Estrada Real (1) – Mil quilômetros de bicicleta

Clara Arreguy (texto) e Paulo de Araújo (fotos) 

[mapa-caminhodiamantes.jpg]Viagem não para um lugar, mas por um lugar. Um só não, muitos, variados, de riqueza inimaginável. Riqueza humana, de paisagem e história. Assim se podem definir as férias diferentes experimentadas por um grupo de ciclistas, o Dá Pedal, que percorreu a Estrada Real de bicicleta, pouco mais de mil quilômetros de Diamantina (MG) a Paraty (RJ), durante 20 dias, entre junho e julho de 2008.

O grupo, informal, era composto por oito pessoas – três jornalistas (Paulo de Araújo, Pena Filho e Clara Arreguy), três artesãos (Maninho Santos, Rogério Haubold e Nilo Almeida), um chef de cozinha (José Alcir Araújo) e uma webdesigner (Clarice Maia Scotti, no meio da viagem substituída ao volante por sua mãe, Glória Arreguy Maia). Detalhe: apenas os rapazes pedalaram. As meninas atuavam no carro de apoio.

Nos preparamos para o passeio durante meses. Conseguimos, junto ao Instituto Estrada Real (ligado à Federação das Indústrias de Minas Gerais, a Fiemg), planilhas com o mapeamento de todo o percurso, quilômetro a quilômetro, assinalado por marcos que ajudam a encontrar o caminho entre estradas de terra (a maioria), de asfalto, trilhas e desvios. De posse das planilhas e com a ajuda dos marcos, ficaria mais fácil não nos perdermos no meio do mato, como tantas vezes quase aconteceu.

Para dar conta de bicicletas, barracas, mochilas, sacos de dormir, panelas e todo o equipamento necessário para oito pessoas se virarem em 20 dias de pouso incerto, adaptamos na caminhonete um transbike (estrutura de ferro capaz de transportar sete bicicletas). Por fim, adesivamos as portas com a marca e o site do Dá Pedal.

O ponto de encontro foi Belo Horizonte, para onde se dirigiram os quatro moradores de Brasília, um de Florianópolis, um de Garuva e um de Joinville (todas em Santa Catarina). As motoristas moram ambas em BH. Da capital mineira subimos, de carro e ônibus, para Diamantina (300km). Pernoitamos num camping da cidade histórica e saímos de lá na manhã de segunda-feira, 16 de junho, aniversário do Maninho. Outro detalhe: a faixa etária do grupo de jovens gira em torno dos 50 anos. O Maninho completava 52 naquele dia. 

Ladeira acima

Embora soubéssemos que muita ladeira nos esperava, nada como começar pela mais que íngreme terra de Chica da Silva para deixar as pernas dos ciclistas no jeito. No primeiro dia, passeamos por pontos históricos e turísticos, visitamos a praça do mercado e a Matriz, pisamos, com pés e rodas, as pedras capistranas.

Daí termos saído tarde, por volta do meio-dia, e andado apenas 33km, entre subidas e descidas sem fim, até São Gonçalo do Rio das Pedras, onde conseguimos outro camping vazio para nos abrigar – com direito a chuveiro quente e o abrigo das paredes de uma casa velha onde a festa de aniversário teve churrasco e macarrão.

Não custa lembrar que, do grupo, fazem parte quatro gaúchos, duas mineiras, um catarinense e um alagoano – então, nem é preciso citar a presença da carne e do chimarrão junto à constância da comidinha mineira ao longo do percurso.

concentração atrás da Matriz, enquanto alguns compram os últimos moletons de reforço para agüentar o frio da noite
Diamantina: concentração atrás da Matriz, enquanto alguns compram os últimos moletons de reforço para agüentar o frio da noite

Para atingirmos nossa meta – mil quilômetros em 20 dias -, pedalar 33km no primeiro nos deixava em atraso. Saímos no segundo dia rumo a Milho Verde (7km) com essa consciência. Com os destinos seguintes, Serro (22km), onde almoçamos, e Alvorada de Minas (17km), onde pernoitamos numa pousada em obras, somamos apenas 47km, ainda abaixo do necessário.

As estradas eram bem mais difíceis do que o esperado, os rapazes pedalavam forte o dia inteiro, até o início da noite, mas não tinham faróis potentes, apenas lanternas pequenas, que servem para que sejam vistos, mas não ajudam muito a cercar buracos e obstáculos.

Xô, urucubaca

O terceiro dia foi o mais difícil de todos. Cinco quilômetros depois de Alvorada de Minas, caí da bicicleta e machuquei o joelho – é que eu também dava minhas pedaladas, uns 8km a 10km por dia, mas depois disso fiquei fora de combate e só voltei à ativa em Capela do Saco, na parte final da viagem.

Naquela quarta-feira, pela ordem: erramos a entrada para Itapanhoacanga, o José e o Rogério se perderam (10km entre ida e volta), o carro ficou umas duas horas procurando-os na MG-010, o José caiu, o Paulo e outro grupo erraram o caminho (2km a mais), chegamos à noite em Córregos e tivemos dificuldade com os gerentes de uma pousada, que negociaram um preço conosco e autorizaram o uso da cozinha, depois mudaram de idéia nos dois quesitos.

Notas felizes em meio a tanto problema: a atenção dos moradores de Itapanhoacanga, que nos deram bananas (combustível essencial para evitar a cãibra dos ciclistas) graciosamente e nos atenderam no posto de saúde; a simpatia e o tempero de dona Maria Eni, que nos fez um lauto almoço às 16h, em Tapera (hoje Santo Antônio do Norte), após termos enfrentado 8km de pura subida numa estrada difícil, perigosa, que consumiu o tempo e as forças da galera.

Resultado: apesar das idas e vindas, avançamos 40km, novo déficit na média pedalada. Aqui é importante fazer uma ressalva: a contagem do carro de apoio levava em conta as distâncias assinaladas nos marcos da Estrada Real, nas entradas e saídas das cidades. Os quilômetros efetivamente pedalados pelos rapazes sempre superavam essa conta.

 

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9 comentários em “Estrada Real (1) – Mil quilômetros de bicicleta

  1. Cristiano, mais informações você e os demais leitores podem adquirir acessando o site do Dá pedal(www.dapedal.org), uma ONG de ciclistas de Brasília que percorreu este e outros caminhos. O e-mail deles é o dapedal.mail@gmail.com. Caso não consiga contactá-los, mande nova mensagem. Tentarei os telefones.

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  2. muito legal a viagem de voçes. estou me preparando para fazer a estrada real de bike ( caminho velho)viagem solo . Como estarei só , venho me preparando colhendo muita imformação para elaborar um roteiro . venho tentando consseguir uma planilha da estrada velha sentido ouro preto a paraty. se tiver uma planilha por favor tente mandar para meu email. desde ja agradeço

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  3. Leonardo, esse é o primeiro post de uma série de três sobre a viagem de bicicleta pela Estrada Real. Mais informações você e os demais leitores podem adquirir acessando o site do Dá pedal(www.dapedal.org), uma ONG de ciclistas de Brasília que percorreu este e outros caminhos. O e-mail deles é o dapedal.mail@gmail.com. Caso não consiga contactá-los, mande nova mensagem. Tentarei os telefones.

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  4. Renato e Clara, boa noite! Interessante o relato. Sou mineiro e há muito quero fazer ao menos uma parte da estrada de bicicleta.
    Li no relato que vocês conseguiram com o Instituto Estrada Real o planilhamento do caminho. Ainda possuem o mesmo? Poderiam me repassar? Desde já agradeço!
    Meu e-mail é leocmuniz@ig.com.br

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  5. Olá pessoal,depois de ler bastante sobre a estrada real,vou realizar um sonho em minhas férias de fazê-la de bicicleta.
    Eu e meu filho vamos pedalar juntos e mais 4 de apoio.Caso alguem interessa participar,vamos conversar o assunto.
    O roteiro é de Diamantina a Paraty.Previsto para dia 04/01/09.Estou no aguardo.Um abraço a todos

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  6. Irmão do Deco, obrigado pela ajuda. Continue colaborando com sugestões,principalmente quanto ao design da página. Temos algumas coisinhas a melhorar.

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  7. Nossa tá legal o blog. Quando leio dá vontade de viajar. Se meu pânceps não fosse tão avantajado adoraria vencer a Estrada Real de bicicleta. hahaha.

    Abraços.

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