50 anos — A Cidade Livre

Como parte das obras de infra-estrutura necessárias à construção de Brasília, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) abriu, no fim de 1956, as principais avenidas do Núcleo Bandeirante, mais tarde conhecido como Cidade Livre.

Distante pouco mais de 10km do Plano Piloto, o loteamento era destinado a uso exclusivamente comercial e por isso não eram fornecidos alvarás para residências. Sua existência estaria limitada ao período da construção de Brasília (1956-1960).

Os lotes foram cedidos em sistema de comodato. A escritura não era definitiva e deveriam ser devolvidos à Novacap no final de 1959. Para incentivar a vinda de comerciantes para a região a localidade também estava livre do pagamento de impostos. Daí a origem do nome Cidade Livre.

De acordo com o Censo do IBGE, já em julho de 1957 o Núcleo Bandeirante contava com 2.212 habitantes, dos quais, 1.328 eram homens e 874 mulheres. As 342 edificações eram em madeira recobertas com chapas de alumínio, zinco e até mesmo com palha.

Elas abrigavam armazéns de secos e molhados, casas de tecidos, restaurantes, barbearias, tinturarias, marcenarias, açougues, farmácias, escolas (duas), cinema, bares, pensões e hotéis. Estes últimos, mesmo em madeira, ofereciam o conforto de colchões de molas. Também foram implantados locais para os cultos religiosos como uma igreja batista, um local para cultos kardecistas e uma igreja católica.

As ruas de chão batido evidenciavam o caráter provisório da cidade. No período das chuvas os moradores conviviam com a lama e no período da seca com a poeira vermelha do solo do cerrado. Era muito comum na época, avistar animais como emas, tatus e lobos-guará, espécies dessa região de Goiás.

Pau-de-arara

Durante a construção, a vinda para Brasília era garantida por meio de vôos semanais feitos pelas empresas Real Aerovias e Cruzeiro do Sul. Já o transporte rodoviário, pela empresa Araguarina, que oferecia linhas diárias entre Goiânia e Anápolis, a 120 km do DF. O trajeto Anápolis-Brasília era feito em 12 horas, em estrada de terra, pois ainda estava sendo aberta a rodovia que ligaria as duas cidades.

Para o transporte ferroviário foi construída a estação Bernardo Sayão, inaugurada em 1959 e que continuou em uso depois da inauguração de Brasília. Além dos meios de transporte tradicionais, era bastante comum, também, a vinda das pessoas em caminhões pau-de-arara e até mesmo a pé. Essas jornadas levavam de 30 a 40 dias, conforme relatos de operários.

Os imigrantes desembarcavam na Cidade Livre, onde eram recrutados para serem fichados nas diversas empresas construtoras e também na Novacap. A cidade também era o ponto de lazer, comércio e atendimento médico para os moradores e era lá que nos finais de semana e nas horas livres os operários gastavam o pagamento recebido pelas árduas horas trabalhadas.

A propaganda intensa sobre a construção da cidade que divulgava o papel da obra para o desenvolvimento do país e as vantagens financeiras oferecidas fizeram com que o fluxo de pessoas, que para cá se deslocavam, fosse aumentando com o passar dos anos.

Invasões

Os acampamentos não tinham acomodações suficientes para abrigar os trabalhadores que chegavam, muito deles, com suas famílias. Começaram a surgir, então, as vilas não oficiais, as chamadas invasões, ao redor dos acampamentos das construtoras.

Na Cidade Livre não foi diferente. Em 1960, antes da inauguração de Brasília, a cidade já contava com 12 mil moradores, abrigadas irregularmente nas próprias casas comerciais, hotéis e também nas invasões: Morros do Urubu e do Querosene, Vilas Esperança, Tenório, IAPI, e Sarah Kubitschek.

Esta última surgiu em julho de 1958 e era formada, em sua maioria, por migrantes nordestinos que vieram para Brasília fugindo de uma das piores secas que assolou a região. Como estratégia para a sua manutenção no local, os moradores deram o nome da esposa do presidente Kubitschek à invasão.

Gama e Taguatinga

Para resolver o problema dessa e de outras invasões foram criadas as cidades satélites do Gama e Taguatinga, para onde foi transferida a maioria dos moradores. Apesar desta medida, as invasões não foram totalmente erradicadas porque a vinda de pessoas para Brasília continuou e isto gerava maior demanda por moradias.          

Com a aproximação da inauguração de Brasília, em abril de 1960, começavam os boatos de desmontagem da Cidade Livre. Teve início, então, um movimento de moradores e usuários da cidade que reivindicavam a sua fixação.

O movimento foi apoiado por Jânio Quadros em sua campanha presidencial. Após as eleições, ele posicionou-se contrariamente à fixação. O Núcleo Bandeirante sofreu, então, intenso controle sob o comando do prefeito de Brasília, Paulo de Tarso, que previa, entre outras formas de controle, a transferência dos moradores das invasões para as cidades satélites do Gama e Taguatinga, já inauguradas, e também a demolição das edificações.

O grande número de incêndios na cidade nesse período eram criminosos, segundo moradores. Muitos acreditavam se tratar de estratégia para enfraquecer o movimento de fixação. Mas os invasores resistiram e acabaram forçando a regularização da cidade que deveria ser extinta após a inauguração de Brasília.

VISITE

Museu Vivo da Memória Candanga

Entrada gratuita

Visitação: De 3ª feira a domingo, das 9h às 17h

Endereço: Via EPIA Sul, SPMS, Lote D – Núcleo Bandeirante

Leia mais sobre a construção de Brasília: O plano de Lucio Costa

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8 comentários em “50 anos — A Cidade Livre

  1. Sim esta confirmado, é uma ideia muito boa a historia dos primeiros moradores.

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  2. Gostaria de saber se alguem conheceu na Cidade livre o deposito de bebidas Tatuzinho?

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  3. Could you give me the name of the author of the book including those interesting photos ? Thanks in advance

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  4. Meus pais tinham um comércio no Nucleo Bandeirante por nome de “Penção Avenida” que foi queimada em um dos incendio na época. No dia sofri um acidente, quando passa em frente minha casa em chamas. Uma pessoa jogou uma taboa e esta atingiu meu rosto do lado direito e fui atendido no então Hospital do IAPI, estava com 10 anos. Sei que no outro dia saiu um reportagem no Correio Brasiliense sobre o assunto. Gostaria de saber se é possivel conseguir uma cópia da mateira. Meu nome Antonio Carlos Agum, tenho 63 anos hoje. Meu pai Antonio Agum já falecido, minha mãe Elyr Ramalho Agum. Meu e-mail ac.agum@gmail.com. Ficarei muito grato.
    Antonio Carlos Agum

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  5. Olá! Conforme a pergunta, a primeira residência oficial do Presidente JK foi o Catetinho. Construído em apenas dez dias, em novembro de 1956.

    Espero ter ajudado.
    Favor pesquisar mais em outras fontes.

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  6. Até que para um mineiro criado em berço de ouro, você anda se metendo a contar a história dos outros de forma bem interessante, hein?

    Muito bom o texto!!!

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  7. qual é a primeira residencia oficial do presidente? quero a resposta para um trabalho.. obrigada e uma boa tarde..

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