Galápagos: um mundo à parte

Galapagos

Thalita Lins

Uma revoada de piqueros de patas azuis desenhou o céu de Galápagos ao mesmo tempo em que pelicanos pousavam na areia branca de Las Bachas, na Ilha Santa Cruz. Próximo dali, um grupo de flamingos se alimentava em uma lagoa de água salgada, enquanto uma iguana marinha deixava o mar e caranguejos de cores vibrantes se destacavam sobre rochas vulcânicas cercadas pelas águas do Oceano Pacífico. Cenário perfeito para o primeiro dia nas Ilhas Galápagos. Um show de boas-vindas como esse dá a dimensão de como serão os dias seguintes de visita ao arquipélago equatoriano.

As impressões deixadas de herança por Charles Darwin (1809-1882) no livro Viagem de um naturalista ao redor do mundo traduzem com exatidão a sensação que o visitante experimenta no contato com a natureza. Ao descrever o território como sendo “um pequeno mundo dentro de si mesmo ou ainda um satélite preso à América”, Darwin soube dosar as palavras sem soar um exagero. O arquipélago é realmente um mundo à parte. Dotado de características próprias, lá está concentrado um vasto número de espécies que somente existem naquela região. Dos 7.214 diferentes tipos de animais que residem em um universo composto de 13 ilhas maiores, seis menores e mais de 107 ilhotas e rochas, quase 90% deles são originários do paraíso galapaguense.

Galapagos
A riqueza de Galápagos poderia ser ainda mais complexa se as atividades de caça na região tivessem sido evitadas a tempo. No século 17, o número de animais era ainda maior. À época, a presença de baleeiros no arquipélago foi o motivo da morte de milhares de cetáceos e tartarugas que viviam na reserva marinha. Até então, o território ainda não havia sido declarado como unidade de conservação. Somente em 1959, o conjunto de ilhas passou a ser parque nacional. E quase 10 anos depois, Galápagos tornou-se efetivamente uma área protegida pelo governo equatoriano.

Encantar-se pelas diversidades vegetal e animal do arquipélago é inevitável. Se em uma praia você encontra cactos enormes que chegam a crescer três centímetros por ano, têm um tronco sem espinhos e vivem aproximadamente um século, em outra ilha mais à frente, o que predomina é uma vegetação rasteira coberta por tons verde, vermelho e amarelo, conhecida na região como cesúbio. Mas o que predomina em praticamente todo o território é o palo santo.

As praias

Em razão da oferta natural, a reserva ecológica garante dias de diversão para os visitantes. Seja para quem quer se aventurar ao fazer trilhas nas crateras, mergulhar e surfar, seja para aqueles que buscam apenas o silêncio das ilhas para desfrutar de momentos de paz ou aproveitar os dias ensolarados para curtir as praias do arquipélago equatoriano.

A 96km da Ilha Santa Cruz, outra formação vulcânica deu origem a mais uma ilha, a San Cristobál. Para se chegar até ela, assim como em qualquer outra praia, é necessário usar um bote. Ao desembarcar, o turista chega à região de nome Punta Pitt. Lá, a praia contracena com um vulcão ao fundo, que em determinados momentos se esconde atrás de nuvens que encobre o pico. Esse lugar de dupla paisagem é considerado um dos pontos mais recomendados para a prática do snorkel, por ter uma grande variedade de seres marinhos.

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Punta Pitt figura na lista das praias mais cobiçadas pelos turistas que vão a Galápagos. Nessa região praiana é até difícil andar na areia sem quase tropeçar nos leões-marinhos. Por tratar-se de um grupo grande, esses animais acabam muitas vezes confundidos com as rochas vulcânicas. Não apenas em San Cristóbal, mas em quase toda parte da reserva, essa espécie parece estar no controle, seja em cima das pedras, de bancos de areia e até mesmo dentro de embarcações próximo aos píeres. Por serem tão onipresentes, os animais acabam se tornando parceiros inseparáveis dos turistas. Eles não demonstram se incomodar com a presença humana nem de outros bichos. Tanto que parecem estar sempre preparados para posar para as fotos dos visitantes com total naturalidade.

Visita custa US$ 50

Apenas de avião é possível ir às Ilhas Galápagos. Os voos partem de Guayaquil e duram uma hora e meia. O aeroporto de Baltra costuma ser a principal porta de entrada para os turistas. Para entrar no arquipélago, é obrigatório pagamento de uma taxa. Aos maiores de 12 anos, o valor cobrado é de US$ 50. As crianças pagam a metade. O dinheiro é destinado à conservação e à manutenção da área protegida. Para aqueles que preferem ficar em solo, quatro regiões — as ilhas San Cristóbal, Santa Cruz, Isabela e Floreana — oferecem um leque de alojamentos.

Galapagos caldera vulcanica

Uma das opções para conhecer o arquipélago é aventurando-se em um cruzeiro. Mas prepare o estômago se você costuma enjoar nesse tipo de viagem. Dependendo da corrente marítima, as embarcações balançam muito. As empresas que prestam esse serviço oferecem variados tipos de itinerários. Cada barco tem, em média, capacidade máxima para 120 pessoas. A cada dia, a tripulação desembarca em uma ilha diferente. Para chegar até às praias e às ilhas, os turistas são acomodados em botes.

Ecossistema

Para manter intacta a diversidade do arquipélago, o Equador libera a entrada em solo protegido apenas quando a pessoa estiver acompanhada por um guia naturalista credenciado pelo governo local. Antes de desbravar essa maravilha ecológica, saiba que, para preservá-la, uma série de restrições são impostas a todos que pisam nas ilhas. Os visitantes devem seguir à risca os mandamentos para não ser repreendido por um desses profissionais e ajudar a manter vivo o ecossistema do lugar.

Uma das determinações é a de não tocar nos animais. É proibido manter uma distância inferior a dois centímetros dos bichos para que não seja alterado o comportamento natural das espécies. As regras impõem ainda que eles não podem ser alimentados para não causar danos à saúde dos bichos. Se um animal está doente, ele não será tratado e deve lutar sozinho pela sobrevivência. Ao morrer, o bicho continua intocável. Como manda a natureza, ele servirá de alimentos para os predadores.

A polêmica das tartarugas

Há quatro meses, mais uma espécie de tartarugas gigantes — que deu o nome às Ilhas Galápagos — foi extinta. Após várias tentativas para que ele reproduzisse, o Solitário George — que era o último representante da subespécie Chelonoidis abingdoni — morreu com pouco mais de 100 anos. Hoje, há apenas 10 das 14 subespécies que habitavam o arquipélago, sendo quatro em Santa Cruz, sete em Isabela e uma em San Cristóbal. Ao todo, há 17 mil desses quelônios espalhados nessas regiões.

tartaruga de galápagos
Uma polêmica gira em torno de quem deve ficar com o corpo de George. Os Estados Unidos tentam levá-lo, mas o destino dos restos da tartaruga ainda não foi confirmado. “Ele é nosso. É uma estupidez querer tirá-lo da gente só porque há uma pressão muito grande de dinheiro. Porque os EUA gastam muito com a reprodução desses animais no sítio”, explicou a guia naturalista Sabina Lorena. Atualmente, há 30 adultos da espécie apenas na Tortoise Reserve, em Cerro Colorado, San Cristóbal.

Para que as subespécies sobreviventes não entrem em extinção, o governo equatoriano fundou três centros de reprodução de tartarugas: em Santa Cruz, em San Cristóbal e em Isabela. Nessa última é onde estão os quelônios de maior estatura. Para que um animal desse se reproduza, leva 30 anos, idade na qual ele torna-se apto para procriar.

Ao nascer, esses bichos pesam apenas 60 gramas e podem chegar, quando já anciãos, a 300kg. A idade de sobrevida dessas subespécies de tartarugas é de, no mínimo, 150 anos. O tempo de existência pode ser constatado pelo casco. “Aquela ali deve ter mais de 100 anos porque o casco está mais liso”, avaliou a guia naturalista. Lá, as tartarugas brigam por um espaço numa pequena lagoa artificial que serve para deixar na média a temperatura do animal. Durante uma luta corporal entre elas, a que levantar a cabeça com mais facilidade e numa altura superior é a campeã.

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A oportunidade de estar lado a lado com a biodiversidade do arquipélago e de praticar atividades esportivas são alguns dos motivos que levam, todos os anos, 185 mil turistas a conhecer as ilhas. Após passar três dias em um cruzeiro por Galápagos, o engenheiro português Rui Cardoso, 57 anos, incluiu a viagem no rol dos melhores lugares que já visitou. Ele e a esposa, Marília Cardoso, 59 anos, se consideram cidadãos do mundo e já estiveram em pelo menos 60 países. “Aqui, a natureza é ainda mais bonita e nos dá uma sensação de paz e tranquilidade. As pessoas devem conhecer Galápagos para saber o quanto esse território significa para o homem e para a Terra”, descreveu Rui.

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