Jornada mágica pelo Peru

Flávia Maia, do Correio Braziliense / Fotos de Renato Alves

Ir ao Peru permite aguçar todos os sentidos, da visão ao paladar — esse último, encantado pelos sabores que a nova cozinha peruana apresenta. E é também encarar uma viagem mágica na história e na razão, seja em Machu Picchu, na encantadora Lima ou na cosmopolita Cusco. Nenhuma dessas cidades pode ficar de fora do roteiro mais básico. Lima representa o novo Peru, misturando a arquitetura colonial ao urbanismo moderno. Já Cusco é onde o mundo se encontra em uma única praça: a das Armas.

Cusco (foto ao lado) também é uma das cidades que dão acesso mais fácil a Machu Picchu, santuário de ruínas que fazem o coração palpitar. Cada pedra no caminho percorrido dentro da cidade sagrada desperta perguntas. A mente não consegue parar de pensar sobre como funcionava aquele local envolto por cordilheiras e mistérios.

A Montanha Velha — na tradução do quéchua — é a cidade do imaginário. Se antes da sua redescoberta em 1911, pelo americano Hiram Bingham, ela ficou preservada entre os mitos e as histórias dos camponeses vizinhos, quase um século depois, transformou-se no sonho de viagem de vários turistas por todo o mundo.

Para quem vive no Distrito Federal, a jornada encurtou no último mês, quando foi inaugurado o voo direto entre Brasília e Lima. O mundo mágico ficou ainda mais ao alcance da mão.

Soberana e caótica

Lima tem o ar soberano de quem nunca deixou de ser uma capital. A cidade, hoje composta por 43 bairros, foi palco de importantes momentos históricos do país e das Américas. Fundada como “Cidade dos Reis” em 1535, pelo conquistador Francisco Pizarro, ela tornou-se a sede do vice-reinado espanhol, que correspondia aos atuais territórios de Peru, Equador, Bolívia e Chile.

A elegância de Lima se traduz principalmente no centro histórico com a Plaza Mayor (antiga Plaza de Armas) e a Plaza de San Martín. Nessas praças, a arquitetura europeia é evidente e permanece bem preservada.

Na Plaza Mayor, é possível conhecer o Palácio do Governo e a bela catedral (foto ao lado). Já a Plaza de San Martín — com o busto de um dos líderes da independência do Peru no centro da praça — é onde melhor se presencia o dia a dia da cidade, com músicos tocando, turistas lendo seus guias, cachorros brigando, pessoas dormindo no banco da praça e o caótico trânsito limenho.

Muitas das construções coloniais presentes nessas duas praças já foram refeitas por causa dos constantes terremotos que assolaram o país. O mais assustador foi o de 1746, quando apenas 25% das construções limenhas ficaram de pé. Após o desastre, a técnica do tijolo cozido utilizada pelos espanhóis caiu em desuso e os conquistadores passaram a fazer muitas construções de pau-a-pique, como os indígenas.

Nos tempos de capital da colônia, todos os acontecimentos na história da Europa repercutiam em Lima. Por exemplo, no fim do século 18, o urbanismo da cidade imitava o de Paris, com ruas largas. Na arquitetura, os traços franceses também sobressaíam. Nas relações sociais, surgem as organizações tipicamente masculinas, como os grupos de maçons.

Começa nesta época também o movimento pela independência do vice-reinado espanhol. O argentino San Martín é o responsável pela libertação do Peru, em 28 de julho de 1821. Para conseguir negociar a independência, San Martín usa as antigas muralhas limenhas — construídas para proteger a cidade contra os piratas, demolidas em 1880 — e bloqueia a entrada de alimentos e suprimentos aos crioulos (filhos de espanhóis nascidos nas Américas). Dessa forma, ele consegue a assinatura deles favorável à libertação de boa parte do continente americano colonizado pelos espanhóis.

Por isso, ir ao Peru em julho e agosto é ver um país tomado pelas cores branca e vermelha, já que todas as residências e os comércios hasteiam a bandeira nacional em comemoração à independência. O gesto não é baseado somente em patriotismo — está na lei e precisa ser cumprido —, mas deixa as cidades mais bonitas aos olhos dos visitantes.


Livros, artes e catacumbas

A leste da Plaza Mayor, fica a Igreja de San Francisco (foto acima), uma construção seiscentista que resistiu à passagem do tempo e às devastações dos constantes tremores de terra. Dentro da Igreja há ainda uma biblioteca magnífica, azulejos pintados à mão do século 17 e pinturas feitas por Rubens, Jordaens e Van Dick, entre outros artistas. Também é possível encontrar obras dos alunos do italiano Mateo Perez de Alessio. Por causa da fragilidade das pinturas, é proibido fotografar o interior da igreja.

Porém, o mais fascinante que a igreja guarda é o Museu de Catacumbas. Estima-se que 25 mil corpos tenham sido enterrados entre 1672 e 1821, período que o cemitério ficou ativo. Trata-se de uma verdadeira viagem nos registros históricos. Os crânios e os fêmures são as provas palpáveis de que pessoas viveram ali, deixaram suas marcas e construíram a história do Peru.

O interessante é que os vestígios dos clérigos e dos nobres estão identificados, mas os dos indígenas, dos negros e dos mestiços pobres foram jogados em uma vala comum. Por isso, não há um registro preciso do número de corpos. A organização das catacumbas reflete a própria estrutura da sociedade limenha colonial: uma cidade dividida entre os guetos indígenas e negros e os redutos das classes abastadas.

Un descuentazo, por favor

Durante as quatro horas e meia de voo que separam Brasília de Lima, o espetáculo de paisagens enche as janelinhas do avião. E ninguém consegue despregar os olhos das montanhas com os picos congelados e, principalmente, do reflexo do sol nas águas azuladas do Titicaca. Trata-se de uma espécie de amostra grátis das belezas andinas, o que aumenta a ansiedade de qualquer passageiro até a chegada ao país.

O Aeroporto Jorge Chávez, onde pousa o avião vindo da capital federal brasileira, fica no distrito de Callao, zona portuária e industrial próxima de Lima. Por causa do poder econômico, Callao é independente de Lima, mas a distância entre as cidades não é tão grande, cerca de 14km. Aconselha-se pegar um táxi. Não se assuste: os táxis, apesar de velhos, rodam direitinho. E são baratos. Os taxistas peruanos não trabalham com taxímetro: você diz aonde quer ir e ele define o preço. A palavra descuentazo (“descontão”) ajuda na garantia de um preço ainda mais baixo.

Lima tem cerca de 6 milhões de habitantes. Com a estabilidade da moeda (o nuevo sol), o país vem crescendo bastante (cerca de 7% ao ano) e a capital mistura a história colonial com a arquitetura moderna dos prédios dos conglomerados internacionais que têm chegado. Nela, o centro histórico está bem preservado e separado da nova zona da cidade.


Declive

Na parte nova, vale a pena conhecer os bairros de Miraflores (foto acima) e Barranco. No passado, abrigavam fazendas de religiosos e áreas de veraneio das famílias aristocráticas limenhas. Com as guerras mundiais, europeus — em especial os espanhóis e os italianos — foram para Lima e montaram residência nessas áreas.

O interessante é que nesses dois bairros se encontra algo raro em Lima: telhado em declive. Como não chove na capital peruana por causa de uma massa de ar frio da Antártica que impede a formação de precipitações, e Lima já sofreu com terremotos, as construções tendem a ter a cobertura reta. Para Miraflores e Barranco, no entanto, os europeus trouxeram consigo sua arquitetura e ela fica ainda mais em destaque por causa do tipo de telhado.

Na Rua San Martín, no Barranco, vale a pena passear pela Ponte dos Suspiros, que tem esse nome por causa dos namorados e chegou a inspirar a cantora e folclorista peruana Chabuca Granda(1) (1920-1983). Mas a grande graça do Barranco está nos cafés, nas casas noturnas e nos bares concentrados em torno da Plaza Municipal.

Luxo em Miraflores

Miraflores é um dos bairros mais chiques de Lima. Ele se tornou turístico a partir de 1985, quando o centro da capital ficou perigoso por conta dos atentados terroristas promovidos por grupos como o Sendero Luminoso. Na época, as facções estragaram vários prédios públicos e ameaçavam os viajantes. Hoje, o grupo está enfraquecido e quase sem nenhuma ação.

No meio de Miraflores, há o sítio arqueológico de Huaca Pucllana, templo dos adoradores do mar. O museu funciona desde 1981 e está localizado onde era o centro cerimonial das antigas populações de Lima do século V depois de Cristo, entre os anos de 200 d.C. e 700 d.C.. O sítio conta também com um excelente restaurante de luxo. O lucro do estabelecimento e as vendas de ingressos permitem a realização de várias pesquisas no sítio.

Onde comprar

Para comprar suvenires, a dica é ir à Avenida Petit Tnouars, onde existem várias lojinhas e o Mercado Inca de artesanato.

Aonde ir

Huaca Pucllana (Calle General Borgoño, Cdra. 8 s/nº, Miraflores / pucllana.perucultural.org.pe ). De terça a domingo, das 9h às 16h. Os ingressos para as visitas guiadas custam 7 soles (adultos), 3 soles (universitários e professores) e 1 sol (estudantes, crianças e aposentados). Preços sujeitos a alterações.

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