Olhos D’Água (GO): uma viagem ao passado

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Cavalos e charretes em ruas de pedra ou terra. Casas com fogão a lenha, lamparina e ferro a brasa. Poucas com computador e internet. Sinal de telefone celular, só de uma companhia, em alguns pontos da localidade, onde não há edificação com mais de um pavimento, nem comércio com máquina de cartão de crédito. Também não há caixa eletrônico, agência bancária, lotérica nem posto dos Correios. Tampouco fábrica ou qualquer grande empreendimento. A 100km de Brasília, o povoado de Olhos D’Água em quase nada mudou desde a sua fundação e do tempo da invasão de hippies candangos, criadores da tradicional Feira do Troca.

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O evento chega à 85ª edição hoje e vai até domingo. Desde 1974, ele é realizado duas vezes ao ano, no primeiro fim de semana de junho e no primeiro final de semana de dezembro, recebendo cerca de 8 mil visitantes por edição — o vilarejo tem cerca de mil habitantes. De fundamental importância para a produção artesanal, do turismo, da cultura e da economia local, a feira mantém a tradição do escambo, principal forma de negócio da população até o fim dos anos 1980 (leia Para saber mais). A troca por necessidade, porém, não mais existe. Mas permanece a tradição da troca justa, que interessa e proporciona satisfação e prazer para as partes.

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Sem pressa de crescer, Olhos D’água tem números tímidos no setor do turismo. Opções de hospedagens para o público em geral são cinco: três pousadas e dois hotéis-fazenda. A maioria dos visitantes ainda fica em casas de fim de semana de parentes ou amigos. Em Pirenópolis (GO), principal cidade turística da região, por exemplo, há cerca de 110 pousadas e hotéis. Restaurantes e bares em Olhos D’água não passam de 10. Ruas pavimentadas, são apenas seis. O único transporte público é uma charrete, que cobra R$ 5 por frete. A maioria da população se locomove de bicicleta e a cavalo. Ainda há carros de boi nas pequenas propriedades, cada vez em menor número por causa das fazendas de grãos.

Vida na roça

Os irmãos Giovânio, 20 anos, e Danilo Gomes de Oliveira, 28, moram no núcleo urbano do povoado, mas trabalham nas fazendas, plantando, colhendo, fazendo pequenas obras. Eles e o amigo Amilton da Costa França, 35, dividem uma charrete para se locomover pela região. “Ela é o nosso carro e caminhão. Leva a gente para o trabalho, para a casa. E ainda ajuda a gente a ganhar um dinheirinho, com fretes”, ressalta Danilo. O trio não se incomoda com a ausência de um veículo motorizado. Só reclama da falta de alguns serviços básicos no vilarejo onde nasceu, cresceu e sempre morou. “Para pagar uma conta, a gente tem que ir até a cidade”, conta Amilton. A cidade é Alexânia, município ao qual Olhos D’água está subordinada, distante 15km do distrito (veja Memória).

Aos 66 anos, o trabalhador rural aposentado Antônio de Souza Lemos diz não sentir falta de nada no lugarejo onde foi criado com os 10 irmãos e criou a família. “Mora em uma chácara, onde tenho tudo que gosto: fogão a lenha, água na moringa, meus cavalos, minhas galinhas, minha horta, minhas vaquinhas que dão o meu leite”, conta ele, sentado em um banco de madeira, sob a sombra de uma árvores frondosa, em meio a uma pitada de cigarro de palha e ao lado de  um dos seus três cavalos, com os quais se locomove por Olhos D’Água. Ele ainda cuida da casa herdada dos pais, uma construção de 60 anos, feita de madeira e adobe, com chão de terra e teto baixo, típica da região. A um quarteirão da principal praça do lugar, onde acontece a Feira do Troca, a propriedade tem horta, galinheiro e curral.

Quem também não abre mão de uma comida feita em fogão a lenha é a cozinheira Vilma de Moraes, 37 anos. Há dois anos, ela assumiu o mais tradicional restaurante da comunidade, o Quintal Doce. Mas, desde então, só mudou a dona. todos os pratos são feitos em panelas velhas, no fogão a lenha, com ingredientes frescos. A comida é servida sobre outro fogão a lenha, na varanda de uma casa onde também funciona uma simples pousada. “Para manter o sabor ao gosto do cliente, acordo cedo todo dia, para lavar as verduras e começara a preparar o resto. Todo o dia, tem carne de porco, costela e frango caipira”, garante. A comilança é servida pontualmente ao meio-dia. Quem quiser comer à vontade, paga R$ 15, durante a semana, e R$ 25, no fim de semana.

DICAS DE VIAGEM

Como chegar

São 100km do Plano Piloto até Olhos D’água. O motorista pega a BR-060 (Brasília-Goiânia) até Alexânia, percorrendo 85km. Entra na principal avenida comercial da cidade goiana e roda até o último balão, onde começa a GO-139. Segue 10km pela rodovia estadual, até um trevo, onde há uma placa indicando Olhos D’água. Dali até o povoado são mais 5km.

Onde comer

Quintal Doce: tradicional comida goiana feita e servida em fogão a lenha, que inclui frango caipira e carne de porco. Almoço à vontade por R$ 25, incluindo doces caseiros como sobremesas.

ComTradição: mais sofisticado restaurante do lugar, mistura pratos das culinárias indígena, africana e portuguesa. Tem ainda a tradicional galinhada goiana e pizzas com ingredientes locais, como linguiça e costelinha de porco. Tel. (62) 3322-6211 / http://www.restaurantecomtradicao.blogspot.com.br / www.facebook.com/RESTAURANTECOMTRADICAO

Toca do Alemão: petiscos — sanduíche de pernil; linguiça de porco caseira, acebolada, acompanhada de pão, entre outros — e bebidas, frias e quentes, com música o vivo. Abre de quinta-feira a sábado, das 20h à meia-noite. (62) 3322-6206 e (62) 9838-1014 / www.tocadoalemaoolhosdagua.com / facebook.com/Tocadoalemaoolhosdagua

Onde dormir

Pousada da Lázara: a mais simples e barata hospedagem, fica na casa da dona, que lhe dá o nome. Não tem site.

Pousada Recanto dos Ipês: montada em uma chácara, tem três quartos e um banheiro, com churrasqueira. Reservas pelo telefone (62) 3322-6272 e (62) 9840-9499 / http://www.facebook.com/recantodosipesolhosdagua

Pousada Coisas de Olhos: também com três quartos e um banheiro, fica de frente à praça principal. Móveis e prédio são em estilo colonial. Mais informações: (62) 3322-6202, 3322-6178 e (61) 9917-0374 / www.facebook.com/CoisasDeOlhos

Pousada Professor Armando: espécie de mini hotel-fazenda, com seis apartamentos, dois chalés, área para camaping, piscina, campo de futebol, playground e outros atrativos. Contatos: (62) 3322-6176 / www.pousadaprofessorarmando.com / facebook.com/pousadaprofessorarmando

Hotel-fazenda Cabugi: mais completo da região, fica a 10km de Olhos D’Água. (61) 3963-8070, (62) 3336-1199, (62) 3336-3210 / www.hotelfazendacabugi.com.br / facebook.com/hotelfazendacabugi

O que comprar

Alfajor de Goiás: feito de forma caseira, segue a receita argentina. Tem nos sabores chocolate ao leite, chocolate branco e chocolate meio-amargo. Encomendas pelo telefone (62) 3322-6248.

Sabonete do Cerrado Bem Brasileiro: produzido também de maneira artesanal, contem substâncias e aromas de flores e frutos do cerrado. Encomendas: (62) 3322-6146, (62) 9610-0349, (62) 3322-6248 / www.sabonetebembrasileiro.negociol.com

Artesanato: bonecas, anjos e santos feitos de palha de milho são os mais típicos do povoado. Também há muitas peças feitas de barro, que vão de potes, vasos a figuras sacras. Lojinhas vendem ainda bonecos de pano, quadros de pintura a óleo, tapetes, bolsas entre outros itens feitos por artistas locais. Os preços variam de acordo com os detalhes e o tamanho da peça.

Feira do Troca

PARA SABER MAIS

Iniciativa brasiliense

A Feira do Troca teve inicio em dezembro de 1974, com a iniciativa da artista plástica e professora Laís Aderne, da Universidade de Brasília (UnB), após ela se deparar com a pobreza dos moradores de Olhos D’Água. Ao fazer um projeto de arte-educação, ela identificou os mestres artesãos, resgatou os fazeres tradicionais da população nativa e criou um canal de escoamento para a produção artesanal.

Aderne e amigos brasilienses, entre eles o Armando Faria, então professor de literatura na UnB, tiveram a ideia de juntar roupas e utensílios. Valendo-se do costume local que tinha como forma de comercialização a troca (escambo), criou-se um evento onde se trocavam roupas, sapatos, utensílios domésticos usados, trazidos pelos visitantes de cidades vizinhas, por produtos do vilarejo: artesanato e produtos da agricultura local. Uniram-se duas práticas tradicionais da comunidade, o escambo e o artesanato de raiz.

Com o passar do tempo, a Feira do Troca se consolidou como grande evento turístico que, além da atividade tradicional de escambo e venda de produtos da terra, apresenta ao público local e visitante uma agenda cultural rica e variada, com atrações que incluem apresentações musicais com artistas locais, duplas sertanejas de raiz, moda de viola, danças tradicionais como o catira, teatro de mamulengo e contação de causos. Além disso, os visitantes podem se deliciar com os produtos da gastronomia local, como galinhada, galinha com pequi, empadão goiano, frango com gueiroba, pamonha, caldo e engrossado de milho e muito mais.

MEMÓRIA

Promessa a santo

Olhos D’água surgiu de uma promessa religiosa, feita por uma moradora da região, de construir uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua. Em torno da pequena igreja, fundada em 1941 em terras doadas por dois cunhados fazendeiros, cresceu o povoado de Santo Antônio de Olhos D’água. Na época, subordinado a Corumbá de Goiás, as suas terras foram repartidas pela Igreja Católica em pequenos lotes, vendidos a quem quisesse se estabelecer.

Os homens trabalhavam como meeiros para os fazendeiros da região. Plantavam milho, feijão, arroz e mandioca e mantinham pequenas criações. Além disso, produziam, para seu uso, utensílios de barro, como panelas, potes e artigos de tecelagem. Com o isolamento do povoado, a população criou um modo de vida próprio. Era autossuficiente em gêneros de primeira necessidade, fiava e tecia sua roupa e fazia seus utensílios — gamelas, colheres de pau e cestas.

O modelo de arquitetura das casas veio pelas mãos dos mestres de construção de Corumbá, que conservaram as mesmas características das antigas casas da região, dando a impressão do vilarejo hoje ser mais antigo do que aparenta. Com o nome de Olhos D’água, ele acabou emancipado em 14 de novembro de 1958, virando um município. Mas, dois anos depois, a sede municipal passou para os povoados de Alexânia e Nova Flórida. Em 1963, a cidade ganhou de vez o nome de Alexânia, tornando Olhos D’água um distrito dele.

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