Turismo na Antártida e na Patagônia chilena

Renato Alves (texto e fotos)

Localizada no extremo sul do planeta, a Antártida tem 13,6 milhões de quilômetros quadrados de neve e água congelada, cobrindo 99,5% do continente. Trocar sol e praia por um verão ali parece uma escolha improvável. Mas, cada vez mais gente lá desembarca atrás de uma sensação única. Alguns a comparam a pisar na Lua. Lembram algumas semelhanças, como o solo escuro e pedregoso — no verão — e uma grande área inabitada.

Para chegar até esse lugar, onde cientistas registraram a menor temperatura da história, somente por meio de voos militares ou em cruzeiros para turistas. Há quem pague mais de R$ 20 mil para passar algumas horas na parte mais inexplorada da Terra. Mas há opções mais baratas e menos aventureiras para conhecer maravilhas parecidas com as encontradas na Antártida. Na Patagônia, última região habitada antes do continente gelado, há milhares de pinguins e glaciais de encher os olhos.

Prazer para poucos

Um século após os primeiros navegadores identificarem a Antártida, o continente continua sendo o lugar mais selvagem da Terra. Pisar nele é para poucos. Mesmo com os avanços tecnológicos, são necessárias logística e infraestrutura adequados, além de disposição, paciência e um estômago forte. Os voos limitam-se praticamente às forças aéreas. Aos turistas, o único caminho passa pelo Drake, o trecho de mar mais temido do mundo. As longas e cansativas horas em navio e bote são recompensadas pelo cenário e a façanha e de passear por um dos mais hostis e menos explorados destinos do planeta.

Como repórter do Correio Braziliense, cheguei à Antártida em uma expedição da Marinha, com jornalistas, militares e cientistas brasileiros. Os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas foram os primeiros a desembarcar na Estação Comandante Ferraz após o incêndio que destruiu 70% das suas instalações, em 25 de fevereiro de 2012. A nossa jornada teve início em Punta Arenas, no extremo sul do Chile. Lá, embarcamos em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Os aviões C-130 (Hércules) da FAB pousam na base chilena Eduardo Frei (fotos acima e abaixo), levando também suprimentos, entre outubro e fevereiro. Mas esse trajeto de 1,2 mil km, em um voo de três horas, só é realizado quando o clima permite.

Quase não há teto para a aeronave pousar no aeródromo chileno. Quando aparece o que os pilotos chamam de janela, ela tem que ser aproveitada. Nessas condições, as mínimas em uma semana, após duas tentativas de pouso frustradas, o repórter do Correio chegou à Antártida em 7 de fevereiro, com mais de 40 cientistas e militares. Na noite daquele dia, ele fez a travessia de 500m na Baía do Almirantado, entre o navio Ary Rongel e a Ferraz. Por causa da ausência de portos no continente, as embarcações ficam estacionadas no meio do mar. Só pequenos botes chegam às praias das ilhas. Os jornalistas visitaram a base mais uma vez e passaram quatro dias na embarcação da Marinha brasileira.

Cruzeiros

A outra forma de chegar à Antártida é em um dos 45 navios de Cruzeiro que fazem cerca de 250 viagens à região, com passageiros do mundo inteiro, a cada alta estação. Ela vai de novembro a março, o verão antártico, quando as temperaturas são suportáveis a um ser humano e as águas dos canais e baías não estão congeladas, permitindo a passagem de navios que não sejam quebra-gelos. Identificada por navegadores pela primeira vez em 1820, a Antártida atrai cada vez mais turistas interessados em ver de perto os pinguins, focas, geleiras, icebergs e montanhas cobertas por neve. Até o começo da década de 1980, havia menos de mil visitantes por ano. Hoje, passam de 35 mil. Antes da crise mundial, eram mais.

Apesar do turismo na Antártida ser ainda muito caro, 35 operadoras de 10 países atuam com navios no continente. Elas levam visitantes a curtas incursões nas regiões costeiras. Cerca de 150 sítios, incluindo 20 estações científicas estão nos roteiros das visitas. Alguns sítios recebem até 7 mil visitantes. Os turistas que ano a ano vêm popularizando a Antártida como destino turístico não sofrem tanto quanto os militares, cientistas e jornalistas. Os cruzeiros que chegam à região têm uma boa infra-estrutura de acomodação e alimentação. Eles levam a estações científicas, monumentos históricos e colônias de animais. Entre as atividades estão também alpinismo, acampamento e mergulho.

Na época das visitas, o clima costuma ficar nublado. A temperatura, em 1ºC, em média. Mas, os ventos, que ultrapassam corriqueiramente os 100km/h, podem levar a sensação térmica a -12ºC. Nessas condições, só mesmo com trajes especiais: botas pesadas, macacão corta vento, casaco, gorro, óculos escuros,. Tudo grande, pesado e a prova d’água. Misturados à paisagem e às instalações das estações científicas, contribuem para um cenário de outro mundo.

Cuidados
As atividades são supervisionadas pela tripulação do navio, que inclui ornitologistas, biólogos marinhos, geólogos, glaciologistas, historiadores e naturalistas. Todos os cuidados com o ambiente são devidamente tomados.

Variações
Com tanto gelo, as temperaturas antárticas são baixíssimas. Na região central, os termômetros oscilam entre -30ºC e -65ºC e, em 21 de julho de 1983, a base russa de Vostok, localizada a aproximadamente 3,4 mil metros de altitude, registrou aquela que até hoje é a menor temperatura registrada no planeta: -89,2ºC.

Qual o nome certo?
Antártica ou Antártida? Tanto faz. O nome vem do grego antarktikos, que significa oposto ao ártico, ou seja, na extremidade sul do planeta. Os portugueses adotaram a forma Antártida, também admitida no Brasil, mas menos popular no resto do mundo. O continente é o único no planeta que jamais foi manchado por uma guerra ou qualquer tipo de conflito armado. Embora militares de vários países tenham equipes trabalhando em diversos pontos da Antártida e haja reivindicações sobre a propriedade das terras, não ocorrem demonstrações de animosidade. Por enquanto, toda a massa de 14 milhões de km², o equivalente à soma das áreas do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia — mas que pode chegar a 32 milhões de km² no inverno, com o congelamento dos mares —, pertence simplesmente à humanidade, com base em um acordo firmado em 1961 e conhecido por Tratado da Antártida.

Reportagem completa na edição de 27 de fevereiro de 2012 do caderno de Turismo do Correio Braziliense e nos próximos post deste blog

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