Estrada Real (2) – Mato Dentro a Lagoa Dourada

Clara Arreguy

No destino seguinte, Conceição do Mato Dentro, almoçamos um self-service honesto de comida mineira. Na saída da cidade, o carro de apoio foi parado pela primeira vez numa blitz (somamos três em toda a viagem, uma delas como “suspeitas de trafegar com bicicletas desmontadas”!). Na estrada, mais lombadas e paisagens estonteantes.

Pelo caminho, é sempre bom ressaltar, só encontramos franqueza, acolhimento, relações mais humanas, distantes do mercantilismo e do utilitarismo a que nos acostumamos na cidade grande. Como disse o Mauro, gerente de um camping em que ficamos: “Por aqui não tem perigo, é todo mundo honesto, vocês não precisam ter medo nem desconfiança. Por aqui não tem ladrão. Só vai ter ladrão pra lá de Conceição do Mato Dentro”.

Após 52km pedalados, pousamos em Morro do Pilar, onde a experiência de hospitalidade se repetiu: Vandinho e Ondina nos alugaram a própria casa para pousarmos à noite, com direito a fogão a lenha, chuveiro de serpentina (detalhe quentíssimo no inverno gelado), amizade, simpatia e uma prosa deliciosa.

Curral brumoso visto da copa da pousada de Senhora do Carmo

A cidade em forma de morros e mais morros não tinha banana para dar nem para vender. No dia seguinte almoçamos no meio da estrada – sanduíches para quem não tinha onde parar -, passamos por Itambé do Mato Dentro e chegamos a Senhora do Carmo, total de 49km.

Ali tivemos nova acolhida calorosa, na pousada de Maria Isabel e Roberto, que nos deram, além de um desconto pelo tamanho (e a dureza) do grupo, couve picada fininha para o José jogar por cima do carreteiro confortante da noite.

Quem tem um amigo…

Manhã de sábado, passamos meio depressa pela bela (na paisagem e no nome) Ipoema e seguimos para Bom Jesus do Amparo, onde almoçamos um PF honesto e rumamos para Cocais, num total de 58km pedalados. Cansados, tivemos dificuldade em encontrar pernoite.

A pousada estava muito acima das nossas possibilidades, mas, com a ajuda preciosa de moradores, que tentavam encontrar quem nos alugasse uma casa, obtivemos sucesso. Foi o Ivan Loyola, gestor de turismo da cidade, fotógrafo, ciclista e ambientalista como tantos do Dá Pedal, que conseguiu que o Francisco nos emprestasse uma casa vazia, mas com um fogão a lenha, onde finalmente descansamos os ossos.

No domingo, o Ivan, que além de tudo dirige o museu de Cocais, nos emprestou o computador de lá para atualizarmos nosso blog. Àquela altura, em poucas localidades conseguíamos pegar linha de celular. Nem Vivo nem Claro nem Oi. Ficávamos incomunicáveis quase todos os dias.

Ali demos aos internautas notícias do mundo de lá, recebemos mensagens enviadas havia dias e ainda tivemos a dica de visitar a Pedra Pintada, sítio de pinturas rupestres na saída da cidade.

Depois da arqueologia e de uma passagem por Barão de Cocais, onde almoçamos nas barraquinhas da quermesse da Igreja de São João, atingimos Santa Bárbara à tarde. Ficamos hospedados na casa de nossos irmãos Fred e Mércia, tomamos cerveja e fechamos a primeira semana com alegria e calor humano – pedalamos apenas 22km, mas era domingo, dia em que até Deus descansou.

Serra do Caraça

DSC01448.JPGSegunda segunda-feira, oitavo dia de viagem, deixamos Santa Bárbara ladeando a Serra do Caraça com uma triste constatação: a mineração, tão comum em toda a paisagem mineira, está comendo aquele patrimônio natural e cultural, que abriga o histórico colégio que leva o mesmo nome da montanha.

Até Catas Altas, outra linda cidade aos pés da serra, onde almoçamos bem e vimos a linda Matriz no topo de um monte, só observamos devastação provocada pela mineração. De lá rumamos para Santa Rita Durão, pequeno distrito de Mariana, onde não havia um hotel, uma pousada, uma pensão. Alugamos quartos de uma senhora que mantém um lugar sujo e em condições precárias, mas que pelo menos nos abrigou do relento e da chuva que caiu à noite. Neste dia, rodamos 37km.

Mariana, onde almoçamos no dia seguinte num self-service na Praça da Sé (com direito a visita ao centenário órgão da catedral), estava a 33km e Ouro Preto, mais 10km – só que aqui, pura subida no asfalto.

Uma cidade brumosa e fria nos recebeu, às 17h de 24 de junho, Dia de São João, envolta na paisagem que a consagra. Brindamos com champanhe, na Praça Tiradentes, o encerramento do Caminho dos Diamantes, primeira etapa da excursão.

À noite, na festa de rua para o santo, em frente à Casa de Guignard, obtivemos ajuda do fotógrafo Eduardo Tropia, que nos apresentou o Henrique, especialista em Estrada Real, cheio de informações, dicas e até mapas.

Ganhando tempo

Saímos na manhã seguinte com uma decisão: escolher um atalho pelo Caminho Novo para ganhar pelo menos parte dos três dias que estávamos atrasados no nosso cronograma. Assim, trocamos São Bartolomeu, Glaura, Miguel Burnier, Congonhas e Entre Rios de Minas por Ouro Branco, Conselheiro Lafaiete (onde dormimos na honestíssima Pousada Real), após 57km pedalados, muitos em asfalto.

De lá, Queluzito, Casa Grande e Lagoa Dourada (mais 60km), ponto de reencontro com o Caminho Velho, que nos propuséramos a fazer. Nos dois dias, alternamos estradas de terra e asfalto, boas hospedagens e almoços improvisados em padarias e piqueniques, mas sempre recompensados pelo jantar produzido por nosso chef.

No fim, ganhamos dois dias e comemoramos com o legítimo rocambole de Lagoa Dourada.

 

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