Copenhague com as crianças

Carol Nogueira, do Le Croissant

Nosso fim de semana em Copenhague começou na verdade muitos meses atrás, num café de Praga — graças a um casal de dinamarqueses que se encantou com o João e o Pedro.Os velhinhos pareciam intrigados sobre o que fazíamos na República Checa com crianças de quatro anos. Citando milhares de parques de atrações, passeios de canais e ruas ensolaradas, em poucos minutos eles me convenceram de que não haveria no mundo cidade mais acolhedora para os pequenos do que Copenhaguen.

No final de novembro, uma promoção da Easyjet me pareceu o passaporte para a meca do turismo infantil na Europa — mas foi bem aí que a nossa promissora viagem familiar começou a se tornar um exemplo clássico de viagem lado B.

De olho nos melhores preços e desconsiderando solenemente a localização setentrional da Dinamarca, me vi embarcando para Copenhague em pleno janeiro, quando os dias por lá duram oito horas, as temperaturas raramente ficam positivas e — pior — o Tivoli Park e a Legoland estão fechados para visitação.

Uma semana antes do embarque, ainda havia espaço para a coisa piorar. Eu simplesmente não conseguia encontrar um hotel adequado.Todos os endereços bacanas sugeridos pelo Lonely Planet me pareciam divididos em duas categorias: os bons hotéis a partir de 200 euros e os B&B por 20 euros a noitada em uma beliche num quarto compartilhado. Eu começava a considerar seriamente a segunda hipótese quando o moço do albergue bacanérrimo tirou meu cavalinho da chuva dizendo que em nenhum caso eles aceitariam crianças.

Foi quando eu coloquei em ação a arma secreta do mochileiro com crianças das galáxias — fazer amigos para obter informações privilegiadas.

O moço do albergue bacanérrimo foi simpático e me descolou duas excelentes opções de hotéis muito bem localizados, baratos e children-friendly (e que não constavam dos guias que eu estava consultando): o Danshostel e o Cab-inn. Menos bacana mas mais barato e numa região mais legal, escolhemos o Cab-inn – e, lá chegando, encontramos um hotel que faz jus ao nome. O quarto é de fato uma cabine, com um banheiro tão apertado que faria qualquer Formula 1 se sentir um hotel de luxo.

A essa altura, eu já tinha a certeza de que estava numa viagem lado B — e fizemos então o que tem de ser feito quando isso acontece: esquecemos completamente o plano original (parques temáticos, ruas ensolaradas etc) e nos jogamos na experiência selvagem de aproveitar o máximo possível de qualquer coisa.Como, por exemplo, da tetraliche que equipava nossa cabine de hotel. Que, óbvio, virou um caminhão de bombeiro equipado de tenda de dormir logo na primeira noite.

A visita ao kunstindustrimuseet ficou mantida — foi a única programação original a permanecer. Museus de objetos são sempre uma boa pedida para crianças — é fácil distraí-los com algo parecido com o que eles já conhecem. E o Pedro se entreteve completamente fazendo a cobertura fotográfica de suas peças preferidas.


Na falta do parque do Lego, visitamos a lojinha da marca que fica na Vimmelskaftet, 37 — em uma das ruas mais movimentadas do centro. Lá por perto, quase enlouqueci numa Urban Outfitters, que não existe em Paris.

Foi por lá também que encontrei o restaurante que me obrigou a dar razão ao casal de velhinhos lá do primeiro parágrafo.

Esqueçam o Mac Donald’s: Jensen’s Bofhus é a rede de restaurante mais children-friendly que eu já fui na vida. Pense em um restaurante de carnes (e batatas-fritas sorriso) com um livrinho de atividades viciante (e olha que ele está escrito em dinamarquês), lapiseira de lápis de cor (grátis) e sorvete com refil.

O jantar de 500 coroas (quase 70 euros) valeu cada centavo — principalmente porque, de sobremesa, eu ganhei a dica que salvou nossa viagem lado B.Depois de forçar a amizade com a garçonete, descobrimos o Experimentarium — um parque temático baseado nos cinco sentidos que ensina ciências para as crianças com brincadeiras super legais.

Logo na entrada, eles ensinam a gente a construir um treco com dois gravetos e um barbante capaz de fazer bolhas de sabão gigantes. E isso é só para dar uma ideia das sacadas simples e geniais que eles nos ajudam a ter para compartilhar com as crianças.Foi um final de semana gelado. Não rolou Zoo, não rolou Lego, não rolou Tivoli. Mas e daí?

Carol Nogueira é jornalista, brasileira, brasiliense, mãe do Pedro e do João e passa uma  longa temporada em Paris, onde mantém o blog Le Croissant.

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