Todos os segredos de Istambul

Diego Amorim

Para todos os lados que você olhe em Istambul, a chance de ser surpreendido é grande. Ao arrumar as malas rumo à maior cidade da Turquia, prepare-se para pisar em um lugar repleto de contrastes. Visitar a antiga Constantinopla — agora ocidentalizada — significa passear por mundos distintos, muitas vezes contraditórios.

Não há como fugir da constatação de que Istambul abriga harmoniosamente Oriente e Ocidente. Ali, onde Ásia e Europa se encontram, o visitante esbarra em muralhas e prédios modernos, mercados seculares e shoppings luxuosos recém-inaugurados, ruelas de paralelepípedos e avenidas tomadas por carros do ano.

O mundo descobriu a riqueza histórica do turismo turco. Perto geograficamente dos países árabes, no limiar do Oriente Médio, mas distante de conflitos armados, a república tem atraído gente de todos os continentes. No ano passado, cerca de 50 mil brasileiros estiveram por lá, 1% do total de turistas.

Este ano, a expectativa é que pelo menos o dobro inclua Istambul no roteiro de férias. A alta temporada, quando o frio começa a dar uma trégua, começa este mês e segue até julho. Setembro e outubro também são meses em que o número de visitantes aumenta, ao lado dos preços nos hotéis e até dos souvenirs.

A estada em Istambul precisa incluir os passeios pelos monumentos erguidos na época dos impérios romano, bizantino e otomano. Todos estão bem preservados e valem por uma aula de história. A parada no Grande Bazar e no Bazar de Especiarias dá ao visitante a chance de viver um costume local: a pechincha. E, do Estreito de Bósforo, é possível ter uma visão ampla de uma das cidades mais populosas do mundo — são mais de 12 milhões de habitantes —, com cerca de 3 mil mesquitas e inúmeras gaivotas no céu.

Mistura religiosa

O sol se põe em Istambul em um sábado chuvoso e com temperatura média de 7ºC. Do alto dos minaretes das mesquitas, os alto-falantes fazem o convite para a quarta das cinco orações diárias muçulmanas. Dentro de uma loja de moda feminina na badalada Rua Taksim, importante centro comercial da cidade, uma jovem de pouco mais de 20 anos escolhe uma blusa tomara que caia ao som de música eletrônica turca. Acompanhada do namorado, vestida da cabeça aos pés, ela deixa à mostra somente os olhos e as mãos, tatuadas com desenhos florais.

Cerca de 95% da população de Istambul se declara muçulmana. Mas, assim como no Brasil existem católicos e evangélicos nada praticantes, a maior cidade da Turquia revela adeptos do islamismo que não seguem à risca as regras da religião. Ao mesmo tempo em que o visitante depara com cenas inusitadas para a realidade ocidental — como fiéis ajoelhados em pequenos tapetes, de pés descalços, rezando virados para Meca em pleno aeroporto —, encontram-se seguidoras de Alá sem véus e muçulmanos que bebem álcool, fumam e não frequentam mesquitas.

Para visitar Istambul, é necessário estar aberto ao novo, ao diferente. Ao tirar os sapatos para entrar na famosa Mesquita Azul, o turista também precisa despir-se de qualquer imagem preconcebida. Não dá para conhecer a cidade amarrado a estereótipos. A ocidentalização de Istambul, iniciada em 1923 pelo fundador da República da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, considerado o pai dos turcos, atribuiu à cidade um toque europeu, mas sem ofuscar o modo de viver asiático, tradicional.

É o resultado dessa mistura, do encontro de dois mundos tão distintos que atrai, todos os anos, cerca de 10 milhões de turistas a Istambul. No passeio de barco pelo Estreito de Bósforo — os 32km que ligam o Mar Negro ao Mar de Mármara e marcam o limite entre a Europa e a Ásia —, a diversidade característica da metrópole turca salta aos olhos. Iates de luxo e cargueiros navegam lado a lado. Nas margens, palácios onde os sultões moraram séculos atrás são vistos próximos de casas de veraneio milionárias.

Perto das mesquitas, ou seja, por toda a Istambul, há torneiras em que os muçulmanos se lavam antes das cinco orações diárias. Os fiéis limpam mãos, braços, pés, boca e nariz, partes do corpo mais expostas à sujeira.

Hagia Sofia

Na Hagia Sofia, a basílica que virou mesquita e hoje funciona como museu, o cristianismo e o islamismo se encontram. O local foi construído por volta de 530 a.C. pelo imperador Justiniano, para ser a maior catedral católica ortodoxa da época. Quase 900 anos depois, quando derrotou o Império Romano e tomou a então Constantinopla, o sultão Mehmet decidiu transformar o templo em mesquita. Hoje é possível ver, nas mesmas paredes, imagens de Nossa Senhora e Jesus Cristo e escritos em árabe em referência a Alá, a Maomé e aos primeiros califas.

Os principais monumentos de Istambul, a exemplo do Palácio Topkapi, ficam do lado europeu da cidade. O local, residência oficial dos sultões durante quatro séculos, é considerado o museu mais visitado da Turquia, com jardins estonteantes e um dos restaurantes mais tradicionais da gastronomia turca, com vista para o Bósforo. Ali, onde são guardadas relíquias como fios da barba de Maomé, será gravado o filme The Topkapi affair, com Angelina Jolie e Pierce Brosnan, cujo lançamento deve ocorrer entre 2012 e 2013.

Obeliscos

A Praça de Sultão Ahmet geralmente é o ponto de partida do city tour por Istambul. A área abrigou um hipódromo no século 4, com capacidade para 40 mil pessoas. As corridas de cavalos puxados por carroças serviam de propaganda para o imperador, que assistia a tudo do camarote do palácio, hoje a Mesquita Azul. A pista original está 2m abaixo do nível da praça. Daquela época, restaram dois obeliscos — um deles trazido do Egito — e uma coluna já danificada, no formato de duas serpentes entrelaçadas.

Próximo à praça, a cisterna da Hagia Sofia é parada obrigatória. O local, construído pelo imperador Justiniano para armazenar a água usada na então basílica, transformou-se em ponto turístico na década de 1970. O governo construiu trilhas para os visitantes, mas é preciso ficar atento às goteiras e ao chão escorregadio em alguns pontos. O ambiente escuro abriga 336 colunas, separadas umas das outras por 4m de distância. A criançada se diverte observando os enormes peixes na água e jogando moedas — para dar sorte, segundo a tradição.

Pechnichas

Só bater perna no Grande Bazar já é um baita programa em Istambul. Mas ir ao local sem deixar por lá algumas liras turcas não tem tanta graça assim. Esqueça todos os seus traumas de pechincha e se entregue ao jogo praticado naqueles corredores milenares. Tente (é possível!) não se incomodar com a abordagem feita pelo batalhão de vendedores espalhados pelo imenso galpão. Ao contrário, divirta-se com eles.

Não há comprovação científica, mas é fato: no Grande Bazar, as mulheres têm mais chance de se dar bem na pechincha. Isso porque as cerca de 4 mil lojas são comandadas por homens. “Para tí, cinco liras y un besito”, respondeu um vendedor, em legítimo portunhol, perguntado sobre o preço de um pingente de olho turco, famoso amuleto usado contra mau olhado e quaisquer outras energias negativas. A interessada levou o produto por duas liras, sem precisar beijar ninguém.

Até pedidos de casamento são lançados pelos vendedores mais assanhados. Quem leva as cantadas na esportiva pode acabar se aproveitando da situação e pagar ainda mais barato. Para mulheres e homens, porém, a dica mais importante é uma só: não aceite a primeira oferta. A negociação faz parte das compras no Grande Bazar. O primeiro preço anunciado estará sempre acima da média, justamente para o turista fazer a contraproposta e dar início a um lenga-lenga que pode durar longos minutos.

Também evite comprar na primeira banca em que parar, ainda que decida voltar nela depois. Os preços tendem a cair quanto mais distante você estiver das entradas principais. Fique atento à “periferia” do Grande Bazar, às lojas com aparência menos chiques. Para caminhar sem pressa, reserve, no mínimo, uma manhã ou uma tarde para o passeio. Os produtos se repetem bastante nas bancas, mas o ziguezague pelos corredores vale a pena.


Ching-ling

Nos últimos anos, os produtos chineses encontraram espaço no Grande Bazar. Por isso, muita atenção aos produtos de qualidade duvidosa e às falsificações escancaradas. Prefira levar para casa produtos típicos ou artesanais. Por exemplo: azulejos, porcelanas, lustres, pasheminas (espécie de xales), tapetes e joias, todos a preços finais bem convidativos. Estima-se que 100 toneladas de ouro sejam vendidas todos os anos no Grande Bazar.

Mesmo que se tente escapar, vendedores — engravatados ou de calça jeans, adolescentes ou senhores de cabelos brancos — abordam os passantes. Alguns tocam, pegam pelo braço. Outros oferecem chá e café turcos na tentativa de seduzir o freguês e trazê-lo para dentro das pequenas lojas. Diante do assédio, há a opção de simplesmente ignorar e continuar caminhando, o que é mais fácil quando não se está sozinho. Mas vale agradecer, em inglês mesmo, a cada oferta.

Os guias propagam a informação de que os vendedores falam um pouco de qualquer língua do planeta, o que, em parte, é verdade. Diante do vaivém de tantos turistas, os turcos do mercadão construído por volta de 1460 aprenderam o básico do básico dos principais idiomas. Se perceberem que você é do Brasil, soltarão expressões aleatórias: “Brasileiro? Bom-dia, boa-tarde, desculpa, por favor, peraí, gastar dinheiro, São Paulo, Rio de Janeiro, samba, samba…”. Quando não conquistam clientes, ao menos arrancam boas risadas.

Banho de sultão

Por mais que se leia ou se ouça falar sobre o assunto, a primeira experiência em um banho turco provoca sempre uma certa ansiedade. Serviço pago, chega a hora de seguir as orientações do local. Pegue sua chave e vá até o minúsculo quarto individual, onde deixará suas roupas. Todas, inclusive as íntimas. Quem preferir pode ficar somente de cueca ou calcinha, mas geralmente os visitantes tiram tudo mesmo. Do quartinho, você sairá com um tamanco de madeira nos pés e uma toalha fina, com jeito de tapete turco, enrolada na cintura.

O próximo passo é entrar em um grande salão. Ressalte-se desde já: homens no andar de baixo e mulheres, no de cima. Ao ingressar no espaço construído em 1741, você até esquece-se, por alguns instantes, de que está se equilibrando em cima de um tamanco desconfortável: no ambiente, há muito mármore, colunas romanas e bicas com baldes para todos os lados. O vapor quente é sentido de imediato. Quem tem fobia a sauna pode não se adaptar bem ao ambiente abafado e úmido.

Por cerca de 20 minutos, é só permanecer sentado no mármore quente (se aguentar), em uma sala reservada, e deixar o suor escorrer pelo corpo. Um termômetro na parede acusa os mais de 35ºC. Quando você já estiver pingando, um turco (para os visitantes homens) ou uma turca (no caso das mulheres) o chamará para se deitar em outro mármore — mais quente ainda — na área central do grande salão. Ali, não dá mais para voltar atrás. Prepare-se para uma massagem relaxante, mas, digamos, firme, com direito até a tapas nas costas.

Os funcionários falam o básico do inglês. Perguntarão de onde você é, se está tudo OK e provavelmente não deixarão de pedir gorjeta. O banho turco propriamente dito surge no momento pós-massagem. O visitante se senta em uma pedra também de mármore, geralmente preocupado em segurar a toalha que tampa as partes íntimas, e recebe água, sabão e muitos esfregões. Limpo e massageado, resta deixar o ambiente a vapor, enxugar-se e voltar ao quartinho inicial, para se vestir e ir embora com, tendo gostado ou não da experiência, uma boa história para contar.

Dicas do cotidiano

» Todos os principais pontos turísticos de Istambul dispõem de estrutura adequada para turistas, como banheiros, lojinhas e lanchonetes. Quem não estiver acompanhado de guia pode pagar pelo sistema de tradução por meio de fones de ouvido. O aluguel do equipamento custa entre 10 e 30 liras.

» Tudo bem que Istambul é uma cidade ocidentalizada, apesar de cerca de 95% da população se declarar muçulmana, mas é de bom tom que o turista respeite as tradições locais. Não é recomendável, por exemplo, fumar em frente às mesquitas.

Aonde ir

Cagaloglu Hamami
www.cagalogluhamami.com.tr
É um dos locais de banho turco dos mais tradicionais em Istambul. Aparece até na lista do New York Times como um dos mil lugares para conhecer antes de morrer e, por isso, atrai turistas e famosos todos os anos. O banho completo sai por 88 liras, algo em torno de R$ 91.

Pacotes

Terramundi Viagens
(11) 3588-1515
Quatro noites de duração. Inclui traslados, quatro noites de hospedagem, café da manhã, cartão de assistência.
Preço: a partir de US$ 576* (aproximadamente R$ 910*) por pessoa em apartamento duplo.

Apex Travel
(11) 3722-3000
Sete dias de duração. Inclui seis noites de hospedagem , meia pensão, passeios em Ancara, Capadócia e Istambul, serviços com guia em espanhol durante todo o itinerário, passagens aéreas (trecho interno), todos os ingressos, traslados.
Preço: a partir de US$ 1.270* (aproximadamente R$ 2.006*) por pessoa em apartamento duplo.

Destino Viagens
(31) 3045-2777
Dez dias de duração. Inclui guia falando espanhol, traslados, nove noites de hospedagem, café da manhã, passeios em Istambul, Troia, Canakkale, Pérgamo, Kusadasi, Pamukkale, Konya, Capadócia e Ancara.
Preço: a partir de US$ 1.230* (aproximadamente R$ 1.943,40*) por pessoa em apartamento duplo.

ViaBR Turismo
(11) 2124-9898
Sete dias de duração. Visitas a Istambul, Ancara, Capadócia  e Kayseri, seis noites de hospedagem, café da manhã, traslados, guia local falando inglês (em Istambul), ingressos de museus, passagem aérea com saída de São Paulo.
Preço a partir de  3.416* euros (aproximadamente R$ 7.822,64*) por pessoa em apartamento duplo.

Diego Amorim é jornalista, repórter do Correio Braziliense.

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3 comentários em “Todos os segredos de Istambul

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