Histórias, cores e sabores da Guatemala

Jaqueline Saraiva, do Correio Braziliense

Herdeira de um dos reinos mais antigos e poderosos , o maia, mas com uma terra arrasada por grandes terremotos, em 1917 e em 1976, a Guatemala ressurge das cinzas. A recuperação dos monumentos históricos tem ocorrido a passos curtos, mas suficientes para que se perceba o potencial turístico do país. Tradições, religião, cores fortes, boa gastronomia e contato intenso com a natureza atraem aventureiros ao lugar no qual o passado, o presente e o futuro caminham lado a lado.

A exploração do mundo maia tem como ponto de partida a Ciudad de Guatemala. A 1.500m acima do nível do mar, o território é dividido em 25 zonas, com avenidas, que a atravessam de norte a sul, e ruas de leste a oeste, todas numeradas. Como qualquer grande urbe, Guate (apelido carinhosamente dado pelos moradores) é populosa, barulhenta, mas fascinante.

À primeira vista, você se espanta com dezenas de carros trafegando incessantemente pelas ruas, buzinando e competindo por espaço com motos, bicicletas e pedestres. Mas não é nada tão diferente do Brasil. Ônibus velhos, comprados dos Estados Unidos — o país não tem montadora nacional e nem multinacionais —, são os meios de transporte públicos mais usados, pelo preço baixo da passagem. Todos são personalizados com estampas chamativas, luzes coloridas e ganham nomes, se tornando um símbolo criativo do país.

A Ciudad de Guatemala é um grande local de serviços e de comércio, com centros de convenções, shoppings, restaurantes, museus, além de um amplo mercado de artesanato. No Centro Cívico, há os edifícios governamentais e institucionais, como o Banco da Guatemala e o Teatro Nacional.

A Praça Central é um lugar histórico, onde está a Catedral Metropolitana, também conhecida como Catedral de Santiago de Guatemala, edifício construído entre 1782 e 1815. Ela agrega elementos neoclássicos na fachada, mas, por dentro, existem vestígios de arquitetura barroca, com pinturas e esculturas provenientes da catedral da cidade de Antigua. As grades que protegem a igreja têm pilares com os nomes de pessoas mortas ou desaparecidas durante a violenta guerra civil que ocorreu no país entre 1960 e 1996.

Chichicastenango

Após conhecer o agito da capital, chegou a hora de adentrar o mundo maia. De carro ou de ônibus se alcança 2.000m de altitude até encontrar as terras altas (ou o altiplano guatemalteco), distante 140km (três horas de viagem) da Ciudad de Guatemala. O contato com a natureza é intenso ao passar por estradas que cortam os vales e as montanhas, além da abundante vegetação. É lá onde está Quiché, o departamento (como são chamados os estados do país) que abriga um importante grupo étnico maia homônimo.

Chichicastenango, ou Chichi, é uma das cidades mais visitadas. O povoado é conhecido por ter o mais colorido e encantador mercado de artesanato, aberto às quintas-feiras e aos domingos. Dezenas de mercadores anunciam produtos em uma explosão de gritos, com dialetos diferentes. Como precisam vender a fim de garantir o sustento da família, os masheños (habitantes de Chichi) são persuasivos. Caso não queira comprar, evite olhá-los nos olhos e responder. Dizer um simples “no, gracias” (não, obrigado) é a certeza de que se acabe levando o produto, tamanha a insistência.

A crença dos maias é da existência de um só Deus, da prática da confissão, do jejum e da penitência. Com a colonização espanhola, em 1523, o catolicismo foi imposto aos indígenas, mas não trouxe novidades. Como eram oprimidos, por seguir a tradição antiga, eles apenas assimilaram alguns aspectos, o que abriu caminho ao sincretismo religioso na Guatemala. Em Chichi essa realidade é marcante. Ao lado do mercado, a Igreja de Santo Tomás, erguida em 1540, exemplifica: por um lado, uma fachada colonial do tempo barroco-católico e, por outro, a escadaria que lembra as pirâmides maias.

Os maias desenvolveram uma das mais avançadas culturas do novo mundo. Além da Guatemala, eles habitaram as florestas tropicais de Honduras e a região Sul do México, especialmente a Península de Yucatán, entre os séculos 5 a.C. e 9 a.C. Como não formavam um império unificado — a civilização era organizada em cidades-estados isoladas e em permanente guerra umas contra as outras —, acabaram sendo dominados, primeiramente, pelos toltecas, entre os séculos 9 e 10, e depois por outros povos.

A história deles era pouco conhecida até o início do século 20. Foi depois desse período que muitas ruínas foram localizadas e alguns hieróglifos decifrados. Registros de acontecimentos, contagem de impostos, guerras e outras datas importantes eram talhadas nas pedras. A descoberta mostrou também um povo que conhecia bem a matemática, com a invenção das casas decimais e a utilização do zero. Pirâmides usadas como templos astronômicos mostram a profunda relação deles com a ciência, não deixando de lado a religião.

As ruínas de Tikal dão a dimensão dessa riqueza cultural composta por templos, pirâmides, palácios, entre outros. O parque nacional, reconhecido em 1979 como Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade pela Unesco, fica em Petén, no meio de uma selva tropical rica em fauna e flora. Tem uma extensão total de 576km², com mais de 3 mil estruturas maias preservadas. Para chegar lá é necessário um voo saindo da Ciudad de Guatemala, de aproximadamente 50 minutos. A diferença de ares é sentida na chegada: enquanto nas outras cidades o clima é frio ou fresco, em Petén o calor é intenso e muito úmido. Entre dezembro e fevereiro, as manhãs e as noites são mais amenas, sendo o melhor período para visitar a região.

As belezas do Lago de Atitlán

Rodeado pelos imponentes vulcões Tolimán, Atitlán e San Pedro, o Lago de Atitlán, no departamento de Sololá, tem uma beleza incomparável. Ele surgiu após uma grande explosão e inundação de um vulcão há 85 mil anos. Estima-se que a profundidade seja de 340 metros, embora o nível de água mude, curiosamente, a cada ano, em uma área total de 126km². A transformação, comandada pela natureza, deu ao lugar um aspecto misterioso e paradisíaco, atraindo inclusive estrangeiros, que largam tudo para construir casas ali. Somam-se a eles os chamados povos do lago, que vivem do que a rica terra vulcânica oferece.

Aos hospedar-se em um dos vários hotéis ao redor do local, não perca tempo. Levante cedo e alugue uma das embarcações disponíveis para conhecer o povoado. Em 30 minutos de passeio se chega a San Juan La Laguna, um dos mais tradicionais. A população é muito amistosa e o clima, mesmo quente, é agradável. Circulando a pé ou por meio dos tuk-tuks, o visitante conhece as principais atividades desenvolvidas pelas cooperativas.

As tecelãs resistem ao tempo e tentam manter viva a cultura antiga para tecer roupas maias tradicionais, como os ponchos, as saias e as blusas, que grande parte da população guatemalteca usa. Além disso, produzem centros de mesa, toalhas e colchas de cama, que são comercializados a preços um pouco altos, mas que é compensado ao ser ver todo o trabalho feito sem utilização de máquinas. Do quintal, elas retiram o algodão que será transformado em vários novelos de fios milimetricamente moldados a mão. O processo de tingimento é feito com a utilização de sementes, de folhas e de flores. Uma erva pode produzir até 10 tonalidades diferentes.

Arquitetura espanhola de Antigua

“La muy noble y muy leal Ciudad de Santiago de los Caballeros de Goathemala.” Parece uma frase, mas esse foi o nome dado, em 1543, à cidade hoje conhecida como Antigua Guatemala. Localizada no departamento de Sacatepéquez, lugar de incomum beleza e peso cultural histórico, cercada, assim como o Lago Altitlán, por três vulcões: Água, Fogo e Acatenango. Como ex-capital do país — a sede do governo foi passada para a Ciudad de Guatemala após um devastador terremoto em 1773 — Antigua é conhecida como joia da arte colonial, declarada Patrimônio Mundial da Unesco, em 1979.

Conservando quase 500 anos de história, muitas estruturas têm sido reformadas e transformadas em centros de cultura. Outras conservam o encanto bucólico das ruínas, esculpido com a força dos sismos, das erupções vulcânicas e das inundações que assolaram a cidade. As casas, que só podem ser pintadas de branco, de vermelho, de amarelo, de verde ou de azul por decreto, foram construídas seguindo o estilo espanhol de arquitetura e abrigavam numerosas famílias ricas e uma multidão de ordens religiosas em igrejas e conventos.

Reportagem completa, com galeria de fotos e vídeo, na edição de 15/8/2012 do caderno de Turismo do Correio Braziliense

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