Cuba, antes da americanização

Renato Alves (texto e fotos)

Após mais de 50 anos, Cuba e Estados Unidos retomam o diálogo, com cessões de ambos os lados. Com a eminente abertura da ilha ao capitalismo, muitos temem a americanização dela, como era antes da revolução, como são as demais ilhas do Caribe. Por isso, muitos estrangeiros estão fazendo as malas rapidamente para conhecer o país dos irmãos Castros como eles a conceberam.

Lá estive duas vezes. Conhecer a ilha comunista é uma experiência inesquecível, independentemente de ideologia. Eu, por exemplo, sou contra qualquer regime totalitário, mas me tornei um admirador do país. Do país dos cubanos, dos carrões, do tabaco, dos drinques, da música, da dança.

Desembarque

A chegada ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, torna-se excitante assim que o passageiro deixa o avião. O terminal pequeno, as instalações simples e antigas e o rigor da fiscalização deixam claro que se trata de um país diferente do ponto de vista capitalista.

Além dos olhares desconfiados, o turista pode estranhar a morosidade do guarda fardado na cabine do controle de passaporte. O militar faz questão de olhar cada página do documento. Apesar do semblante sério dos guardas de emigração e da alfândega, a maioria dos visitantes é aceita sem transtornos.

No máximo, durante o exame do seu passaporte, o estrangeiro é convidado a tirar os óculos (se tiver) para conferência da fotografia do documento. Não há interrogatório, obrigatoriedade de tirar o calçado ou outra medida incômoda do tipo antiterrorista.

O turista é liberado após uma ou duas perguntas, como o quê pretende fazer e quanto tempo ficará no país. Um visto de entrada em Cuba, antes tratado como questão de segurança nacional, hoje é vendido nas agências de turismo, com os pacotes de viagem.

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A primeira sensação fora do aeroporto pode não ser das mais agradáveis, caso se desembarque em um dia chuvoso ou de alta umidade relativa do ar, dois fenômenos corriqueiros na ilha. O forte calor úmido impede uma fotografia em frente à fachada singular do terminal — é impossível desembaçar a lente da câmera — e faz o turista procurar imediatamente um veículo com ar-condicionado.

O desconforto é esquecido assim que a van ou táxi deixa as dependências do José Martí. No começo da viagem entre o aeroporto e a área urbana de Havana se vê outdoors de madeira com propaganda oficial. Os primeiros de milhares instalados em todo o país.

Um dos símbolos do regime comunista, as placas trazem principalmente mensagens de apoio à revolução e provocações ao maior inimigo, os EUA. A estrada que liga o aeroporto à capital cubana cruza fazendas, vilas e os bairros mais afastados de Havana. No traslado, os primeiros contatos com o cotidiano revolucionário e os efeitos do embargo “imperialista” norte-americano.

Homens consertando os carrões confiscados dos antigos ricos moradores de Havana — produtores de cana-de-açúcar, comerciantes, empresários e mafiosos estadunidenses — são vistos em cada esquina. Mulheres jogando conversa fora nos muros baixos. Idosos sentados em gastas cadeiras de balanço, nas varandas e calçadas. Todos em um ritmo lento, como quem não tem pressa para ganhar dinheiro.

Havana Velha

A moderna rede hoteleira de Havana oferece ótimas refeições, além de amplos e confortáveis quartos. A maioria, de redes européias, que com o baixo custo da mão-de-obra e vantagens oferecidas pelo governo cubano conseguem manter serviços de padrões internacionais com tarifas relativamente baratas.

O ideal é começar o tour por Habana Vieja. Com calçado confortável e roupas leves, entre pela Plaza de la Catedral. Fechada por prédios coloniais nos quatro lados, tem acesso por três ruelas. A praça é cercada pela Catedral de San Cristóbal, pelo Museo de Arte Colonial, Palacio del Conde e Palacio de los Marqueses de Arcos, além do restaurante El Patio.

A rua, exclusiva dos pedestres, é feita de pequenos blocos de pedra. Nas calçadas, também de pedra, artistas locais produzem e exibem suas obras, como pinturas em telas e desenhos de nanquim ou guache. A paisagem serve de modelo.

Mojitos

Quase na esquina com a Catedral, fica o mais famoso bar cubano. O La Bodeguita del Medio ganhou o mundo por meio do seu mais ilustre freqüentador, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Ele sempre exaltou o mojito (bebida típica cubana, feita de rum, suco de limão hortelã, água e gelo) do La Bodeguita. Hemingway tem razão. Mesmo na ilha, é difícil encontrar igual.

A atmosfera do Bodeguita também é única. Os balcões, cadeiras, mesas e paredes revestidas de madeira são os mesmos da época de Hemingway. As partes das paredes sem a madeira são cobertas de nomes e mensagens, escritas a caneta pelos visitantes.

Os preguiçosos ventiladores não conseguem esfriar o clima festivo, que esquenta ainda mais com a entrada de um grupo musical. O cliente pode desfrutar até de música popular brasileira. Os cubanos conhecem a maioria dos nossos compositores e intérpretes. Eles admiram Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Caetano Veloso.

Caderneta

Se ainda tiver fôlego e pernas para caminhar, siga por qualquer uma das ruas que cortam a Plaza de la Catedral. O passeio é obrigatório para quem deseja conhecer o estilo de vida cubano e os moradores da cidade. Entre na primeira bodega que encontrar.

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Nela é distribuída a comida e outros produtos de primeira necessidade da população. Na hora de passar no caixa, os clientes não tiram cartão de crédito ou débito. Da bolsa ou do bolso saem moedas e uma caderneta, em que o funcionário anota o produto e a quantidade. Cada cubano tem uma cota mensal.

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Quando quer mais (e pode pagar), o cubano recorre ao mercado paralelo, onde tudo é muito caro, devido à escassez de produtos no país. Apesar de certa melhora na economia, comparando com anos 1990, ainda falta de tudo, do sabonete à camisa. É comum ver meninos brincando de sapatos furados ou vestidos em roupas bem mais curtas — eles usam até esfarelar.

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Não é lenda nem preconceito. Os cubanos param os turistas para pedir itens de higiene pessoal. Como custam caro à população, xampu, sabonetes e similares são considerados artigos de luxo. Carregue os kits de banho dos hotéis para agradá-los e ajudá-los.

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Os pais, sem vergonha alguma, costumam pedir caneta e borracha para os filhos estudantes. Em Cuba, porém, ninguém fica sem escola, morre de fome ou ao relento. Nem vive debaixo de ponte ou em favela.

Paladares

Além de restaurantes tradicionais e requintados, em Havana Velha também há ótimos paladares. São restaurantes de comida caseira, administrados por cubanos comuns, que ganharam autorização do governo para ter o próprio negócio.

Mas eles precisam seguir algumas regras, como atender no máximo a 12 pessoas ao mesmo tempo. O restaurante só pode funcionar na casa do dono da licença. O microempresário não pode contratar ninguém. O cozinheiro e garçons têm que ser da família.

Com isso, almoçar em um paladar é uma das melhores oportunidades de se conhecer uma casa cubana e seus moradores. Além de tudo, é a maneira mais econômica de se comer em Havana.

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Os paladares têm poucas opções no cardápio — por causa da falta de capital do dono e da escassez de produtos —, mas todas são muito bem preparadas e saudáveis. A mais comum é a carne de porco, acompanhada de salada e de arroz e feijão preto (misturados, tipo baião de dois, sem queijo). O prato sai, em média, por R$ 15.

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O nome paladar é fruto do sucesso da novela Vale Tudo (Rede Globo, 1988 a 1989). Também em Cuba, a trama bateu recordes de audiência. A protagonista Raquel (Regina Duarte), que, após perder tudo ao ser roubada pela filha Maria de Fátima (Glória Pires), se reergueu ao abrir um restaurante, o Paladar.

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