Christiania, a cidade anarquista da Dinamarca

Christiania - Entrada

Mariana Laboissière

Para aqueles que buscam uma experiência de turismo inusitada, visitar Christiania, na Dinamarca, pode ser algo transcendental. Trata-se de uma cidade independente dentro da capital Copenhague e que possui cerca de 1 mil habitantes. Os limites físicos de onde começa e de onde termina “a cidade dentro da cidade” não são muito claros, a não ser por um portal em madeira na entrada da comunidade onde lê-se “Christiania”.

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A região foi ocupada na década de 1970 por hippies e artistas, como forma de protesto perante o governo da época. Mesmo longe daquele cenário, a comunidade se mantém até hoje. Além de não pagarem impostos no local, os moradores convivem com a venda liberada de maconha, haxixe e skank em barraquinhas a céu aberto, durante o dia ou à noite. Embora não seja muito iluminada, a região parece pacífica, mesmo ao entardecer. Pisca-piscas pendurados do lado de fora dos sobrados e as várias paredes com grafite dão um charme a mais ao lugar.

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Não há passagem para carros dentro dessa cidade. O transporte básico dos moradores é a bicicleta. Inclusive, há um tipo de magrela que foi batizada em homenagem à Christiania: ela apresenta um carrinho acoplado na parte da frente, onde podem ser levadas crianças, animais e as compras do supermercado. Esse modelo é comercializado em toda a Dinamarca, reforçando o estilo de vida dos habitantes do país. Em Copenhague, inclusive, o número de bicicletas já ultrapassou o número de habitantes. 

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Mas engana-se quem imagina que em Christiania é uma terra sem leis. Há regras de comportamento estampadas em placas e outdoors ao longo da cidade. Entre as condutas recomendadas estão: não correr, não andar falando ao celular em determinadas áreas e, principalmente, não fotografar. Várias placas estampam o sinal de proibido associado a desenhos de máquinas fotográficas. Algumas pessoas andam pela cidade com os rostos cobertos e parecem ser responsáveis por vigiar os turistas. Mas, nem mesmo isso quebra a tranquilidade do povoado, uma cidade sem lei, onde é comum notar, do lado de fora dos bares, grandes mesas de piquenique, onde as pessoas conversam sem muita preocupação.

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A região causa controversa dentro da própria Dinamarca, mas, segundo moradores de Copenhague, as ações policiais não são tão comuns ali. De fato, é um lugar mágico, exótico e que merece ser visitado.

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Para saber mais

Página oficial de Christiania

Christiania na Rolling Stones

Christiania no Catraca Livre

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Copenhague com as crianças

Carol Nogueira, do Le Croissant

Nosso fim de semana em Copenhague começou na verdade muitos meses atrás, num café de Praga — graças a um casal de dinamarqueses que se encantou com o João e o Pedro.Os velhinhos pareciam intrigados sobre o que fazíamos na República Checa com crianças de quatro anos. Citando milhares de parques de atrações, passeios de canais e ruas ensolaradas, em poucos minutos eles me convenceram de que não haveria no mundo cidade mais acolhedora para os pequenos do que Copenhaguen.

No final de novembro, uma promoção da Easyjet me pareceu o passaporte para a meca do turismo infantil na Europa — mas foi bem aí que a nossa promissora viagem familiar começou a se tornar um exemplo clássico de viagem lado B.

De olho nos melhores preços e desconsiderando solenemente a localização setentrional da Dinamarca, me vi embarcando para Copenhague em pleno janeiro, quando os dias por lá duram oito horas, as temperaturas raramente ficam positivas e — pior — o Tivoli Park e a Legoland estão fechados para visitação.

Uma semana antes do embarque, ainda havia espaço para a coisa piorar. Eu simplesmente não conseguia encontrar um hotel adequado.Todos os endereços bacanas sugeridos pelo Lonely Planet me pareciam divididos em duas categorias: os bons hotéis a partir de 200 euros e os B&B por 20 euros a noitada em uma beliche num quarto compartilhado. Eu começava a considerar seriamente a segunda hipótese quando o moço do albergue bacanérrimo tirou meu cavalinho da chuva dizendo que em nenhum caso eles aceitariam crianças.

Foi quando eu coloquei em ação a arma secreta do mochileiro com crianças das galáxias — fazer amigos para obter informações privilegiadas.

O moço do albergue bacanérrimo foi simpático e me descolou duas excelentes opções de hotéis muito bem localizados, baratos e children-friendly (e que não constavam dos guias que eu estava consultando): o Danshostel e o Cab-inn. Menos bacana mas mais barato e numa região mais legal, escolhemos o Cab-inn – e, lá chegando, encontramos um hotel que faz jus ao nome. O quarto é de fato uma cabine, com um banheiro tão apertado que faria qualquer Formula 1 se sentir um hotel de luxo.

A essa altura, eu já tinha a certeza de que estava numa viagem lado B — e fizemos então o que tem de ser feito quando isso acontece: esquecemos completamente o plano original (parques temáticos, ruas ensolaradas etc) e nos jogamos na experiência selvagem de aproveitar o máximo possível de qualquer coisa.Como, por exemplo, da tetraliche que equipava nossa cabine de hotel. Que, óbvio, virou um caminhão de bombeiro equipado de tenda de dormir logo na primeira noite.

A visita ao kunstindustrimuseet ficou mantida — foi a única programação original a permanecer. Museus de objetos são sempre uma boa pedida para crianças — é fácil distraí-los com algo parecido com o que eles já conhecem. E o Pedro se entreteve completamente fazendo a cobertura fotográfica de suas peças preferidas.


Na falta do parque do Lego, visitamos a lojinha da marca que fica na Vimmelskaftet, 37 — em uma das ruas mais movimentadas do centro. Lá por perto, quase enlouqueci numa Urban Outfitters, que não existe em Paris.

Foi por lá também que encontrei o restaurante que me obrigou a dar razão ao casal de velhinhos lá do primeiro parágrafo.

Esqueçam o Mac Donald’s: Jensen’s Bofhus é a rede de restaurante mais children-friendly que eu já fui na vida. Pense em um restaurante de carnes (e batatas-fritas sorriso) com um livrinho de atividades viciante (e olha que ele está escrito em dinamarquês), lapiseira de lápis de cor (grátis) e sorvete com refil.

O jantar de 500 coroas (quase 70 euros) valeu cada centavo — principalmente porque, de sobremesa, eu ganhei a dica que salvou nossa viagem lado B.Depois de forçar a amizade com a garçonete, descobrimos o Experimentarium — um parque temático baseado nos cinco sentidos que ensina ciências para as crianças com brincadeiras super legais.

Logo na entrada, eles ensinam a gente a construir um treco com dois gravetos e um barbante capaz de fazer bolhas de sabão gigantes. E isso é só para dar uma ideia das sacadas simples e geniais que eles nos ajudam a ter para compartilhar com as crianças.Foi um final de semana gelado. Não rolou Zoo, não rolou Lego, não rolou Tivoli. Mas e daí?

Carol Nogueira é jornalista, brasileira, brasiliense, mãe do Pedro e do João e passa uma  longa temporada em Paris, onde mantém o blog Le Croissant.