As melhores coisas gratuitas para fazer na Cidade do Cabo

Camps Bay, Cidade do Cabo

por Simon Richmond, do Lonely Planet

Um rand (moeda sul-africana) relativamente fraco faz da Cidade do Cabo um destino mais acessível para visitar, e a cidade certamente proporciona relação qualidade-preço quando se trata de comida e acomodações. Mesmo assim, todo mundo gosta de alguma coisa de graça, e nesse aspecto a Cidade-Mãe transborda de opções.

Margem de V&A

Atraindo 24 milhões de visitantes por ano – mais que as pirâmides do Cairo – a sua brilhante mistura de comércio e entretenimento turístico, a Margem de V&A ainda é um porto ativo com a maior parte de sua estrutura intacta. Uma das melhores maneiras de dar uma olhada em seu passado, bem como de entender seu extenso local, é acompanhar o passeio histórico guiado; pegue um mapa gratuito do trajeto no centro de informações para visitantes da Dock Rd.

Ao longo do caminho, tire sua foto com Desmond Tutu e Nelson Mandela – gigantescas estátuas de ambos, desenhadas por Claudette Schreuders, ficam em Nobel Square ao lado das de outros dois ganhadores do Prêmio Nobel da África do Sul, Nkosi Albert Luthuli e FW de Klerk. Na Entrada Nelson Mandela, ponto de partida de balsas para Robben Island, há uma boa exibição gratuita sobre a luta pela liberdade e a vida na prisão que, hoje, é Patrimônio da Humanidade da Unesco.

O Market Square Ampitheatre é o foco da maioria dos entretenimentos gratuitos, incluindo artistas de rua e vários números de música e dança. Vídeos são mostrados numa tela gigante, e há shows ao vivo das 17h às 18h, aos sábados e domingos.

Caminhada nas montanhas

 

 Turista avista a Cidade do Cabo, do alto da Montanha da Mesa

O Parque Nacional Table Mountain  é um fantástico recurso natural, orgulho da Cidade-Mãe. Embora haja taxas para entrar em algumas partes do parque, como em Boulders (lar de uma colônia de pinguins-africanos) e a reserva natural do Cabo da Boa Esperança, não há cobrança para caminhar pelas inúmeras trilhas em Table Mountain (foto acima e abaixo), acima da Lion’s Head ou ao longo da Signal Hill.

Cidade do Cabo - Trilha de pedra na Montanha da Mesa

Nenhuma das rotas acima de Table Mountain é fácil, mas a rota Platteklip Gorge, de 3km de extensão e acessada pela Tafelberg Rd, pelo menos é direta. Ela é bastante íngreme, e pode contar que vai levar cerca de 2h30min para você chegar à estação superior de teleférico em ritmo constante. Atenção: a estrada fica exposta ao sol, então suba de manhã, tão cedo quanto possível, leve muita água e filtro solar e, de preferência, não faça a subida sozinho.

Cidade do Cabo - Silhueta de turistas e teleférico da Montanha da Mesa

Mesmo assim, não é preciso chegar ao topo da Table Mountain para conseguir vistas espetaculares. Uma caminhada curta atrás da estação inferior de teleférico vai trazê-lo ao Contour Path, fazendo um caminho bem plano a leste em torno do Devil’s Peak até King’s Blockhouse. O Pipe Track atravessa o lado oeste da montanha em direção aos Twelve Apostles [Doze Apóstolos] e proporciona vistas estonteantes da costa.

Belas praias

 

No Pipe Track, ao olhar para baixo, você vai espiar algumas das praias mais belas da Cidade do Cabo. Separada do bar e do restaurante por uma calçada guarnecida de palmeiras e grama, Camps Bay é uma maravilhosa extensão de areia macia. No entanto, pode ficar lotada, especialmente aos fins de semana, e fica exposta ao vento. O forte é o surfe e o oceano Atlântico é gelado; por isso, não é exatamente própria para nadar.

Mais resguardadas são as quatro praias de Clifton, divididas por rochas gigantes de granito. Clifton 3rd, a mais bonita e mais deserta do quarteto, isolada por casas de praia nas colinas, é popular entre os cabo-verdianos gays, assim como Sandy Bay, a praia de nudismo mais ao sul da costa Atlântica. Você não precisa, no entanto, ser gay ou nudista para aproveitar essas praias, e a última tem incríveis formações rochosas gigantes para explorar.

Famílias vão adorar as praias Muizenberg e St James, ambas repletas de chalés vitorianos de cores bem vivas. Localizadas no lado False Bay da Cidade do Cabo, ambas têm muito mais água quente do que o lado Atlântico. Considere também uma caminhada ao longo da abençoada Noordhoek Beach. No meio dessa praia de 5km, o casco enferrujado do navio a vapor Kakapo se destaca na areia como uma escultura bizarra. Ele encalhou aí em 1900, em sua viagem inaugural da Grã-Bretanha para a Austrália.

Arte de rua

Admirar a vibrante arte de rua que decora as laterais de muitos edifícios em District Six (abaixo, foto do museu que leva o nome do bairro) e Woodstock não custa nada. Uma pintura azulada de Nelson Mandela cobre um lado da subestação elétrica 13 na Canterbury St, enquanto no outro há um mural dedicado ao District Six. Ambas as imagens são obra de Mak1one (conhecido como Maxwell Southgate), que também decorou a fachada contrária do Charly’s Bakery, e cuja inconfundível arte de rua pode ser vista em diversos outros locais pela cidade.

Cidade do Cabo -Placas e fotos, Museu do Distrito 6

Outra artista de rua prolífica é Faith47Land & Liberty, sua imagem de uma mãe com um bebê atado às suas costas apontando para Lion’s Head, cobre a lateral de um edifício de oito andares em Keizersgracht. Na lateral de outro edifício visto de De Waal Drive fica a tela para o The Harvest, da artista. Essa orgulhosa africana segurando uma colheita de cana integra luzes eletrônicas que acendem quando uma doação é feita para o projeto #ANOTHER LIGHTUP, que financia luz para espaços públicos no município de Monwabisi Park.

Uma rede de ruas fora da Albert Rd, em volta do Woodstock Exchange, serve de tela para algumas artes de rua maravilhosas, muitas delas criadas durante um projeto colaborativo entre uma galeria de renome e o Adidas Originals, em 2011. Mais obras foram acrescentadas desde então, como Raised By Wolves, de Nardstar, e Freedom Day Mural, de Freddy Sam.

Jardins e parques

Passear pelos frondosos Company’s Gardens no coração do centro da cidade não custa nada. Lá você pode admirar várias cenas: árvores que datam de épocas da Companhia Holandesa das Índias Orientais, bonitos canteiros e uma variedade de estátuas, incluindo uma de bronze do político e magnata da mineração Cecil Rhodes.

Cidade do Cabo - Prédio comercial no Quarteirão do Mercado

Também no centro da cidade, o Prestwich Memorial Garden é repleto de uma coleção de esculturas peculiares e instalações de artistas cabo-verdianos; elas incluem o arco-íris It’s Beautiful Here, de Heath Nash, e Full Cycle Tre, de KEAG, sendo que a última foi feita de plástico reciclável.

Um legado ecológico da Copa do Mundo de 2010 é o Green Point Urban Park, que expõe a biodiversidade do Cabo e proporciona uma vista frontal do Estádio da Cidade do Cabo. E, da linda Oranjezicht City Farm de estrutura urbana nas encostas de Table Mountain, há vistas esplêndidas do porto de Table Bay.

O essencial da África do Sul

Feirante em feira de artesanato de Sea Point

André Shalders, do Correio Braziliense

Diversidade é a palavra que melhor define a pátria de Madiba, o símbolo mundial da paz contra a intolerância. A terra onde nasceu Nelson Mandela é uma impressionante mistura de culturas, línguas (são 11 idiomas oficiais), sabores, cores, paisagens e passeios. O Turismo mostra que é possível viajar desde a planície até as montanhas, passando por florestas e praias e vivenciar experiências radicais ou sofisticadas como balonismo, escaladas e bungee jumping, rafting e surfe ou jogar golfe, fazer um safári fotográfico, descansar em luxuosos hotéis e experimentar deliciosos pratos e belos vinhos nas dezenas de vinícolas ao longo de uma rota com paisagens de tirar o fôlego.

Cidade do Cabo - Península do Cabo
Banhada por dois oceanos — o Atlântico e o Índico —, a África do Sul tem um clima quente e agradável durante todo o ano. Mais do que um destino turístico com diversas oportunidades de diversão, o país proporciona um mergulho em um dos capítulos mais emocionantes da história mundial, que conta a batalha pacífica e vitoriosa do primeiro presidente negro do país contra o Apartheid.

Cidade do Cabo - Turista avista a Cidade do Cabo, do alto da Montanha da Mesa

Na Cidade do Cabo

Robben Island

A ilha onde Nelson Mandela cumpriu pena entre 1964 e 1982 abriga hoje um museu, destinado a contar a história do lugar. É possível inclusive visitar a cela onde Mandela esteve preso. Barcos para a ilha partem do cais Victoria & Alfred, no centro.

Robben Island, entrada da prisão

Balada na Long Street

Assim como no restante do país, a maioria dos estabelecimentos fecha cedo em Cape Town. A exceção são os bares, clubes e restaurantes da Long Street, que concentra a vida noturna da cidade.

Em Joanesburgo

Soweto

Cidade contígua a Joanesburgo, Soweto surgiu nos anos 1960 como um gueto para abrigar negros, impedidos de manter casas nas mesmas regiões que os brancos. Lá é possível visitar a casa onde Mandela viveu com Winnie, sua segunda esposa, no bairro de Orlando.

Foto de Renato Alves

Museu do Apartheid

Uma experiência de imersão nos 46 anos do regime de segregação do país. A história recente da África do Sul é repassada em vídeos, textos, objetos, fotografias. Para quem não fala inglês, é importante estar acompanhado de intérprete. É possível passar uma tarde inteira e não esgotar o conteúdo do Museu.

Joanesburgo - Museu do Apartheid

Joanesburgo - Museu do Apartheid, documentos e fotos de Mandela

Maboneng Precinct

Uma zona anteriormente em decadência, no centro de Joanesburgo, o bairro foi revitalizado e hoje abriga cafés, restaurantes, galerias de arte, venda de artesanato e hotéis descolados.

Chaminé em SowetoOrlando Towers

Uma antiga termoelétrica desativada, cujas duas torres, hoje cobertas por grafites, podem ser vistas à grande distância.

O local abriga um centro de esportes radicais, que oferece bungee jump, paint ball, escalada e outros.

 

Rota sul-africana dos jardins e vinhedos

Stellenbosch – Da Cidade do Cabo se vai para todos os outros destinos de Western Cape, a província (estado) do qual ela é a capital. Para chegar aos pontos mais interessantes, o melhor é alugar um carro. Apesar da mão inglesa, é muito fácil dirigir na África do Sul. As estradas são bem conservadas, sinalizadas, seguras e têm uma paisagem deslumbrante, com várias paradas para descanso e fotografias.

Qualquer localidade, por menor que seja, possui um centro de informação ao turista, com folhetos, dicas de visitas e hospedagem. Tudo muito barato. Pousadas e hotéis padrão quatro estrelas cobram, em média, 600 randes pelo quarto duplo. Algo como R$ 150. Com outros 120 randes (R$ 30) come-se muito bem em qualquer lugar.

Deixando a Cidade do Cabo no sentido leste, pela estrada N1 e depois pela R304, após 70km e menos de uma hora, você já está na Região dos Vinhedos. Se quer conhecer boa parte das fazendas e degustar seus ótimos vinhos, reserve dois dias, dormindo uma noite em uma das propriedades ou numa pousada ou hotel de uma das cidades.

A maior zona produtora de vinhos do continente africano tem mais de 100 fazendas dedicadas à produção da bebida, 66 cooperativas e mais de 100 adegas particulares. Há muitas rotas passando pelas propriedades rurais. Todas bem sinalizadas. A mais tradicional e charmosa circunda a bela cidade histórica de Stellenbosch.

Repleta de mansões vitorianas, Stellebonsch tornou-se o centro da cultura africânder no país — os brancos descendentes de holandeses que chegaram à África do Sul no começo do século 17 e logo tomaram as terras dos nativos negros.

A cidade por si só vale uma visita. Além dos casarões, tem uma universidade de referência e prédios históricos, como o paiol de pólvora da Companhia Holandesa das Índias (foto abaixo), de 1777, e a Rhenish Church, igreja erguida em 1823 como escola para filhos de escravos. Tudo dá para ser explorado a pé. Mapas são distribuídos no centro de informação turística, na Market Street.

Fazendas centenárias ficam nos pequenos vilarejos da vizinhança e recebem o visitante para degustação. O mais procurado é o complexo Spier, onde fica o restaurante Moyo, acessível pela N2 e pela R310. É possível, inclusive, hospedar-se no hotel do Spier. Mas caro, para o padrão sul-africano.

Herança francesa

De Stellenbosch, pegue a estrada N45 a caminho de Franschhoek. Antes, pare em Boschendal (foto abaixo), propriedade de 1865 que, em 1715 foi entregue por holandeses a uma das famílias francesas que chegaram à região fugidas do país de origem. A partir de 1796, a Boschendal começou sua história de sucesso na produção de vinhos.

A mansão da fazenda, a Manor House, hoje é um museu, que guarda o luxo do período colonial, com móveis e até frisos originais. Além do casarão, onde a visita custa 15 randes (cerca de R$ 4), a propriedade tem loja com seus vinhos, café com lanche e almoço, além de degustação.

Após a visita a Boschendal, volte a R45 e depois pegue a R47 até Franschhoek (foto abaixo). A cidade de 8 mil habitantes tem forte personalidade francesa. Além da fachada das casas, ela está evidente em nomes como La Provence, Haute Cabrière e L’Ormarins, expostos na entrada de restaurantes, cafés e fazendas.

Aliás, os mais de 30 restaurantes da cidadezinha construída ao pé da montanha oferecem ótimos pratos sul-africanos, malaios e provençais. No entorno do município, mais de 30 adegas estão abertas à visitação. Algumas com restaurantes e cafés. Se tiver tempo, passe uma noite nesse local. Acordar sob a montanha, em meio a um vinhedo e tomar um café na fazenda ou na cidade, valem cada centavo.

Baleias e tubarões

De manhã, siga pela N2, até Mossel Bay. São 400km por entre fazendas de carneiro e campos de trigo. Outra cidade que vale uma hospedagem, Mossel Bay marca o início da Garden Route, ou Rota do Jardim. Para muitos, a mais bela estrada do país.

Mossel Bay tem 24 km de praia (com natação segura em áreas designadas), áreas de observação de baleias, mergulho em jaula com tubarões, reservas particulares de mini-safári sem perigo de malária e campos de golfe profissionais. Mas a maior atração de Mossel Bay é o Bartolomeu Dias Museum Complex.

Ele guarda, entre outras coisas, uma réplica perfeita da nau do século 16 usada pelo navegador português na viagem épica em que ele e sua tripulação desembarcaram em diversos pontos da costa oeste africana erguendo padrões (cruzes de pedra). O maior feito deles foi o contorno do Cabo da Boa Esperança, abrindo o caminho marítimo para o comércio de especiarias com as Índias.

Trem sobre o mar

Após Mossel Bay, vem Wilderness. A estrada passa entre lagos de água doce ou salgada e montanhas cobertas de verde. Dois parques podem ser visitados: no Wilderness National Park, a atração são as aves e os peixes; no Goukamma Nature Reserve, também nos arredores da cidade, prepare-se para ver antílopes. Mas não pare para dormir nessa cidade. Siga na direção de Knysna, ficando em George.

O caminho de 50km entre Wilderness e Knysna tem paisagens inesquecíveis, como a ponte do Rio Kaaimans, por onde passa o trem Choo-Tjoe Choo-Tjoe. Deixe o carro por algumas horas para curtir uma aventura de outros tempos: o passeio de maria-fumaça entre George e Knysna.

O trem sai de George às 9h30 (segunda a sábado), chega a Kysna às 12h, de onde sai às 14h15 e chega a George às 17h.

No caminho, a máquina sopra seu vapor em meio a pinheirais, agarra-se à beirada de rochedos e curvas fechadas, atravessa pontes que passam por lagos e florestas até, finalmente, chegar à ponte de 2km que cruza Knysna Lagoon.

Deixando o trem, volte ao carro e à N2 em direção à Knysna, onde vale ao menos um dia inteiro e uma noite. O município de 80 mil habitantes criou fama com cenários deslumbrantes, montanhas, lagos e o Oceano Índico.

Knysna é um balneário dos ricos sul-africanos. Paredões de pedras abrigam mansões e diversas modalidades de acomodação para turistas.

A cidade protegida por lago de 17 km de extensão e fechada por montanhas em forma de mesa é ainda um centro de pesca e turismo de natureza com fama de oferecer algumas das ostras mais saborosas do mundo.

Distante 20km do centro da cidade, o Knysna Elephant Park tem 12 gigantes muito bem tratados. Na reserva, onde é possível até passear sobre os animais, o quarto mais barato sai por 639 rands (cerca de R$ 160). Preço salgado, se comparado às tarifas das pousadas locais.

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Esperança, praias e pingüins

Cidade do Cabo – Caso amanheça com um sol daqueles (comum no verão), vista bermuda ou biquíni e siga para uma das praias próximas do centro, como Camps Bay, Clifton e Sea Point. Além da areia e do mar, elas oferecem pistas de caminhada e excelentes restaurantes, sempre ocupados por gente bonita e endinheirada. Camps Bay, com grande concentração de mansões, pertencentes a estrelas locais e internacionais, é a mais chique delas.

Também não deixe de aproveitar um dia ensolarado para fazer um tour por toda a península mais ao sul do continente africano, ocupada pela Cidade do Cabo. O passeio, feito de carro ou van, deve começar pela Chapman’s Peak, estrada cortada na superfície de rochedos que tem início após Camps Bay e Hout Bay – importante centro de pesca e outra linda área residencial da costa atlântica – e leva ao famoso Cabo da Boa Esperança. O trecho de rodovia sobre o mar tem mirantes para avistar baleias, golfinhos e todo o oceano.

Após passar pela Chapman’s Peak e dezenas de pequenas propriedades rurais, chega-se à pitoresca Simon’s Town (foto abaixo). Base da Marinha sul-africana desde 1957, o povoado de 14 mil habitantes tem na arquitetura clássica das construções da rua principal o seu maior charme. Nelas funcionam pequenos mercados, cafés, hotéis e interessantes restaurantes.

Vizinha a Simon’s Town, Boulders Beach encanta os turistas pela sua colônia de pingüins africanos que chegaram em 1982 e se instalaram na praia. Boulders é um dos poucos lugares do mundo onde esses animais podem ser observados de perto, passeando livremente entre os visitantes.  Só é proibido tocá-los. Também é preciso cuidado para não pisar em ninhos e bom senso para não chegar tão perto a ponto de estressar os animais.

Perigosos babuínos

Ainda no caminho do Cabo da Boa Esperança, placas alertam para os perigos dos babuínos. Eles são vistos em bandos na margem da rodovia. Nunca se deve abrir os vidros, jogar alimentos para esses primatas e menos ainda descer do veículo com eles por perto. Eles são bravos e atacam com mordidas e socos quando se sentem ameaçados ou querem comida.

Por fim, chega-se ao Cabo da Boa Esperança, uma parte do Cape Peninsula National Park. Ele compreende mais de 7,7 mil hectares de colinas, trilhas para caminhadas e praias desertas. Também há um grande número de animais selvagens, incluindo antílopes, avestruzes e babuínos. Ainda na península, visitantes podem subir no mirante do Cape Point e admirar a vista que normalmente só pássaros têm.

Paraíso das compras

O histórico V & A Waterfront tornou-se um dos pontos mais visitados da Cidade do Cabo. O porto tem luxuosos hotéis, shoppings, mais de 40 opções de comidas etnicamente diferentes, mercados de arte e artesanato, música ao vivo, salas de cinema, diversos festivais culturais ao longo do ano. Muitos pubs estão instalados no local, o que faz dele também uma excelente opção à noite. E ainda há o maior aquário oceânico da África e focas selvagens vivendo livremente no cais.

Dentro do cárcere de Mandela

Cidade do Cabo – A ilha onde Nelson Mandela ficou 18 dos 27 anos preso é um dos pontos mais visitados por sul-africanos e estrangeiros na Cidade do Cabo. Todos interessados em conhecer as atrocidades do apartheid. Muitas lembradas por ex-prisioneiros políticos, também trancafiados durante anos por lutar contra o regime de segregação criado pelos brancos descendentes de holandeses.

Distante 12km do porto da costa da Cidade do Cabo, a Robben Island começou a receber líderes negros que se rebelaram contra o apartheid em 1960. Somente 31 anos depois, ela foi desativada para essa finalidade. Em 1996, deixou de ser definitivamente um presídio de segurança máxima e virou museu. Moderna lancha mantida pelo governo sul-africano leva os visitantes até lá, em uma travessia que dura de 20 a 30 minutos, dependendo das condições do mar.

Não há outra maneira de fazer o passeio. Patrimônio da humanidade, o lugar é santuário natural de espécies marinhas e terrestres. Ao pisar no cais da Robben, logo se vê grandes painéis fotográficos mostrando negros presos sendo levados para a prisão sob escolta de soldados brancos. A partir de então, todo o cenário é o mesmo dos tempos dos horrores da política racista.

Os turistas passeiam pela ilha dentro de um ônibus, acompanhado de guia. Em uma das paradas, tem-se a mais bela vista da Cidade do Cabo. De volta ao coletivo, chama a atenção ainda o paredão de calcário, onde presos passaram anos quebrando pedras, sem qualquer proteção. A atividade prejudicou a visão de Mandela, devido aos raios de sol que refletiam nas pedras.

Mas a maior atração é o complexo da penitenciária de segurança máxima, onde os prisioneiros eram divididos pelos sete setores, classificados de acordo com o grau de periculosidade. O atual presidente do país, Jacob Zuma, por exemplo, era da ala G, onde ficou por 10 anos. Já a de Mandela, a B, era dos presos considerados mais perigosos, os principais líderes anti-apartheid.

Mandela passou a maior parte do tempo na cela 4, sozinho. Ele era o prisioneiro 466/64, ou seja, o 446º detido em 1964. No cubículo de 4 metros quadrados, Mandela ajeitava o corpo de quase dois metros para tentar dormir. Na maior parte do tempo na ilha, ele nunca teve cama, cadeira ou mesa. O cubículo está como Mandela o deixou para se tornar o primeiro presidente negro de seu país.

Passeio depende do clima

Barcos rápidos e confortáveis, chamados de ferry boat, partem diariamente da V&A Waterfront (porto que virou um dos mais badalados pontos turísticos da Cidade do Cabo). Os barcos saem a cada duas horas, a partir das 9h, sendo que o último parte às 15h. No entanto, são comuns as suspensões das travessias, quando o tempo ou o mar não estão bons. O passeio custa 200 randes, o equivalente a R$ 50, e inclui a passagem de ida e volta da travessia, a entrada na prisão e o passeio guiado pela ilha.

Museu lembra bairro destruído


Imagine 60 mil pessoas sendo removidas à força de suas casas por causa da cor de suas peles. Isso ocorreu no District Six, reduto de artesãos, trabalhadores, imigrantes e ex-escravos. O governo racista decretou o bairro de área exclusiva para brancos, em 1966, durante o apartheid. Seus habitantes não só foram expulsos para as townships, na periferia da cidade, como também tiveram suas casas demolidas.

Construído com a ajuda das vítimas, o acervo do Museu District Six conta essa história, por meio de fotografias, depoimentos, jornais e objetos, além de ambientes reconstituídos, numa tentativa de manter viva a memória do bairro.

Apesar da demolição, à época do apartheid não construíram novas casas na região. Com o fim do regime, o governo tentou fazer com que antigos moradores retornassem ao District Six, mas apenas poucas casas foram erguidas.

A entrada custa 20 randes (cerca de R$ 5). Às segundas-feiras, abre das 9h às 14h. De terça a sábado, das 9h às 16h. Mais informações: http://www.districtsix.co.za, tel. 021 466 7200, info@districtsix.co.za

Fé e cor

Já no bairro mais mulçumano da Cidade do Cabo, as casas são todas pintadas em tonalidades vibrantes, formando, com a Table Mountain, a imagem mais vendida em cartões postais da cidade. Charmoso, Bo-Kaap teve sua ocupação iniciada no século 18, por artesãos, comerciantes e ex-escravos trazidos de Java e da Malásia, antigas colônias holandesas.

Hoje, seus habitantes descendem desses escravos, e 90% da comunidade é muçulmana. Por essa razão, é comum caminhar por Bo-Kaap ouvindo o melodioso chamado para as orações, nas inúmeras e bonitas mesquitas espalhadas pelo bairro. Cenário perfeito para fotografias.

África do Sul sem safári e vuvuzela

Renato Alves (texto e fotos)

Cidade do Cabo – A África do Sul não é feita só de safári, savana e miséria. O sul do país foge desse esteriótipo, sem ser menos fascinante. A região onde a Cidade do Cabo é a principal referência concentra a maior miscelânea de culturas e cenários. Fruto dos séculos de colonização européia e da grande quantidade de asiáticos, que construíram suas casas entre montanhas ou às margens dos oceanos Índico e Atlântico.

O pedaço mais europeu e desigual da África se tornou um concorrido destino turístico pelos charmosos vinhedos, luxuosos hotéis à beira-mar e o litoral recortado. Além da riqueza conquistada à custa do suor e sangue negros, a região também preserva muito da África selvagem. As cidades possuem rico artesanato local, restaurantes com comidas típicas, música nativa nas ruas. E, no lugar dos leões e outros grandes animais terrestres, baleias, pingüins, focas e tubarões brancos.

Essa parte da África do Sul, desconhecida por Dunga, seus comandados e boa parte dos torcedores brasileiros presentes na Copa do Mundo 2010, graças à derrota e eliminação para a Holanda, torna-se ainda mais atraente após o mundial de futebol. Passado o inverno rigoroso e a invasão de turistas estrangeiros, os preços do país voltam a valores quase irrisórios para quem ganha em real. Na primavera e no verão, as estradas estão cercadas por belas plantações, os jardins tomados pelas cores e as inúmeras praias, por banhistas e surfistas.

Portanto, é hora de organizar sua viagem à região onde Nelson Mandela viveu a maior parte dos 27 anos de cárcere, mas onde também houve grande resistência ao apartheid, o regime de segregação contra o qual o líder negro lutou. Ajudamos a traçar o roteiro na série de posts que começa a ser publicada hoje.

Onde o mar beija a montanha

Cidade do Cabo – Com tantas atrações, torna-se impossível conhecer tudo de bom do sul africano em apenas uma semana. Somente a Cidade do Cabo, capital legislativa da África do Sul, merece ao menos quatro dias. Afinal, lá há ótimos museus, excelentes restaurantes e belezas naturais que fazem jus à comparação ao Rio de Janeiro.

E como o Rio tem o Pão de Açúcar, a Cidade do Cabo tem a Table Mountain (Montanha da Mesa), nome recebido por causa do formato achatado. Os mais aventureiros podem subir andando até o topo da montanha, em trilhas que duram de 15 minutos a três horas. Ou fazer como a maioria dos turistas e subir de bondinho.

Lá em cima, a vista é de tirar o fôlego. Além das praias, outros importantes cartões postais da Cidade do Cabo podem ser avistados, como a Robben Island, onde Nelson Mandela cumpriu boa parte de sua pena. Há uma lanchonete no topo da montanha, mas muitos levam sua cesta de piquenique. Só torça para o clima colaborar. A neblina pode ser intensa, principalmente nos meses chuvosos (maio a agosto).

Agora, se São Pedro der uma trégua, espere o pôr-do-sol com uma garrafa de vinho local. E constate que a Cidade do Cabo não fica atrás da Cidade Maravilhosa.

Diversidade

No sopé da Table Mountain, o compacto centro da Cidade do Cabo é marcado pela antiga arquitetura holandesa e a vitoriana do século 19, misturada a prédios modernos, grande variedade de restaurantes típicos de diversas culturas e animada vida noturna. Galerias de arte concentram-se na Loop Street, enquanto os pubs ficam na Long Street.

Para quem deseja relaxar sob uma sombra, tomando um sorvete, namorando ou brincando com esquilinhos e admirando a flora local, nada como o Company’s Garden. Em volta da imensa área verde estão o Parlamento e alguns dos melhores museus da cidade, como a South African National Galery e o South African Planetarium.

A menos de 10 minutos de caminhada do jardim, ficam duas construções históricas que também valem uma visita. Uma delas, a Prefeitura, tem estilo renascentista italiano. Da sacada, Mandela fez o primeiro discurso após ser libertado da prisão, em 11 de fevereiro de 1990. Em seu anterior, se apresenta regularmente, na hora do almoço e à noite, a Filarmônica da Cidade do Cabo.

Vizinho da Prefeitura, o Castelo da Boa Esperança é a estrutura mais antiga da Cidade do Cabo. Erguido de 1666 a 1679 para proteger as forças armadas holandeses, hoje abriga um museu e os tradicionais regimentos da Força de Defesa Nacional. Com sorte, verá desfile dos militares em curiosos trajes.

Saiba mais

O ingresso do teleférico para a Table Mountain custa 160 randes (o equivalente a R$ 40) e o piso do transporte dá um giro de 360 graus, permitindo ao turista ver a paisagem de todos os ângulos.

Todo o centro da Cidade do Cabo pode ser desfrutado com segurança em passeios a pé, no horário comercial, quando as ruas e largas avenidas estão tomadas pelos habitantes, sem o habitual trânsito caótico das metrópoles.

Arte de pechinchar

O Green Market Square é uma parada obrigatória de todo turista no centro da Cidade do Cabo. Mercado desde 1806, hoje monumento nacional, a praça pavimentada de pedra recebe diariamente uma colorida feira de artesanato, cercada de prédios históricos, hotéis, pousadas, pubs, lanchonetes e restaurantes. Dos edifícios, se destaca a antiga Prefeitura, construída em estilo rococó em 1755.

No entanto, sem dúvida, a grande atração do Green Market é o mercado de artesanato. São mais de 200 barracas, com artigos produzidos em quase todos os países africanos. Tanta coisa que deixa o visitante perdido e indeciso. Mas trata-se de uma experiência cultural riquíssima ver peças produzidas à mão por diferentes povos do continente, de países como Malawe, Senegal, Quênia e Congo.

Camisetas com estampas do Nelson Mandela e outros líderes, máscaras tribais, colares de pedras, pulseiras de cabelo de elefante, instrumentos de percussão e quadros que retratam danças folclóricas. Peças entalhadas em madeira dos Big Five — os cinco animais mais difíceis de caçar da África; leão, rinoceronte, búfalo, girafa e elefante — podem ser encontradas a 140 randes (cerca de R$ 35).

Insistência

Os vendedores, também vindos de todas as partes da África, fazem de tudo para convencer o turista a levar algum produto. Se não estiver muito decidido sobre o que comprar, nem pense em parar nas barraquinhas. É regra entre os vendedores aproveitar qualquer demonstração de interesse dos clientes (basta um olhar) para oferecer um produto e falar o valor.

Se você recusa, logo eles indagam: “Quanto você paga?”. Bem baixo, pra concorrência não ouvir. Estratégia desconfortável para quem não sabe negociar e ainda mais complicada para quem não está acostumado ao rande. No entanto, na base da barganha, a máscara de 800 randes pode sair pela metade, até um terço.

O colorido mercado da Cidade do Cabo

    O Green Market Square é uma parada obrigatória de todo turista na Cidade do Cabo. Mercado desde 1806, hoje monumento nacional, a praça pavimentada de pedra recebe diariamente uma colorida feira de artesanato.

    Localizado no epicentro da Cidade do Cabo, o mercado é cercado de prédios históricos, hotéis, pousadas, pubs, lanchonetes e restaurantes. Dos edifícios, se destaca a antiga Prefeitura, construída em estilo rococó em 1755 (foto abaixo).

    No entanto, sem dúvida, a grande atração do Green Market é o mercado de artesanato. São mais de 200 barracas, que vendem artigos produzidos em quase todos os países africanos.

    É tanta coisa que deixa o visitante perdido e indeciso. Mas trata-se de uma experiência cultural riquíssima ver peças produzidas à mão por diferentes povos do continente, de países como Malawe, Senegal, Quênia e Congo.


    Há de tudo por lá: camisetas com estampas do Nelson Mandela e outros líderes, máscaras de entidades pertencentes a ideários tribais, colares de pedras, pulseiras de cabelo de elefante, instrumentos de percussão e quadros que retratam danças folclóricas.

    Peças entalhadas em madeira dos Big Five — os cinco animais mais difíceis de se caçar da África; leão, rinoceronte, búfalo, girafa e elefante — podem ser encontradas por 140 randes (cerca de R$ 40).

    Pechincha

    Tão atraentes quanto as peças são os vendedores, também vindos de todas as partes da África. Eles são persistentes. Fazem de tudo para convencer o turista a levar algum produto.

    A principal recomendação para os turistas é andar à vontade, mas se não estiver muito decidido a respeito do que comprar, nem pense em parar nas barraquinhas. É regra entre os vendedores aproveitar qualquer demonstração de interesse dos clientes (basta um olhar) para oferecer um produto especial e falar o valor.

    Se você recusa, logo eles indagam: “Qual é o preço que você paga?”. Bem baixo, pra concorrência não ouvir. Um tipo de situação não muito confortável para quem não sabe negociar e que fica mais complicada para quem não está acostumado a usar o rand, a moeda local.

    Na base da barganha, a máscara de 800 randes pode sair pela metade, até um terço. Se está disposto a comprar, é bom garantir uma boa quantidade de dinheiro em espécie, pois 500 randes podem se acabar em 10 minutos de passeio.

    Rota dos jardins e vinhedos africanos

    Esqueça os safáris, as savanas e as aldeias. O extremo sul da África do Sul é diferente de qualquer outra região do continente. Nem por isso menos interessante, menos excêntrico, menos fascinante. A região que tem a Cidade do Cabo como maior referência é a de maior mistura. Fruto dos séculos de colonização européia e da grande quantidade de asiáticos, que construíram suas casas entre montanhas ou às margens dos oceanos Índico e Atlântico.

    O pedaço mais europeu e mais desigual da África se tornou um concorrido destino turístico pelos charmosos vinhedos, pelas mansões à beira-mar e pelo litoral recortado. Mas, além da riqueza conquistada às custas do suor e sangue negro, a região também preserva muito da África selvagem. As cidades têm rico artesanato local, restaurantes com comidas típicas, música nativa. E, no lugar dos leões e outros grandes animais terrestres, baleias, pinguins, focas e tubarões brancos.

    Com tantas atrações, torna-se impossível conhecer tudo com apenas uma semana. Somente a Cidade do Cabo, merece ao menos cinco dias. Afinal, além de suas 110 praias, lá há ótimos museus, excelentes restaurantes e pontos como a Table Mountain, o Cape Point e a Robben Island. E é da Cidade do Cabo que se vai para todos os outros destinos de Western Cape, a província (estado) do qual ela é a capital.

    Franschhoek: estrada entre montanhas, lagos, flores e babuínos

    Para chegar aos pontos mais interessantes, o melhor é alugar um carro. Apesar da mão inglesa, é muito fácil dirigir na África do Sul. As estradas são bem conservadas, sinalizadas, seguras. E também têm uma paisagem deslumbrante, com várias paradas para descanso e fotografias.

    Qualquer localidade, por menor que seja, tem um centro de informação ao turista, com folhetos, dicas de visitas e hospedagem. Tudo muito barato. Pousadas e hotéis padrão quatro estrelas cobram, em média, 600 randes pelo quarto duplo. Algo como R$ 150. Com outros 120 randes (R$ 30) come-se muito bem em qualquer lugar.

    Se estiver interessado, traçamos um roteiro básico para a viagem por terra:

    Fazenda em Stellenbosch: principal cidade dos vinhedos

    Café em Stellenbosch

    Stellenbosch

    Deixando a Cidade do Cabo no sentido leste, pela estrada N1 e depois pela R304, após 70 quilômetros e menos de uma hora, você já está na Região dos Vinhedos.

    Se quer conhecer boa parte das fazendas e degustar seus ótimos vinhos, reserve dois dias, dormindo uma noite em uma das propriedades ou numa pousada ou hotel de uma das cidades.

    A maior zona produtora de vinhos do continente africano tem mais de 100 fazendas dedicadas à produção da bebida, 66 cooperativas e e mais de 100 adegas particulares.

    Há muitas rotas passando pelas propriedades rurais. Todas muita bem sinalizadas. A mais tradicional e charmosa circunda a bela cidade histórica de Stellenbosch.

    Repleta de mansões vitorianas, Stellebonsch tornou-se o centro da cultura africânder no país — os brancos descendentes de holandeses que chegaram à África do Sul no começo do século 17 e logo tomaram as terras dos nativos negros. A cidade por si só vale uma visita.

    Calçada da Herte Street

    Além dos casarões, tem uma universidade de referência e prédios históricos, como o paiol de pólvora da VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) , de 1777, e a Rhenish Church, igreja erguida em 1823 como escola para filhos de escravos.

    Tudo dá para ser explorado a pé. Mapas são distribuídos no centro de informação turística, na Market Street.

    Fazendas centenárias ficam nos pequenos vilarejos da vizinhança e recebem o visitante para degustação. O mais procurado é o complexo Spier, onde fica um restaurante Moyo, acessível pela N2 e pela R310. É possível, inclusive, hospedar-se no hotel do Spier. Mas caro, para o padrão sul-africano.

    Paiol de pólvora da Companhia Holandesa das Índias Orientais
    Franschhoek

    De Stellenbosch, pegue a estrada N45 a caminho de Franschhoek. Antes, pare em Boschendal, propriedade de 1865 que, em 1715 foi entregue por holandeses a uma das famílias francesas que chegaram à região fugidas do país de origem. A partir de 1796, a Boschendal começou sua história de sucesso na produção de vinhos.

    A mansão da fazenda, a Manor House, hoje é um museu, que guarda o luxo do período colonial, com móveis e até frisos originais. Além do casarão, onde a visita custa 15 randes (cerca de R$ 4), a propriedade tem loja com seus vinhos, café com lanche e almoço, além de degustação.

    Divisórias da Manor House de Boschendal, em Stellenbosch

    Após a visita  a Boschendal, volte a R45 e depois pegue a R47 até Franschhoek. A cidade de 8 mil habitantes tem forte personalidade francesa. Além da fachada das casas, ela está evidente em nomes como La Provence, Haute Cabrière e L’Ormarins, expostos na entrada de restaurantes, cafés e fazendas.

    Aliás, os mais de 30 restaurantes da cidadezinha construída ao pé da montanha oferecem ótimos pratos sul-africanos, malaios e provençais. Entorno do município, mais de 30 adegas estão abertas visitação. Algumas com restaurantes e cafés. Se tiver tempo, passe uma noite nesse local. Acordar sob a montanha, em meio a um vinhedo e tomar um café na fazenda ou na cidade, valem cada centavo.

    Franschhoek: rua dos restaurantes com montanhas ao fundo

    Vitral do Bart. Dias Museum

    Mossel Bay

    De manhã, siga pela N2, até Mossel Bay. São 400km por entre fazendas de carneiro e campos de trigo. Outra cidade que vale uma hospedagem, Mossel Bay marca o início da Garden Route, ou Rota do Jardim. Para muitos, a mais bela estrada do país.

    Mossel Bay tem 24 km de praia (com natação segura em áreas designadas), áreas de observação de baleias, mergulho em jaula com tubarões, reservas particulares de mini-safári sem perigo de malária e campos de golfe profissionais.

    Mas a maior atração de Mossel Bay é o Bartolomeu Dias Museum Complex. Ele guarda, entre outras coisas, uma réplica perfeita da nau do século 16 usada pelo navegador português na viagem épica em que ele e sua tripulação desembarcaram em diversos pontos da costa oeste africana erguendo padrões (cruzes de pedra). O maior feito deles foi o contorno do Cabo das Tormentas, hoje Cabo da Boa Esperança, abrindo o caminho marítimo para o comércio de especiarias com as Índias.
    Mossel Bay: répilica de caravela usada por Bartolomeu Dias
    George e Knysna

    Após Mossel Bay, vem Wilderness. A estrada passa entre lagos de água doce ou salgada e montanhas cobertas de verde. Dois parques podem ser visitados: no Wilderness National Park, a atração são as aves e os peixes; no Goukamma Nature Reserve, também nos arredores da cidade, prepare-se para ver antílopes. Mas não pare para dormir nessa cidade. Siga na direção de Knysna, parando em George.

    O caminho de 50km entre Wilderness e Knysna tem paisagens inesquecíveis, como a ponte do Rio Kaaimans, por onde passa o trem Choo-Tjoe Choo-Tjoe. Deixe o carro por alguma horas para curtir uma aventura de outros tempos: o passeio de maria-fumaça entre George e Knysna.

    Garden Route: Ponte ferroviária sobre o Rio Kaaimans

    O trem sai de George às 9h30 (seg-sáb), chega a Kysna às 12h, de onde sai às 14h15 e chega a George às 17h. No caminho, a máquina sopra seu vapor em meio a pinheirais, agarra-se à beirada de rochedos e curvas fechadas, atravessa pontes que passam por lagos e florestas até, finalmente, chegar à ponte de 2km que cruza Knysna Lagoon.

    Rochedos na Knysna Lagoon
    Deixando o trem, volte ao carro e à N2 em direção à Knysna, onde vale ao menos um dia inteiro e uma noite. O município de 80 mil habitantes, criou fama com cenários deslumbrantes, montanhas, lagos e o Oceano Índico. Knysna é um balneário dos ricos sul-africanos. Paredões de pedras abrigam mansões e diversas modalidades de acomodação para turistas.

    A cidade protegida por lago de 17 km de extensão e fechada por montanhas em forma de mesa, é ainda um centro de pesca e turismo de natureza com fama de oferecer algumas das ostras mais saborosas do mundo.

    Distante 20km do centro da cidade, o Parque de Elefantes de Knysna tem 12 gigantes muito bem tratados. Na reserva, onde é possível até passear sobre os animais, o quarto mais barato sai por 639 rands (R$ 163). O preço é salgado se comparado às tarifas das pousadas locais.

    Garden Route: Knysna Elephant Park

    Port Elizabeth

    De Knysna e Port Elizabeth  são 200km. Mas não vale a a pena ir direto. No caminho está Plettenberg Bay, uma das regiões mais sofisticadas do país, lar de milionários com suas casas na encosta. Ao longo de 12km de praias é possível ver, na primavera, o show gratuito das baleias. Nem é preciso pegar um barco, pois elas chegam perto da costa.

    A outra parada imperdível do caminho é o Tsitsikamma National Park, cheio de vistas panorâmicas. Para quem pode esticar (e bem) a viagem, há duas famosas trilhas para caminhadas dentro do parque: uma delas, a Otter Trail, ao longo da costa, leva cinco dias para ser percorrida e promove o encontro com golfinhos, baleias, focas e lontras.

    Antes do parque, para os mais aventureiros ainda tem o maior bungee jump do mundo.

    Sexto destino

    Port Elizabeth, destino final, é cheia de construções históricas e restaurantes aconchegantes — além de belas praias, que você poderá curtir no dia seguinte.

    Port Elizabeth é decorada com iates de luxo, arquitetura charmosa do centro histórico, praias e um movimentado parque aquático, o Bayworld, com shows de golfinhos e exposição de animais como aves marinhas.

    E ainda tem o lado mais selvagem da África. Uma das reservas vizinhas a Port Elizabeth é o Addo Elephant National Park (50km a nordeste). Outra, a Shamwari Game Reserve (72 quilômetros ao norte).

    Marco do Cabo das Agulhas: encontro dos oceanos Índico e Atlântico

    Baleia em Hermanus

    Cabo das Agulhas

    A viagem de volta pode ser feita pela mesma rota da ida, ou ainda pela costa, passando pelo Cabo das Agulhas, ponto mais ao sul do continente e onde se encontram os oceanos Índico e Atlântico. Dependendo da época do ano, é grande a chance de você ser premiado com o show das baleias na costa — elas costumam aparecer na primavera.

    Um dos melhores lugares para essa apreciação é Hermanus, cidade próxima ao Cabo das Agulhas, que conta, inclusive, com um museu sobre os cetáceos.

    Depois, ainda, você pode andar no meio de pinguins, em Betty’s Bay. Tudo em uma estrada à beira de paredões, sobre o mar.
    Pinguins em Betty´s Bay

    O maior bungee jump do mundo

    Port Elizabeth — Além de safáris, a África do Sul é terra de esportes radicalíssimos. Entre outras atrações, a terra de Nelson Mandela oferece aos aventureiros o maior bungee jump comercial do mundo, segundo o Guinness Book.

    O brinquedo de 216 metros de altura, equivalente a um prédio de 70 andares, fica na Bloukrans River Bridge, ponte distante cerca de 180km de Port Elizabeth, na divisa entre os cabos leste e oeste, próxima à cidade de Plettenberg Bay.

    Cobram 650 rands (cerca de R$ 160) para pular em queda livre apenas com os tornozelos amarrados a uma corda elástica.

    O salto dura cinco segundos e o cliente pode atingir uma velocidade de 120km/h, ficando apenas a 30m do rio que passa por baixo.

    Após o primeiro salto para o vão, o cliente quica ao menos umas cinco vezes. E ainda fica cerca de dois minutos pendurado de cabeça para baixo, à espera do resgate, que vem por um funcionário pendurado em outra corda. Ambos sobem até o lugar de onde desceram, uma plataforma sob a ponte.

    Segurança

    No entanto, a aventura não se restringe a pegar o equipamento, seguro e testado à exaustão pelos instrutores (as cordas, que têm um tempo de vida útil de aproximadamente 1.200 saltos, aguentam até 4.000kg), e saltar.

    Antes, o cliente preenche um formulário (no qual se responsabiliza por qualquer acidente), recebe uma curta aula e encara uma pequena trilha que leva até o início da ponte, com 450m.

    Depois disso, ainda é preciso encarar uma estreita passarela de ferro. O vento forte, a altura e a aparente fragilidade metem medo.

    Após andar pela passarela, chega-se a uma espécie de concentração no meio da ponte. Lá, o aventureiro encontra uma festa rave, com direito a DJ e muita animação. Uma maneira de descontrair o cliente antes do salto.

    No entanto, o salto não é para qualquer um. Para pular, é preciso ter entre 35kg e 150kg, mais de 14 anos e nenhuma de uma série de complicações médicas, entre elas, distúrbios cardíacos, pressão alta, lesões musculares, problemas nas costas, cirurgias no joelho, epilepsia e osteoporose.

    Retrato do futebol africano


    Cidade do Cabo – Janeiro de 2008. Concluindo um trabalho em Madagascar, a fotógrafa belga Jessica Hilltout, 33 anos, recebe um telefonema do pai. Amante do futebol e da África, ele sugere à filha para fazer uma viagem pelo continente, clicando moradores jogando bola, com o intuito de mostrar ao mundo como aquelas pessoas amam o esporte inventado pelos britânicos, apesar de tanta adversidade. Ela aceita. Volta para casa, em Bruxelas, e logo pega um voo até a Cidade do Cabo. No principal destino turístico sul-africano, decide iniciar a jornada.

    Sem saber quanto tempo passaria na estrada, onde ficaria e quanto gastaria, decide comprar um Fusca velho, mas resistente. Instala um bagageiro no teto para três pneus sobressalentes e dois galões de gasolina. O carro ainda ganha reforço na suspensão. No interior, além das roupas, sapatos e material de higiene, ela leva uma máquina Hasselblad com uma lente de 80 milímetros, 300 rolos de filme, uma câmera digital, diário de bordo, impressora e bolas de futebol novas.

    À procura do significado do futebol para o continente, Jessica parte. Roda 15 mil km por quatro países vizinhos da África do Sul. Retorna à Cidade do Cabo para deixar o Fusca, já com o motor cansado, e parte para Accra, em Gana, onde aluga uma caminhonete moderna. Nela constrói uma cama e quatro caixas no bagageiro: uma para bolas de futebol, uma para comida e duas para a roupa e o material fotográfico. A casa móvel a leva por 5 mil km em seis países da África Ocidental.

    Sobram dificuldades

    Em cada aldeia, não importa o quão longe, Jessica encontra pessoas jogando futebol ao amanhecer e ao entardecer. Em pequenas vilas, se depara com até cinco campos de futebol. Em uma delas, a 500km da estrada principal, moradores caminham três dias para assistir a uma mera pelada entre aldeias vizinhas.

    Os atletas não dispõem de material adequado. A maioria joga descalço ou com chuteiras rasgadas. Algumas, com o nome do time ou craque preferido pintado à mão. O mesmo se vê nas camisetas, incluindo o rosto do craque desenhado de forma tosca, ingênua.

    Mas o que mais chama a atenção da fotógrafa são as bolas usadas nos jogos. A maioria, disforme, feita pelos próprios atletas, com materiais encontrados na comunidade. No deserto, por exemplo, eles recorrem a roupas velhas. Em cidades, usam sacos plásticos de lixo. A menor vista por ela é feita de meia-calça.

    Além de fotografar os atletas e seus campos de jogo, a belga troca as bolas fabricadas pelas artesanais. Após nove meses de viagem por 10 países, Jessica Hilltout retorna à África do Sul, com 35 bolas caseiras e milhares de fotografias. As bolas improvisadas tornam-se a essência da viagem.

    Livro e exposição

    Jessica ainda passa dois meses editando suas imagens. O melhor do trabalho resulta em Amen (Amém), livro com 208 páginas.

    Parte das fotografias está exposta em uma galeria da Cidade do Cabo, após serem exibidas em Bruxelas. “É uma homenagem ao esquecido, à maioria que vive na sombra da Copa do Mundo. Eles merecem ter uma luz, um brilho sobre eles. Não apenas para mostrar sua paixão pelo jogo, mas também para revelar a energia fundamental e entusiasmo que brilha através da maneira de viver”, ressalta a autora da obra.

    O nome da publicação vem da reação dos personagens fotografados pela belga. “Todos que recebiam uma bola respondiam: ‘Amém, amém, amém.’ Eles demonstravam gratidão e um grande senso de dignidade, uma maneira nobre de encarar as dificuldades”, comenta Jessica.

    Para a fotógrafa, seus personagens são os torcedores deixados de fora das milionárias campanhas publicitárias da Copa do Mundo. “Apesar de aceitar a impossibilidade de assistir aos jogos do mundial, eles queriam fazer parte do evento. As pessoas não fazem ideia de como a vida na África gira em torno do futebol e do grau de devoção das pessoas para o jogo”, observa.

    Jessica chega a comparar o futebol a uma religião na África: “Sem o futebol, as pessoas seriam muito menos feliz. Ele é um mecanismo de sobrevivência e aproxima as pessoas, como a religião. É acessível a todos e é jogado em qualquer lugar. Tudo que você precisa é um espaço aberto, traves e uma bola”.

    Independentemente do significado do futebol para os africanos, o trabalho de Jéssica tem uma grande qualidade técnica. Ela se concentra nos detalhes, aparentemente sem importância, escondidos. Encontra beleza e alegria onde muitos só conseguem ver a tristeza e miséria.

    PARA VER E COMPRAR

    Para quem mora no Brasil, o livro Amen está disponível apenas pela Internet. Custa o equivalente a R$ 50 (edição simples) e a R$ 125 (capa dura). A exposição de Jessica Hilltout  fica instalada na galeria João Ferreira, Loop Street, 70, no centro da Cidade do Cabo, até 24 de julho.

    O colorido bairro da Cidade do Cabo

    Eliane Moreira

    No bairro mais colorido da Cidade do Cabo, as casas são todas pintadas em tonalidades vibrantes, formando, com a Table Mountain, a imagem mais vendida em cartões postais da cidade.

    Charmoso, Bo-Kaap teve sua ocupação iniciada no século 18, por artesãos, comerciantes e ex-escravos trazidos de Java e da Malásia, antigas colônias holandesas.

    Hoje, seus habitantes descendem desses escravos, e 90% da comunidade é muçulmana. Por essa razão, é comum caminhar por Bo-Kaap ouvindo o melodioso chamado para as orações, nas inúmeras e bonitas mesquitas espalhadas pelo bairro.

    Direto da África — Os nigerianos

    CIDADE DO CABO – No aquecimento para a estreia da sua seleção na Copa, cerca de 40 imigrantes nigerianos fizeram de tudo. Eles cantaram, dançaram, rolaram no chão, fizeram acrobacias e até invocaram deuses do candomblé contra o time argentino. Tudo numa das mais movimentadas ruas do centro da Cidade do Cabo. Dançaram, pularam e gritaram contra um deles, com as vestimentas de um orixá.

    A farra continuou nos 90 minutos de jogo, intervalo e após a partida, mesmo com a derrota por 1 a 0. Ao todo, os nigerianos eram mais de 500 na praça onde encontraram os brasileiros para torcer junto contra a Argentina. A grande quantidade de nigerianos é explicada pelo fenômeno da imigração.

    Cerca de 250 mil nigerianos moram na África do Sul, segundo dados não-oficiais. Algumas estimativas, no entanto, colocam esse número em mais de 400 mil, muitos deles imigrantes ilegais vivendo na pobreza.

    Estima-se que 10% dos 50 milhões de habitantes da África do Sul sejam estrangeiros – normalmente pessoas de países ainda mais pobres, atraídas pelo trabalho em minas, fazendas e casas, e pelo fato de o país ter uma das políticas mais liberais do mundo na recepção a imigrantes e refugiados.

    Direto da África – A Copa das crianças

    A ilha onde Mandela ficou preso

     

    Renato Alves (texto e fotos)

    Cidade do Cabo – A ilha onde Nelson Mandela ficou 18 dos 27 anos preso é um dos pontos mais disputados pelos turistas que começam a chegar à Cidade do Cabo para a Copa do Mundo de 2010. Restam poucas vagas para o tour durante o torneio de futebol. Passeio imperdível para quem deseja saber mais sobre as atrocidades do apartheid.

    Muitas delas são lembradas por ex-prisioneiros políticos, também trancafiados durante anos por lutar contra o regime de segregação criado pelos brancos descendentes de holandeses. Além do passado odioso, a Robben Island guarda uma das mais fascinantes histórias do futebol, quase desconhecida.

    Distante 12km do porto da costa da Cidade do Cabo, a ilha começou a receber líderes negros que se rebelaram contra o apartheid em 1960. Somente 31 anos depois, ela foi desativada para essa finalidade. Em 1996, deixou de ser definitivamente um presídio de segurança máxima e virou museu.

    Desembarquei na ilha em uma tarde ensolarada, após 20 minutos numa das modernas lanchas mantidas pelo governo sul-africano.

    Para o visitante, não há outra maneira de chegar até lá. Considerado patrimônio da humanidade, o lugar também é santuário natural de espécies marinhas e terrestres.

    Memória preservada

    Ao pisar no cais da Robben Island, logo se vê grandes painéis fotográficos mostrando negros presos sendo levados para a prisão sob escolta de soldados brancos. A partir de então, todo o cenário é o mesmo dos tempos dos horrores da política racista, inclusive as placas, os prédios e a mobília.

    Após cruzar o portão principal, ainda com um “bem-vindo” em africâner – dialeto dos colonizadores holandeses, outra marca da segregação –, os turistas (700 por dia na baixa temporada, 2 mil na alta) entram em ônibus para uma visita guiada de duas horas.

    O nosso guia, descendente de indianos, outro povo perseguido no apartheid, logo explica que a ilha começou a ser usada como lugar de exclusão muito antes do regime racial. Ele abrigou os primeiros prisioneiros no século 17. Logo tornou-se destino de doentes mentais, mendigos, prostitutas, alcoólatras e idosos ou outros que não podiam trabalhar e eram considerados loucos.

    Toda essa gente era alojada nas mesmas condições dos prisioneiros. Ninguém recebia tratamento médico. Entre 1910 e 1960, com a epidemia de lepra no país, a Robben recebeu os doentes, tratados um em hospital e enterrados em cemitério só para as vítimas da doença. Os túmulos permanecem como há 50 anos.

    Para quebrar o clima mórbido, o cemitério e boa parte da estrada de terra da ilha são cercados de simpáticos pingüins. Logo após passar pela rua onde construíram o vilarejo para abrigar os guardas e seus familiares, o ônibus para novamente, onde os visitantes descem e apreciam uma das mais belas paisagens da Cidade do Cabo, com as montanhas e o estádio Green Point em destaque.

    Quebrando pedra

    O passeio prossegue com mais paradas. Uma delas em frente à caverna onde os negros se reuniam para estudar e, especialmente, para falar sobre o apartheid, quando não estavam na cela ou trabalhando. A outra, no paredão de calcário, onde presos passaram anos quebrando pedras, sem qualquer proteção. A atividade prejudicou a visão de Mandela, devido aos raios de sol que refletiam nas pedras em suas pupilas.

    Deixando o ônibus, somos recebidos por outro guia, ex-detento. No interior do antigo presídio, numa sala onde era um dormitório, o monitor relata os sete anos de cadeia. “Havia um cardápio para os negros e outro para os coloureds (denominação para os que não são negros nem brancos) e indianos. Nós (os negros) ficávamos com o pior, um mingau”, conta Sparks Mlilwana, 44 anos (foto abaixo, mostrando cópia da sua ficha na cadeia).

    Para ele, o frio também era um castigo. “Não tínhamos cobertores, blusas, apenas um pedaço de pano para nos cobrir, por isso deitávamos no chão e muitos adoeciam”, recorda-se. A visita para os presos da ilha só acontecia de três em três meses. “Além de esperar esse tempo todo, nós não poderíamos nos comunicar em nossa língua materna. Éramos obrigados a falar em inglês.”

    Mlilwana ficava com outros 59 presos políticos em uma cela feita para 20. Todos eram acordados às 5h30, forçados a atravessar o pátio nus e revistados. Comiam agachados. Os guardas batiam em qualquer um que tentasse sentar-se. Eram comuns as mortes por fome e por espancamento.

     

    Cela apertada

    Os prisioneiros eram divididos pelos sete setores, classificados de acordo com o grau de periculosidade. O atual presidente do país, Jacob Zuma, por exemplo, era da ala G, onde ficou por 10 anos. Já a de Mandela, a B, era dos presos considerados mais perigosos, os principais líderes anti-apartheid.

    Mandela passou a maior parte do tempo na cela 4 (foto abaixo), sozinho. “Ele era o prisioneiro 466/64, ou seja, o 446º detido em 1964”, explica Mlilwana. No cubículo de 4 metros quadrados, Mandela ajeitava o corpo de quase dois metros para tentar dormir. Na maior parte do tempo na ilha, ele nunca teve cama, cadeira ou mesa.

     

    A bola também rolou por lá

    Apesar de qualquer prática esportiva ser proibida aos presos nos anos de apartheid, os detentos da Robben Island burlaram as regras e começaram a disputar rachões nas celas maiores com bolas feitas de pano. Após muita pressão internacional, inclusive da Cruz Vermelha, a direção do presídio liberou o futebol, construindo dois campos no gramado da área externa do presídio.

    Com as arenas, o futebol ganhou mais força na ilha. Tanta que, em 1967, criaram a Makana Football Association (MFA), a federação de futebol de Robben Island. Ela organizou campeonatos, com oito times, juízes e as regras da Fifa. O nome da associação era uma homenagem a um dos líderes da luta contra o racismo.

    Atual presidente da África do Sul, Jacob Zuma era um dos árbitros da MFA. Na época, o país estava suspenso pela Fifa por causa do regime do apartheid. “Os brasileiros e ingleses não têm o talento que nós tínhamos aqui”, brinca Anthony Suze, um dos organizadores dos torneios e hoje guia da ex-prisão.

    Outra figura importante da MFA foi Tokyo Sexwale. Ele ajudou a redigir a nova constituição da África do Sul em 1994 e hoje integra o Comitê Organizador da Copa do Mundo. “Tudo era proibido na Robben Island, mas conseguimos os regulamentos da Fifa. Tínhamos até árbitros ‘profissionais’ e rigorosas comissões disciplinares. Os times eram formados de acordo com a orientação política de cada um”, conta Sexwale.

    O líder negro ressalta que o futebol foi importante para unir os prisioneiros políticos e trazer esperança a todos. “Com os jogos, superávamos todas as barreiras políticas. Percebemos que a associação era uma ferramenta muito importante para mantermos a solidariedade, a harmonia e a cooperação.”

    Em 2007, a Fifa reconheceu a MFA como membro honorário da entidade. Mas, assim como a prisão, os campos da ilha acabaram desativados. Hoje não passam de pedaços de terra tomados pelo mato.

    SAIBA MAIS

    Nelson Mandela acabou detido em 1964 sob a sentença de prisão perpétua, acusado pelo governo da minoria branca de liderar movimentos terroristas contra o apartheid. Por causa de forte pressão da comunidade internacional, que impôs sanções políticas e econômicas à África do Sul, Mandela acabou libertado em 1990, para virar presidente do país quatro anos depois, na primeira eleição direta com todos os cidadãos tendo direito a voto, independentemente da cor da pele.

     

    VISITAS

    Onde: Barcos rápidos e confortáveis, chamados de ferry boat, partem diariamente da V&A Waterfront (porto que virou um dos mais badalados pontos turísticos da Cidade do Cabo).

    Quando: Os barcos saem a cada duas horas, apartir das 9h, sendo que o último parte às 15h. No entanto, são comuns as suspensões das travessias, quando o tempo ou o mar não estão bons. 

    Quanto: O passeio custa 200 randes, o equivalente a R$ 50, e inclui a passagem de ida e volta da travessia, a entrada na prisão e o passeio guiado pela ilha, dentro de um ônibus.

    Cidade do Cabo – O District Six

     

    Eliane Moreira (texto) e Renato Alves (fotos)

    Imagine 60 mil pessoas sendo removidas à força de suas casas por causa da cor de suas peles. Foi o que aconteceu na Cidade do Cabo, no bairro District Six, reduto de artesãos, trabalhadores, imigrantes e ex-escravos.

     

    Em 1966, durante o apartheid, o bairro foi decretado área exclusiva para brancos. Seus habitantes não só foram expulsos para as townships, na periferia da cidade, como também tiveram suas casas demolidas.

     

    O Museu District Six conta essa história. Seu acervo, construído com a ajuda de ex-moradores, conta com fotografias, depoimentos, jornais e objetos, além de ambientes reconstituídos, numa tentativa de manter viva a memória do bairro.

     

    Apesar da demolição, à época do apartheid não foram construídas novas casas na região. Com o fim do regime, o governo tentou fazer com que antigos moradores retornassem ao District Six, mas apenas poucas casas foram erguidas.


     
    Museu District Six
    Quando: segunda-feira, das 9h às 14h, e de terça a sábado, das 9h às 16h.
    Quanto: 20 randes (cerca de R$ 5).

    Mais informações:

    www.districtsix.co.za
    Telefone: 021 466 7200
    info@districtsix.co.za