Uma cidade esquecida no vale e no tempo

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Renato Alves (texto) e Iano Andrade (fotos)

Imagine um lugar no meio de um vale fértil, onde o clima frio leva os moradores a dormirem todas as noites sob cobertor, a maioria só come as hortaliças colhidas no fundo de casa e cozidas em fogão a lenha, os vizinhos trocam pratos de comida, ninguém lembra do último caso de roubo, nem se preocupa com o andar do relógio, os rumos da economia, os hits da internet. Nesse lugar, crianças vivem sem tablets, smartphones e videogames, adultos não sofrem estresse e os idosos são os mais respeitados. Também não há trânsito, nem poluição atmosférica, sonora ou visual. Acredite, esse lugar existe. E fica a 135km de Brasília, perto da BR-060, no caminho para a histórica e concorridíssima Pirenópolis (GO). Mas, escondido entre matas e esquecido no tempo, é desconhecido pela maioria dos brasilienses e demais brasileiros.

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Nascida no fim dos anos 1800, Abadiânia Velha, ou Posse D’Abadia, já foi cidade. Perdeu o status em 1963, quando políticos goianos decidiram mudar a sede do município. Estavam entusiasmados com a mudança da capital do país do Rio de Janeiro para Brasília, e do estado da Cidade de Goiás para Goiânia. E, assim como ocorreu com a antiga capital estadual, mais conhecida como Goiás Velho, a nova sede municipal, transferida para a margem da BR-060, passou a ser chamada de Abadiânia Nova, enquanto Posse D’Abadia virou Abadiânia Velha.

Sem as repartições da administração municipal, ela perdeu os serviços e a maior parte dos habitantes. Onde chegaram a morar 3 mil pessoas, hoje não há mais de 550. A maioria, crianças e idosos.

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Sem investimentos, sem comércio, sem serviços, sem empregos, as crianças de Abadiânia Velha vão embora quando se tornam adolescentes, para estudar e trabalhar. Assim, a população só decresce e os antigos moradores mantêm os casarões em estilo colonial e os hábitos do fim do século 19 e início do século 20.

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Gente como o agricultor aposentado João Paulo da Silva e a mulher dele, Maria Lopes da Silva, ambos de 77 anos. Todos os dias, o casal divide a pequena cozinha para fazer o almoço, em panela de pedra e fogão a lenha (foto abaixo). Geralmente, a carne vem de um dos frangos criados soltos no quintal. “Aqui, quase tudo é de antigamente. Uso chapéu, botina, toco viola caipira e danço um forró. Só não trabalho mais porque os braços não dão conta de pegar no cabo de enxada”, ressalta João.

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Ele e Maria tiveram 11 filhos na localidade, mas apenas um reside em Abadiânia Velha. Em busca de emprego, o restante se mudou para cidades goianas próximas. O mesmo destino tiveram os oito filhos de Luís de Souza da Cruz, 83 anos, e Rosa Martinha da Costa Cruz, 84. “Aqui, quando era município, tinha mais movimento. Tinha até ônibus para Anápolis. Só não tinha asfalto”, comenta Luís.

O asfalto chegou, mas, há tempos, não há transporte coletivo em Abadiânia Velha. Nem Correios, farmácia, banco, padaria, lanchonete. O comércio se restringe a uma mercearia e a um bar, ponto preferido dos homens. Lá, eles passam a tarde bebendo, jogando baralho e muita conversa fora. Telefone, só por rádio, e, vez ou outra, pelo sinal de uma operadora de celular. Internet e tevê a cabo, ninguém tem.

Carros de boi

Em Abadiânia Velha, cavalos e carroças ainda são usados como meios de transporte. As notícias do mundo além das serras vêm por meio das antenas parabólicas, dos rádios e dos parentes que moram fora e fazem visitas regulares. Já o noticiário local, como nascimento, morte, missa e reuniões da comunidade são anunciados pelos sinos da única igreja. O templo é o maior e mais importante prédio da comunidade. Dele, quando era uma capela, surgiu o povoado. Com o tempo, a capela virou o Santuário Nossa Senhora D’Abadia e ponto de peregrinação para fiéis do país inteiro.

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Uma tradicional festa religiosa, realizada em meados de agosto, atrai milhares de pessoas. “Recebemos 10 mil romeiros. Tanta gente que, chega uma hora, a polícia fecha o acesso ao distrito, pois não há estrutura. O povo dorme em barracas montadas na praça e nos quintais das casas. Também há uma procissão de carros de boi”, conta Neusa Jacinto Diniz, 63 anos. Nascida e criada em uma fazenda, ela é subprefeita de Abadiânia Velha, órgão que funciona no mesmo prédio em art decó onde ficava a prefeitura. Na edificação funcionam ainda o posto de saúde e o escritório da companhia de água municipal.

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O prédio abriga os únicos 25 postos de trabalho do distrito, todos públicos. Mas, para Neusa, Abadiânia Velha tem um enorme potencial inexplorado. “Temos um artesanato original, casarões belíssimos, um clima gostoso, que faz até 5ºC em agosto. Tudo para atrair turistas. Mas faltam informação e investimentos públicos e privados, como pousadas, restaurantes”, destaca ela, que também viu os três filhos trocarem o lugar por Goiânia. “Mas todos sempre vêm passar o fim de semana aqui. Meus netos até choram na hora de ir embora”, conta ela, dona de um dos maiores e mais bem cuidados casarões do povoado. O marido de Neusa, Onofre Ferreira Diniz, 63, também nasceu na antina Posse D’Abadia. Dono de uma empresa de terraplanagem em Anápolis, a 39km do distrito, nunca quis ter casa em outro lugar. “Ele prefere pegar a estrada para dormir aqui toda noite. Diz que é um paraíso”, destaca a mulher.

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Abadiânia Velha tem apenas uma praça, toda gramada, entre o santuário e a antiga prefeitura. Além dela, há sete ruas e duas estradas de acesso: uma de terra e outra de asfalto. Vizinhas ao núcleo urbano, pequenas e médias propriedades rurais mantêm criações de gado e cavalo. Com o Rio Capivary e o Córrego Cururu cortando alguns dos sítios, é farta a oferta de água. Pequenas quedas atraem os moradores nos dias mais quentes, que fazem das margens a sua praia.

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Nas casas dos sítios e da área urbana, moram cozinheiras de mão cheia, doceiras e artesãos. Um dos mais conhecidos entre os nativos é Wanderley Alves de Souza, 41 anos. O artista autodidata faz imagens sacras e de animais apenas com papel alumínio ou folhas secas de árvore. No acabamento, ambos materiais recebem detalhes em pinturas caprichadas. O preço? Wanderley não sabe. “Não sei pôr preço nas minhas obras, não sei nem vender nada. E, aqui, é mais difícil, pois não tenho nem como oferecer as minhas peças pela internet, pois a gente não tem internet”, diz, sem esconder a timidez.

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Perfeccionista e decepcionado com a falta de visibilidade do seu trabalho, Wanderley costuma desmanchar ou mesmo jogar no lixo uma peça quando cisma que ela tem algum defeito ou quando passa muito tempo sem ser admirada por outra pessoa. Inquietante, o artista ainda escreve, recruta os moradores, ensaia e faz todas as roupas e máscaras para peças teatrais apresentadas apenas à comunidade. “Sou um ateu convicto, mas bem resolvido. Sei da importância da religiosidade para este lugar. Por isso, só faço peças com temas católicos. Arte é isso”, comenta ele.

Sem oportunidade

As imagens de Wanderley e os objetos feitos pelas mãos de outros artistas locais são exibidos na Casa da Cultura, espaço recém-inaugurado em um antigo e simples casarão de dois quartos, atrás da subprefeitura. Mas, como recebe poucos visitantes, não tem funcionários e só abre na parte da tarde durante a semana, e, o dia inteiro, somente aos domingos e feriados.

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Mas, ao turista que chegar em Abadiânia Velha fora desses horários e quiser conhecer tudo, basta procurar a Neusa na subprefeitura. Ela tem as chaves da Casa de Cultura e também faz as vezes de vendedora e guia turística do distrito. Sempre com muitas boas histórias para contar.

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2 comentários em “Uma cidade esquecida no vale e no tempo

  1. Lugar bonito e tranquilo, com serras verdejantes emoldurando o povoado. Dá vontade de se estabelecer para sempre.

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  2. Vou sempre à Abadiânia Velha, realmente é um paraíso.Quem for a Pirenópolis, vale a pena conhecer este pequeno povoado de gente simples e acolhedora, com lindas paisagens ao redor.

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