Todo o charme de Punta Arenas

Praça de Armas Muñoz Gamero, em Punta Arenas

As argentinas Ushuaia e El Calafate e as chilenas Puerto Natales e Punta Arenas servem de base para quem pretende conhecer a Antártida e a Patagônia. A última tem o principal aeroporto da região, por isso tornou-se um dos destinos mais escolhidos pelos turistas.

Centro de Punta Arenas

Banhada pelo Estreito de Magalhães, a região foi descoberta em 1520 pelo navegador português Fernão de Magalhães, o que o fez ganhar um monumento na praça central de Punta Arenas e emprestar seu sobrenome ao principal estreito da Patagônia.

Punta Arenas vista do mar

Próxima à Antártida, Punta Arenas é porto seguro para exploradores há seculos.

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Líder da primeira equipe a invernar no continente gelado (1897-1899), o belga Adrien de Gerlache parou na cidade chilena.

O mesmo fez o britânico Ernest Schackleton quando foi resgatado da expedição que tentou cruzar o continente austral entre 1914 e 1916.

Tradição

Para conhecer a Patagônia, não é preciso enfrentar os perrengues da Antártida.

Muitos animais e outras atrações do continente gelado, como glaciares, podem ser visitados em passeios de ônibus ou pequenos cruzeiros por canais calmos, que saem de Punta Arenas ou passam por lá. Passeios que podem ser adquiridos em pacotes comprados previamente ou em pequenas agências instaladas no centro da cidade chilena.

Praça de Armas Muñoz Gamero, em Punta Arenas

Praça de Armas Muñoz Gamero, em Punta ArenasA maioria das hospedarias de Punta Arenas, que vão de hotéis de luxo a baratos albergues, estão no centro da cidade de 150 mil habitantes.

A principal referência é a Praça de Armas Muñoz Gamero. No meio dela, há um enorme monumento a Fernão de Magalhães, com a imagem de um do índio aónikenk. Dizem que se você beija o pé dele voltará a visitar a Patagônia.

Todos os dias, a praça é ocupada por uma legítima feira de artesanato. Muitas das peças a venda são produzidas ali mesmo pelos artistas locais.

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Eles oferecem de gorros de lá a miniaturas em pedra e pinguins de pelúcia, de todos os tamanhos e preços. Vale pechinchar.

História

Perto dali, fica o Museu Regional de Magalhães, onde, no subsolo, há uma cafeteria onde antes era o lugar dos serviçais do antigo palácio em art nouveau. Visite as exposições artísticas e a coleção de objetos e móveis de época da casa, que o empresário Mauricio Braun mandou construir em 1903, apenas com madeira vinda da Europa.

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Outra atração parecida é o Museu Naval e Marítimo, na rua Pedro Montt. Entre suas 1,6 mil peças históricas, há restos de navios como a corveta inglesa Doterel, afundada a 15m de profundidade e a 300m do cais do porto local.

Centro de Punta Arenas

Agora, se quer conhecer uma beleza de características mais melancólicas, você pode percorrer os silenciosos caminhos do Cemitério Municipal, considerado um dos mais belos da América do Sul. Seus túmulos cuidadosamente enfeitados, seus mausoléus, jardins e as extravagantes tumbas se misturam aos restos de imigrantes e marinheiros que fizeram de Magalhães o destino final de suas vidas.

Casario

O período áureo de Punta Arenas e seu porto está marcado na arquitetura. A cidade tem prédios de traços clássicos, muitos palacetes. Também há muitas casas mais simples, mas igualmente belas, feitas de madeiras e cobertas por metais — para aquecer o interior — com as fachadas coloridas. Tudo em ruas extremamente limpas e seguras.

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Em muitos dos edifícios clássicos, funcionam charmosas cafeterias. Em uma cidade em que a temperatura não passa dos 16ºC e permanece negativa durante todo o inverno, nada melhor que um café ou outra bebida quente, como chocolate. Esses estabelecimentos também oferecem delícias como tortas doces e salgados, além de tostados.

Cafeteria em Punta Arenas

São ao menos 20 cafeterias no centro de Punta Arenas, que, reza a lenda, tem ainda 100 casas noturnas voltadas ao público masculino. Além delas, há alguns pubs e um cassino, à beira-mar.

Cafeteria em Punta Arenas

Artesã na praça principal de Punta ArenasPara saber mais

Ligação importante

Fernão de Magalhães foi quem navegou pela primeira vez nas águas abrigadas do estreito, ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Colonizada no século 19, a localização fez de Punta Arenas a principal rota de comércio entre os dois oceanos até a construção do Canal do Panamá, em 1914.

Zona Franca

Punta Arenas é uma zona franca, onde há lojas com produtos livre de impostos. Mas, se você quer levar presentes ou comprar bebidas e eletrônicos para o seu uso, precisa andar uns 10km de carro na direção do aeroporto, onde ficam os galpões com essas lojas. Só lá estará livre das taxas do governo.

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Regras ditam ritmo de visitas à Antártida

Pinguins na Antártida

Um tratado internacional regula o turismo na Antártida. Ele inclui uma série de normas: antes de desembarcar, lavar as botas com desinfetante; nas ilhas, só se pode andar nas trilhas; os bichos têm prioridade e é proibido retirar qualquer coisa da Antártica, menos gelo. Enfim, um cruzeiro no continente gelado deve ser encarado como uma expedição e uma aula de bons modos em um ambiente e de populações especiais.

Embora o navio tenha uma programação dia a dia, ela pode não se concretizar por causa do clima. É ele quem manda na Antártida. Visitas ou desembarques podem ser suspensos por causa de péssimas condições, como nevascas ou ventos fortes, que impedem os botes infláveis de navegar com segurança. Mas o pessoal de bordo tem sempre uma carta na manga, com outra opção de passeio ou desembarque sem riscos.

O controle de entrada e saída do barco é eletrônico, feito com um cartão de identificação, com foto e código de barras. É proibido o uso de sapatos. Os expedicionários usam botas de borracha, desinfetadas exteriormente tanto na saída como na chegada. Fumar só é permitido em certos lugares do barco. Nem pense em jogar a bituca no mar. Não leve suvenires da natureza, como pedras, areia e conchas.

Por que tal restrição? O material usado pelos pinguins para fazer seu ninhos é justamente a pedra, por exemplo. Além da memória, as melhores lembranças da viagem são fotografias e vídeos de paisagens e seres exuberantes. Suvenires são vendidos nas bases dos países ou na loja do navio, além de centenas de lojas e bancas de feiras em Ushuaia e Punta Arenas, as cidades argentina e chilena, respectivamente, de onde parte a maioria dos cruzeiros.

Não toque

Já em terra, recomenda-se não fazer barulho que perturbe a paz dos animais nem dar de comer a eles. Tocá-los, manejá-los, nem pensar. Pode até matá-los de estresse. Também não é aconselhável ficar perto demais deles ou fazer algo que modifique seu comportamento. Tenha ainda cuidado ao pisar nas rochas. Sempre veja se não há algum tipo de vegetação nela, como líquen ou musgo — indícios de que a vida está lutando para crescer ali, e isso leva tempo, anos.

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Os ambientalistas não escondem a preocupação com o impacto do turismo na Antártida. “Se respeitadas todas as normas, o turismo na Antártida é um instrumento importante para divulgar a pesquisa e a conservação do local”, comenta o glaciólogo gaúcho Jefferson Simões, 54 anos. Desde 1990, já esteve no continente 21 vezes. Entre 1º de dezembro de 2008 e 13 de janeiro de 2009, liderou a expedição Deserto de Cristal, a primeira incursão brasileira ao interior do continente antártico.

Sujeira

Cientista com doutorado no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Simões é o primeiro brasileiro a especializar-se em glaciologia, a ciência do gelo em todas as suas formas e seu papel no sistema ambiental. Portanto, entende como poucos as peculiaridades da Antártida. “Barcos naquela região com mais de 150 pessoas, além de isolar o turista do ambiente antártico, podem trazer impactos indesejáveis à região”, alerta. Um dos impactos é lixo, que demora muito mais tempo para se decompor no clima seco e frio do continente.

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De acordo com as normas internacionais, todos os resíduos produzidos na Antártida devem retornar, dentro dos navios, ao país de origem para serem, enfim, descartados. Portanto, além de não jogar nada na terra gelada, quem se aventura por lá é orientado a recolher qualquer sujeirinha que encontrar pela frente.

Educação 

O turismo na Antártida começou no fim dos anos 1950, quando o Chile e a Argentina levaram mais de 500 turistas às Ilhas Shetlands do Sul, mas a atividade somente se estabeleceu em 1966, quando o tema educação ambiental foi incorporado ao slogan “você não pode proteger o que você não conhece”. Acreditava-se que vivenciar a Antártida levaria as pessoas a uma consciência ecológica, uma vez que passariam a compreender o papel importante que o continente tem no ambiente global.

Heróis mundiais

Neste mundo gélido, desbravadores como o inglês R. F. Scott e sua equipe perderam a vida no início do século passado. E outros, como o norueguês Roald Amundsen — primeiro homem a chegar ao Pólo Sul, em 14 de dezembro de 1911 – e o inglês Ernest Shackleton, encontraram a glória.

Shackleton é conhecido por qualquer velejador. Após seu navio, o Endurance, ser esmagado pelo gelo antártico e naufragar, sua tripulação sobreviveria por mais de um ano em situações precárias, com combustível, alimento e abrigos precaríssimos. Shackleton então protagonizou um dos maiores feitos da história da navegação, cruzando 1,3 mil km do violento mar da região em um pequeno bote-salva vidas adaptado em busca de socorro até as Ilhas Geórgias do Sul.

Chegando lá e após uma épica travessia pelas montanhas da ilha, conseguiu alcançar a uma estação baleeira e organizar o resgate de seus companheiros. Todos os homens de sua tripulação sobreviveram.

Emoção do começo ao fim em águas geladas

Navio brasileiro Ary Rongel na Antártida

Com pacotes a partir de US$ 5 mil por pessoa, algumas operadoras oferecem roteiros em que o turista vê a Antártida apenas do navio, sem a possibilidade de pisar no gelo. Nos mais interessantes (e caros), as embarcações aguardam na água, em meio a alguma baía, enquanto os turistas visitam a terra firme, duas vezes ao dia, com o auxílio de botas, três camadas de roupa, luvas, gorros, além dos botes infláveis. Os visitantes passam as manhãs e tardes andando pelo gelo e voltam ao navio para almoçar, jantar e dormir.

Navio brasileiro na AntártidaQuem quer que se aventure a explorar a Antártida deve estar disposto a enfrentar grandes desafios. Com todas suas terras localizadas ao Sul do Paralelo 60oS, o continente é o local mais inóspito do planeta. Somente 0,5% de toda a área fica descoberta de gelo ou neve e, ainda assim, isso só ocorre no verão. No restante do ano, tudo é simplesmente branco. Uma clareza impressionante, que reflete 80% da luz solar que incide no território e, assim não permite que ele se aqueça.

A maioria das excursões sai dos portos de Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile. Com a ajuda do tempo — o que nem sempre acontece — chega-se até a península antártica em menos de dois dias. Aqui pode-se ter uma excelente ideia dos encantos da região, que vão de termas vulcânicas a simpáticos pinguins, de focas tomando sol à desoladora beleza do gelo. Aliás, são tantos tons e formas que as máquinas fotográficas não param de disparar.

Já na travessia entre o navio e a terra, algo em torno de 500m, doses extras de adrenalina. Com a água a 0ºC, o tempo de sobrevivência para quem cai nela não passa de um minuto e meio. Pode-se morrer em muito menos, como 30 segundos, alertam os guias. Portanto, são muitos os avisos de segurança antes de trocar a embarcação maior pelo bote (foto acima). Para compensar, a caminhada pela península costuma ser muito agradável e cheia de boas surpresas.

Vida animal

Para a maioria, a Antártida é um enorme vazio. Um lugar repleto de gelo e com quase nenhuma vida. De fato, se comparada com outros biomas, a natureza não é generosa em diversidade na região. Espécies de aves, por exemplo, são apenas 60. Quase nada se comparadas às 1.840 conhecidas apenas no Brasil.

Pinguins na Antártida

Pinguins na AntártidaA baixa diversidade é compensada pela enorme quantidade de representantes de cada espécie. A população de albatrozes, por exemplo, chega à marca de 60 milhões em suas várias espécies. Quando falamos nos simpáticos pinguins, apenas os pinguins-de-penacho-amarelo chegam a 4 milhões de aves somente na Ilha Geórgia do Sul.

Mas a maior emoção está reservada na volta para casa. Entre a América do Sul e a Antártida está a Passagem de Drake. Desafio em forma de mar, onde rajadas de vento acima de 100 km/h e ondas de 10m são comuns. Caminho obrigatória de todas as jornadas dos navios que rumam ao continente gelado. Nele se encontram dois grandes oceanos: o Pacífico e o Atlântico.

“Inferno no mar”

Ao longo dos séculos, o Drake tem sido o terror dos navegadores e ainda hoje é um desafio atravessá-lo, mesmo para os navios mais modernos. É como passar dois dias em uma montanha-russa, sem poder descer do brinquedo. Alguns navegadores se referem a ele como “O inferno no mar”. O repórter do Correio conheceu o Drake a bordo do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, da Marinha do Brasil.

Desde 1994, quando participou da primeira de suas 19 Operações Antárticas (Operantar), a embarcação brasileira conduz pesquisadores e materiais através da passagem de cerca de 900km. A travessia, ocorrida em uma sexta-feira e um sábado, durou 41 horas. Todas com bastante balanço, com o navio inclinando até 40 graus.

O Drake assusta e castiga até os mais experimentados navegantes. “Não foi a mais calma das travessias do Drake. Foram 41 horas bem complicadas”, comentou o capitão de mar e guerra Marcelo Seabra, comandante do Ary Rongel, há dois anos cruzando a passagem.

No fim do mundo

A vantagem é que, depois do Drake, vêm os canais chilenos. Geralmente, com águas tão calmas como as de uma lagoa, cercadas por montanhas e geleiras e tomadas por pinguins e golfinhos, que se exibem com saltos em frente e ao lado dos navios. A visão do paraíso começa ao passar o Cabo Horn, último pedaço de terra habitado ao sul das Américas. Para muitos, o fim do mundo.

Reserva da Biosfera pela Unesco, o Cabo Horn cultiva um mito por seu difícil acesso. Desde 1616, quando foi descoberto, é uma rota de navegação importante para as embarcações que navegam entre os dois oceanos, mas extremamente perigosa. Os ventos ali podem chegar até 200km/h e derrubar até o navio mais bem equipado. Nas imediações, há mais de 100 embarcações naufragadas.

Talvez por isso, alcançar o Cabo Horn atrai tantos aventureiros. Uma das poucas opções oferecidas ao turista é integrar a expedição do Cruzeiro Australis, que tem em sua rota uma parada no “fim do mundo”. O navio parte de Ushuaia e de Punta Arenas, visitando algumas ilhotas da Terra do Fogo, como Isla Magdalena e Baía Wulaia. O ponto alto é mesmo o Cabo Horn.

O desembarque só é feito se a velocidade do vento não ultrapassar os 60km/h. É preciso estar pronto para caminhar e se molhar, antes de ouvir a mensagem autorizando o embarque em bote inflável e seguir ao Cabo Horn. Certamente, a travessia entre o navio e o cabo será em mar revolto.

O bote é considerado seguro, mas não tem como escapar das ondas nem da água que espirra nos passageiros ou mesmo entra nele. Por isso, só roupas e calçados impermeáveis são aconselhados para o tour, que inclui a subida dos 160 degraus de uma escadaria íngreme até o topo do cabo. Para muitos, uma fria. Para outros tantos, a glória.

Deserto branco
Apesar de todo o gelo, a Antártida é, na verdade, um gigantesco deserto, cuja precipitação média anual é quase nula, variando de 30ml a 70ml. Para se ter uma idéia do que isso significa, a precipitação média em Brasília, famosa por sua secura, fica entre 1.200ml e 1.800ml nos meses de março a outubro.

Turismo na Antártida e na Patagônia chilena

Renato Alves (texto e fotos)

Localizada no extremo sul do planeta, a Antártida tem 13,6 milhões de quilômetros quadrados de neve e água congelada, cobrindo 99,5% do continente. Trocar sol e praia por um verão ali parece uma escolha improvável. Mas, cada vez mais gente lá desembarca atrás de uma sensação única. Alguns a comparam a pisar na Lua. Lembram algumas semelhanças, como o solo escuro e pedregoso — no verão — e uma grande área inabitada.

Para chegar até esse lugar, onde cientistas registraram a menor temperatura da história, somente por meio de voos militares ou em cruzeiros para turistas. Há quem pague mais de R$ 20 mil para passar algumas horas na parte mais inexplorada da Terra. Mas há opções mais baratas e menos aventureiras para conhecer maravilhas parecidas com as encontradas na Antártida. Na Patagônia, última região habitada antes do continente gelado, há milhares de pinguins e glaciais de encher os olhos.

Prazer para poucos

Um século após os primeiros navegadores identificarem a Antártida, o continente continua sendo o lugar mais selvagem da Terra. Pisar nele é para poucos. Mesmo com os avanços tecnológicos, são necessárias logística e infraestrutura adequados, além de disposição, paciência e um estômago forte. Os voos limitam-se praticamente às forças aéreas. Aos turistas, o único caminho passa pelo Drake, o trecho de mar mais temido do mundo. As longas e cansativas horas em navio e bote são recompensadas pelo cenário e a façanha e de passear por um dos mais hostis e menos explorados destinos do planeta.

Como repórter do Correio Braziliense, cheguei à Antártida em uma expedição da Marinha, com jornalistas, militares e cientistas brasileiros. Os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas foram os primeiros a desembarcar na Estação Comandante Ferraz após o incêndio que destruiu 70% das suas instalações, em 25 de fevereiro de 2012. A nossa jornada teve início em Punta Arenas, no extremo sul do Chile. Lá, embarcamos em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Os aviões C-130 (Hércules) da FAB pousam na base chilena Eduardo Frei (fotos acima e abaixo), levando também suprimentos, entre outubro e fevereiro. Mas esse trajeto de 1,2 mil km, em um voo de três horas, só é realizado quando o clima permite.

Quase não há teto para a aeronave pousar no aeródromo chileno. Quando aparece o que os pilotos chamam de janela, ela tem que ser aproveitada. Nessas condições, as mínimas em uma semana, após duas tentativas de pouso frustradas, o repórter do Correio chegou à Antártida em 7 de fevereiro, com mais de 40 cientistas e militares. Na noite daquele dia, ele fez a travessia de 500m na Baía do Almirantado, entre o navio Ary Rongel e a Ferraz. Por causa da ausência de portos no continente, as embarcações ficam estacionadas no meio do mar. Só pequenos botes chegam às praias das ilhas. Os jornalistas visitaram a base mais uma vez e passaram quatro dias na embarcação da Marinha brasileira.

Cruzeiros

A outra forma de chegar à Antártida é em um dos 45 navios de Cruzeiro que fazem cerca de 250 viagens à região, com passageiros do mundo inteiro, a cada alta estação. Ela vai de novembro a março, o verão antártico, quando as temperaturas são suportáveis a um ser humano e as águas dos canais e baías não estão congeladas, permitindo a passagem de navios que não sejam quebra-gelos. Identificada por navegadores pela primeira vez em 1820, a Antártida atrai cada vez mais turistas interessados em ver de perto os pinguins, focas, geleiras, icebergs e montanhas cobertas por neve. Até o começo da década de 1980, havia menos de mil visitantes por ano. Hoje, passam de 35 mil. Antes da crise mundial, eram mais.

Apesar do turismo na Antártida ser ainda muito caro, 35 operadoras de 10 países atuam com navios no continente. Elas levam visitantes a curtas incursões nas regiões costeiras. Cerca de 150 sítios, incluindo 20 estações científicas estão nos roteiros das visitas. Alguns sítios recebem até 7 mil visitantes. Os turistas que ano a ano vêm popularizando a Antártida como destino turístico não sofrem tanto quanto os militares, cientistas e jornalistas. Os cruzeiros que chegam à região têm uma boa infra-estrutura de acomodação e alimentação. Eles levam a estações científicas, monumentos históricos e colônias de animais. Entre as atividades estão também alpinismo, acampamento e mergulho.

Na época das visitas, o clima costuma ficar nublado. A temperatura, em 1ºC, em média. Mas, os ventos, que ultrapassam corriqueiramente os 100km/h, podem levar a sensação térmica a -12ºC. Nessas condições, só mesmo com trajes especiais: botas pesadas, macacão corta vento, casaco, gorro, óculos escuros,. Tudo grande, pesado e a prova d’água. Misturados à paisagem e às instalações das estações científicas, contribuem para um cenário de outro mundo.

Cuidados
As atividades são supervisionadas pela tripulação do navio, que inclui ornitologistas, biólogos marinhos, geólogos, glaciologistas, historiadores e naturalistas. Todos os cuidados com o ambiente são devidamente tomados.

Variações
Com tanto gelo, as temperaturas antárticas são baixíssimas. Na região central, os termômetros oscilam entre -30ºC e -65ºC e, em 21 de julho de 1983, a base russa de Vostok, localizada a aproximadamente 3,4 mil metros de altitude, registrou aquela que até hoje é a menor temperatura registrada no planeta: -89,2ºC.

Qual o nome certo?
Antártica ou Antártida? Tanto faz. O nome vem do grego antarktikos, que significa oposto ao ártico, ou seja, na extremidade sul do planeta. Os portugueses adotaram a forma Antártida, também admitida no Brasil, mas menos popular no resto do mundo. O continente é o único no planeta que jamais foi manchado por uma guerra ou qualquer tipo de conflito armado. Embora militares de vários países tenham equipes trabalhando em diversos pontos da Antártida e haja reivindicações sobre a propriedade das terras, não ocorrem demonstrações de animosidade. Por enquanto, toda a massa de 14 milhões de km², o equivalente à soma das áreas do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia — mas que pode chegar a 32 milhões de km² no inverno, com o congelamento dos mares —, pertence simplesmente à humanidade, com base em um acordo firmado em 1961 e conhecido por Tratado da Antártida.

Reportagem completa na edição de 27 de fevereiro de 2012 do caderno de Turismo do Correio Braziliense e nos próximos post deste blog

Antártida – Um lugar fascinante

Base chilena

Luiz Roberto Magalhães (texto) e Breno Fortes (fotos)

O destino de John Winston Lennon foi selado em 8 de dezembro de 1980, em frente ao edifício Dakota, em Nova York. Naquela data, uma segunda-feira, o norte-americano Mark David Chapman disparou, por volta das 23 horas, cinco tiros contra as costas do ex-músico dos Beatles. O assassino retribuiu com balas uma cortesia que John Lennon lhe fizera horas antes ao autografar para ele uma cópia de seu mais recente trabalho, o álbum Double Fantasy.

Mar antárticoNove anos antes de ser morto, em 1971, Lennon brindou os fãs com a música que se tornaria um hino e seria eleita pela revista Rolling Stone como uma das três maiores canções de todos os tempos. Imagine fala de um mundo utópico, protegido dos males que castigam a humanidade. “Imagine que não existem países. Não é difícil de fazer… Imagine nenhuma propriedade. Me pergunto se você consegue”, diz trecho da música.Território chileno vizinho à Antártida

Em muitos aspectos, o lugar idealizado por John Lennon existe. Ele se chama Antártica.

Como sonhou Lennon, o continente branco é o único ponto na terra onde não existem países. Na Antártica (ou Antártida – os dois nomes são aceitos, mas a Marinha do Brasil adotou o com a letra “c” como oficial) não há divisão geopolítica.

Toda essa massa, de cerca de 14 milhões de km2 , o equivalente à soma das áreas do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia — mas que pode chegar a 32 milhões km2 no inverno, com o congelamento dos mares –, por enquanto pertence simplesmente à humanidade. Tudo por conta de um acordo firmado em 1961 e conhecido por Tratado da Antártica.

Base Aérea Chilena na AntártidaOutro ponto em comum entre a Antártica e Imagine é que o lugar jamais foi manchado por uma guerra ou qualquer tipo de conflito armado. Embora equipes de militares de vários países trabalhem em diversos pontos do continente, nunca houve uma animosidade.

“Acho que a presença militar na Antártica existe mais por conta da logística mesmo”, acredita o carioca Francisco Carlos Ortiz de Holanda Chaves, 54 anos. Contra-almirante da Marinha do Brasil, ele é o secretário e o responsável pela Comissão Interministerial Para Recursos do Mar (Cirm), cujo um dos braços é o Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

“As organizações civis, em sua maioria, dificilmente teriam como se instalar aqui, por conta das condições extremas do local. Então, existe essa cooperação militar. Os militares só estão aqui para permitir que os cientistas trabalhem. A cordialidade entre as bases de todos os países é muito alta”, completa o almirante.

Fóssil de baleiaDesafios

Quem quer que se aventure a explorar a Antártica deve estar disposto a enfrentar grandes desafios. Com todas suas terras localizadas ao Sul do Paralelo 60oS, o continente é o local mais inóspito do planeta.

Somente 0,5% de toda a área fica descoberta de gelo ou neve e, ainda assim, isso só acontece no verão, entre os meses de dezembro e março. No restante do ano, tudo é simplesmente branco. Uma clareza impressionante, que reflete 80% da luz solar que incide no território e, assim não permite que ele se aqueça.

A Antártica é o continente mais frio e seco da Terra. Apesar de todo o gelo, trata-se de um gigantesco deserto, cuja precipitação média anual (de chuva, não de neve) é quase nula, girando entre 30mm e 70 mm. Para se ter uma idéia do que isso significa, a precipitação média em Brasília, famosa por sua secura, fica entre 1.200mm e 1.800 mm nos meses de março a outubro.

Avião da Força Aérea BrasileiraCom tanto gelo para todo lado, as temperaturas antárticas são baixíssimas. Na região central, os termômetros oscilam entre -30o e -65o e, em 21 de julho de 1983, a base russa de Vostok, localizada a aproximadamente 3.400 metros de altitude, registrou aquela que até hoje é a menor temperatura registrada no planeta: -89,2oC.

Devido à influência das correntes marítimas, entretanto, as zonas costeiras, onde se localiza a Estação Antártica Comandante Ferraz, base do Brasil, apresentam temperaturas mais amenas, entre os -10°C e -20°C.

Para a maioria, pensar em Antártica é imaginar um enorme vazio. Um lugar repleto de gelo e com quase nenhuma vida. De fato, se comparada com outros biomas, a natureza não é generosa em diversidade na região. Espécies de aves, por exemplo, são apenas 60. Quase nada se comparadas às 1.840 conhecidas apenas no Brasil.

“Em termos de diversidade, a Antártica não é rica”, concorda o biólogo Edson Rodrigues Júnior, 24 anos, pesquisador da Universidade de Taubaté. Morando na base brasileira desde março, ele pesquisa os peixes da região. “Só que a Antártica não é tão pobre como muitos imaginam. Temos mais de 300 espécies só de peixes”, explicou.

Cientistas brasileirosA baixa diversidade é compensada pela enorme quantidade de representantes de cada espécie. A população de albatrozes, por exemplo, chega à marca de 60 milhões em suas várias espécies. Quando falamos nos simpáticos pingüins, apenas os pingüins-de-penacho-amarelo chegam a 4 milhões de aves somente na Ilha Geórgia do Sul.

Última fronteira 

A Antártica é a última grande fronteira a ser explorada pelo homem. Um continente fascinante, que há décadas tem representado um enigma que só agora começa a ser desvendado. Sua importância para a vida no planeta é crucial. E grandes esforços têm sido empregados para preservar esse enorme porção de gelo, que concentra cerca de 80% de toda a água doce do mundo.

Navio brasileiro“Se somarmos todos os reservatórios de água doce do mundo, todos os rios, lagos, lagoas e lençóis freáticos, eles são apenas 20% da reserva do planeta. O resto está aqui, na Antártica”, compara o fotógrafo e cinegrafista Haroldo Palo Júnior, que tem registrado as expedições do Brasil na região há 11 missões e já publicou dois livros sobre o continente.

“A Antártica é o refrigerador da Terra. Se ela não existisse, a vida humana aqui não seria possível”, ressalta o paulista José Roberto Chagas, 56 anos, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que trabalha desde 1983 monitorando o clima e o buraco na camada de ozônio na região.

Lições

Neste mundo gélido, desbravadores como o inglês R. F. Scott e sua equipe perderam a vida no início do século passado. E outros, como o norueguês Roald Amundsen — primeiro homem a chegar ao Pólo Sul, em 14 de dezembro de 1911 – e o inglês Ernest Shackleton, encontraram a glória.

Pinguim dançandoMas a maior lição da Antártica permanece incrivelmente simples e, ao mesmo tempo, ironicamente pouco percebida. “O que me encanta muito é que aqui podemos ouvir um silêncio que ninguém tem noção quando estamos no Brasil. Quando o navio está aqui, no verão – navio de pesquisas Ary Rongel, da Marinha Brasileira –, ainda ouvimos barulhos lá fora. Mas no inverno, não ouvimos absolutamente nada. É um silêncio incrível. Aqui temos paz de verdade”, finaliza o biólogo Edson Rodrigues.

Uma paz que John Lennon imaginou apenas em sua música. Mas que existe. Cercada de um branco de uma pureza singular.

Montanha nevada proxima a estacao Antartica Comandante Ferraz

 

 

Imagem da Antártida

Breno Fortes/17-11-2008

“Esta foto foi feita próximo à Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George. Esses bichinhos são magníficos e dói pensar que seres humanos maltratam os animais.”

A mensagem foi enviada pelo repórter-fotográfico Breno Fortes, autor da imagem. Ele está na Antártida acompanhando cientistas e militares brasileiros. Breno e o repórter Luiz Roberto Magalhães apuram como se vive e o que se faz no continente gelado. O resultado pode ser conferido no Correio Braziliense (www.correiobraziliense.com.br). Curiosidades e fotografias inéditas serão publicadas neste blog.

Aventura na Antártida

Luiz Roberto Magalhães//Do Correio Braziliense

O continente branco é o único no planeta que jamais foi manchado por uma guerra ou qualquer tipo de conflito armado. Embora militares de vários países tenham equipes trabalhando em diversos pontos da Antártida e haja reivindicações sobre a propriedade das terras, não ocorrem demonstrações de animosidade. Por enquanto, toda a massa de 14 milhões de km2 , o equivalente à soma das áreas do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia — mas que pode chegar a 32 milhões de km2 no inverno, com o congelamento dos mares —, pertence simplesmente à humanidade, com base em um acordo firmado em 1961 e conhecido por Tratado da Antártida.

Em meio ao clima pacífico, os militares se dedicam a tornar possível o trabalho de cientistas e outros visitantes. “Acho que a presença militar na Antártida existe mais por conta da logística mesmo”, diz o carioca Francisco Carlos Ortiz de Holanda Chaves, 54 anos. Contra-almirante da Marinha do Brasil, ele é o secretário e o responsável pela Comissão Interministerial para Recursos do Mar (Cirm), que tem como um de seus braços o Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

“As organizações civis, em sua maioria, dificilmente teriam como se instalar aqui, por conta das condições extremas do local. Então, existe essa cooperação militar. Os militares só estão aqui para permitir que os cientistas trabalhem. A cordialidade entre as bases de todos os países é muito alta”, completa o almirante. Quem quer que se aventure a explorar a Antártida deve estar disposto a enfrentar grandes desafios. A claridade reflete 80% da luz solar que incide no território e, assim, não permite que ele se aqueça.

Deserto branco

Apesar de todo o gelo, a Antártida é, na verdade, um gigantesco deserto, cuja precipitação média anual é quase nula, variando de 30ml a 70ml. Para se ter uma idéia do que isso significa, a precipitação média em Brasília, famosa por sua secura, fica entre 1.200ml e 1.800ml nos meses de março a outubro.

Com tanto gelo, as temperaturas antárticas são baixíssimas. Na região central, os termômetros oscilam entre -30oC e -65oC. Devido à influência das correntes marítimas, entretanto, as zonas costeiras, onde se localiza a Estação Antártica Comandante Ferraz, base do Brasil, apresentam temperaturas mais amenas, entre os -10°C e -20°C.

Para preservar esse habitat, que concentra cerca de 80% de toda a água doce do mundo, muita gente está se esforçando nas proximidades do Pólo Sul. “A Antártica é o refrigerador da Terra. Se ela não existisse, a vida humana aqui não seria possível”, ressalta o paulista José Roberto Chagas, 56 anos, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que trabalha desde 1983 monitorando o clima e o buraco na camada de ozônio na região.

Luiz Roberto Magalhães é jornalista. A matéria acima faz parte da série de reportagem que ele publica a partir de hoje no Correio Braziliense (www.correiobraziliense.com.br). Para quem não tem acesso ao jornal e quer saber como se vive e o que se faz na Antártida, esse blog publicará, em breve, posts especiais do Luiz Roberto e fotos feitas pelo parceiro de viagem dele, o repórter-fotográfico Breno Fortes.