Emoção do começo ao fim em águas geladas

Navio brasileiro Ary Rongel na Antártida

Com pacotes a partir de US$ 5 mil por pessoa, algumas operadoras oferecem roteiros em que o turista vê a Antártida apenas do navio, sem a possibilidade de pisar no gelo. Nos mais interessantes (e caros), as embarcações aguardam na água, em meio a alguma baía, enquanto os turistas visitam a terra firme, duas vezes ao dia, com o auxílio de botas, três camadas de roupa, luvas, gorros, além dos botes infláveis. Os visitantes passam as manhãs e tardes andando pelo gelo e voltam ao navio para almoçar, jantar e dormir.

Navio brasileiro na AntártidaQuem quer que se aventure a explorar a Antártida deve estar disposto a enfrentar grandes desafios. Com todas suas terras localizadas ao Sul do Paralelo 60oS, o continente é o local mais inóspito do planeta. Somente 0,5% de toda a área fica descoberta de gelo ou neve e, ainda assim, isso só ocorre no verão. No restante do ano, tudo é simplesmente branco. Uma clareza impressionante, que reflete 80% da luz solar que incide no território e, assim não permite que ele se aqueça.

A maioria das excursões sai dos portos de Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile. Com a ajuda do tempo — o que nem sempre acontece — chega-se até a península antártica em menos de dois dias. Aqui pode-se ter uma excelente ideia dos encantos da região, que vão de termas vulcânicas a simpáticos pinguins, de focas tomando sol à desoladora beleza do gelo. Aliás, são tantos tons e formas que as máquinas fotográficas não param de disparar.

Já na travessia entre o navio e a terra, algo em torno de 500m, doses extras de adrenalina. Com a água a 0ºC, o tempo de sobrevivência para quem cai nela não passa de um minuto e meio. Pode-se morrer em muito menos, como 30 segundos, alertam os guias. Portanto, são muitos os avisos de segurança antes de trocar a embarcação maior pelo bote (foto acima). Para compensar, a caminhada pela península costuma ser muito agradável e cheia de boas surpresas.

Vida animal

Para a maioria, a Antártida é um enorme vazio. Um lugar repleto de gelo e com quase nenhuma vida. De fato, se comparada com outros biomas, a natureza não é generosa em diversidade na região. Espécies de aves, por exemplo, são apenas 60. Quase nada se comparadas às 1.840 conhecidas apenas no Brasil.

Pinguins na Antártida

Pinguins na AntártidaA baixa diversidade é compensada pela enorme quantidade de representantes de cada espécie. A população de albatrozes, por exemplo, chega à marca de 60 milhões em suas várias espécies. Quando falamos nos simpáticos pinguins, apenas os pinguins-de-penacho-amarelo chegam a 4 milhões de aves somente na Ilha Geórgia do Sul.

Mas a maior emoção está reservada na volta para casa. Entre a América do Sul e a Antártida está a Passagem de Drake. Desafio em forma de mar, onde rajadas de vento acima de 100 km/h e ondas de 10m são comuns. Caminho obrigatória de todas as jornadas dos navios que rumam ao continente gelado. Nele se encontram dois grandes oceanos: o Pacífico e o Atlântico.

“Inferno no mar”

Ao longo dos séculos, o Drake tem sido o terror dos navegadores e ainda hoje é um desafio atravessá-lo, mesmo para os navios mais modernos. É como passar dois dias em uma montanha-russa, sem poder descer do brinquedo. Alguns navegadores se referem a ele como “O inferno no mar”. O repórter do Correio conheceu o Drake a bordo do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, da Marinha do Brasil.

Desde 1994, quando participou da primeira de suas 19 Operações Antárticas (Operantar), a embarcação brasileira conduz pesquisadores e materiais através da passagem de cerca de 900km. A travessia, ocorrida em uma sexta-feira e um sábado, durou 41 horas. Todas com bastante balanço, com o navio inclinando até 40 graus.

O Drake assusta e castiga até os mais experimentados navegantes. “Não foi a mais calma das travessias do Drake. Foram 41 horas bem complicadas”, comentou o capitão de mar e guerra Marcelo Seabra, comandante do Ary Rongel, há dois anos cruzando a passagem.

No fim do mundo

A vantagem é que, depois do Drake, vêm os canais chilenos. Geralmente, com águas tão calmas como as de uma lagoa, cercadas por montanhas e geleiras e tomadas por pinguins e golfinhos, que se exibem com saltos em frente e ao lado dos navios. A visão do paraíso começa ao passar o Cabo Horn, último pedaço de terra habitado ao sul das Américas. Para muitos, o fim do mundo.

Reserva da Biosfera pela Unesco, o Cabo Horn cultiva um mito por seu difícil acesso. Desde 1616, quando foi descoberto, é uma rota de navegação importante para as embarcações que navegam entre os dois oceanos, mas extremamente perigosa. Os ventos ali podem chegar até 200km/h e derrubar até o navio mais bem equipado. Nas imediações, há mais de 100 embarcações naufragadas.

Talvez por isso, alcançar o Cabo Horn atrai tantos aventureiros. Uma das poucas opções oferecidas ao turista é integrar a expedição do Cruzeiro Australis, que tem em sua rota uma parada no “fim do mundo”. O navio parte de Ushuaia e de Punta Arenas, visitando algumas ilhotas da Terra do Fogo, como Isla Magdalena e Baía Wulaia. O ponto alto é mesmo o Cabo Horn.

O desembarque só é feito se a velocidade do vento não ultrapassar os 60km/h. É preciso estar pronto para caminhar e se molhar, antes de ouvir a mensagem autorizando o embarque em bote inflável e seguir ao Cabo Horn. Certamente, a travessia entre o navio e o cabo será em mar revolto.

O bote é considerado seguro, mas não tem como escapar das ondas nem da água que espirra nos passageiros ou mesmo entra nele. Por isso, só roupas e calçados impermeáveis são aconselhados para o tour, que inclui a subida dos 160 degraus de uma escadaria íngreme até o topo do cabo. Para muitos, uma fria. Para outros tantos, a glória.

Deserto branco
Apesar de todo o gelo, a Antártida é, na verdade, um gigantesco deserto, cuja precipitação média anual é quase nula, variando de 30ml a 70ml. Para se ter uma idéia do que isso significa, a precipitação média em Brasília, famosa por sua secura, fica entre 1.200ml e 1.800ml nos meses de março a outubro.

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