As joias dos palácios do Planalto e do Itamaraty

Itamaraty

Eunice Pinheiro, da Encontro Brasília

A Esplanada dos Ministérios é um verdadeiro museu de arte. Não só um museu dos símbolos nacionais, que costuma atrair milhares de pessoas para o turismo cívico na capital, mas um conjunto de museus – composto por Ministérios e Palácios – que guardam obras de artistas nacionais e internacionais. São telas, esculturas, vitrais e peças de mobiliário que, muitas vezes, passam despercebidos numa visita onde a arte não é o foco principal. E o melhor: a maior parte desse acervo está aberta à visitação pública, gratuitamente.

O Palácio do Planalto e o Palácio do Itamaraty são os dois locais que concentram as obras mais famosas de toda a Esplanada. Trabalhos que chegam a valer mais de R$ 4 milhões no mercado, como o painel As Mulatas, de Di Cavalcanti, e outros, que pelo valor histórico nem podem ser avaliados, como a tela gigante de Roberto Burle Marx (14 m x 4,8 m), de 1972, criada especialmente para ocupar o Salão Oeste do Palácio do Planalto.

Itamaraty 2

Ao todo, ainda não se sabe o número exato de obras de arte que povoam a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes, já que o levantamento, que está sendo feito pelo governo federal, ainda não foi concluído. Mas são dezenas de trabalhos de artistas renomados, como Djanira da Motta e Silva, Joan Miró, Frans Krajcberg, Sérgio Rodrigues e Alberto Nicola. Até 2009, a maior parte dessas obras estava perdida nos subsolos dos Palácios.

A ideia de catalogar as obras de arte dos palácios surgiu em 2009, durante a reforma do Palácio do Planalto. O projeto foi apresentado à ex-primeira dama Marisa Letícia, que aceitou o desafio e mandou abrir as portas. A partir daí, palmo a palmo dos palácios do Planalto e da Alvorada passou a ser vasculhado. “Na verdade, havia uma ideia da existência de um bom acervo de arte nos Palácios. Mas não havia um catálogo dessas obras. Tampouco se sabia com exatidão onde elas se encontravam”, conta Claudio Soares Rocha, secretário executivo da Comissão de Curadoria dos Palácios do Planalto e da Alvorada.

Planalto

A caça às obras revelou muitas surpresas. Uma delas foi um quadro do artista catalão Joan Miró, avaliado em R$ 1 milhão, pendurado na sala de suprimentos do Planalto. Durante anos, o quadro azul ficou ali, quietinho, sem ninguém imaginar a relíquia sustentada por um pequeno preguinho. Com a tapeçaria de Alberto Nicola não foi diferente. Depois de enfeitar a recepção do Palácio do Planalto, na década de 1990, foi parar no restaurante da guarda.

Mas o destino dado ao relógio Luiz XIV, confeccionado pelo relojoeiro do rei francês, Balthazar Martinot, foi demais. A peça foi parar no depósito de barcos do Palácio da Alvorada. Ninguém sabe dizer quanto tempo esse relógio ficou por lá, mas foi encontrado sob um monte de colchões velhos e precisando de recuperação. Meses depois de resgatado, ainda se buscava a cúpula dele – uma imagem do deus grego Netuno –, encontrada, posteriormente, numa caixa de ferramentas da oficina do palácio.

Planalto 2

Tirando esses casos mais escabrosos, a verdade é que, durante muito tempo, funcionários conviveram com obras importantes nacionais e internacionais em suas salinhas pensando que fossem obras vendidas em uma feirinha qualquer. Agora, que elas foram resgatadas, estão expostas ao grande público, devidamente recuperadas, identificadas e catalogadas. “Quando terminamos o levantamento das obras, chegamos à conclusão de que elas deveriam ser expostas ao público.

O que adianta ter boas obras se elas ficarem fechadas em salas?”, questionava Claudio Rocha. Com isso, as obras dos artistas mais renomados foram expostas nos corredores dos Palácios, no gabinete da presidente Dilma Rousseff e nos salões de reuniões, com destaque maior para os artistas nacionais.

Planalto 3

Assim, durante a visita guiada ao terceiro andar do Palácio do Planalto, por exemplo, podem ser vistas as obras de Di Cavalcanti, Geraldo de Barros, Frans Krajcberg, Frank Schaeffer, Alfredo Volpi, Antônio Maluf e a bela escultura de Bruno Giorgi, com o nome de O Flautista. Nos gabinetes fechados, ficaram apenas os trabalhos de artistas pouco conhecidos.

No mezanino, podem ser vistos também conjuntos de mobiliários desenhados por talentos como Sérgio Rodrigues e Jorge Zalzuspin. Aliás, o mobiliário do Palácio do Planalto é um espetáculo à parte. Peças dos designers mais importantes das décadas de 1960 e 1970 estão presentes ali. Incluindo a mesa de trabalho do então presidente Juscelino Kubitschek, desenhada por Niemeyer.

Planalto 4

“A restauração dos móveis e a indicação da existência de algumas obras de arte importantes seguiram os relatos de Anna Maria Niemeyer, arquiteta e filha de Oscar Niemeyer, que trabalhou na decoração dos Palácios durante a construção deles. Era ela quem, sob as ordens do presidente Juscelino Kubitschek, comprava obras de arte para decorar os palácios e, assim, começou a montar nosso acervo”, explica Claudio Ramos.

Além dos trabalhos que chegavam pelas mãos da filha de Niemeyer, o acervo dos palácios foi formado por doações de obras, presentes presidenciais e espólios, como os três quadros de Djanira, que faziam parte da massa falida do antigo Lloyd Brasileiro.

Planalto 5

Hoje, o governo não compra obras de arte. Por isso a carência de artistas contemporâneos nas paredes dos palácios. “Para renovarmos o acervo, precisamos que os artistas doem suas obras. Porém, isso raramente acontece”, diz Ramos.

No Palácio do Itamaraty, as obras contemporâneas já são vistas em abundância. Como cada órgão administra seu acervo artístico individualmente, o Ministério das Relações Exteriores é um dos poucos órgãos do governo que têm realizado concursos de arte contemporânea. Os trabalhos premiados são adquiridos pela instituição. Foram duas edições até o momento: em 2011 e 2012.

Com isso, qualquer visitante interessado em apreciar os trabalhos de artistas como Tomie Ohtake, Francisco Brennand, Athos Bulcão, Volpi e Emmanuel Araújo tem a chance de ver também os trabalhos de novos artistas. Aliás, um acervo impressionante, de tão bonito.

Por exemplo, logo na entrada do Palácio do Itamaraty, uma exposição apresenta as últimas 20 aquisições do ministério, fruto do concurso de 2012. São óleos sobre tela, fotografias e esculturas, como a escultura Iceberg, de Flávio dos Santos Cerqueira, que transporta o expectador para o olhar infinito de um menino.

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