Os tesouros das cavernas de Unaí

Renato Alves e Ronaldo de Oliveira (fotos), do Correio Braziliense

Muito antes dos integrantes da Missão Cruls, dos fazendeiros e dos candangos, homens, mulheres e crianças já exploravam o Planalto Central. Essa gente começou a chegar à região há mais de 10 mil anos. Vivia da caça de pequenos animais e da coleta de frutos, como o ainda abundante pequi. Buscava abrigo em grutas, onde também expressava sua arte e deixava seus mortos. As cavernas ocupadas por nossos ancestrais ainda são pouco conhecidas dos homens modernos. Muitas delas, com seus desenhos e até ossadas, ficam em meio a propriedades rurais de Unaí (MG), distante 160km de Brasília.

Em terras do município mineiro de 80 mil habitantes, pesquisadores identificaram ao menos 10 cavernas com formações geológicas milenares, lagos transparentes e pinturas feitas por alguns dos primeiros habitantes do centro do país. Os homens das cavernas também deixaram gravuras em paredões e pedras encravadas no cerrado. Museus pré-históricos explorados por poucos cientistas, minguados adeptos de esportes radicais e quase nenhum turista, por falta de informação e infraestrutura para a visitação. O Correio percorreu a região em busca desse tesouro esquecido.

As pinturas das cavernas de Unaí estão bem nítidas, levando-se em conta o desgaste sofrido ao longo de tanto tempo de exposição. As mais expressivas ficam na Gruta do Gentio II, a 30km do centro da cidade. Ela começou a ser ocupada há cerca de 10.250 anos, de acordo com pesquisas realizadas nas décadas de 1970 e 1980. Os arqueólogos levantaram a data a partir dos pingos de tinta no solo original. Vestígios de um ponto cerimonial, com pinturas em vermelho no teto e nas paredes, onde depositaram corpos parcialmente cremados.

Nesses estudos do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), encontraram os restos mortais de uma criança que ali viveu há 9 mil anos. Ela tinha entre 9 e 10 anos e estava envolta em uma rede de algodão. A conservação do corpo indicou que o sepultamento teve características de ritual funerário e possível embalsamamento. A criança integrava uma comunidade de coletores, que, naquela região, se alimentava de coquinhos de guariroba e pequi. Por meio de objetos e das pinturas, os pesquisadores concluíram ainda que pequenos grupos habitaram a gruta entre 7.350 e 8.250 anos atrás.

A caverna voltou a ser habitada por um grupo que ali desenvolveu pequenas hortas. Esse povo viveu na região entre 3,5 mil e 1 mil anos atrás. A Gruta do Gentio II é naturalmente bem iluminada e seca, o que permitiu a preservação de exemplares arqueológicos em bom estado apesar da sua antiguidade. Nas três últimas décadas, os pesquisadores encontraram e recolheram na caverna uma grande variedade de objetos milenares, como artefatos de pedra, de cerâmica, de osso, restos de fios de algodão e cestaria, além de alguma poucas peças de madeira. Neste sítio arqueológico também localizaram a mais antiga cerâmica em território brasileiro, fora da Amazônia, com cerca de 3,5 mil anos.

Água milagrosa

Enquanto a Gentio II era usada para funerais dos homens das cavernas, a Lapa do Sapezal, distante 25km do centro da cidade, hoje serve de cenário para manifestações religiosas. Nos dias 1º, 2 e 3 de maio, peregrinos vão à lapa, em meio a uma mata, exaltar a Santa Cruz e São José Operário. A festa mobiliza parte da população residente nas comunidades próximas e de municípios mineiros vizinhos, como Paracatu, Vazantes e Buritis. Todos acreditam haver poderes divinos na caverna.

Durante a festa, no entorno da lapa são construídas barraquinhas de comidas. A capela sedia orações, batizados, missa e dela parte uma procissão. No interior da Sapezal há um lago de origem freática onde são jogadas moedas, acompanhadas de pedidos. Muitos acreditam em um poder curativo dessas águas. Há ainda no interior da lapa uma abstrata figura de uma Nossa Senhora a se formar em escorrimentos de calcita sem que haja, contudo, referências a milagres seus ou culto a uma Nossa Senhora da Lapa.

Um lago cristalino também é uma das grandes atrações da Gruta do Tamboril. No entanto, não é fácil chegar até as águas e o acesso à caverna é controlado pelos órgãos de saúde, por causa da suspeita de um foco de histoplasmose no local, nunca comprovado nem estudado. Assim como na maioria das grutas, por causa da ausência de sinalização, iluminação e os riscos do solo acidentado, a visita ao Tamboril só deve ser feita na companhia de guias especializados e equipamento adequado.

Com cerca de 4km de extensão, a caverna tem sete salões ornamentados por estalactites e estalagmites, sendo o último coberto pelo lago totalmente limpo e transparente. Até lá, porém, gasta-se pelo menos uma hora e meia de caminhada, com descidas e subidas em pedras pontiagudas e escorregadias. Mas se não quer tanta aventura nem correr o risco de adquirir uma doença, a entrada no primeiro dos sete salões é o suficiente para uma prova das maravilhas da gruta.

Ajuda de moradores

Como Unaí não dispõe de política para exploração do turismo nem sequer placas que indiquem a localização das suas grutas e cachoeiras, os visitantes precisam da ajuda de moradores para chegar aos atrativos. Gente simples e prestativa como o vaqueiro Ademir da Silva Leite, 32 anos (foto abaixo). Desde que começou a trabalhar na Fazenda do Gentio, há 10 anos, ele serve de guia aos cientistas vindos de todo o país para estudar a caverna com o mesmo da propriedade rural, onde se cria gado nelore.

Mas Ademir começou a entender por que aquela gente vinha de tão longe para embrenhar-se na mata e passar o dia numa caverna somente há seis anos, quando teve a atenção chamada por uma professora da Universidade de São Paulo (USP). “Mostrei pra ela o meu nome escrito na caverna e ela disse para eu nunca mais fazer aquilo. Hoje, não deixo ninguém escrever lá”, conta. Apesar da consciência do vaqueiro, ainda há vândalos escrevendo sobre pinturas milenares.

Outro que faz as vezes de guardião das cavernas é o estudante de biologia Emmanuel Nicodemos, 25 anos. Ele e colegas da unidade da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) em Unaí montaram um grupo de espeleologia para explorar as grutas e divulgar a beleza e importância delas. “Além de passeios para esportes de aventura, como rappel, estamos catalogando cavernas ainda não estudadas. Mas temos algumas barreiras, como fazendeiros, que impedem o acesso às grutas”, conta.


SAIBA MAIS
http://www.limiteverticalunai.blogspot.com
Guias para visitação: Emmanuel Nicodemos, 38-9847-4017

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