Nem Niemeyer salva

Vicente Vilardaga, da Viagem e Turismo

Brasília já nasceu como monumento histórico, com uma imagem futurista e paisagens incomparáveis. O que não falta na capital são atrações turísticas, e visitálas é uma forte experiência sensorial. As grandes perspectivas, o urbanismo exato de Lúcio Costa e os movimentos sinuosos dos prédios de Oscar Niemeyer seduzem o olhar. Estamos diante da única cidade moderna tombada pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Apesar de tantos atrativos, o turismo no Distrito Federal avança devagar.

A verdade é que ninguém consegue lembrar da perspectiva da Esplanada dos Ministérios quando vê imagens bem mais poderosas, como as do governador José Roberto Arruda embolsando uma grana do mensalão. A beleza da nova metrópole imediatamente se dissolve no meio da corrupção. Os flagrantes do dinheiro em meias e cuecas obscurecem qualquer urbanismo e a melhor arquitetura.

Não é por acaso que poucos vão para lá  atrás de lazer e diversão. A grande maioria dos visitantes está na cidade a negócios, eventualmente obscuros. São políticos, lobistas, jornalistas, funcionários públicos de todo o país e empresários e executivos que participam de eventos na cidade. É gente que viaja mais por obrigação do que por prazer. Mas e as famílias interessadas em conhecer a capital? E os grupos de estudantes e os casais orgulhosos de serem brasileiros? E o turismo cívico? Ainda é subexplorado. Se durante a semana o índice de ocupação dos hotéis vai a 80%, nos fins de semana e feriados, quando se espera que o turista de lazer ocupe a cidade, a taxa mal chega a 30%.

A melhor explicação para esse fraco desempenho é a má fama da capital. Tudo indica que a corrupção faz as pessoas esquecerem de sua beleza monumental. E não há marketing capaz de reverter essa situação. O Brasil vai bem, a população viaja cada vez mais e Brasília está cheia de roteiros interessantes. Mas parece que a roubalheira mina as energias do turista e tira sua vontade de conhecer a capital. A corrupção não é um tipo de violência que ameaça fisicamente. Mas ela causa uma forte repulsa. Eu, você, a imensa maioria da população da cidade (gente honesta e trabalhadora que nada tem a ver com a sujeira), todo mundo fica com vergonha da bandalheira no DF. Trata-se de um problema que aflige a capital desde sua inauguração, em 21 de abril de 1960, e que ainda aguarda uma solução no ano do cinquentenário. A corrupção é o pior defeito de Brasília.

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