Antártida – Um lugar fascinante

Base chilena

Luiz Roberto Magalhães (texto) e Breno Fortes (fotos)

O destino de John Winston Lennon foi selado em 8 de dezembro de 1980, em frente ao edifício Dakota, em Nova York. Naquela data, uma segunda-feira, o norte-americano Mark David Chapman disparou, por volta das 23 horas, cinco tiros contra as costas do ex-músico dos Beatles. O assassino retribuiu com balas uma cortesia que John Lennon lhe fizera horas antes ao autografar para ele uma cópia de seu mais recente trabalho, o álbum Double Fantasy.

Mar antárticoNove anos antes de ser morto, em 1971, Lennon brindou os fãs com a música que se tornaria um hino e seria eleita pela revista Rolling Stone como uma das três maiores canções de todos os tempos. Imagine fala de um mundo utópico, protegido dos males que castigam a humanidade. “Imagine que não existem países. Não é difícil de fazer… Imagine nenhuma propriedade. Me pergunto se você consegue”, diz trecho da música.Território chileno vizinho à Antártida

Em muitos aspectos, o lugar idealizado por John Lennon existe. Ele se chama Antártica.

Como sonhou Lennon, o continente branco é o único ponto na terra onde não existem países. Na Antártica (ou Antártida – os dois nomes são aceitos, mas a Marinha do Brasil adotou o com a letra “c” como oficial) não há divisão geopolítica.

Toda essa massa, de cerca de 14 milhões de km2 , o equivalente à soma das áreas do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia — mas que pode chegar a 32 milhões km2 no inverno, com o congelamento dos mares –, por enquanto pertence simplesmente à humanidade. Tudo por conta de um acordo firmado em 1961 e conhecido por Tratado da Antártica.

Base Aérea Chilena na AntártidaOutro ponto em comum entre a Antártica e Imagine é que o lugar jamais foi manchado por uma guerra ou qualquer tipo de conflito armado. Embora equipes de militares de vários países trabalhem em diversos pontos do continente, nunca houve uma animosidade.

“Acho que a presença militar na Antártica existe mais por conta da logística mesmo”, acredita o carioca Francisco Carlos Ortiz de Holanda Chaves, 54 anos. Contra-almirante da Marinha do Brasil, ele é o secretário e o responsável pela Comissão Interministerial Para Recursos do Mar (Cirm), cujo um dos braços é o Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

“As organizações civis, em sua maioria, dificilmente teriam como se instalar aqui, por conta das condições extremas do local. Então, existe essa cooperação militar. Os militares só estão aqui para permitir que os cientistas trabalhem. A cordialidade entre as bases de todos os países é muito alta”, completa o almirante.

Fóssil de baleiaDesafios

Quem quer que se aventure a explorar a Antártica deve estar disposto a enfrentar grandes desafios. Com todas suas terras localizadas ao Sul do Paralelo 60oS, o continente é o local mais inóspito do planeta.

Somente 0,5% de toda a área fica descoberta de gelo ou neve e, ainda assim, isso só acontece no verão, entre os meses de dezembro e março. No restante do ano, tudo é simplesmente branco. Uma clareza impressionante, que reflete 80% da luz solar que incide no território e, assim não permite que ele se aqueça.

A Antártica é o continente mais frio e seco da Terra. Apesar de todo o gelo, trata-se de um gigantesco deserto, cuja precipitação média anual (de chuva, não de neve) é quase nula, girando entre 30mm e 70 mm. Para se ter uma idéia do que isso significa, a precipitação média em Brasília, famosa por sua secura, fica entre 1.200mm e 1.800 mm nos meses de março a outubro.

Avião da Força Aérea BrasileiraCom tanto gelo para todo lado, as temperaturas antárticas são baixíssimas. Na região central, os termômetros oscilam entre -30o e -65o e, em 21 de julho de 1983, a base russa de Vostok, localizada a aproximadamente 3.400 metros de altitude, registrou aquela que até hoje é a menor temperatura registrada no planeta: -89,2oC.

Devido à influência das correntes marítimas, entretanto, as zonas costeiras, onde se localiza a Estação Antártica Comandante Ferraz, base do Brasil, apresentam temperaturas mais amenas, entre os -10°C e -20°C.

Para a maioria, pensar em Antártica é imaginar um enorme vazio. Um lugar repleto de gelo e com quase nenhuma vida. De fato, se comparada com outros biomas, a natureza não é generosa em diversidade na região. Espécies de aves, por exemplo, são apenas 60. Quase nada se comparadas às 1.840 conhecidas apenas no Brasil.

“Em termos de diversidade, a Antártica não é rica”, concorda o biólogo Edson Rodrigues Júnior, 24 anos, pesquisador da Universidade de Taubaté. Morando na base brasileira desde março, ele pesquisa os peixes da região. “Só que a Antártica não é tão pobre como muitos imaginam. Temos mais de 300 espécies só de peixes”, explicou.

Cientistas brasileirosA baixa diversidade é compensada pela enorme quantidade de representantes de cada espécie. A população de albatrozes, por exemplo, chega à marca de 60 milhões em suas várias espécies. Quando falamos nos simpáticos pingüins, apenas os pingüins-de-penacho-amarelo chegam a 4 milhões de aves somente na Ilha Geórgia do Sul.

Última fronteira 

A Antártica é a última grande fronteira a ser explorada pelo homem. Um continente fascinante, que há décadas tem representado um enigma que só agora começa a ser desvendado. Sua importância para a vida no planeta é crucial. E grandes esforços têm sido empregados para preservar esse enorme porção de gelo, que concentra cerca de 80% de toda a água doce do mundo.

Navio brasileiro“Se somarmos todos os reservatórios de água doce do mundo, todos os rios, lagos, lagoas e lençóis freáticos, eles são apenas 20% da reserva do planeta. O resto está aqui, na Antártica”, compara o fotógrafo e cinegrafista Haroldo Palo Júnior, que tem registrado as expedições do Brasil na região há 11 missões e já publicou dois livros sobre o continente.

“A Antártica é o refrigerador da Terra. Se ela não existisse, a vida humana aqui não seria possível”, ressalta o paulista José Roberto Chagas, 56 anos, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que trabalha desde 1983 monitorando o clima e o buraco na camada de ozônio na região.

Lições

Neste mundo gélido, desbravadores como o inglês R. F. Scott e sua equipe perderam a vida no início do século passado. E outros, como o norueguês Roald Amundsen — primeiro homem a chegar ao Pólo Sul, em 14 de dezembro de 1911 – e o inglês Ernest Shackleton, encontraram a glória.

Pinguim dançandoMas a maior lição da Antártica permanece incrivelmente simples e, ao mesmo tempo, ironicamente pouco percebida. “O que me encanta muito é que aqui podemos ouvir um silêncio que ninguém tem noção quando estamos no Brasil. Quando o navio está aqui, no verão – navio de pesquisas Ary Rongel, da Marinha Brasileira –, ainda ouvimos barulhos lá fora. Mas no inverno, não ouvimos absolutamente nada. É um silêncio incrível. Aqui temos paz de verdade”, finaliza o biólogo Edson Rodrigues.

Uma paz que John Lennon imaginou apenas em sua música. Mas que existe. Cercada de um branco de uma pureza singular.

Montanha nevada proxima a estacao Antartica Comandante Ferraz

 

 

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3 comentários em “Antártida – Um lugar fascinante

  1. hahahahahaaaaa!!!!!! Ninguém merece o Felipe apesar da pergunta ser pertinente. Mesmo com o nariz de cera eu gostei do texto. A comparação entre a música e continente foi bem legal e as fotos do Breno estão incríveis.

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  2. Putz, que nariz de cera colossal.

    Mas é muito legal ler sobre a Antártida mesmo. Uma verdadeira aula de geografia que, porém, carece de aplicação prática: de que porra adianta 80% da água doce estar na Antártida se ninguém consegue consumi-la ou transportá-la para onde estão as pessoas? Por acaso tem algum tubo submarino que leva a água de lá pro resto do mundo? Useless, então. Queimemos a antártida e subamos a temperatura de lá, para que possamos habitar mais um continente!!!

    Abssss

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