Estrada Real (3) – De Prados a Paraty

Clara Arreguy (textos) e Paulo de Araújo (fotos)

No 12º dia de jornada, pedalamos 20km até Prados e mais 17km até Tiradentes. Lá, fomos acolhidos pelo artista plástico Fernando Campos e sua assistente Cris, que nos receberam em suas casas com carinho, vinho e massa ao alho e óleo (do José).

A terra do herói inconfidente estava um inferno, devido a um encontro de Harley-Davidson. Milhares de motos tomavam as ruas, os vilarejos em volta, como o belo Bichinho, as estradas. Atravessar Tiradentes e São João del-Rei nessas condições, no sábado, consumiu tempo e paciência.

Ao final do 13º dia, depois de errar a saída e de mais um piquenique de frango assado improvisado à beira da estrada, passamos por São Sebastião da Vitória e atingimos Caquende 51km depois.

Pôr-do-sol na represa

Aqui, um detalhe poético. Nas nossas planilhas não constava a distância entre Caquende e Capela do Saco, não havia meio de saber quanto seria. Quando chegamos lá, entendemos por quê.

A estrada termina numa represa do Rio Grande, que se atravessa de balsa. O balseiro só trabalha até as 18h. Chegamos pouco antes disso, buzinamos para chamá-lo. Ele cruzou as águas e topou esperar os ciclistas mais uma meia horinha, mas nos aconselhou a telefonar para a pousada avisando que estávamos a caminho, senão a funcionária iria embora. Foi o que fizemos. Os embalos de sábado à noite curtimos numa pizzaria de Capela do Saco.

Manhã de domingo, almoçaríamos em Carrancas, 28km à frente. Num restaurante de posto de gasolina com boa comida caseira, ficamos conhecendo as irmãs Inês e Cristina de Barros. A primeira dirige o carro de apoio para a segunda, que pedala pelo país divulgando os exames preventivos contra várias doenças, em especial o câncer de útero, do qual ela se curou.

Foi uma festa encontrar alguém que fazia o mesmo trajeto que nós, com propósitos nobres. Havia diferenças. Ela, acostumada a pedalar sozinha, era bem mais disciplinada que nosso grupo, que contava seis e eventualmente sete pedalantes (a esta altura meu joelho já sarara e eu estava de volta à ativa, embora não todos os dias).

Piquenique e internet

Apesar de termos avançado pouco no domingo, combinamos sair mais ou menos juntos, as duas expedições, no dia seguinte. Para tal, avançamos naquela tarde apenas mais 10km, totalizando 38km.

Pernoitamos no meio do campo, num embarcadouro de gado em frente ao casebre do senhor Procópio. Foi o acampamento mais selvagem de toda a excursão, sob frio e com cães rondando nossa comida (levaram o que sobrara do frango assado da véspera).

Com a expertise dos rapazes em armar e desarmar barracas, porém, logo cedo estávamos em condições de acompanhar a Cris e a Inês rumo a Cruzília (56km), com breve intervalo para piquenique perto de Traituba, lugar onde houve uma vez um imponente hotel-fazenda, hoje desativado.

Em Cruzília, após pousarmos num hotelzinho (nós e elas), tivemos que levar o Rogério ao pronto-socorro por causa de um berne que infeccionou em suas costas e o tirou de combate por dois dias. A turma seguiu sem nós, já que a esticada do dia seria longa: Baependi, Caxambu, São Lourenço e Pouso Alto (total de 57km, entre erros e acertos de caminho, terra e asfalto, trechos inacessíveis à caminhonete, desencontros e resgates à noite, no mato – no contador do Paulo, foram mais de 80km).

A enorme compensação: fomos recebidos em casa pela família do doutor Leco – sua mulher, Zélia, e seu filho, Mateus, nos brindaram até com sopa, internet, máquina de lavar roupa e uma noite bem dormida.

Ganhos e perdas

Manhã seguinte, pé na estrada – ou melhor, rodas. Passa Quatro e a divisa de Minas nos esperam, depois de passarmos por São Sebastião do Rio Verde, Itamonte e Itanhandu – nessa região, a sinalização está precária, faltam muitos marcos, alguns tombam ao chão, outros foram instalados no lugar errado, o que nos confunde e faz errar o caminho.

Na última cidade mineira, nos hospedamos na Pousada da Tia Ana, 44km depois, onde a dona e o José Roberto nos ajudam e ensinam a, no dia seguinte, pegar o rumo certo. É que os mapas indicam Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Lorena, todos no estado de São Paulo (por onde vão a Inês e a Cris), enquanto nossa planilha prevê Garganta do Embaú e Vila do Embaú, numa via paralela aos antigos trilhos da estrada de ferro, cheia de trilhas e de acesso exclusivo às bicicletas, tudo parte da Estrada Real, por onde vamos nós.

O antepenúltimo dia nos leva por essas paragens, em descida de mais 66km até Guaratinguetá, terra de Frei Galvão. Aí sofremos o maior revés de toda a viagem: cidade grande, hotéis cheios, nos hospedamos num flat em cuja garagem nos roubaram uma bicicleta, a do José. Sorte no azar, já que nosso cozinheiro havia ido embora na noite anterior.

Depois de registrar ocorrência, chateados, pudemos corrigir a imagem da cidade na hora do almoço, quando paramos na Churrascaria da Serra, no alto de um morro que consumiu mais de duas horas de pedal em subida. Dali, descemos até Cunha, capital das cerâmicas, pernoitamos os sete no grande apartamento de um hotelzinho, 47km pedalados.

Missão cumprida

Último dia. Finalmente iria se concretizar a máxima repetida ao longo de todo o caminho pelo Pena Filho: “Agora só desce”. De Cunha a Paraty, passando pelo Parque Nacional da Serra da Bocaina, seriam 54km. Parte de asfalto, parte de terra – essa última, no meio do parque, mais difícil para o carro do que para os ciclistas.

No alto, divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, a bruma cobriu a serra e o caminho, propiciando vento, frio e uma das paisagens mais surpreendentes. Pena que encobriu o mirante que permitiria avistar até a baía de Angra dos Reis.

Depois de 22km de descida, num verdadeiro parque de diversões para os pedaleiros, atingimos afinal Paraty, às 17h30 de sábado, dia 5. Nos marcadores das bikes, 1.090km cumpridos entre o camping de Diamantina e o da Praia de Jaraguá.

No centro da cidade histórica, a saudável muvuca da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), a acolhida do Sebastião Ribeiro, o encontro com velhos e novos amigos, a deliciosa sensação de missão cumprida, no prazo proposto, e a comemoração do Dá Pedal com direito a cerveja e anchova assada na brasa.

SERVIÇOS

Pousada Simião
Santo Antônio do Norte – Tapera
www.taperaminas.com.br; (31) 3868-5045.

Sítio Arqueológico da Pedra Pintada
R. Principal, 20, Serra da Conceição
Vila de Cocais, Barão de Cocais (MG)
sitiopedrapintada@yahoo.com.br; (31) 9718-2923.

Histórias Taberna Restaurante
R. Monsenhor Barros, 230
Catas Altas (MG)
www.terramineira.com.br; (31) 3832-7615.

Pousada Real
R. Marechal Floriano Peixoto, 47-A, Centro
Conselheiro Lafaiete (MG)
www.pousadareal.guialivre.com.br; (31) 3761-4896.

Cristina de Barros
www.cristinadebarrosnaestradareal.blogspot.com; (11) 8778-8841

Churrascaria da Serra
Estrada Guaratinguetá-Cunha (SP), km 20, Rocinha; (12) 3127-1145.

Sebastião Ribeiro Projetos Náuticos
Caixa Postal 74.870
Paraty (RJ)
sebastiao.ribeiro@uol.com.br; (24) 3372-0000

 

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2 comentários em “Estrada Real (3) – De Prados a Paraty

  1. Gi, esse é o terceiro post de uma série de três sobre a viagem de bicicleta pela Estrada Real. Mais informações você e os demais leitores podem adquirir acessando o site do Dá pedal(www.dapedal.org), uma ONG de ciclistas de Brasília que percorreu este e outros caminhos. O e-mail deles é o dapedal.mail@gmail.com. Caso não consiga contactá-los, mande nova mensagem. Tentarei os telefones.

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