Livro — Quadra modelo de Brasília

Nahima Maciel, do Correio Braziliense

A curiosidade levou o fotógrafo Leonardo Wen a explorar um tempo que não viveu e uma intimidade reservada a poucos. Graças ao Prêmio Marc Ferrez da Funarte, Wen resolveu tocar um projeto há muito acalentado: penetrar nos primeiros apartamentos residenciais construídos em Brasília, cuja configuração ainda guarda a originalidade da época da inauguração.

O ensaio produzido entre julho e setembro de 2010, na SQS (Superquadra Sul) 108, rendeu as 40 imagens de APTO, além da satisfação da curiosidade de conferir como vivem hoje os habitantes das superquadras. “Sempre tive vontade de ver como as pessoas ocupam esses espaços feitos direto da proposta modernista, que são espaços planejados de forma igual para todo tipo de gente”, explica o fotógrafo.

A 108 Sul foi a primeira quadra a ficar pronta na história do Plano Piloto. Com 11 blocos, todos sobre pilotis e organização fielmente ancorada nas propostas urbanísticas de Lucio Costa, a superquadra é até hoje considerada modelo.

São, no total, 456 apartamentos, mas Wen elencou diversos critérios de seleção antes de bater na porta dos moradores. Procurou os mais antigos para depois conferir o quanto ainda havia de original no imóvel. A ideia era retratar como se deu a ocupação e humanização das estruturas ao longo do tempo sem a máscara de reformas.

Wen queria checar como se deu a apropriação dos espaços por parte dos moradores. Encontrou imagens preciosas. “É um tema difícil de tratar e não pelo acesso, isso foi fácil, mas para não cair numa de fazer foto da casa da tia”, diz. “A priori as imagens não têm nenhum conflito, não têm uma coisa que chame a atenção. Queria tentar descobrir a poética disso.”

Wen recorreu então a Luis Humberto, especialista em voltar as lentes para a intimidade doméstica com poesia e delicadeza. As conversas com o fotógrafo foram completadas com um texto no qual Luis Humberto fala em “invasão consentida” para descrever a apropriação da intimidade alheia na pesquisa de Wen.

Plantas históricas

Há poucas pessoas nas fotografias. Apesar da confessa vontade de narrar uma apropriação humana de uma arquitetura moderna e austera, o fotógrafo preferiu colocar em evidência o ambiente e os objetos que caracterizam seus donos para, com isso, insinuar uma narrativa. “Tentei trazer as pessoas nos objetos. Meu medo ao editar era que ficasse um conjunto vazio, silencioso, a intimidade foi um jeito de trazer mais calor humano.” Vez ou outra, uma figura humana entra em cena, mas nunca em primeiro plano ou como elemento principal da imagem.

Wen evitou fazer a fotografia documental e privilegiou um ponto de vista muito pessoal na construção dos quadros. “Queria humanizar por meio dos objetos.” Dois depoimentos de moradores completam o livro, editado em capa dura com projeto gráfico cuidadoso.

Uma série de 10 imagens selecionadas do banco do Arquivo Público do Distrito Federal e plantas dos apartamentos da 108 completam a edição. Recorrer ao passado funcionou como suporte para introduzir a estética do ensaio.

A questão modernista que fascina Wen não está muito presente quando a lente se depara com os interiores. A arquitetura em si fica de fora e a presença humana se impõe. Muitos planos são abertos, mas nada se vê efetivamente de amplo. Ao contrário, o olho busca os detalhes, os cantos, os quadros numa parede, os porta-retratos em uma mesa, o ímã de geladeira, a almofada sobre o sofá.

O formato pequeno do livro contribui para cativar o olhar do observador e direcioná-lo para as miudezas. É um mapa amoroso e silencioso o que APTO propõe, um registro de ocupação cujos personagens ainda se confundem com aqueles recebidos pela cidade nos tempos da inauguração.

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