A histórica João Pessoa

Mais de quatro séculos de existência garantem a Paraíba uma força histórica de peso no Brasil. A capital, João Pessoa, é a terceira cidade mais antiga do país. Nasceu às margens do Rio Sanhauá e se desenvolveu, conservando igrejas e casarios do século 16, com influência da colonização espanhola e holandesa. É um paraíso para admiradores do passado romântico.

Ao desembarcar nessa terra, o viajante logo percebe que a economia local é formada pela pesca, agricultura e indústria — mesmo que ainda essas áreas tenham muito a serem exploradas. O destaque é mesmo o turismo. Inclusive, há recentes investimentos em imóveis de veraneio por moradores do interior e estrangeiros: são noruegueses, alemães, francês, argentinos e portugueses. Todos de olho no potencial da região.

As construções barrocas chamam a atenção do turista, o qual pode conhecer a casa da pólvora, o memorial do Hotel Globo, o primeiro do estado, o pavilhão do chá e a Igreja de São Francisco. Essa última não é a mais antiga, mas constitui um centro cultural onde são expostas obras de artistas da região, além de peças históricas. A edificação de 1589 tem o estilo barroco tropical, em que artigos indígenas e frutas, como o abacaxi, fazem parte da decoração. Lá, já funcionou um convento franciscano, uma escola de marinheiros, um hospital militar, um seminário e um museu. A entrada custa R$ 4, a inteira, para a visitação com guia, e dura de 40 minutos.

Todo o centro histórico de João Pessoa é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Por lá, vale a pena reparar nos ipês amarelos na divisa entre as pistas e na beleza da Lagoa do Irerê com 71 palmeiras imperiais que a circundam. Além disso, a região da praia de Tambaú concentra a parte turística com hotéis, restaurantes, artesanato, bares e boates.

Uma regra interessante é a proibição de prédios com mais de três andares a 500m da praia, o que melhora o visual e a passagem do vento. Após a distância estabelecida, existem edifícios de 45 pavimentos, em média. Por curiosidade, o da Luiza, que estava no Canadá, — que virou meme na internet em janeiro deste ano — terá 51.

Entre as artes paraibanas

A mistura de construções antigas e modernas leva charme e novidade a João Pessoa. A cidade vira polo de eventos interessantes para o turista neste mês e em janeiro, como o Festival de Cinema Aruanda, Festival Música do Mundo e Festival do Som. O processo artístico é intenso na região. O resultado sonoro da colonização rendeu experiências musicais, como a de Roberta Miranda, Hebert Viana, Chico César e Geraldo Vandré. Sem esquecer das raízes, claro, do famoso forró pé de serra, chamado por lá também de lustra-fivela, bate-coxa, rala-bucho e mijador com mijador. Nesse ritmo, as festas juninas são as manifestações populares mais características da localidade, com danças e comidas típicas.

Mas é no artesanato a forma cultural que abastece — junto do turismo — a economia da Paraíba. São bordados, cerâmicas, xilogravuras e mantas: um trabalho coordenado pelo Programa de Artesanato Paraibano (PAP), com peças produzidas por mais de 6 mil artesãos cadastrados. A Casa do Artista Popular Janete Costa é ponto para turistas conhecerem esses produtos. O casarão restaurado, do século 20, funciona desde 2006 como museu e expõe um acervo com mais de mil peças. São itens feitos com renda, traçado de coco, madeira, pedra, argila, couro e tem até roupas de algodão colorido.

Outro ponto de arte local é a Estação Cabo Branco — Ciência, Cultura e Artes, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (foto acima). O complexo funciona desde 2008 e tem mais de 8.500m² de área no bairro de Cabo Branco. A ideia, como o nome diz, é levar cultura, arte, ciência e tecnologia à população de forma gratuita. A programação das exposições pode ser acompanhada pelo Twitter @estacaocb.

A graça do povo

Onde o sol nasce primeiro: é a melhor definição para o principal registro geográfico da Paraíba. Fica na Ponta do Seixas, em João Pessoa, o ponto mais oriental das Américas. É o lugar mais perto da África, onde os raios do Sol se antecipam para iluminar o continente. A partir das 4h, eles dividem espaço no céu com o escuro da noite. Expulsam as estrelas — quase de forma imperativa — e acordam o povo paraibano para seguir a vida. Entre os 3,8 milhões de habitantes, alguns se destacam e invadem o cenário turístico, como a luz solar.

Jurandir do Sax é um dos principais. O músico é famoso por fazer um espetáculo de Praia do Jacaré, em Cabedelo, na vila de Santo Antônio. Às margens da Rio Paraíba, milhares de pessoas se reúnem em mirantes, bares e restaurantes da orla para assistir ao crepúsculo ao som de Bolero, a música mais famosa do compositor francês Joseph-Maurice Ravel, às 16h50. Ele se veste de branco e passeia em uma canoa tocando no saxofone a canção, tempo para o sol se pôr exatamente na última nota musical, às 17h05. Foram mais de 4 mil apresentações.

O ritual começou por um casal de franceses, dono de um restaurante no mesmo lugar, que ouvia a música no fim de tarde. Como virou rotina, Jurandir frequentava o local e se inspirou a começar a tocar, primeiro em terra, depois na embarcação. Hoje, o estabelecimento está em ruínas e os franceses retornaram à Europa. O músico, que levou a ideia para frente, hoje, faz sucesso, e emprega, indiretamente mais de 2 mil pessoas ao tornar o lugar um forte ponto turístico na Paraíba.

A praça de alimentação que atende os visitantes funciona das 14h30 às 19h. Nesse período, trabalha com afinco o homem da barraca da pimenta. Silvio Gomes dos Santos vende, há 11 anos, sua especialidade chama a atenção de quem passa por convidar os transeuntes a experimentar o tempero bem picante. Ele produz oito tipos: tem geleia de maracujá e de manga com pimenta, de cumari, dedo de moça, de cheiro, malagueta extramegaforte e cumari com malagueta-verde. Cada vidrinho custa R$ 10. O diferencial desse empreendedor é que, com simpatia, consegue ganhar muitos clientes. É praticamente impossível não experimentar, ficar sério e sair com os bolsos vazios.

E para quê bolsos se você pode estar nu? Não no meio da praça, claro, mas na Praia de Tambaba (significa conteúdo das conchas, em linguagem indígena), é uma regra. Lá, é o primeiro campo de naturismo oficial do Nordeste e o segundo do Brasil. Há lugar também para os que preferem as roupas de banho, o local é dividido. Só quem sobe uma escada de dois metros em forma de pirâmide e passa na frente de placas explicativas — exigidas por lei — pode se libertar dos trajes de banho. Há idosos, crianças, casais e mulheres solteiras: os rapazes estão fora, segundo a norma.

Naturismo

É preciso caminhar cerca de 300 metros para encontrar o restaurante e um ambiente mais cheio de adeptos ao naturismo. Tarciana Kaline, 29 anos, facilita para os que não querem andar muito. Ela, além de ser artista plástica, vende sanduíches naturais há 4 anos nessa praia. Uma pochete e a caixa térmica são os únicos adereços que usa e não precisa de mais. “Aqui, estamos livres. As pessoas vêm para cá para se conhecerem melhor: a mulher que já teve filho não tem vergonha de mostrar o corpo mudado, quem tem cicatriz ou já sofreu um acidente também. Somos todos iguais”, comenta, sorrindo. Os aperitivos custam R$ 5 e “o contato intenso com a natureza não tem preço”, como ressalta a entusiasta.

Outro personagem que se destaca em terras paraibanas é Francisco Pereira, 48 anos. Ele vende e se arrisca nos versos de cordéis em João Pessoa, especialmente, no farol do Cabo Branco. Mais conhecido como Ceará, por ter nascido em Acopiara, interior cearense, ele chegou à Paraíba em 1986 e vende os livretos divertidos, além de recitar estrofes para os turistas que passam pela banca de coco. “Esse trabalho é uma arte que já está no meu sangue e meu forte é elaborar versos na hora”, conta. A brincadeira faz sucesso entre os visitantes, que se juntam para ver Ceará recitar. Além disso, dá aula de geografia da região para os turistas.

Onde ir

Centro Cultural de São Francisco
» (83) 3218-4505
» Praça São Francisco, s/n, Centro – João Pessoa
» Entrada: R$ 4
» Funciona de segunda a domingo das 9h às 12h e 14h às 17h

Museu Casa do Artista Popular Janete Costa
» (83) 3221-2267

Praça da Independência, 56 – Centro – João Pessoa
» Entrada gratuita
» Funciona de terça a sexta-feira das 9h às 17h; sábado e domingo das 10h às 18h

Estação Cabo Branco
» (83) 3214-8303
» Altiplano Cabo Branco, s/n – Parque do Cabo Branco
» Entrada gratuita
» Funciona de terça a sexta-feira das 9h às 21h; sábado e domingo das 10h às 21h

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