O casarão é cercado por muros de pedras. Erguidos pelos escravos, eles também circundam o curral, outras construções da propriedade e cruzam boa parte do pasto. Na sede da fazenda, se destaca ainda a capela.

Afresco no teto da Capela da fazenda Babilonia/Foto de Iano AndradePinturas reveladas

Erguida em uma das pontas da extensa varanda — que ocupa toda a fachada da casa —, a capela conserva alguns tesouros da cultura goiana. Todas foram recuperadas na restauração iniciada em dezembro de 2006 e concluída semana passada. A mais encantadora delas estava encoberta e maltratada pelo tempo e a falta de conservação.

Sob o azul do teto em madeira, os restauradores encontraram uma pintura balaustrada, com motivos florais, em perspectiva que complementava a única parte até então visível, formada por dois medalhões com imagens de São Joaquim e Sant’Ana, pais da Virgem Maria.

A equipe dedicou três meses de trabalho aos desenhos e pinturas do espaço de oração dedicado à Nossa Senhora da Conceição, padroeira da fazenda. É um trabalho de muita qualidade que traz uma concepção ainda do século 18, em estilo rococó.

O altar da capela, estreito e ao fundo, é encimado por um pequeno nicho, onde imagens sacras ficavam sobre um retábulo todo de madeira. Na parede, contígua a casa, há uma janela treliçada que dá vista para a sala. Desse modo, da sala vê-se o altar. Era também uma maneira de contemplar as mulheres, que assistiam as missas acomodadas na sala. Os homens assistiam em pé, na varanda. Apenas o padre ficava dentro da capela.

Imagem de Nossa Sra. da Conceição (1830 - Veiga Vale )/Foto de Iano AndradeImagem rara

Com a pintura artística recuperada e a revelação das imagens e desenhos do forro e da moldura, a dona da fazenda, Telma Lopes Machado, 58 anos, decidiu devolver à capela todos os enfeites. “Eles estavam guardados há muito tempo, bem preservados. Não os colocava no altar porque não havia condições. O tempo e os cupins quase acabaram com a capela”, observa a mulher, integrante da quarta geração de proprietários da Babilônica.

Entre as obras guardadas por Telma, destaca-se uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, com 21cm de altura, esculpida por José Joaquim de Veiga Valle. Nascido em Pirenópolis em 1806 e morto na Cidade de Goiás, em 1874, ele é a maior referência da arte sacra goiana e o mais importante artista do estado até o século 19. “Essa imagem é uma das provas do valor artístico de Veiga Valle. Os detalhes do manto da santa mostram que ele era um abençoado”, ressalta Telma, com a escultura em mão.

Como chegar

Pirenópolis fica a 150km de Brasília. O acesso se dá pela BR-070. Para chegar à Fazenda Babilônia, é preciso andar mais 24km, até o Km 3 da GO-431, estrada que leva ao sentido contrário à capital do país.

Café servido na Fazenda Babilônia/Foto de Edilson RodriguesAberto a visitas

Além de restaurar a sede da Fazenda Babilônia, o Iphan recuperou o antigo paiol para servir de receptivo aos visitantes. No local há sala de recepção, banheiros e uma lojinha com artesanato e guloseimas feitas na propriedade rural, como há 200 anos. Sábados, domingos e feriados, ela é aberta aos turistas de 8h30 às 16h30. A entrada custa R$ 8. Quem tem até 12 anos não paga.

Além do passeio, é oferecido um café com 40 itens da culinária goiana. Se quiser conhecer a propriedade e comer, o visitante adulto paga R$ 26. Para a criança, o serviço custa R$ 13. De segunda a sexta-feira, as visitas precisam ser agendas por meio de um desses telefones: (62) 3331-1226; 9294-1805; 9291-1511.