Esqueça a ideologia e vá para Cuba

cuba56.jpg

Renato Alves (texto e fotos)

O que vai ser de Cuba após Fidel Castro? Nem os cubanos têm uma resposta pronta. Na dúvida, pegue logo um avião rumo à ilha. Antes que vire mais um reduto de ricos europeus e norte-americanos, em busca de sol, praias, bebida gelada, mulher bonita e o conforto dos modernos resorts. Nada além do que existe na costa brasileira ou em outros destinos capitalistas do Caribe.

Estive em Cuba duas vezes. A primeira, a trabalho, com o intuito de apurar um reportagem que descrevesse o modo de vida do único país comunista das Américas. A segunda, em férias, para aproveitar as maravilhas da ilha.

Conhecer a terra dos irmãos Castros a é uma experiência inesquecível, independentemente de ideologia. Eu, por exemplo, sou contra qualquer regime totalitário, mas me tornei um admirador do país. Do país dos cubanos, dos carrões, do tabaco, dos drinques, da música, da dança.

Desembarque

A chegada ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, torna-se excitante assim que o passageiro deixa o avião. O terminal pequeno, as instalações simples e antigas e o rigor da fiscalização deixam claro que se trata de um país diferente do ponto de vista capitalista.

Além dos olhares desconfiados, o turista pode estranhar a morosidade do guarda fardado na cabine do controle de passaporte. O militar faz questão de olhar cada página do documento. Apesar do semblante sério dos guardas de emigração e da alfândega, a maioria dos visitantes é aceita sem transtornos.

No máximo, durante o exame do seu passaporte, o estrangeiro é convidado a tirar os óculos (se tiver) para conferência da fotografia do documento. Não há interrogatório, obrigatoriedade de tirar o calçado ou outra medida incômoda do tipo antiterrorista.

O turista é liberado após uma ou duas perguntas, como o quê pretende fazer e quanto tempo ficará no país. Um visto de entrada em Cuba, antes tratado como questão de segurança nacional, hoje custa US$ 20. Ele é vendido nas agências de turismo, com os pacotes de viagem.

Propaganda

A primeira sensação fora do aeroporto pode não ser das mais agradáveis, caso se desembarque em um dia chuvoso ou de alta umidade relativa do ar, dois fenômenos corriqueiros na ilha. O forte calor úmido impede uma fotografia em frente à fachada singular do terminal — é impossível desembaçar a lente da câmera — e faz o turista procurar imediatamente um veículo com ar-condicionado.

cuba106.jpg

O desconforto é esquecido assim que a van ou táxi deixa as dependências do José Martí. No começo da viagem entre o aeroporto e a área urbana de Havana se vê outdoors de madeira com propaganda oficial. Os primeiros de milhares instalados em todo o país.

cuba52.jpg

Um dos símbolos do regime comunista, as placas trazem principalmente mensagens de apoio à revolução e provocações ao maior inimigo, os EUA. A estrada que liga o aeroporto à capital cubana cruza fazendas, vilas e os bairros mais afastados de Havana. No traslado, os primeiros contatos com o cotidiano revolucionário e os efeitos do embargo “imperialista” norte-americano.

cuba47.jpg

Homens consertando os carrões confiscados dos antigos ricos moradores de Havana — produtores de cana-de-açúcar, comerciantes, empresários e mafiosos estadunidenses — são vistos em cada esquina. Mulheres jogando conversa fora nos muros baixos. Idosos sentados em gastas cadeiras de balanço, nas varandas e calçadas. Todos em um ritmo lento, como quem não tem pressa para ganhar dinheiro.

Havana Velha

A melhor maneira de conhecer Havana é andando, vasculhando becos, bares, feiras, museus e casarões. Para não cansar mais do que deve, organize com antecedência cada passeio. Compre um guia ou um mapa — nos hotéis há bons mapas, muitos de cortesia — e trace um roteiro a partir da quantidade dos dias em que pretende ficar na cidade.

cuba111.jpg

O ideal é ao menos dois dias para cada uma das quatro mais movimentadas regiões: Habana Vieja (Havana Velha), Centro, Vedado e Plaza. Em todas há prédios históricos, museus, bons restaurantes, bares charmosos e gente atraente.

cuba189.jpg

Como há muito a ver, fotografar e conversar, acorde cedo e tome um café reforçado. A moderna rede hoteleira de Havana oferece ótimas refeições, além de amplos e confortáveis quartos. A maioria, de redes europeias, que com o baixo custo da mão-de-obra e vantagens oferecidas pelo governo cubano conseguem manter serviços de padrões internacionais com tarifas relativamente baratas.

cuba5.jpg

Comece o tour por Habana Vieja. Com calçado confortável e roupas leves, entre pela Plaza de la Catedral. Fechada por prédios coloniais nos quatro lados, tem acesso por três ruelas. A praça é cercada pela Catedral de San Cristóbal, pelo Museo de Arte Colonial, Palacio del Conde e Palacio de los Marqueses de Arcos, além do restaurante El Patio.

cuba14.jpg

A rua, exclusiva dos pedestres, é feita de pequenos blocos de pedra. Nas calçadas, também de pedra, artistas locais produzem e exibem suas obras, como pinturas em telas e desenhos de nanquim ou guache. A paisagem serve de modelo.

Mojitos

Quase na esquina com a Catedral, fica o mais famoso bar cubano. O La Bodeguita del Medio ganhou o mundo por meio do seu mais ilustre freqüentador, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Ele sempre exaltou o mojito (bebida típica cubana, feita de rum, suco de limão hortelã, água e gelo) do La Bodeguita. Hemingway tem razão. Mesmo na ilha, é difícil encontrar igual.

cuba44.jpg

A atmosfera do Bodeguita também é única. Os balcões, cadeiras, mesas e paredes revestidas de madeira são os mesmos da época de Hemingway. As partes das paredes sem a madeira são cobertas de nomes e mensagens, escritas a caneta pelos visitantes.

cuba46.jpg

Os preguiçosos ventiladores não conseguem esfriar o clima festivo, que esquenta ainda mais com a entrada de um grupo musical. O cliente pode desfrutar até de música popular brasileira. Os cubanos conhecem a maioria dos nossos compositores e intérpretes. Eles admiram Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Caetano Veloso.

Caderneta, arte e sabores

Após conhecer a La Bodeguita del Medio e tomar uns drinques, se ainda tiver fôlego e pernas para caminhar, siga por qualquer uma das ruas que cortam a Plaza de la Catedral. O passeio é obrigatório para quem deseja conhecer o estilo de vida cubano e os moradores da cidade. Entre na primeira bodega que encontrar.

cuba20.jpg

Nela é distribuída a comida e outros produtos de primeira necessidade da população. Na hora de passar no caixa, os clientes não tiram cartão de crédito ou débito. Da bolsa ou do bolso saem moedas e uma caderneta, em que o funcionário anota o produto e a quantidade. Cada cubano tem uma cota mensal.

cuba21.jpg

Quando quer mais (e pode pagar), o cubano recorre ao mercado paralelo, onde tudo é muito caro, devido à escassez de produtos no país. Apesar de certa melhora na economia, comparando com anos 1990, ainda falta de tudo, do sabonete à camisa. É comum ver meninos brincando de sapatos furados ou vestidos em roupas bem mais curtas — eles usam até esfarelar.

cuba188.jpg

Não é lenda nem preconceito. Os cubanos param sim os turistas para pedir itens de higiene pessoal. Como custam caro à população, xampu, sabonetes e similares são considerados artigos de luxo. Carregue os kits de banho dos hotéis para agradá-los e ajudá-los. Os pais, sem vergonha alguma, costumam pedir caneta e borracha para os filhos estudantes.

Em Cuba, porém, ninguém fica sem escola, morre de fome ou ao relento. Nem vive debaixo de ponte ou em favela.

Ver, ler, descansar

Partindo da Plaza de la Catedral, após 10 minutos de caminhada ininterrupta, chega-se à Plaza Vieja. Prédios da tradicional arquitetura espanhola emolduram a praça, calçada de pedras centenárias. A sombra dos restaurantes, seus drinques deliciosos e a ótima música cubana, são um alívio em dias de sol quente. Ainda há oficinas de arte que valem a pena ser visitadas.

cuba33.jpg

Entre na Calle Obispo (Rua do Bispo), em direção a Plaza de Armas. Ande devagar. Aproveite a sombra e aprecie os sobrados coloniais ao longo da rua apertada e aprazível. Assim que avistar um vendedor ambulante de cartão-postal ou de artesanato, pare e puxe conversa.

cuba176.jpg

Eles sempre têm tempo para contar boas histórias. O cubano adora fazer amizades. Principalmente com brasileiro. Não deixe de fazer uma foto ao lado de um dessas figuras caricatas. Elas também gostam de serem fotografados.

A Plaza de Armas é toda arborizada. Também com trânsito restrito aos pedestres, é um convite ao descanso. Os bancos de concreto são disputados por cubanos — abertos a uma prosa — e turistas.

A praça abriga uma feira permanente de livros novos e usados (a maioria). Algumas obras dos melhores autores cubanos podem ser compradas por uma pechincha. Entre os lançamentos, os melhores são os livros de fotografia, que retratam a revolução e o cotidiano.

Em torno dessa praça, também há excelentes restaurantes e prédios históricos. O mais atraente é o Palacio de los Capitanes Generales, belo exemplo do barroco cubano. Construído entre 1776 e 1792, abrigou a Assembléia Legislativa, serviu de residência do governador da província de Havana e cadeia. Em 1967, tornou-se o Museo de la Cidade, mas a estrutura da suntuosa casa oficial permanece intacta.

cuba34.jpg

Paladares

Além de restaurantes tradicionais e requintados, em Havana Velha também há ótimos paladares. São restaurantes de comida caseira, administrados por cubanos comuns, que ganharam autorização do governo para ter o próprio negócio.

Mas eles precisam seguir algumas regras, como atender no máximo a 12 pessoas ao mesmo tempo. O restaurante só pode funcionar na casa do dono da licença. O microempresário não pode contratar ninguém. O cozinheiro e garçons têm que ser da família.

Com isso, almoçar em um paladar é uma das melhores oportunidades de se conhecer uma casa cubana e seus moradores. Além de tudo, é a maneira mais econômica de se comer em Havana.

Os paladares têm poucas opções no cardápio — por causa da falta de capital do dono e da escassez de produtos —, mas todas são muito bem preparadas e saudáveis. A mais comum é a carne de porco, acompanhada de salada e de arroz e feijão preto (misturados, tipo baião de dois, sem queijo). O prato sai, em média, por R$ 15.

O nome paladar é fruto do sucesso da novela Vale Tudo (Rede Globo, 1988 a 1989). Também em Cuba, a trama bateu recordes de audiência. A protagonista Raquel (Regina Duarte), que, após perder tudo ao ser roubada pela filha Maria de Fátima (Glória Pires), se reergueu ao abrir um restaurante, o Paladar.

Revolução, ballet e charutos

Após Havana Velha, o melhor destino na capital cubana é o Centro. Inicie o passeio pelo Capitólio. Isso mesmo, Cuba tem seu Capitólio. É uma imitação do prédio homônimo de Washington (EUA), mas ainda mais alto.

Inaugurado em 1929 pelo ditador Geraldo Machado, aliado dos norte-americanos, foi sede do governo cubano até 1959. Hoje, abriga alguns ministérios e exposições de artes. Por quase R$ 16, pode-se visitar quase todo o prédio, como a antiga Câmara dos Deputados, o extinto Senado Federal e a deslumbrante biblioteca.

cuba70.jpg

Imponente por fora, o Capitólio é um símbolo de Havana. O seu domo, com 92m de altura, era o ponto mais alto da cidade até 1950. Ainda hoje, ele pode ser visto de quase toda capital cubana. Por dentro, o mais impressionante é o hall.

A cópia de um diamante de 25 quilates está embutida no piso embaixo do domo. O original pertenceu ao último czar da Rússia e foi vendido a Cuba por um joalheiro turco. Acabou roubado e mais tarde misteriosamente devolvido ao então presidente Machado.

De frente à obra está outra preciosidade, a Estátua da República. Fundida em Roma (Itália) e coberta com folhas de ouro de 22 quilates, a obra tem 17m de altura e pesa 49 toneladas.

Do lado de fora, na escadaria, há outra raridade cubana, bem menos valiosa mas tão deslumbrante quanto o diamante e a estátua. São os fotógrafos lambe-lambe. Em plena era digital, eles ainda fazem retratos em preto e branco, em equipamentos manuais, com revelação manual.

São homens acima de 60 anos, de muita paciência, experiência e habilidade. Vale a pena sentar na escadaria do Capitólio e pagar poucos mais de R$ 6 por uma cópia de 5cm X 7cm. Depois da pose, acompanhe de perto a magia da fotografia.

cuba63.jpg

Veja a confecção da cópia, em menos de 20 minutos, no meio da calçada, feita em uma máquina velhaencoberta por madeirite, pano e escorada em um tripé fino.

Charutos

Em volta do Capitólio, não faltam prédios, ruas e praças interessantes. Atrás do edifício fica a Real Fábrica de Tabacos Partagás. O prédio é sede da maior fábrica de charutos cubanos e um modelo da arquitetura industrial do século 19. Os operários trabalham ouvindo trechos de leituras com músicas e notícias saídas de um alto-falante. A rotina pode ser acompanhada pelos turistas por pouco mais de R$ 20.

cuba69.jpg

Anexa à fábrica está La Casa del Habano , uma confortável loja de charutos, com uma sala nos fundos para provar os tabacos mais famosos de Cuba, como Romeo y Julieta, Montecristo e Cohiba.

Perto da Partagás fica o Bairro Chinês. Do seu apogeu, no início do século 20, restaram o portal e poucas lojas e restaurantes com especialidades asiáticas, concentradas na área chamada Chuchillo de Zanja. O bairro também abriga a Igreja da Caridade, dedicada à santa padroeira de Cuba, a Virgem do Cobre.

cuba192.jpg

Grande Teatro

Ainda no entorno do Capitólio, de grande valor arquitetônico, histórico e cultural, estão o Grande Teatro de Havana e os hotéis Inglaterra e Plaza. Os dois últimos são do século 19.

O Grande Teatro é uma das maiores casas de ópera do mundo. Foi inaugurado em 1915 com a apresentação de Aída, de Verdi. A impressionante fachada tem quatro grupos de esculturas do artista italiano Giuseppe Moretti, que representam a caridade, a educação, a música e o teatro.

Além de óperas e peças de teatro, o Grande Teatro tornou-se o palco principal da bailarina cubana Alicia Alonso. Ela fundou o Ballet Nacional de Cuba, companhia de dança e escola conhecida por organizar um famoso festival anual de balé.

Algumas das discípulas de Alonso servem de guias turísticas em visitas guiadas pelos salões do Grande Teatro, por menos de R$ 6.

Do segundo pavimento do prédio, se vê dois parques que valem a pena ser visitados: o Fraternidade e o Central. Ambos com árvores frondosas e muita sombra. Próximo ao segundo está o Passeio do Prado, construído em 1772.

cuba110.jpg

A avenida preferida pelo povo de Havana para passear, é ladeada por belos edifícios. O canteiro central, exclusivo para pedestres, tem oito leões de bronze e bancos de mármore, além de elegantes luminárias de ferro.

Revolução

A três quadras do Passeio do Prado está o Museu da Revolução, instalado no antigo palácio presidencial do ditador direitista Fulgencio Batista, tirado do poder pelos guerrilheiros.

cuba48.jpg

O prédio, inaugurado em 1920, serviu de residência a outros 21 presidentes. Ele foi decorado pela Tiffany de Nova York. Algumas obras de arte e móveis foram mantidos. Mas o mais importante são os documentos, fotografias e objetos que representam a luta do povo cubano pela independência. Ideologias a parte, a visita é obrigatória para quem se interessa pela história do país.

cuba101.jpg

Nos fundos do museu fica o Memorial Granma, com destaque para o iate que dá nome ao pavilhão de vidro. O barco trouxe Fidel Castro e alguns de seus companheiros do México para Cuba, em 1956, para iniciar a luta armada contra Batista.

Há ainda veículos e aviões relacionados ao episódio da Baía dos Porcos (1961) — invasão fracassada de mercenários financiada pelos Estados Unidos — e mísseis soviéticos do período da Guerra Fria, além de relíquias da atividade cubana na Etiópia e em Angola. O ingresso para visita ao museu e ao memorial custa pouco mais de R$ 10. Justifica-se cada centavo.

Malecón

Após o Centro e Havana Velha, Vedado e Plaza são outras duas regiões imperdíveis para quem deseja conhecer a história de Havana e de Cuba. Diferente das duas anteriores, Vedado e Plaza são áreas mais novas — para os padrões cubanos —, mas não menos charmosas e instigantes. O ponto de partida ideal é o Malecón, a avenida beira-mar da capital.

Comece o passeio pela quadra do Hotel Nacional, joia da arquitetura Art Decó, inaugurada em 1930 e principal abrigo de estrelas hollywoodianas, presidentes ocidentais e mafiosos, no período pré-revolução. Mesmo sem o cassino — a jogatina é proibida desde a ascensão de Fidel Castro ao poder — , o Hotel Nacional não perdeu o charme. Ainda é o mais badalado de Cuba.

cuba128.jpg

Siga pela Rua 23 (Calle 23), no trecho conhecido como La Rampa. Durante a semana, é uma via bem agitada, devido aos inúmeros escritórios, restaurantes e bares com gastos letreiros de néon — a maioria, apagada. Na La Rampa fica a sede do Ministério do Açúcar com sua fachada revolucionária, o Pabellón Cuba — espaço para exposições de artes — e uma pequena feira de artesanato.

Após menos de 10 minutos de caminhada, chega-se ao cruzamento com a Rua L e a uma agradável e disputada praça. Em dia de calor forte, sempre há uma fila enorme de pessoas sob as árvores. São cubanos à espera da entrada na concorrida sorveteria Coppelia, instalada em um prédio de vidro e metal, no meio da praça.

Inaugurada em 1966, a Coppelia ficou famosa no mundo inteiro devido ao filme Morango e Chocolate (1993), de Tomás Gutiérrez Alea. Na verdade, há duas Coppelias. A outra também fica na praça, é bem menor e só atende turistas, que não precisam enfrentar filas. Mas os sabores de ambas são os mesmos: deliciosos. Duas bolas com um biscoito waffle saem por menos de R$ 5.

Quartel-general

Do outro lado da Rua 23 está o também charmoso hotel Habana Libre, com sua impressionante fachada, uma obra de arte feita de ladrilhos da renomada cubana Amelia Peláez. Aberto em 1958, acabou confiscado um ano depois para servir de quartel-general de Fidel durante a tomada de Havana. Várias fotos exibidas nas paredes do hall do prédio ilustram esse momento histórico.

cuba168.jpg

Do Habana Libre, vá em direção à Praça da Revolução, que fica a umas 10 quadras. Faça o trajeto pela Avenida dos Presidentes e a Calle Paseo. O caminho pelas largas e arborizadas vias é cercado de luxuosos edifícios dos séculos 19 e 20 em estilo francês. Em alguns dos prédios funcionam museus, escritórios do governo e ministérios.

O ponto alto é a Praça da Revolução. Não há qualquer sombra ou verde no meio ou entorno dela. Nem bancos ou chafarizes. Sem uma arquitetura ou projeto de destaque, a importância dela é histórica e política. Desde a vitória de Fidel, a praça se tornou palco das maiores e decisivas manifestações populares. Ali costumam se encontrar mais de 1 milhão de cubanos a cada discurso dos seus líderes.

cuba124.jpg

Entre os monumentos da Praça da Revolução, o mais imponente é o Memorial José Martí, que começou a ser construído em 1953, no centésimo aniversário de nascimento do herói nacional de Cuba. Concluído em 1959, é uma torre de 109m de altura representando uma estrela de cinco pontas, feita com mármore cinza da Isla de la Juventud (ilha da região oeste de Cuba).

Embaixo há uma estátua de José Martí, de mármore branco. Chega-se ao ponto mais alto da torre por um elevador. É o ponto mais alto de Havana. De lá se vê toda a cidade. Menor, mas tão atraente quanto o memorial, o Ministério da do Interior se destaca por causa da fachada. Na verdade, em função do que há sobre ela: uma imensa escultura de bronze de Che Guevara.

A escultura é uma cópia da célebre imagem eternizada pelo fotojornalista Alberto Korda. Sob o busto está a frase Hasta la Victoria siempre (Sempre em busca da vitória). Che tinha um escritório no Ministério do Interior, que comandou por um curto período, após o triunfo da revolução cubana.

cuba138.jpg

Se ainda tiver ânimo, termine o dia com uma caminhada pelo Malecón, curtindo o pôr-do-sol e ritmos cubanos, tocados por músicos sempre dispostos a agradar o turista em troca de alguns dólares. Eles fazem por merecer o agrado.

cuba137.jpg

O charme das ruas de Cuba sem os turistas e o Obama

Como retratar um país que está passando por importantes mudanças históricas nesse exato momento? Muito provavelmente, Cuba não será a mesma em cinco anos. Com a recente abertura do país, suas ruas já foram visitadas por Barack Obama e rolou até um show grátis (e memorável!) dos Rolling Stones por lá.

Foi assim que o fotógrafo de rua Ross Harvey percebeu que esta poderia ser uma das últimas oportunidades de registrar um pouco da autenticidade das ruas de Cuba. Junto com três amigos, ele decidiu visitar o país em uma viagem que durou nove dias e passou por regiões menos turísticas, documentando um pouco do dia-a-dia de seus habitantes.

cuba20

cuba19

cuba18

cuba17

cuba16

cuba15

cuba14

cuba13

cuba12

cuba11

cuba10

cuba9

cuba8

cuba7

cuba6

cuba5

cuba4

cuba3

cuba2

cuba1

Todas as fotos © Ross Harvey

Havana, objeto de desejo

La habana, Cuba

 

Do Lonely Planet

A época do pacote turístico Havana-Varadero terminou. O voo + hotel + refeições no hotel talvez fosse necessário quando durante um tempo quase não era possível encontrar lugares onde beber algo fora do horário e do estabelecimento reservado. Mas a realidade da cidade hoje é muito diferente. Desde 1982, quando Havana Velha foi declarada patrimônio mundial, começaram a ser restauradas igrejas, fortalezas e outros prédios históricos coloniais. A remodelação da cidade como destino turístico, entretanto, aumentou bastante nos últimos anos e o ritmo agora é frenético.

Hoje, Havana é uma cidade em ebulição onde os andaimes e as ruas reformadas vão dando lugar a belos passeios públicos para uso não só dos turistas, mas também dos próprios cubanos, que ou abrem negócios, ou passam ali seus momentos de ócio, deixando o centro antigo da capital fervilhante de atividade.
A restauração dos prédios coloniais vem junto com a reabilitação de um espetacular patrimônio de arquitetura art déco que recupera o ambiente dos anos vinte aos cinquenta, os anos dos clubes de jazz, das estrelas de Hollywood e das visitas de escritores e artistas de todo o continente americano. A vocação cosmopolita que sempre distinguiu a cidade está sendo recuperada a um ritmo vertiginoso, ritmo que recebe agora um novo impulso graças ao restabelecimento das relações Cuba-Estados Unidos.

Espaços bem-cuidados

Mapa de La Habana.

Mapa de Havana. / JAVIER BELLOSO

 

Havana Velha sofreu gentrificação? Pelo menos até agora, não. Os habitantes desse bairro popular não foram removidos para nenhum outro lugar. A abertura de novos negócios (restaurantes, lojas de arte, estúdios de tatuagem, pequenos estúdios de artistas, espaços bem-cuidados), entretanto, deram à região um toque cool que antes não existia. Sobretudo no quadrilátero formado pelas ruas Oficios e Mercaderes. Na Praça Velha, completamente renovada, existem lugares para se tomar uma bebida na varanda do primeiro andar, sofás na rua ou lojas de marca.

Mas o ponto forte continua sendo os extraordinários locais históricos, agora totalmente renovados, como o elegante – e acolhedor – Café do Oriente (na praça de São Francisco), uma esplêndida construçãoart déco onde uma pequena orquestra de jazz pode servir de trilha sonora para uma taça de vinho por 3 pesos cubanos ou cucs (8 reais – um cuc vale 2,98 reais), ou um coquetel (dry martini, 13 reais; daiquiri, 12) enquanto a pessoa se acomoda em um maravilhoso balcão antigo de madeira, mármore e bronze.

Desfile en zancos frente a la catedral de La Habana, en Cuba.

A avenida do Porto merece uma menção à parte, ela que se encontra em pleno processo de transformação e incluirá a remodelação do magnífico edifício portuário (a atividade mercantil foi para o porto de Mariel). A partir das 7h30, um batalhão de operários trabalha colocando palmeiras e postes de luz, alternadamente, alongando o Malecón até o edifício da Nova Cervejaria, onde cerveja artesanal é servida no formato de jarra ou “distribuição coletiva”. A construção do chamado Local de Luz (em frente ao belo terraço do hotel Santander) está nos planos, uma espécie de centro comercial moderno envidraçado que, tomara, pensem mil vezes antes de realizá-lo – e digo isso porque não me atrevo a dizer que espero que não o façam nunca.

Todo o sabor do Caribe

Un viejo coche y el restaurante Casa Miglis.

O caminho da praça da Catedral até a avenida Prado pela rua Empedrado (onde encontra-se a famosa Bodeguita del Medio) se transformou em um movimentado passeio público com todo o sabor caribenho: cabeleireiros pra clássicos e modernos, academias de salsa que dão as aulas com as janelas abertas para a rua, mercadinhos improvisados em saguões ou pátios de moradores onde é possível encontrar desde postais antigos ou velhas revistas em quadrinhos até os mais estranhos bonecos de plástico. No momento em que escrevo este texto, grande parte da região está cheia de obras, com valas, tubulações à mostra, pequenas escavadoras, carrinhos de frutas ambulantes e táxis-bicicleta. Mas a visita vale a pena. Um pouco mais ao sul, pela rua Sol ou a rua Muralla, podemos encontrar pequenos mercados que não foram feitos para turistas, ou mercados de bairro.

O poderio de uma cidade

Trabajadores del hotel La Nacional, en La Habana.

Os magníficos pórticos da avenida Prado, com o Capitólio ao fundo (que também está sendo restaurado) e os impressionantes carros de época alinhados em formação perfeita, refletem o poderio da cidade. Sim, parece um cartão-postal dos anos cinquenta. Felizmente não é, e o movimento indica uma agitada vida tanto turística como cotidiana: congestionamentos, fumaça, buzinadas e empurrões

Caminhando do mítico restaurante Floridita até a praça de Armas pela rua Obispo, estamos de repente imersos no que poderia equivaler à típica rua comercial de qualquer pequena cidade, com a particularidade de que a mais simples das lojas (uma velha ótica, uma livraria sem graça) pode ser uma espetacular obra arquitetônica com detalhes art nouveau ou belas tipografias antigas. É um caminho movimentado percorrido por turistas e locais que, mais do que olhar vitrines, serve para ver e ser visto, sentados em um banco de pedra comendo pizza ou tomando um sorvete enquanto algum grupo ambulante toca música.

Além de Havana Velha

Restaurante Casa Miglis, en La Habana.

Depois da avenida Prado, a cidade continua. Estes são alguns passeios muito interessantes:

— Visitar a Biblioteca Nacional José Martí e subir depois caminhando pelo bairro de Vedado, onde encontra-se o palacete da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC), que é espetacular, com jardim incluído (Rua 17, esquina com H).

— Percorrer o Malecón para chegar à Casa das Américas (avenida Presidentes), que, além de ser um dos edifícios art déco emblemáticos de Cuba, foi durante décadas o ponto nevrálgico de encontro entre os intelectuais de todo o continente.

— Subir as escadarias dos imponentes edifícios neoclássicos do começo do século XX da Universidade de Havana. De lá é possível caminhar até o beco de Hamel (entre as ruas Aramburu e Hospital), uma curiosa exibição de artistas gráficos e músicos ao ar livre.

Comer e beber

Un coche clásico estadounidense en las calles de La Habana.

A opção culinária aumenta a cada minuto. Mas se a pergunta que interessa é se em Havana é possível comer bem, a resposta é sim. Três recomendações

— Paladar Mercaderes (rua Mercaderes, 207). Dirigido pessoalmente por seu jovem proprietário, que se apaixonou pela casa e se divertiu restaurando-a e decorando-a com pequenos detalhes encontrados ao azar em mercadinhos. O carinho e bom-gosto são notados no ambiente, sendo além disso um negócio feito entre amigos que estudaram Hotelaria. No menu existem pratos elaborados e inovadores que, entretanto, não caem no esnobismo do risco pelo risco. O preço médio dos pratos oscila entre 30 e 45 reais. Destacamos a opção vegetariana (às vezes sentimos falta dela em Havana) da lasanha de berinjela à parmegiana, os risotos ou as massas com vegetais. Boa seleção de vinhos franceses, argentinos, chilenos ou espanhóis.

— Doña Eutimia (Beco do Chorro, esquina com a rua San Ignacio). Excelente local com um serviço estupendo (os garçons parecem um time de beisebol ou amigos do ginásio). Podem-se comer tapas (ótima fritura de malanga, um tubérculo típico do Caribe) ouclássicos da cozinha cubana. Comida muito boa por um preço muito bom. Atenção: costuma estar cheio e é conveniente reservar. Os locais que surgiram ao seu redor nem sempre mantêm a mesma qualidade.

— La Vitrola (na Praça Velha). Lanchonete ao estilo rockabilly, com máquinas de coca-cola antigas e jukebox. Existem também espetinhos de frango ou carne de porco.

Os ‘bed & breakfast’

Dos niños juegan en la capital cubana.

A oferta dos bed & breakfast (cama e café-da-manhã) disparou, e mesmo que nunca possam competir com a opção de um bom hotel (o recém-inaugurado Saratoga, por exemplo!), conseguem competir com estabelecimentos de menor categoria ou mais descuidados. Para um viajante de orçamento curto é a opção ideal. Cuidado, é preferível assegurar-se de que sejam estabelecimentos reconhecidos e devidamente identificados, como em qualquer lugar do mundo. Na Internet existem várias páginas nas quais é possível fazer a reserva comodamente. Eu fiquei na Casa Colonial Zaiden, aberta há um ano e muito bem localizada (na rua Santa Clara, esquina com a Avenida do Porto). Atendida com muito cuidado e atenção pela jovem Mildred, tem dois quartos duplos (134 reais por quarto com café-da-manhã incluído).

Excursão a Varadero

Una estrella de mar en Cuba.

É possível estar em Havana e decidir de supetão ir passar um dia ou dois na praia de Varadero? Sim, é. Já não é preciso planejar semanas antes em uma agência de viagens seu itinerário com os dias e horários exatos. Na agência de turismo San Cristobal (na praça de São Francisco) você pode comprar passagens de ônibus a Varadero por 74 reais (o serviço nesse caso é de terminal a terminal de ônibus e não de porta à porta de hotel).

Uma vez em Varadero é perfeitamente possível evitar os resorts com tudo incluído como programa de animação e refúgio antinuclear. Aqui também existe uma ampla oferta de alojamentos bed & breakfast e quiosques na praia para comer um prato de frango com arroz despretensioso, mas muito decente, por 15 reais, ou tomar uma cerveja Bucanero por 5 reais. A gentrificação cool ainda não chegou em Varadero. Para o bem ou para o mal.

Begoña Huertas é autora do romance Uma Noite em Amalfi (El Aleph).

Cuba, antes da americanização

Renato Alves (texto e fotos)

Após mais de 50 anos, Cuba e Estados Unidos retomam o diálogo, com cessões de ambos os lados. Com a eminente abertura da ilha ao capitalismo, muitos temem a americanização dela, como era antes da revolução, como são as demais ilhas do Caribe. Por isso, muitos estrangeiros estão fazendo as malas rapidamente para conhecer o país dos irmãos Castros como eles a conceberam.

Lá estive duas vezes. Conhecer a ilha comunista é uma experiência inesquecível, independentemente de ideologia. Eu, por exemplo, sou contra qualquer regime totalitário, mas me tornei um admirador do país. Do país dos cubanos, dos carrões, do tabaco, dos drinques, da música, da dança.

Desembarque

A chegada ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, torna-se excitante assim que o passageiro deixa o avião. O terminal pequeno, as instalações simples e antigas e o rigor da fiscalização deixam claro que se trata de um país diferente do ponto de vista capitalista.

Além dos olhares desconfiados, o turista pode estranhar a morosidade do guarda fardado na cabine do controle de passaporte. O militar faz questão de olhar cada página do documento. Apesar do semblante sério dos guardas de emigração e da alfândega, a maioria dos visitantes é aceita sem transtornos.

No máximo, durante o exame do seu passaporte, o estrangeiro é convidado a tirar os óculos (se tiver) para conferência da fotografia do documento. Não há interrogatório, obrigatoriedade de tirar o calçado ou outra medida incômoda do tipo antiterrorista.

O turista é liberado após uma ou duas perguntas, como o quê pretende fazer e quanto tempo ficará no país. Um visto de entrada em Cuba, antes tratado como questão de segurança nacional, hoje é vendido nas agências de turismo, com os pacotes de viagem.

Propaganda

A primeira sensação fora do aeroporto pode não ser das mais agradáveis, caso se desembarque em um dia chuvoso ou de alta umidade relativa do ar, dois fenômenos corriqueiros na ilha. O forte calor úmido impede uma fotografia em frente à fachada singular do terminal — é impossível desembaçar a lente da câmera — e faz o turista procurar imediatamente um veículo com ar-condicionado.

O desconforto é esquecido assim que a van ou táxi deixa as dependências do José Martí. No começo da viagem entre o aeroporto e a área urbana de Havana se vê outdoors de madeira com propaganda oficial. Os primeiros de milhares instalados em todo o país.

Um dos símbolos do regime comunista, as placas trazem principalmente mensagens de apoio à revolução e provocações ao maior inimigo, os EUA. A estrada que liga o aeroporto à capital cubana cruza fazendas, vilas e os bairros mais afastados de Havana. No traslado, os primeiros contatos com o cotidiano revolucionário e os efeitos do embargo “imperialista” norte-americano.

Homens consertando os carrões confiscados dos antigos ricos moradores de Havana — produtores de cana-de-açúcar, comerciantes, empresários e mafiosos estadunidenses — são vistos em cada esquina. Mulheres jogando conversa fora nos muros baixos. Idosos sentados em gastas cadeiras de balanço, nas varandas e calçadas. Todos em um ritmo lento, como quem não tem pressa para ganhar dinheiro.

Havana Velha

A moderna rede hoteleira de Havana oferece ótimas refeições, além de amplos e confortáveis quartos. A maioria, de redes européias, que com o baixo custo da mão-de-obra e vantagens oferecidas pelo governo cubano conseguem manter serviços de padrões internacionais com tarifas relativamente baratas.

O ideal é começar o tour por Habana Vieja. Com calçado confortável e roupas leves, entre pela Plaza de la Catedral. Fechada por prédios coloniais nos quatro lados, tem acesso por três ruelas. A praça é cercada pela Catedral de San Cristóbal, pelo Museo de Arte Colonial, Palacio del Conde e Palacio de los Marqueses de Arcos, além do restaurante El Patio.

A rua, exclusiva dos pedestres, é feita de pequenos blocos de pedra. Nas calçadas, também de pedra, artistas locais produzem e exibem suas obras, como pinturas em telas e desenhos de nanquim ou guache. A paisagem serve de modelo.

Mojitos

Quase na esquina com a Catedral, fica o mais famoso bar cubano. O La Bodeguita del Medio ganhou o mundo por meio do seu mais ilustre freqüentador, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Ele sempre exaltou o mojito (bebida típica cubana, feita de rum, suco de limão hortelã, água e gelo) do La Bodeguita. Hemingway tem razão. Mesmo na ilha, é difícil encontrar igual.

A atmosfera do Bodeguita também é única. Os balcões, cadeiras, mesas e paredes revestidas de madeira são os mesmos da época de Hemingway. As partes das paredes sem a madeira são cobertas de nomes e mensagens, escritas a caneta pelos visitantes.

Os preguiçosos ventiladores não conseguem esfriar o clima festivo, que esquenta ainda mais com a entrada de um grupo musical. O cliente pode desfrutar até de música popular brasileira. Os cubanos conhecem a maioria dos nossos compositores e intérpretes. Eles admiram Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Caetano Veloso.

Caderneta

Se ainda tiver fôlego e pernas para caminhar, siga por qualquer uma das ruas que cortam a Plaza de la Catedral. O passeio é obrigatório para quem deseja conhecer o estilo de vida cubano e os moradores da cidade. Entre na primeira bodega que encontrar.

cuba19

Nela é distribuída a comida e outros produtos de primeira necessidade da população. Na hora de passar no caixa, os clientes não tiram cartão de crédito ou débito. Da bolsa ou do bolso saem moedas e uma caderneta, em que o funcionário anota o produto e a quantidade. Cada cubano tem uma cota mensal.

cuba20

Quando quer mais (e pode pagar), o cubano recorre ao mercado paralelo, onde tudo é muito caro, devido à escassez de produtos no país. Apesar de certa melhora na economia, comparando com anos 1990, ainda falta de tudo, do sabonete à camisa. É comum ver meninos brincando de sapatos furados ou vestidos em roupas bem mais curtas — eles usam até esfarelar.

cuba142

Não é lenda nem preconceito. Os cubanos param os turistas para pedir itens de higiene pessoal. Como custam caro à população, xampu, sabonetes e similares são considerados artigos de luxo. Carregue os kits de banho dos hotéis para agradá-los e ajudá-los.

cuba188

Os pais, sem vergonha alguma, costumam pedir caneta e borracha para os filhos estudantes. Em Cuba, porém, ninguém fica sem escola, morre de fome ou ao relento. Nem vive debaixo de ponte ou em favela.

Paladares

Além de restaurantes tradicionais e requintados, em Havana Velha também há ótimos paladares. São restaurantes de comida caseira, administrados por cubanos comuns, que ganharam autorização do governo para ter o próprio negócio.

Mas eles precisam seguir algumas regras, como atender no máximo a 12 pessoas ao mesmo tempo. O restaurante só pode funcionar na casa do dono da licença. O microempresário não pode contratar ninguém. O cozinheiro e garçons têm que ser da família.

Com isso, almoçar em um paladar é uma das melhores oportunidades de se conhecer uma casa cubana e seus moradores. Além de tudo, é a maneira mais econômica de se comer em Havana.

cuba172

Os paladares têm poucas opções no cardápio — por causa da falta de capital do dono e da escassez de produtos —, mas todas são muito bem preparadas e saudáveis. A mais comum é a carne de porco, acompanhada de salada e de arroz e feijão preto (misturados, tipo baião de dois, sem queijo). O prato sai, em média, por R$ 15.

cuba55

O nome paladar é fruto do sucesso da novela Vale Tudo (Rede Globo, 1988 a 1989). Também em Cuba, a trama bateu recordes de audiência. A protagonista Raquel (Regina Duarte), que, após perder tudo ao ser roubada pela filha Maria de Fátima (Glória Pires), se reergueu ao abrir um restaurante, o Paladar.

cuba138

Exposição — Uma luz sobre Cuba

Nahima Maciel, do Correio Braziliense

A primeira viagem a Cuba tinha propósito muito específico. A fotógrafa Lisette Guerra não estava em busca de imagens e sim da salsa. “Eu queria aprender mais sobre esse tipo de dança e de música”, explica. Em menos de uma semana, Lisette mudou o foco da viagem, sacou a câmera e transformou a estada numa sequência de imagens nas quais tentava captar a alma cubana. Luz de Cuba, em cartaz no Museu Nacional de Brasília, se tornou a razão das viagens de Lisette. Foram cinco retornos entre 2009 e 2011 e a certeza da urgência de mostrar um país mergulhado em rápidas e contundentes mudanças.

O conjunto de imagens deve render um livro — Lisette ainda está em busca de patrocínio —, mas por enquanto a exposição supre a angústia da fotógrafa. “Resolvi fazer logo porque está acontecendo muita mudança em Cuba”, explica. A abertura da nação comunista de Fidel Castro engendra novos hábitos e estilos de vida. Aos poucos, os cubanos adentram o universo capitalista. A venda e compra de bens como carros e casas começa a ser permitida e os pequenos produtores já não estão tão submissos ao Estado quanto há uma década.

Com isso, Lisette acredita que a paisagem das cidades pode mudar muito nas próximas décadas. A frota de carros dos anos 1950 — uma das marcas das ruas de Havana — tende a ser substituída por viaturas novas num futuro nem tão distante e as fachadas coloniais, hoje desgastadas por anos de falta de manutenção, podem tomar rumos inesperados e correm risco de desaparecer caso um mercado imobiliário predador se instale na ilha.

As paisagens são, portanto, um dos alvos de Lisette, mas é nos rostos que ela encontra o material bruto de Luz de Cuba. “Sou fotógrafa de pessoas e acho que o diferente das minhas imagens é a comunicação que estabeleço, a maneira de captar a sensação delas comigo”, garante a gaúcha, cujo portfólio traz principalmente fotografias de moda e publicidade. Alguma coisa dessa estética publicitária está também nas imagens trazidas de Cuba. O rapaz negro com o menino loiro no colo, a criança diante de um velho Dodge, a fachada em ruínas de um conjunto de prédios à beira mar e o velho de boné munido de charuto não diferem muito das imagens da ilha caribenha que hoje circulam pelo mundo. O colorido também ganha destaque no trabalho de Lisette.

A veia publicitária aparece em fotografias limpas, cores que saltam aos olhos e uma organização difícil de conceber, mas Lisette transforma as paisagens em cenários idílicos, quase românticos e bastante atraentes. É uma Cuba captada por um olhar apaixonado e deslumbrado.

Luz de Cuba
Exposição de fotos de Lisette Guerra. Visitação até 31 de janeiro, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional.

Leia também

O barato de Havana

Sem perder a ternura

Explorando Havana Velha

Caderneta, arte e sabores

Revolução, ballet e charutos

Do Malecon à Praça da Revolução

Cuba – 50 anos da Revolução

Cubanos e turistas se encontram no Malecón, a avenida beira-mar de Havana
Cubanos e turistas se encontram no Malecón, a avenida beira-mar de Havana

Cuba celebra hoje (1/1/2009) o 50º aniversário da sua revolução, com o comandante Fidel Castro doente e a austeridade que impõe a crise financeira global a uma economia já afetada pelos furacões que atingiram a ilha recentemente. Como há meio século, a ação se dará em Santiago de Cuba, a primeira cidade liberada pelos rebeldes, onde Fidel anunciou na noite de 1o de janeiro de 1959 a queda de Fulgencio Batista

Os simpatizantes da revolução dizem que Cuba mudou radicalmente desde o primeiro dia do ano de 1959. O sistema socialista de Fidel trouxe igualdade de oportunidades, educação e saúde gratuitas e universais. Para os críticos, o preço para isso foi um sistema que não tolera oposição e suspendeu direitos dos seus 11 milhões de habitantes.

O barato de Havana

Guilherme Goulart (texto e fotos)
 
Um dos grandes atrativos de Havana, capital de Cuba, é a facilidade no planejamento dos gastos. Depois de devidamente instalado na ilha de Fidel, o turista pode decidir com tranqüilidade se quer desembolsar muito ou pouco. Do transporte à alimentação, do básico ao acabamento, os CUCs (pesos conversíveis, trocados por euro logo no desembarque na cidade) podem ou não voar do seu bolso como os pombos da Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
 
CocotaxiOs meios de transporte, por exemplo, estão entre as melhores possibilidades de economia. Apesar de Havana não ser uma grande metrópole e abrir chance para caminhadas, fica impossível conhecê-la por completo a pé. Vá de táxi ou cocotáxi. Mas opte pelos triciclos motorizados (são feito de fibra de vidro e têm formato de coco, por isso o nome) se quiser gastar menos. Normalmente, uma viagem de até 10km não passa de 6 CUCs. E sempre se pode negociar o preço com o cocotaxista. Além de barata, a viagem se faz emocionante. É um belo divertimento e rende belíssimas fotos.
 
Os táxis oferecem conforto, mas são bem mais caros do que os pouco discretos cocatáxis. O mesmo serve para as charretes, muito comuns no bairro de Havana Vieja. O passeio nos veículos puxados por cavalos custam no mínimo 25 CUCs e ainda têm o problema da lentidão. Já os ônibus coletivos não são indicados para o turista regular. Estão sempre abarrotados de gente e não têm nada de pontual.
 
Comida e charutos

Restaurante La RocaComer também pode ser barato em Havana. Para começar, uma dica: esqueça os restaurantes do hotel. Cobram preços absurdos. O buffet mais barato do Hotel Habana Libre, por exemplo, custa 21 CUCs. Por pessoa.

Procure rango na rua. Informe-se com turistas que estão na cidade a mais tempo do que você. Numa dessas conversas, descobrimos o La Roca. O excelente restaurante de cardápios internacional e local fica ao lado hotel (bairro Vedado) e um prato delicioso sai por 4 CUCs. Lagosta e camarão? Também tem. E são só 7 CUCs.
 
Também há os paladares (restaurantes mais populares) e sempre dá para comer alguma coisinha no deslocamento. Em Habana Vieja, há padarias sensacionais, com pães e doces que custam centavos de CUCs. Os restaurantes do bairro são meio caros, mas, se a fome apertar, vale a pena. Alguns pontos de visitação são obrigatórios, como o La Bodeguita, famoso por causa de Ernest Hemingway, mas os preços são salgados. Se pretende economizar, vá para olhar e tirar fotos. Tome no máximo um daiquiri ou um mojito.
 
Já os charutos são caros em qualquer lugar. Normalmente, as lojas e as fábricas vendem apenas em caixas. Na rua, porém, há muita gente oferecendo o produto mais tradicional de Cuba. Vale a ressalva: o barato pode sair caro. Não há como ter certeza se são “legítimos cubanos”, apesar de terem sido produzidos na própria terra. É bem provável que tenham saído das próprias fábricas, mas certamente não passaram pelo rígido controle de qualidade. Devem apresentar pequenos defeitos e, claro, não carregam o selo “Hecho em Cuba”.