Uma viagem literária pela Grã-Bretanha

Paloma Oliveto, do Correio Braziliense

Era uma vez um lugar muito remoto, tão longe do que se conhecia como mundo que os romanos acreditavam ser ali o recanto onde “a terra e a natureza acabavam”. Quando as legiões de Júlio César descortinaram aquela ilha em formato triangular, o futuro imperador se horrorizou com o que viu. Em seus relatos de viagem, escreveu que as noites eram curtas; o clima, miserável, com chuva e névoa constantes.

“É um lugar selvagem”, habitado por pessoas “inóspitas e ferozes”, na conta dos historiadores antigos Horácio e Tácito. Homens e mulheres andavam “praticamente nus” e adornavam a cintura e o pescoço com objetos de ferro, um símbolo de riqueza, além de tatuar o corpo com figuras de animais. “Por causa da espessa neblina que sobe dos pântanos, o clima nesta região é sempre sombrio”, resumiu o senador romano Herodiano.

Stonehenge

E pensar que esse cenário dantesco é, na verdade, a belíssima Grã-Bretanha. Uma ilha que atrai, anualmente, 28,6 milhões de estrangeiros em busca de experiências culturais e sensoriais tão diversas quanto museus, sítios arqueológicos, paisagens bucólicas, vilarejos medievais, shows e festivais de rock, compras, negócios…

Os brasileiros não ficam de fora das estatísticas. Embora ainda não figurem entre os maiores visitantes do Reino Unido — aí incluindo-se também a Irlanda do Norte —, eles estão cada vez mais interessados em conhecer o país. Entre 2013 e 2014, a despeito da crise econômica, o número de turistas do Brasil aumentou 12%, ao mesmo tempo em que o de norte-americanos cresceu 7%, o de franceses, 2%, e o de australianos, ao contrário, caiu 3%.

Mas, para 60% dos brasileiros, uma viagem ao país ainda se resume a Londres e suas atrações icônicas, como os ônibus vermelhos de dois andares, o Big Ben, o metrô e, claro, a rainha. Nada mais justificável, lembrando que a capital ainda tem o Museu Britânico, o Palácio de Westminister, a London Eye e, não menos importante, a Abbey Road. Sem falar em todo o resto — que não é pouco.

Se conhecer Londres é quase uma obrigação para quem desembarca no Aeroporto de Heathrow, ignorar as outras atrações que a Grã-Bretanha tem a oferecer, porém, é quase pecado mortal. Enquanto a capital tem “apenas” cerca de 2 mil anos, o mais antigo resquício de ocupação humana da ilha data de 13 mil anos atrás.

Inglaterra - Cambrige

Da pré-história aos tempos modernos, os britânicos ergueram cidades de pedra, foram subjugados por romanos e povos bárbaros, coroaram quase 70 reis e rainhas, construíram castelos e palácios, elegeram heróis reais e míticos, instituíram uma nova religião, deram ao mundo alguns dos mais célebres artistas e escritores — de William Shakespeare a Agatha Christie —, reinventaram o chá e a cerveja e, mais recentemente, produziram coisas como Harry Potter e Downton Abbey.

Para ver e sentir um pouco de tudo isso, faça as malas, pouse em Londres e caia na estrada. Seja encarando a mão inglesa ao volante, seja embarcando em um ônibus, desbrave a Grã-Bretanha e descubra por que os romanos estavam redondamente enganados.

Glastonbury e Stonehenge

Glastonbury, na antiga ilha de Avalon

Uma terra de magos, druidas, elfos, dragões, fadas, sacerdotisas e cruzados. Repleta de pântanos e envolta em brumas, a Inglaterra é um destino cheio de mistério, povoado por personagens verdadeiros e legendários, que, há centenas de anos, atraem visitantes. Tem sido assim em Glastonbury, o destino mais místico do Reino Unido, desde o século 12. Se, hoje, além de palco de um dos mais famosos festivais musicais do mundo, a cidade é reduto alternativo, com hippies circulando em suas roupas vintage pelas charmosas ruas de pedra, há quase mil anos, os peregrinos viajavam quilômetros a perder de vista por outra razão. Eles estavam ali pelo rei Arthur.

Há muito tempo, ouvia-se na Grã-Bretanha a história de um rei que defendeu seu povo contra os saxões em 5 d.C. A associação de Glastonbury com o legendário monarca, porém, só se popularizou em 1191, quando monges da cidade afirmaram ter encontrado o túmulo de Arthur e de Guinevere, sua mulher, na abadia. Provavelmente, não passava de uma estratégia dos religiosos para recuperar o apoio financeiro real, perdido após a morte de Henrique II. Mas a informação não foi contestada. Glastonbury era Avalon.

Antes disso, a cidade, um antigo assentamento da Idade do Bronze, já tinha fama mística. Para lá teria ido José de Arimateia após a morte de Cristo. Algumas lendas da região vão além e garantem que o próprio Jesus pisou em Glastonbury, onde ergueu, ele mesmo, uma igreja chamada Vetusta Ecclesia, o primeiro templo cristão da Inglaterra. Se há alguma verdade no que se diz sobre o passado religioso da cidade, não há nada que possa comprová-la. Mas é inegável que esse centro de peregrinação tem uma atmosfera diferente, que se evidencia em uma de suas principais atrações: a Glanstonbury Tor (foto abaixo).

Glastonbury -Tor

A montanha (tor, em celta) de 158m oferece uma vista privilegiada do condado de Somerset e, como tudo na cidade, guarda um segredo. Ninguém se sabe ao certo a razão para seu formato, deliberadamente dividido em sete níveis. No topo, como se vigiando eternamente Glastonbury, fica a torre da igreja de São Miguel, única parte do templo do século 15 que restou. Certeza absoluta de fotos incríveis, a atração exige fôlego — embora com paciência qualquer um consiga chegar ao alto — e roupas quentinhas para aguentar o sopro gelado do vento.

Lá embaixo, a principal atração da cidade são as ruínas da Abadia de Glastonbury (foto abaixo). Até o século 16, quando Henrique VIII — o rei que gostava de degolar as mulheres — comprou briga com a Igreja Católica, esse era o maior e mais importante monastério da Inglaterra. A primeira abadia era mais simples e teria sido erguida pelo rei Ine de Wessex (688-726 d.C.) no terreno onde estava a chamada Vetusta Ecclesia. A época de ouro, porém, veio por volta de 1086 d.C., quando registros escritos davam conta da beleza e da riqueza. Ainda se pode ver resquícios das cores e do ouro que cobriam as paredes do templo do complexo. No centro de visitantes, uma maquete mostra a grandiosidade da abadia, onde foram enterrados três reis saxões e, de acordo com a lenda, o rei Arthur.

24/03/2015. Crédito: Alex Graeme / Divulgação. Abadia de Glastonbury.

Circulando pelas ruínas estão personagens de época — arqueólogos que, vestidos a caráter, oferecem tours guiados (incluídos no ingresso) pela abadia. Em meio aos resquícios da antiga construção, demolida a mando de Henrique VIII, eles mostram a cozinha do monastério, um prédio raríssimo na Europa, onde há poucos exemplares parecidos. Construído entre os séculos 13 e 14, o prédio em formato octogonal era onde se preparavam as delícias que serviam os nobres e ricos convidados dos monges, que, por sua vez, tinham de se contentar com a modesta cozinha do claustro.

Glastonbury - Abadia

No centro de Glastonbury, a atração é a própria atmosfera mística e esotérica da cidade. As muitas lojinhas que dividem espaço com pubs e hospedarias medievais vendem artigos religiosos bem diversificados, como crucifixos, incensos, imagens de ciganos e divindades pagãs, além de uma infinidade de ervas e óleos para a confecção de poções mágicas, no melhor estilo de Avalon.

Glastonbury - Centro da cidade

A incrível obra de 5,5 mil anos

A Inglaterra mística não se esgota em Glastonbury. Ainda no sudeste britânico, no meio de uma rodovia, ergue-se, majestosamente, o círculo de pedras de Stonehenge. Imponente, misterioso, testemunho de um período em que as forças da natureza eram divinas para o homem, o monumento, de 5,5 mil anos, atrai visitantes que, mesmo sem compreender exatamente seu significado — nem os estudiosos chegaram a um consenso — sentem-se magnetizados pela edificação.

Inglaterra - Stonehenge

Para começar, Stonehenge impressiona por ser uma obra-prima da engenharia do neolítico. O monumento foi construído com dois tipos de pedra: um grande e pesado arenito típico das planícies do condado de Wiltshire, conhecido como sarsen, e as bluestones, estruturas menores que compõem a parte interna do círculo. Em média, as sarsen pesam 25 toneladas e, segundo arqueólogos, foram transportadas desde Marlborough Downs, a 32km de distância. Já as bluestones pesam de 2t a 5t e também foram carregadas até o lugar onde se ergueu o círculo. O trabalho de polir, levantar e encaixar as pedras certamente exigiu não só força, mas um sofisticado conhecimento técnico.

Stonehenge - Turistas

A maior parte das pessoas que vai até esse Patrimônio Mundial da Humanidade, porém, é mais atraída pelo significado do círculo que pela arquitetura. Poucos monumentos antigos foram alvo de tantas especulações e teorias. Há quem defenda que o propósito inicial era coroar reis, outros dizem que seria um templo druida ou um instrumento astronômico, para prever eclipses e outros eventos. Também poderia ser um centro de cura, um cemitério ou um memorial dos ancestrais. Atualmente, a interpretação mais aceita é a de um templo pré-histórico alinhado com os movimentos do Sol — no solstício (dezembro e junho), uma multidão vai até lá observar o astro e celebrar rituais pagãos, bem à moda neolítica.

Para conhecer melhor a história de Stonehenge, resista à tentação de correr até o monumento e faça primeiramente um tour pelo museu, localizado no centro de visitantes. Há cerca de 300 objetos arqueológicos escavados no círculo e nas proximidades, que explicam as principais teorias e inserem a edificação no contexto da época.

K030970

Dicas básicas

Como chegar
» Glastonbury fica em Somerset, a 50km de Bristol. Para quem sai de Londres, há linhas diárias saindo da estação de Victoria, com duração média de três horas e meia. Horários e rotas em coach.nationalexpress.com. As linhas de trem desde a capital inglesa vão até Bristol, a partir da estação de Paddington. Depois, é preciso pegar um ônibus até Glastonbury. Informações: http://www.thetrainline.com

» Para quem vai a Stonehenge, o ideal é alugar um carro ou partir de Salisbury, de onde sai o transporte público até o monumento. De trem, são 19km e os horários podem ser consultados em http://www.nationalrail.co.uk. De ônibus, a viagem dura 30 minutos e tem saídas a cada 15 minutos. Horários em http://www.salisburyreds.co.uk. Desde Londres, diversas agências de viagem oferecem tours de meio dia com transporte, ingresso e guia.

Circule
» O centro de Glastonbury, onde estão as lojas e a abadia, pode ser circulado a pé. Para ir ao Tor, é preciso pegar um táxi.

» Os ônibus param em frente ao Centro de Visitantes de Stonehenge, onde há um amplo estacionamento. De lá, há transporte próprio da atração até o círculo de pedra

Onde ficar
» Glastonbury pode ser visitada em um dia, mas, para quem deseja se hospedar lá, o centro de turismo da cidade tem recomendações de campings, alojamentos, pousadas e hotéis com preços variados: http://www.glastonburytic.co.uk

Onde comer
» O Hundred Monkeys, em Glastonbury, é frequentado pelo pessoal alternativo, que se preocupa com a origem dos alimentos e a sustentabilidade local. Os pratos servidos no café são à base de ingredientes orgânicos de produtores da região. Há opções de vinhos e cervejas orgânicas, assim como pratos vegetarianos e veganos, a partir de 7,5 libras. Informações em: http://www.hundredmonkeyscafe.com

» Há uma praça de alimentação no Centro de Visitantes de Stonehenge

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s