A Brasília que (quase) ninguém vê

Leilane Menezes

Segredos descansam no fundo do Lago Paranoá. Escondem-se como tesouros, separados do olhar por 400 milhões de metros cúbicos de água. Foram necessários mais de 100 mergulhos, em dois anos, para desvendá-los. A inquietação do fotógrafo Beto Barata em apresentar uma face da cidade pouco conhecida fez com que ele se jogasse, literalmente, no projeto Brasília Submersa para fotografar e mostrar ao mundo o que repousa sob as águas brasilienses.

O resultado da pesquisa foi apresentado para convidados na última quarta-feira (13/10), no Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios, quando Barata lançou livro e exposição homônimos ao projeto. Nesta quinta-feira (14/10), a mostra será aberta ao público em geral. A Brasília que não pode ser vista da superfície é retratada nas 120 páginas da publicação impressa em formato 21x28cm.

As 51 fotografias escolhidas também estão expostas para oferecer uma experiência multissensorial. Aquários, luzes, vídeos e sons completam a viagem ao fundo do lago.

Nas expedições subaquáticas, Barata encontrou relíquias. Peças que lembram, por exemplo, a existência da Vila Amaury, um assentamento provisório dos operários que trabalhavam nas obras de Brasília. Ali viveram mais de 16 mil pessoas. A Vila foi inundada aos poucos, até que o nível de água atingisse a cota mil (os mil metros de altitude do lago).

O lugar foi, obviamente, desocupado antes do preenchimento. Mas ficaram ali roupas, óculos, panelas, sapatos e muitos outros objetos que remetem à vida antes do lago. Há até paredes e pedaços do piso das residências. As fotos foram captadas ora de cima do lago, ora debaixo d´água. Barata quis também chamar a atenção para a arquitetura, as atividades esportivas e questões ambientais.

Começo

Quando iniciou o projeto, Barata estava entediado. “Eu tava de saco cheio da cobertura diária de política, apesar de estar realizado profissionalmente. Comecei um curso de mergulho nas férias. No meu primeiro mergulho dei de cara com a boneca vodu, feita pelos instrutores para assustar iniciantes. Isso despertou meu interesse. Vi muita coisa interessante lá embaixo. Surgiu a ideia de fotografar na água”, relatou Barata. “Além disso, nasci em Brasília, cresci ouvindo histórias sobre o lago”, completou.

A aventura não foi nada fácil. O fundo do lago é verde escuro e turvo. Além disso, ao fim do projeto, Barata teve uma surpresa desagradável. Foi sequestrado enquanto trabalhava às margens do Paranoá. “Um cara que pescava levou todo meu equipamento. Apontou um arma para a minha cabeça, me prendeu no porta-mala e ameaçou me matar”, lamentou.

Apesar das dificuldades, o resultado superou todas as expectativas. Beto então preparou o livro. A distribuição dos capítulos é organizada por temas: Raia Norte, Raia Sul, Barragem e Vila Amaury. “Na Norte, fotografei muito pôr-do-sol, barcos a vela, vegetação e ilhas de pedra. Na Sul, temos a ponte JK, muito lixo debaixo dela, deixado por quem a construiu, assoreamento e pescaria. A Barragem é surpreendente. Lá ficaram todas as ruínas da época de sua construção, tem até postes. Vimos uma Kombi”, explicou.

A apresentação do livro teve contribuição do poeta e jornalista Luís Turiba. Os textos levam também a assinatura da jornalista Clara Arreguy. O projeto gráfico é de João Campello. Pioneiros da cidade também contribuíram na construção de uma narrativa fiel da história de um dos maiores espaços de lazer da capital. O livro estará disponível ao público em bibliotecas e escolas de Brasília.

Cenário

A exposição Brasília submersa vai mudar a cara do Museu Nacional nos próximos dias. Pretende transportar a atmosfera do lago para a Esplanada dos Ministérios. No térreo, o visitante verá 26 fotografias, inclusive com painéis em tamanho ampliado. Essa etapa traz fotos tiradas da superfície do lago e imagens que Barata chama de “meia água”, tiradas com a câmera apenas metade submersa.

Ao partir para o subsolo, o público encontrará um manequim vestido de mergulhador e um minimuseu. O acervo pertence ao mergulhador José Ricardo Silva dos Santos. É composto por peças retiradas do Lago Paranoá no local ficava a Vila Amaury. Em uma das paredes desse espaço, será projetado vídeo de André Corrêa, com imagens do projeto Brasília Submersa, trechos de entrevistas com os pioneiros e o making of de todo o trabalho de captação das imagens.

O restante das fotos fica escondida atrás de um painel fechado com tecido preto, com direito a som que imita a respiração de um mergulhador. O escuro vai ganhar iluminação de luzes vindas de aquários finos. O objetivo é proporcionar a sensação de estar no fundo das águas tranquilas do Paranoá. Os 12 aquários também guardam fotografias. Cada um terá duas. Neles estarão imagens captadas debaixo da água. Ali está o retrato das curiosidades e mitos cultivados em 51 anos de história do lago.

O fotógrafo mostrou também como esse espaço participa da vida de Brasília. Ao contrário do que muita gente imagina, o Lago Paranoá pode ser um local de mocrático. “É interessante ver os pescadores, as pessoas que moram no Paranoá e curtem o lago”.

Leilane Menezes é repórter do Correio Braziliense.

 

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4 comentários em “A Brasília que (quase) ninguém vê

  1. Sou suspeito para falar, o leitor que faça seu julgamento. A moça realmente tem talento!

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