A Fonte da Carioca goiana

Renato Alves

Patrimônio da Humanidade, a Cidade Goiás recebeu de volta uma das suas relíquias. Principal ponto de encontro dos moradores até meados do século passado, a Fonte da Carioca foi entregue toda restaurada e jorrando água de nascentes, como há 230 anos. Durante as obras de recuperação, arqueólogos encontraram o calçamento original do espaço e material dos séculos 18 e 19, utensílios de cozinhas coloniais.

Distante 270km de Brasília, a Cidade de Goiás, mais conhecida como Goiás Velho, foi fundada em 1727. A Fonte Carioca data de 1772. Erguida à margem do Rio Vermelho, que corta o centro histórico do município de 25 mil habitantes, ela abastecia, além dos moradores, viajantes e tropeiros que ali chegavam pela Estrada Real nos tempos em que o lugar se chamava Vila Boa de Goiás. O fornecimento de água foi, há algumas décadas, interrompido por causa dos aterros para a construção da GO-070.

Além da fonte, no local há outros dois bens culturais de grande importância para a história de Goiás, a Estrada do Nascente — uma das estradas reais que cruzavam o estado — e a Usina de Força e Luz Ratto & Guedes — primeira usina termoelétrica do estado de Goiás. “Isso faz daquela área um museu histórico e arqueológico a céu aberto”, destaca a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Goiás (Iphan-GO), Salma Saddi.

Nascida e criada em Goiás Velho, Saddi lembra que a Fonte da Carioca foi, por muito tempo, o centro de convivência da população do município, primeira capital do estado de Goiás. “Ali se encontravam as carregadeiras de água, as lavadeiras, os tropeiros, a criançada ou quem necessitasse de água, fossem livres ou escravos”, conta. Devido à sua importância, a fonte foi tombada individualmente em 1978, muito antes da cidade ganhar o título de Patrimônio da Humanidade.

Gravuras

No trabalho de restauração da Fonte da Carioca, que levaram oito meses e custaram R$ 300 mil, técnicos do Iphan recorreram a desenhos feitos pelo botânico inglês William John Burchell. Ele passou por Goiás em 1828, em viagem do Rio de Janeiro (RJ) a Belém (PA). “As gravuras contém detalhes da fonte, que eram desconhecidos por nós. Só conseguimos recuperá-los por causa do trabalho do William Burchell”, ressalta Salma Saddi.

Nas escavações arqueológicas, realizadas antes da restauração, encontraram pedaços de vasilhames de cerâmica, fragmentos de objetos de louça importada, garrafas de bebida, moedas do Brasil Império, além de vários objetos de uso pessoal como anel de cobre, contas de colar e uma significativa quantidade de cachimbos decorados. Objetos que contam detalhes sobre os usos e costumes dos antigos moradores da Cidade de Goiás, conhecidos como vilaboenses.

Na cerimônia de entrega da Fonte da Carioca restaurada, masrcada para as 10h de sexta-feira, será inaugurada também a exposição O Eco Museu Fonte da Carioca, resultado da pesquisa arqueológica. A exposição visa sensibilizar o público a perceber esse sítio histórico como um espaço de memórias, vivências e de usufruto da comunidade. Ela ficará permanentemente, próximo à fonte, em um local transformado em balneário.

Casario colonial

Fundada em 1727 pelo filho do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, Goiás Velho conserva o cenário de quando o Brasil ainda era uma colônia portuguesa. Quase todas as residências do município, hoje com 25 mil habitantes, mantêm as paredes feitas de barro. As ruas são pavimentadas com pedras, como há três séculos. A cidade ainda teve fundamental importância para os integrantes da Missão Cruls, o primeiro grupo de cientistas a explorar as terras que formariam o Distrito Federal. Em função da importância histórica e do conjunto arquitetônico, a Cidade de Goiás foi reconhecida em 2001 pela Unesco como Patrimônio Histórico e Cultural Mundial.

Além da arquitetura colonial, Goiás Velho é terra de arte e de artistas. A poeta Cora Coralina, que morreu em 1985, aos 95 anos, é sua mais célebre representante. A memória dela está preservada na casa onde nasceu e morou. O imóvel está como Cora o deixou, com seus móveis, roupas e objetos pessoais. Na cozinha, ficaram os utensílios usados por ela para fazer doces cristalizados.

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