As quase desconhecidas 82 cavernas de Brasília

Ana Pompeu e Carlos Moura (fotos), do Correio Braziliense

Nem só de patrimônio arquitetônico e histórico vive a capital federal. Escondidas em áreas de pouco destaque turístico, o Distrito Federal possui um conjunto de cavernas que são um tesouro natural da região. São cavidades próximas ou distantes da cidade, que guardam belos cenários pouco aproveitados pela comunidade local. Os brasilienses não sabem que têm à disposição opções entre grutas e abismos, e seguem em busca das belezas do estado vizinho, Goiás, sem perceber que, às vezes, não é preciso ir muito longe para se encontrar com a natureza.

Até hoje, 82 cavernas foram catalogadas em terras brasilienses. A maioria dessas estruturas estão localizadas no leste e no norte do DF — regiões com predominância de formação rochosa de calcário ou dolomitos. Apesar do potencial turístico que possuem, poucas pessoas têm conhecimento dessa riqueza. Quase sempre quem visita e aproveita esses locais são espeleólogos e escaladores.

O maior complexo de cavernas do DF está na Fercal. A região, rica em calcário, possui 33 cavidades. Desde 1987, foi adotada como campo-escola por quem se interessa e estuda essas estruturas. No Morro da Pedreira, localizado na divisa com Goiás, está o abismo Fodifica, o maior do DF, com 49 metros de profundidade. O local também é conhecido por Morro dos Urubus, por servir de abrigo para muitas dessas aves.

As pedras parecem ter sido esculpidas pela ação das águas e dos ventos há milhares de anos. Irregulares e pontudas, dificultam a chegada ao fundo do abismo. É preciso o acompanhamento de um profissional para a visita e de roupas e equipamentos adequados. A reportagem do Correio conheceu o local com o guia de ecoaventura Maurício Martins. Segundo ele, a única forma de se atingir o fundo é com a ajuda de uma corda. O mesmo meio também é a única opção para voltar. Com grandes lances, ele possibilita o treinamento e a aplicação de técnicas verticais de espeleorresgate.

Depois de percorrer 12 quilômetros de estrada de terra, o visitante deve passar pela sede da fazenda Flor da Terra e deixar uma contribuição de R$ 5 para seguir caminho. O Morro da Pedreira fica dentro da propriedade do Valdemar Neves da Silva, 68 anos. A fazenda foi herança deixada pelo pai. Pioneiro na Fercal, ele não sabe dizer se aquela é uma Área de Proteção Ambiental (APA). “Se é, ninguém veio me avisar”, diz. Valdemar sabe que não pode explorar a pedreira, mas reclama de não ter nenhum amparo do governo para preservar o patrimônio local.

“Não deixo derrubarem uma árvore aqui. Reclamo quando vem um escalador que sai com uma muda. Meus filhos não matam passarinho, que eu também não permito, porque sei que o que eu tenho aqui não tem preço. Mas eu preciso sobreviver. A gente poderia ter alguma mensalidade para conseguir preservar a área sem ter prejuízo”, sugere o fazendeiro.

Ele está preocupado com o futuro. Valdemar acrescenta que a barragem feita para o gado beber água já está seca. Costumava durar até setembro. Há alguns anos, ele recebeu uma proposta de venda da área para um empresário, que tinha interesse em construir ali uma fábrica de cimento. Na década de 1990, o abismo 1, então o maior do DF, próximo ao Fodifica, foi implodido para a mineração.

Além da entrada cobrada, ele está montando uma lanchonete e construindo banheiros para receber os visitantes, que são frequentes — chegam a 50 por dia no fim de semana. Tudo o que faz é por conta própria. Nem todos os proprietários de terras que incluem esses atrativos se sentem à vontade em aceitar que seus terrenos sejam transformados em destino turístico.

Visitação

O guia Maurício Martins acredita que o governo poderia intermediar o contato com os proprietários. “O relacionamento com os donos poderia ser mais fácil com a ajuda dos órgãos ambientais, mesmo que delimitassem apenas uma operadora de turismo para organizar os passeios. Não existem planos de manejo, não se sabe a capacidade de suporte de cada área, não se fiscaliza a segurança”, enumera. Ele também defende uma integração maior entre órgãos de turismo e meio ambiente para valorizar o potencial de ganho das cavernas.

Considerada uma das mais belas do DF, a Gruta do Sal está fechada tanto por proibição do dono da terra quanto, mais recentemente, dos órgãos ambientais, que identificaram a contaminação por histoplasmose — o mesmo fungo que fechou a Gruta dos Ecos, em Cocalzinho (GO), uma das cavernas mais procuradas pelos brasilienses e onde se encontra o maior lago subterrâneo da América Latina.

A Secretaria de Turismo do Distrito Federal não tem nenhum roteiro que englobe essas áreas e muito menos um acordo com os fazendeiros. As cavernas brasilienses não têm grande extensão ou muitas ornamentações — estalactites, estalagmites, cortinas —, o que geralmente chama a atenção das pessoas. Também não há registro de muitos resquícios arqueológicos. Essas riquezas estão concentradas no Entorno do DF e em cidades próximas, como Formosa (GO), Chapada dos Veadeiros (GO) e Unaí (MG). Nem mesmo elas são exploradas turisticamente ou têm estrutura para visitas.

A pouca procura tem um benefício: a degradação desses locais é baixa. De acordo com o presidente do Espeleo Grupo de Brasília (EGB), Bernardo Menegale Bianchetti, da preservação das cavernas depende a existência de ecossistemas e animais específicos. “Se acabarem, tiramos o hábitat dos morcegos e aí desestabilizamos uma população importante para revegetação”, exemplifica. Além disso, destroem um ambiente de esporte e lazer.

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