Marvila, o bairro secreto de Lisboa

De Marvila a Xabregas.jpg

Do El País

O Tejo passa adiante, mas mal se vê, encoberto por contêineres coloridos, gruas imóveis, barcos que não navegam, estradas com limite de 50 quilômetros que ninguém respeita e armazéns que já não armazenam. No bairro lisboeta de Marbilla não chegam os tuk tuks, e o café ainda sai por 50 centavos. Não há lojas de souvenirs e na barbearia A Moderna ninguém lembra quando lhe puseram tal nome. Outras lojas nem tem nome, basta colocar na rua urinóis, vassouras, baldes. Ou escrever: “Purificam-se móveis”.

Rua do Vale Formoso de Cima, no bairro lisboeta de Marvila - Enric Vives-Rubio

Em Marvila não há monumentos, mas enormes armazéns em decomposição onde homens de macacão azul e mãos como raquetes puxavam mercadorias. Agora restam os esqueletos de seus galpões industriais, espaços vazios à margem da reluzente Lisboa, mas a preço de bairro decadente. Depois de conquistado o Chiado, o Bairro Alto e a Baixa, os jovens criadores e empreendedores veem o futuro onde durante todo o século XXI somente havia decrepitude. Agora, para descobrir as últimas novidades de Lisboa, das galerias de arte a cervejas caseiras, é preciso passar por Marvila.

Mapa de Marvila

10h Café com calma

As manhãs são dos aposentados, que se reúnem na praça David Leandro da Silva, com seu quiosque de jornais e o único banheiro ao ar livre da cidade. Um transistor anônimo reproduz um fado depois do outro. É a única coisa que se escuta nessa pracinha triangular protegida por dois ilustres armazéns de vinho do século XIX, No de José Domingos Barreiro seu grande relógio parou às quatro e pouco, encaixando-se na nostálgica canção de Luis Eduardo Aute. Os dois ritmos desse bairro, as duas vidas paralelas, se refletem em seus horários comerciais. À primeira hora, os mecânicos se aquecem no Café Velho (2) e no A Doca (3), lugares da vida inteira onde nunca falta um pouco de conversa antes de começarem a recauchutar pneus. Lá pelo meio da manhã abre o Café com Calma (4), nome oportuno, porque se o português é naturalmente calmo, o café, paradoxalmente, ele toma depressa, talvez porque no final do dia não serão um nem três. Para além do nome, este local convida ao relaxamento, com a estética imperante em Lisboa de deixar tudo como está, a decoração de não-decoração. Não faltam banquinhos de fórmica, cadeiras e mesas do seu pai ou da sua mãe, e paredes livres de adornos. Aqui a clientela é recém-chegada, jovem e estrangeira, com trabalhos que necessitam de muitas palavras, e em inglês, para serem definidos:community manager, brand activator e coisas assim. Aqui eles não veem para bater papo, mas porque há wi-fi.

12h Passeio pelo Tibete e o barroco

No meio da manhã começa a vida no LXWH, ou seja, no Lisbon Work Hub, ou seja, nos cubículos de coworking (espaços compartilhados de trabalho) no qual foi transformado o outro grande armazém de vinhos da praça, o Abel Pereira da Fonseca (5). Sua fachada art déco, com sua rosácea envidraçada e a sacada para a praça, diz muito de seu glorioso passado. Na lateral do edifício, enormes grafites de baleias e cachalotes lembram que dali se vê o mar, que é como os turistas chamam o Tejo. Destruição e construção convivem sem fazer ruído. É preciso passear com paciência para perceber os detalhes de que os novos desenhadores do mundo vivem aqui dentro: uma parede de concreto foi forrada de madeira de pinho, graças à inquietação da equipe de Vertigo (6), onde ensinam a escalar. Também não é fácil descobrir, na rua do Açúcar, Asian (7), armazéns sem fim de móveis tibetanos, chegados de lá longe, mas já com os preços do lado de cá. Na ruela do Capitão Leitão (8) a senhora Mafalda pendura na rua as roupinhas de seu bebê, pois hoje não chove, em frente às galerias de arte Múrias Centeno e Ar Sólido. O morador Joan Maria está com seu pincel e cavalete restaurando um quando do século XVIII; outros colegas reproduzem a biblioteca da Universidade de Coimbra para a fazenda de um milionário com inquietações.

14h Cervejas caseiras luso-estadunidenses

Antes de almoçar está aberta a fábrica de cerveja Dois Corvos (9), outra das muitas iniciativas promovidas por casais mistos: a portuguesa Susana Cascais e o norte-americano Scott Steffens –ela, profissional do marketing, ele, engenheiro de software. Conheceram-se nos Estados Unidos, mas se dedicam aqui à cerveja caseira. Já estão em 2.000 litros por mês, com marcas de grife que colocam nos restaurantes e em sua Cervezateca. As opções para almoçar vão da alta cozinha do Entra (10), de Pedro Marques, com gastronomia a 19,50 euros (83 reais) o menu, ao A Concha (11), o restaurante do bairro da vida inteira, onde não faltam o pregado nem a santola (centollo) e o menu dificilmente chega a 10 euros (43 reais).

18h Faça amor e não a guerra

No meio da tarde, quando são baixadas as persianas das oficinas, abrem-se as galerias de arte, os centros culturais e os lugares de atividades extraescolares. O Clube Oriental de Lisboa (12), fundado há 66 anos, ensina a jogar futebol e a dançar. Em frente acaba de ser aberto o último local para castigar o corpo, uma academia de crossfit. Tempos estranhos, pois para relaxar é melhor se recolher à Fábrica de Armas Braço de Prata (13). O cenário abandonado do último romance de José Saramago, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, foi transformado por Nuno Nabais em um espaço único de refúgio cultural. Nabais foi o primeiro a acreditar na transformação de Marvila. O pátio semiabandonado da fábrica reúne grafites interessantes e no interior há salas para quem quiser fazer alguma coisa, pintar, ler ou assistir a concertos. Tudo grátis. No bairro foi aberta a galeria Alexandre Farto, que se dedicava a pular nos trens para pintá-los. Em Underdogs (14) se expõe o melhor da arte de rua. Os murais de Farto, artisticamente Vhils, gritam em lugares abandonados de todo o mundo, e também de Lisboa, onde organiza tours para ver os grafites.

21h A noite no Poço do Bispo

A noite de Marvila se concentra na esquina do Poço do Bispo. Ali, ouro casal misto, a portuguesa Marisa Cerqueira e o chinês Binlu Zhu, abriram o Dinastia Tang (15), um restaurante chinês nada óbvio. Ela estudava mandarim em Xangai, ele se dedicava à fotografia e, por que não?, abriram o local na esquina da esquina do mundo. Um velho armazém de vinhos é hoje um elegante e acolhedor restaurante com mobiliário trazido da China. Seu menu se concentra na cozinha cantonesa, embora as especialidades sejam o frango de Sichuan, a sopa de codornas e a raiz de lótus com mel. Para dançar é preciso andar 10 metros até o Beatus (16), onde servem bebidas e a adega impressiona, e são organizadas feiras uma vez por mês; mas as noites do fim de semana são para as bandas de música, que tocam no terraço que dá para o Tejo enquanto seus contêineres, suas gruas e seus barcos descansam.

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