Rota dos jardins e vinhedos africanos

Esqueça os safáris, as savanas e as aldeias. O extremo sul da África do Sul é diferente de qualquer outra região do continente. Nem por isso menos interessante, menos excêntrico, menos fascinante. A região que tem a Cidade do Cabo como maior referência é a de maior mistura. Fruto dos séculos de colonização européia e da grande quantidade de asiáticos, que construíram suas casas entre montanhas ou às margens dos oceanos Índico e Atlântico.

O pedaço mais europeu e mais desigual da África se tornou um concorrido destino turístico pelos charmosos vinhedos, pelas mansões à beira-mar e pelo litoral recortado. Mas, além da riqueza conquistada às custas do suor e sangue negro, a região também preserva muito da África selvagem. As cidades têm rico artesanato local, restaurantes com comidas típicas, música nativa. E, no lugar dos leões e outros grandes animais terrestres, baleias, pinguins, focas e tubarões brancos.

Com tantas atrações, torna-se impossível conhecer tudo com apenas uma semana. Somente a Cidade do Cabo, merece ao menos cinco dias. Afinal, além de suas 110 praias, lá há ótimos museus, excelentes restaurantes e pontos como a Table Mountain, o Cape Point e a Robben Island. E é da Cidade do Cabo que se vai para todos os outros destinos de Western Cape, a província (estado) do qual ela é a capital.

Franschhoek: estrada entre montanhas, lagos, flores e babuínos

Para chegar aos pontos mais interessantes, o melhor é alugar um carro. Apesar da mão inglesa, é muito fácil dirigir na África do Sul. As estradas são bem conservadas, sinalizadas, seguras. E também têm uma paisagem deslumbrante, com várias paradas para descanso e fotografias.

Qualquer localidade, por menor que seja, tem um centro de informação ao turista, com folhetos, dicas de visitas e hospedagem. Tudo muito barato. Pousadas e hotéis padrão quatro estrelas cobram, em média, 600 randes pelo quarto duplo. Algo como R$ 150. Com outros 120 randes (R$ 30) come-se muito bem em qualquer lugar.

Se estiver interessado, traçamos um roteiro básico para a viagem por terra:

Fazenda em Stellenbosch: principal cidade dos vinhedos

Café em Stellenbosch

Stellenbosch

Deixando a Cidade do Cabo no sentido leste, pela estrada N1 e depois pela R304, após 70 quilômetros e menos de uma hora, você já está na Região dos Vinhedos.

Se quer conhecer boa parte das fazendas e degustar seus ótimos vinhos, reserve dois dias, dormindo uma noite em uma das propriedades ou numa pousada ou hotel de uma das cidades.

A maior zona produtora de vinhos do continente africano tem mais de 100 fazendas dedicadas à produção da bebida, 66 cooperativas e e mais de 100 adegas particulares.

Há muitas rotas passando pelas propriedades rurais. Todas muita bem sinalizadas. A mais tradicional e charmosa circunda a bela cidade histórica de Stellenbosch.

Repleta de mansões vitorianas, Stellebonsch tornou-se o centro da cultura africânder no país — os brancos descendentes de holandeses que chegaram à África do Sul no começo do século 17 e logo tomaram as terras dos nativos negros. A cidade por si só vale uma visita.

Calçada da Herte Street

Além dos casarões, tem uma universidade de referência e prédios históricos, como o paiol de pólvora da VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) , de 1777, e a Rhenish Church, igreja erguida em 1823 como escola para filhos de escravos.

Tudo dá para ser explorado a pé. Mapas são distribuídos no centro de informação turística, na Market Street.

Fazendas centenárias ficam nos pequenos vilarejos da vizinhança e recebem o visitante para degustação. O mais procurado é o complexo Spier, onde fica um restaurante Moyo, acessível pela N2 e pela R310. É possível, inclusive, hospedar-se no hotel do Spier. Mas caro, para o padrão sul-africano.

Paiol de pólvora da Companhia Holandesa das Índias Orientais
Franschhoek

De Stellenbosch, pegue a estrada N45 a caminho de Franschhoek. Antes, pare em Boschendal, propriedade de 1865 que, em 1715 foi entregue por holandeses a uma das famílias francesas que chegaram à região fugidas do país de origem. A partir de 1796, a Boschendal começou sua história de sucesso na produção de vinhos.

A mansão da fazenda, a Manor House, hoje é um museu, que guarda o luxo do período colonial, com móveis e até frisos originais. Além do casarão, onde a visita custa 15 randes (cerca de R$ 4), a propriedade tem loja com seus vinhos, café com lanche e almoço, além de degustação.

Divisórias da Manor House de Boschendal, em Stellenbosch

Após a visita  a Boschendal, volte a R45 e depois pegue a R47 até Franschhoek. A cidade de 8 mil habitantes tem forte personalidade francesa. Além da fachada das casas, ela está evidente em nomes como La Provence, Haute Cabrière e L’Ormarins, expostos na entrada de restaurantes, cafés e fazendas.

Aliás, os mais de 30 restaurantes da cidadezinha construída ao pé da montanha oferecem ótimos pratos sul-africanos, malaios e provençais. Entorno do município, mais de 30 adegas estão abertas visitação. Algumas com restaurantes e cafés. Se tiver tempo, passe uma noite nesse local. Acordar sob a montanha, em meio a um vinhedo e tomar um café na fazenda ou na cidade, valem cada centavo.

Franschhoek: rua dos restaurantes com montanhas ao fundo

Vitral do Bart. Dias Museum

Mossel Bay

De manhã, siga pela N2, até Mossel Bay. São 400km por entre fazendas de carneiro e campos de trigo. Outra cidade que vale uma hospedagem, Mossel Bay marca o início da Garden Route, ou Rota do Jardim. Para muitos, a mais bela estrada do país.

Mossel Bay tem 24 km de praia (com natação segura em áreas designadas), áreas de observação de baleias, mergulho em jaula com tubarões, reservas particulares de mini-safári sem perigo de malária e campos de golfe profissionais.

Mas a maior atração de Mossel Bay é o Bartolomeu Dias Museum Complex. Ele guarda, entre outras coisas, uma réplica perfeita da nau do século 16 usada pelo navegador português na viagem épica em que ele e sua tripulação desembarcaram em diversos pontos da costa oeste africana erguendo padrões (cruzes de pedra). O maior feito deles foi o contorno do Cabo das Tormentas, hoje Cabo da Boa Esperança, abrindo o caminho marítimo para o comércio de especiarias com as Índias.
Mossel Bay: répilica de caravela usada por Bartolomeu Dias
George e Knysna

Após Mossel Bay, vem Wilderness. A estrada passa entre lagos de água doce ou salgada e montanhas cobertas de verde. Dois parques podem ser visitados: no Wilderness National Park, a atração são as aves e os peixes; no Goukamma Nature Reserve, também nos arredores da cidade, prepare-se para ver antílopes. Mas não pare para dormir nessa cidade. Siga na direção de Knysna, parando em George.

O caminho de 50km entre Wilderness e Knysna tem paisagens inesquecíveis, como a ponte do Rio Kaaimans, por onde passa o trem Choo-Tjoe Choo-Tjoe. Deixe o carro por alguma horas para curtir uma aventura de outros tempos: o passeio de maria-fumaça entre George e Knysna.

Garden Route: Ponte ferroviária sobre o Rio Kaaimans

O trem sai de George às 9h30 (seg-sáb), chega a Kysna às 12h, de onde sai às 14h15 e chega a George às 17h. No caminho, a máquina sopra seu vapor em meio a pinheirais, agarra-se à beirada de rochedos e curvas fechadas, atravessa pontes que passam por lagos e florestas até, finalmente, chegar à ponte de 2km que cruza Knysna Lagoon.

Rochedos na Knysna Lagoon
Deixando o trem, volte ao carro e à N2 em direção à Knysna, onde vale ao menos um dia inteiro e uma noite. O município de 80 mil habitantes, criou fama com cenários deslumbrantes, montanhas, lagos e o Oceano Índico. Knysna é um balneário dos ricos sul-africanos. Paredões de pedras abrigam mansões e diversas modalidades de acomodação para turistas.

A cidade protegida por lago de 17 km de extensão e fechada por montanhas em forma de mesa, é ainda um centro de pesca e turismo de natureza com fama de oferecer algumas das ostras mais saborosas do mundo.

Distante 20km do centro da cidade, o Parque de Elefantes de Knysna tem 12 gigantes muito bem tratados. Na reserva, onde é possível até passear sobre os animais, o quarto mais barato sai por 639 rands (R$ 163). O preço é salgado se comparado às tarifas das pousadas locais.

Garden Route: Knysna Elephant Park

Port Elizabeth

De Knysna e Port Elizabeth  são 200km. Mas não vale a a pena ir direto. No caminho está Plettenberg Bay, uma das regiões mais sofisticadas do país, lar de milionários com suas casas na encosta. Ao longo de 12km de praias é possível ver, na primavera, o show gratuito das baleias. Nem é preciso pegar um barco, pois elas chegam perto da costa.

A outra parada imperdível do caminho é o Tsitsikamma National Park, cheio de vistas panorâmicas. Para quem pode esticar (e bem) a viagem, há duas famosas trilhas para caminhadas dentro do parque: uma delas, a Otter Trail, ao longo da costa, leva cinco dias para ser percorrida e promove o encontro com golfinhos, baleias, focas e lontras.

Antes do parque, para os mais aventureiros ainda tem o maior bungee jump do mundo.

Sexto destino

Port Elizabeth, destino final, é cheia de construções históricas e restaurantes aconchegantes — além de belas praias, que você poderá curtir no dia seguinte.

Port Elizabeth é decorada com iates de luxo, arquitetura charmosa do centro histórico, praias e um movimentado parque aquático, o Bayworld, com shows de golfinhos e exposição de animais como aves marinhas.

E ainda tem o lado mais selvagem da África. Uma das reservas vizinhas a Port Elizabeth é o Addo Elephant National Park (50km a nordeste). Outra, a Shamwari Game Reserve (72 quilômetros ao norte).

Marco do Cabo das Agulhas: encontro dos oceanos Índico e Atlântico

Baleia em Hermanus

Cabo das Agulhas

A viagem de volta pode ser feita pela mesma rota da ida, ou ainda pela costa, passando pelo Cabo das Agulhas, ponto mais ao sul do continente e onde se encontram os oceanos Índico e Atlântico. Dependendo da época do ano, é grande a chance de você ser premiado com o show das baleias na costa — elas costumam aparecer na primavera.

Um dos melhores lugares para essa apreciação é Hermanus, cidade próxima ao Cabo das Agulhas, que conta, inclusive, com um museu sobre os cetáceos.

Depois, ainda, você pode andar no meio de pinguins, em Betty’s Bay. Tudo em uma estrada à beira de paredões, sobre o mar.
Pinguins em Betty´s Bay
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Um comentário em “Rota dos jardins e vinhedos africanos

  1. Renato

    vou para a africa do sul em nov. estava vendo sobre o trem entre george e knysna na internet e as informações são de que ele não está funcionando por causa de problemas com chuva na linha, mas estas informações parecem antigas. como vc esteve por lá recentemente o pode me dizer sobre esta história. na internet vi que o trem está funcionando somente entre george e mossel bay. aguardo sue retorno ou uma dica de como posso descobrir se isto é verdade mesmo.

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