Olhos D’Água (GO): uma viagem ao passado

2015-12-02 11.59.49.jpg

Cavalos e charretes em ruas de pedra ou terra. Casas com fogão a lenha, lamparina e ferro a brasa. Poucas com computador e internet. Sinal de telefone celular, só de uma companhia, em alguns pontos da localidade, onde não há edificação com mais de um pavimento, nem comércio com máquina de cartão de crédito. Também não há caixa eletrônico, agência bancária, lotérica nem posto dos Correios. Tampouco fábrica ou qualquer grande empreendimento. A 100km de Brasília, o povoado de Olhos D’Água em quase nada mudou desde a sua fundação e do tempo da invasão de hippies candangos, criadores da tradicional Feira do Troca.

2015-12-02 11.58.07.jpg

O evento chega à 85ª edição hoje e vai até domingo. Desde 1974, ele é realizado duas vezes ao ano, no primeiro fim de semana de junho e no primeiro final de semana de dezembro, recebendo cerca de 8 mil visitantes por edição — o vilarejo tem cerca de mil habitantes. De fundamental importância para a produção artesanal, do turismo, da cultura e da economia local, a feira mantém a tradição do escambo, principal forma de negócio da população até o fim dos anos 1980 (leia Para saber mais). A troca por necessidade, porém, não mais existe. Mas permanece a tradição da troca justa, que interessa e proporciona satisfação e prazer para as partes.

2015-12-02 11.58.58.jpg

Sem pressa de crescer, Olhos D’água tem números tímidos no setor do turismo. Opções de hospedagens para o público em geral são cinco: três pousadas e dois hotéis-fazenda. A maioria dos visitantes ainda fica em casas de fim de semana de parentes ou amigos. Em Pirenópolis (GO), principal cidade turística da região, por exemplo, há cerca de 110 pousadas e hotéis. Restaurantes e bares em Olhos D’água não passam de 10. Ruas pavimentadas, são apenas seis. O único transporte público é uma charrete, que cobra R$ 5 por frete. A maioria da população se locomove de bicicleta e a cavalo. Ainda há carros de boi nas pequenas propriedades, cada vez em menor número por causa das fazendas de grãos.

Vida na roça

Os irmãos Giovânio, 20 anos, e Danilo Gomes de Oliveira, 28, moram no núcleo urbano do povoado, mas trabalham nas fazendas, plantando, colhendo, fazendo pequenas obras. Eles e o amigo Amilton da Costa França, 35, dividem uma charrete para se locomover pela região. “Ela é o nosso carro e caminhão. Leva a gente para o trabalho, para a casa. E ainda ajuda a gente a ganhar um dinheirinho, com fretes”, ressalta Danilo. O trio não se incomoda com a ausência de um veículo motorizado. Só reclama da falta de alguns serviços básicos no vilarejo onde nasceu, cresceu e sempre morou. “Para pagar uma conta, a gente tem que ir até a cidade”, conta Amilton. A cidade é Alexânia, município ao qual Olhos D’água está subordinada, distante 15km do distrito (veja Memória).

Aos 66 anos, o trabalhador rural aposentado Antônio de Souza Lemos diz não sentir falta de nada no lugarejo onde foi criado com os 10 irmãos e criou a família. “Mora em uma chácara, onde tenho tudo que gosto: fogão a lenha, água na moringa, meus cavalos, minhas galinhas, minha horta, minhas vaquinhas que dão o meu leite”, conta ele, sentado em um banco de madeira, sob a sombra de uma árvores frondosa, em meio a uma pitada de cigarro de palha e ao lado de  um dos seus três cavalos, com os quais se locomove por Olhos D’Água. Ele ainda cuida da casa herdada dos pais, uma construção de 60 anos, feita de madeira e adobe, com chão de terra e teto baixo, típica da região. A um quarteirão da principal praça do lugar, onde acontece a Feira do Troca, a propriedade tem horta, galinheiro e curral.

Quem também não abre mão de uma comida feita em fogão a lenha é a cozinheira Vilma de Moraes, 37 anos. Há dois anos, ela assumiu o mais tradicional restaurante da comunidade, o Quintal Doce. Mas, desde então, só mudou a dona. todos os pratos são feitos em panelas velhas, no fogão a lenha, com ingredientes frescos. A comida é servida sobre outro fogão a lenha, na varanda de uma casa onde também funciona uma simples pousada. “Para manter o sabor ao gosto do cliente, acordo cedo todo dia, para lavar as verduras e começara a preparar o resto. Todo o dia, tem carne de porco, costela e frango caipira”, garante. A comilança é servida pontualmente ao meio-dia. Quem quiser comer à vontade, paga R$ 15, durante a semana, e R$ 25, no fim de semana.

DICAS DE VIAGEM

Como chegar

São 100km do Plano Piloto até Olhos D’água. O motorista pega a BR-060 (Brasília-Goiânia) até Alexânia, percorrendo 85km. Entra na principal avenida comercial da cidade goiana e roda até o último balão, onde começa a GO-139. Segue 10km pela rodovia estadual, até um trevo, onde há uma placa indicando Olhos D’água. Dali até o povoado são mais 5km.

Onde comer

Quintal Doce: tradicional comida goiana feita e servida em fogão a lenha, que inclui frango caipira e carne de porco. Almoço à vontade por R$ 25, incluindo doces caseiros como sobremesas.

ComTradição: mais sofisticado restaurante do lugar, mistura pratos das culinárias indígena, africana e portuguesa. Tem ainda a tradicional galinhada goiana e pizzas com ingredientes locais, como linguiça e costelinha de porco. Tel. (62) 3322-6211 / http://www.restaurantecomtradicao.blogspot.com.br / www.facebook.com/RESTAURANTECOMTRADICAO

Toca do Alemão: petiscos — sanduíche de pernil; linguiça de porco caseira, acebolada, acompanhada de pão, entre outros — e bebidas, frias e quentes, com música o vivo. Abre de quinta-feira a sábado, das 20h à meia-noite. (62) 3322-6206 e (62) 9838-1014 / www.tocadoalemaoolhosdagua.com / facebook.com/Tocadoalemaoolhosdagua

Onde dormir

Pousada da Lázara: a mais simples e barata hospedagem, fica na casa da dona, que lhe dá o nome. Não tem site.

Pousada Recanto dos Ipês: montada em uma chácara, tem três quartos e um banheiro, com churrasqueira. Reservas pelo telefone (62) 3322-6272 e (62) 9840-9499 / http://www.facebook.com/recantodosipesolhosdagua

Pousada Coisas de Olhos: também com três quartos e um banheiro, fica de frente à praça principal. Móveis e prédio são em estilo colonial. Mais informações: (62) 3322-6202, 3322-6178 e (61) 9917-0374 / www.facebook.com/CoisasDeOlhos

Pousada Professor Armando: espécie de mini hotel-fazenda, com seis apartamentos, dois chalés, área para camaping, piscina, campo de futebol, playground e outros atrativos. Contatos: (62) 3322-6176 / www.pousadaprofessorarmando.com / facebook.com/pousadaprofessorarmando

Hotel-fazenda Cabugi: mais completo da região, fica a 10km de Olhos D’Água. (61) 3963-8070, (62) 3336-1199, (62) 3336-3210 / www.hotelfazendacabugi.com.br / facebook.com/hotelfazendacabugi

O que comprar

Alfajor de Goiás: feito de forma caseira, segue a receita argentina. Tem nos sabores chocolate ao leite, chocolate branco e chocolate meio-amargo. Encomendas pelo telefone (62) 3322-6248.

Sabonete do Cerrado Bem Brasileiro: produzido também de maneira artesanal, contem substâncias e aromas de flores e frutos do cerrado. Encomendas: (62) 3322-6146, (62) 9610-0349, (62) 3322-6248 / www.sabonetebembrasileiro.negociol.com

Artesanato: bonecas, anjos e santos feitos de palha de milho são os mais típicos do povoado. Também há muitas peças feitas de barro, que vão de potes, vasos a figuras sacras. Lojinhas vendem ainda bonecos de pano, quadros de pintura a óleo, tapetes, bolsas entre outros itens feitos por artistas locais. Os preços variam de acordo com os detalhes e o tamanho da peça.

Feira do Troca

PARA SABER MAIS

Iniciativa brasiliense

A Feira do Troca teve inicio em dezembro de 1974, com a iniciativa da artista plástica e professora Laís Aderne, da Universidade de Brasília (UnB), após ela se deparar com a pobreza dos moradores de Olhos D’Água. Ao fazer um projeto de arte-educação, ela identificou os mestres artesãos, resgatou os fazeres tradicionais da população nativa e criou um canal de escoamento para a produção artesanal.

Aderne e amigos brasilienses, entre eles o Armando Faria, então professor de literatura na UnB, tiveram a ideia de juntar roupas e utensílios. Valendo-se do costume local que tinha como forma de comercialização a troca (escambo), criou-se um evento onde se trocavam roupas, sapatos, utensílios domésticos usados, trazidos pelos visitantes de cidades vizinhas, por produtos do vilarejo: artesanato e produtos da agricultura local. Uniram-se duas práticas tradicionais da comunidade, o escambo e o artesanato de raiz.

Com o passar do tempo, a Feira do Troca se consolidou como grande evento turístico que, além da atividade tradicional de escambo e venda de produtos da terra, apresenta ao público local e visitante uma agenda cultural rica e variada, com atrações que incluem apresentações musicais com artistas locais, duplas sertanejas de raiz, moda de viola, danças tradicionais como o catira, teatro de mamulengo e contação de causos. Além disso, os visitantes podem se deliciar com os produtos da gastronomia local, como galinhada, galinha com pequi, empadão goiano, frango com gueiroba, pamonha, caldo e engrossado de milho e muito mais.

MEMÓRIA

Promessa a santo

Olhos D’água surgiu de uma promessa religiosa, feita por uma moradora da região, de construir uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua. Em torno da pequena igreja, fundada em 1941 em terras doadas por dois cunhados fazendeiros, cresceu o povoado de Santo Antônio de Olhos D’água. Na época, subordinado a Corumbá de Goiás, as suas terras foram repartidas pela Igreja Católica em pequenos lotes, vendidos a quem quisesse se estabelecer.

Os homens trabalhavam como meeiros para os fazendeiros da região. Plantavam milho, feijão, arroz e mandioca e mantinham pequenas criações. Além disso, produziam, para seu uso, utensílios de barro, como panelas, potes e artigos de tecelagem. Com o isolamento do povoado, a população criou um modo de vida próprio. Era autossuficiente em gêneros de primeira necessidade, fiava e tecia sua roupa e fazia seus utensílios — gamelas, colheres de pau e cestas.

O modelo de arquitetura das casas veio pelas mãos dos mestres de construção de Corumbá, que conservaram as mesmas características das antigas casas da região, dando a impressão do vilarejo hoje ser mais antigo do que aparenta. Com o nome de Olhos D’água, ele acabou emancipado em 14 de novembro de 1958, virando um município. Mas, dois anos depois, a sede municipal passou para os povoados de Alexânia e Nova Flórida. Em 1963, a cidade ganhou de vez o nome de Alexânia, tornando Olhos D’água um distrito dele.

Feira do Troca de Olhos D’Água (GO) chega à 85ª edição

Fotos de Bruno Peres

A próxima tradicional Feira do Troca de Olhos D’Água acontece nos dias 4, 5 e 6 de dezembro (sexta, sábado e domingo). E esta será especial, pois é a 85ª edição.

Olhos D’Água é um aconchegante povoado de Alexânia (GO), que fica a pouco mais de 100km de Brasília.

Seguindo uma tradição, desde 1974, a Feira do Troca é realizada duas vezes por ano, no primeiro fim de semana de junho e no primeiro final de semana de dezembro, recebendo cerca de 8 mil visitantes por edição. De fundamental importância para o fortalecimento da produção artesanal, do turismo, da cultura e da economia da região, a feira mantém a tradição do escambo, principal forma que a população da vila até o fim dos anos 1980.

A Feira do Troca teve inicio em dezembro de 1974, com a iniciativa da professora Laís Aderne que, ao fazer um projeto de arte-educação, identificou os mestres artesãos, resgatou os fazeres tradicionais da população nativa e criou um canal de escoamento para a produção artesanal.

Feira do Troca

Valendo-se do costume local que tinha como forma de comercialização a troca (escambo), criou-se um evento onde se trocavam roupas, sapatos, utensílios domésticos usados, trazidos pelos visitantes de cidades vizinhas, por produtos do vilarejo: artesanato e produtos da agricultura local. Uniram-se duas práticas tradicionais da comunidade, o escambo e o artesanato de raiz.

A troca por necessidade não mais existe. Permanece, no entanto, a tradição da troca justa, aquela que interessa e proporciona satisfação e prazer para as partes. Um bom produto e uma boa capacidade de negociador continuam sendo a garantia da boa prática do escambo.

Com o passar do tempo, a Feira do Troca se consolidou como grande evento turístico que, além da atividade tradicional de escambo e venda de produtos da terra, apresenta ao público local e visitante uma agenda cultural rica e variada, com atrações que incluem apresentações musicais com artistas locais, duplas sertanejas de raiz, moda de viola, danças tradicionais como o catira, teatro de mamulengo e contação de causos. Além disso, os visitantes poderão se deliciar com os produtos da gastronomia local, como galinhada, galinha com pequi, empadão goiano, frango com gueiroba, pamonha, caldo e engrossado de milho e muito mais.

Fotos de Zuleika de Souza

Tem Feira do Troca neste fim de semana, em Olhos D’Água

Fotos de Zuleika de Souza

Aconchegante povoado de Alexânia (GO), Olhos D’Água realiza mais uma Feira do Troca no próximo fim de semana. A 84ª edição do evento acontece  entre os dias 5 e 7 de junho. Seguindo uma tradição, desde 1974, a feira é realizada duas vezes por ano, no primeiro fim de semana de junho e no primeiro final de semana de dezembro, recebendo cerca de 8 mil visitantes por edição. De fundamental importância para o fortalecimento da produção artesanal, do turismo, da cultura e da economia da região, a feira mantém a tradição do escambo, principal forma que a população da vila até o fim dos anos 1980.

A Feira do Troca teve inicio em dezembro de 1974, com a iniciativa da professora Laís Aderne que, ao fazer um projeto de arte-educação, identificou os mestres artesãos, resgatou os fazeres tradicionais da população nativa e criou um canal de escoamento para a produção artesanal. Valendo-se do costume local que tinha como forma de comercialização a troca (escambo), criou-se um evento onde se trocavam roupas, sapatos, utensílios domésticos usados, trazidos pelos visitantes de cidades vizinhas, por produtos do vilarejo: artesanato e produtos da agricultura local. Uniram-se duas práticas tradicionais da comunidade, o escambo e o artesanato de raiz.

A troca por necessidade não mais existe. Permanece, no entanto, a tradição da troca justa, aquela que interessa e proporciona satisfação e prazer para as partes. Um bom produto e uma boa capacidade de negociador continuam sendo a garantia da boa prática do escambo.

Com o passar do tempo, a Feira do Troca se consolidou como grande evento turístico que, além da atividade tradicional de escambo e venda de produtos da terra, apresenta ao público local e visitante uma agenda cultural rica e variada, com atrações que incluem apresentações musicais com artistas locais, duplas sertanejas de raiz, moda de viola, danças tradicionais como o catira, teatro de mamulengo e contação de causos. Além disso, os visitantes poderão se deliciar com os produtos da gastronomia local, como galinhada, galinha com pequi, empadão goiano, frango com gueiroba, pamonha, caldo e engrossado de milho e muito mais.

Fotos de Bruno Peres

Linha de Tordesilhas é atração em povoado

Fotos de Bruno Peres

“Atenção, turista!! A Linha de Tordesilhas passa aqui!!!” Em letras vermelhas pintadas sobre um fundo branco, o anúncio está na fachada de um botequim em frente à Praça Santo Antônio, em Olhos D’água, distrito de Alexânia (GO). Para não restar dúvidas, ele traz ainda a fonte da informação: “Foi obtida no livro História de Terra e do Homem no Planalto Central.

Na obra de autoria do historiador Paulo Bertran (1948-2005), um dos maiores estudiosos da pré-história de Goiás e do Distrito Federal, constam mais detalhes da linha no Planalto Central, como sua exata localização. Ela coincide com o Meridiano 48o35’25’’, que passa em Olhos D’água. Dali, ela segue pela Serra dos Pireneus, cujo pico mais elevado mede 1.385m do nível do mar.

Fotos de Zuleika de Souza

Sob a serra, fundaram as goianas Pirenópolis e Corumbá. A serra serve ainda de espigão divisor das águas das bacias dos rios da Prata e Araguaia-Tocantins. A Linha de Tordesilhas surgiu do Tratado de Tordesilhas, que de 1498 a 1750 serviu de limite territorial entre os domínios coloniais dos portugueses e espanhóis no continente americano.

Mas, enquanto o povoado de Corumbá foi fundado em terras de Portugal por uma bandeira dominada por paulistas em sua maioria de origem espanhola, o arraial de Meia Ponte — atual Pirenópolis — foi erguido em terras da Espanha por uma bandeira liderada por portugueses. Já o povoado de Santo Antônio de Olhos D’água nasceu vinculado a Corumbá.

Fotos de Zuleika de Souza

Bar e museu
Por anos, Olhos D’água era conhecido apenas pelo estereótipo de destino hippie e pela tradicional Feira do Troca. Agora, faz fama internacional com o rico artesanato e atrai muito trabalhador e aposentado cansado da correria da cidade grande. Gente que habita os casarões coloridos da vila, onde os vizinhos são acolhedores e fazendas próximas conservam cachoeiras inexploradas.

No entanto, a maioria dos turistas desconhece a relação do lugarejo com a Linha de Tordesilhas. Além de consultar o livro de Bertran, quem quiser saber mais dessa história basta dar um pulo no Bar Museu, em frente à Praça Santo Antônio. O minúsculo estabelecimento expõe em suas paredes, em meio e sobre as mais de 200 garrafas de cachaça com raízes variadas, recortes de jornais sobre a linha.

O museu e bar rústicos não têm mesas nem cadeiras. Apenas um velho e gasto balcão de madeira e uma banco igualmente maltratado. Mas é possível passar horas ali conversando com a dona, Cecília Machado, 60 anos. Na verdade, ouvindo mais do que falando, pois ela tem muitas histórias para contar. Algumas, sem muito nexo. Outras, curiosas, divertidas.

Idas e vindas
A paulista mudou-se com os pais e os cinco irmãos para Goiás quando tinha 12 anos. O pai comprou duas vendas perto de Brasília, mas acabou morto com tiros nas costas, na época da construção da capital, em circunstâncias não explicadas pela filha. Ela se casou com um marinheiro que conheceu no Rio de Janeiro. Passou 15 anos viajando com ele Brasil afora.

Após a morte do primeiro marido, decidiu se casar com outro, há 12 anos. Com ele, voltou a em Olhos D’água, em 2002, quando montou o bar, em um casebre construído em 1937. Passou a misturar cachaça a raízes compradas em cidades próximas. Criou mais de 200 variedades de bebidas, mais conhecidas como garrafadas. Ela, jura, curam de quase tudo. Vende a garrafa de três litros a R$ 80.

Contudo, é preciso seguir as instruções da inventora. “Não é qualquer um que faz uma bebida dessas. Tem que saber marcar o dia, a lua e as quantidades, senão explode. Isso é igual a uma bomba atômica”, diz, soltando um riso. Mas o cliente pode apenas tomar uma ou mais doses de suas pingas turbinadas. Ou mesmo um refrigerante. O que Cecília mais gosta mesmo é de contar casos, em um ritmo alucinante.

Monumento
Para marcar a Linha de Tordesilhas, a prefeitura de Alexânia pretende instalar um monumento ao Tratado de Tordesilhas na Praça Santo Antônio. Ele já está pronto. Trta-se de uma placa em mosaico, com os brasões de Espanha e de Portugal, foi criada e doada pelo artista plástico brasiliense Henrique Gougon. Porém, não há data definida para sua inauguração.

A obra contará, também, com o brasão da Igreja Católica, bem como com o texto das bulas papais que deram validade ao Tratado, a Inter Coetera, de 1493, e a Ea, quae pro bono pacis, de 1506, pela paz. Outro texto a ser anexado é o da história da linha imaginária, fazendo com que o espaço venha a ser ponto de aulas a céu aberto, onde os alunos possam aprender história além dos muros da escola.

Como chegar
São 100km do Plano Piloto até Olhos D’água. O motorista pega a BR-060 (Brasília-Goiânia) até Alexânia, percorrendo 85km. Entra na principal avenida comercial da cidade goiana e roda até o último balão, onde começa a GO-139. Segue 10km pela rodovia estadual, até um trevo, onde há uma placa indicando Olhos D’água. Dali até o povoado são mais 5km.

Leia também: Razões para conhecer Olhos D’Água, o novo refúgio brasiliense

Promessa a santo
Olhos D’água surgiu de uma promessa religiosa, feita por uma moradora da região, de construir uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua. Em torno da pequena igreja, fundada em 1941 em terras doadas por dois cunhados fazendeiros, cresceu o povoado de Santo Antônio de Olhos D’água. Na época, subordinado a Corumbá de Goiás, as suas terras foram repartidas pela Igreja Católica em pequenos lotes, vendidos a quem quisesse se estabelecer.

Os homens trabalhavam como meeiros para os fazendeiros da região. Plantavam milho, feijão, arroz e mandioca e mantinham pequenas criações. Além disso, produziam, para seu uso, utensílios de barro, como panelas, potes e artigos de tecelagem. Com o isolamento do povoado, a população criou um modo de vida próprio. Era autossuficiente em gêneros de primeira necessidade, fiava e tecia sua roupa e fazia seus utensílios — gamelas, colheres de pau e cestas.

O modelo de arquitetura das casas veio pelas mãos dos mestres de construção de Corumbá, que conservaram as mesmas características das antigas casas da região, dando a impressão do vilarejo hoje ser mais antigo do que aparenta. Com o nome de Olhos D’água, ele acabou emancipado em 14 de novembro de 1958, virando um município. Mas, dois anos depois, a sede municipal passou para os povoados de Alexânia e Nova Flórida. Em 1963, a cidade ganhou de vez o nome de Alexânia, tornando Olhos D’água um distrito dele.

Razões para conhecer Olhos D’água, o novo refúgio brasiliense

Foto de Zuleika de Souza

Renato Alves (texto), Zuleika de Souza e Bruno Peres (fotos)

Imagine uma Pirenópolis menor, menos movimentada, menos barulhenta, mais rústica, mais perto de Brasília, e, acima de tudo, mais barata. Esse lugar existe. E alguns brasilienses já o descobriram. Houve até quem se mudou para lá. Outros, compraram terrenos ou casas nele para passar os fins de semana. Trata-se de um povoado de Alexânia (GO), a 100km de Brasília. O nome? Olhos D’água.

Por anos, o lugarejo era conhecido apenas pelo estereótipo de destino hippie e pela tradicional Feira do Troca. Agora, faz fama internacional com o rico artesanato e atrai muito trabalhador e aposentado cansado da correria da cidade grande. Gente que habita os casarões coloridos da vila, onde os vizinhos são acolhedores e fazendas próximas conservam cachoeiras inexploradas.

Como qualquer arraial, Olhos D’água não tem tantas atrações turísticas padrões, como museus, nem opções de hospedagem e todas as comodidades de destinos mais badalados. Mas a maioria dos que para lá vão procura justamente o sossego e a simplicidade da gente e de suas construções. Esses apelidaram o vilarejo de Zóin, que em sua sede tem cerca de mil habitantes.

Fotos de Zuleika de Souza

Em Olhos D’água, o artesanato é único, feito com elementos da região, como a comida dos seus restaurantes. Já os bares mantêm os antigos balcões de madeira e as garrafas de pinga na prateleira, sempre com alguém disposto a prosear. Mas, na vila, há também energia elétrica em todas as casas, sinal de celular, internet banda larga, estabelecimentos sofisticados com páginas nas redes sociais.

Tempo de sobra

Edelvais Jeker trocou um apartamento na 405 Sul por uma casa antiga com quintal imenso, em Olhos D’água, há 11 anos. Até então, levava uma vida frenética, conciliando as funções de servidora pública na Esplanada dos Ministérios e da empresa de bufê que comandava. “Ganhava muito dinheiro, mas não tinha tempo para gastá-lo como queria”, conta, aos 59 anos.

Com a aposentadoria, ela reformou a casa no povoado de Alexânia e passou a se dedicar ao artesanato e à sua pequena pousada, onde ainda funciona uma loja de produtos feitos por artistas locais. “Aqui, descobri a vida. Na cidade, não via os passarinhos cantarem, os ninhos dos passarinhos. Não via as borboletas, seus casulos”, observa.

Além de fazer oratórios e enfeites para jardins, se especializando no cultivo de plantas suculentas, Edelvais, que virou Dedé em Olhos D’água, se envolve em projetos culturais e sociais da comunidade. Ela e outros forasteiros de Brasília fazem de tudo para estimular os nativos a conservarem seus costumes e a se sustentar com sua cultura, sem agredir o meio ambiente.

Foto de Zuleika de Souza

No momento, Edelvais e outros brasilienses tentam convencer os vizinhos a construir, reformar ou reconstruir suas casas com paredes de adobe, portas e janelas de madeira de antigos imóveis abandonados. Marlene Maria da Silva, 59 anos, ergueu uma casa com esses materiais e a decorou apenas com produtos encontrados em meio ao cerrado ou no lixo. Por dentro, o imóvel é um luxo só.

Como Edelvais, Marlene abandonou Brasília. Ela se mudou de mala e cuia para Olhos D’água há dois anos, após ganhar a aposentadoria da Secretaria de Educação do DF e ficar livre da rotina pesada de professora. “Estava estressada. Foram 30 anos de sala de aula”, lembra ela, que lecionava artes. Marlene deixou para trás a capital, mas não a vida artística.

Pés descalços

No distrito de Alexânia, a mulher que morou em casas do Lago Sul e Park Way, passa o dia descalça, fazendo obras de arte com pedaços de madeira encontrados na mata. Também dá aulas gratuitas de artes plásticas a crianças, jovens e idosos. Gostou tanto dessa vidinha que convenceu o irmão e o filho dela a também se mudarem para o vilarejo, com a mãe, de 84 anos.

Há três meses, Odilon de Oliveira, 50, o irmão de Marlene, alugou duas casas em uma chácara, ao custo de R$ 600 mensais. A exemplo da irmã, ele, que já teve três restaurantes e uma casa noturna ao mesmo tempo, em Taguatinga, se dedica ao artesanato e ensina o ofício ao sobrinho. Estudante de engenharia civil, Pedro, 24 anos, faz casinhas de barro inspiradas nas residências de Olhos D’água.

Os trabalhos dele e da mãe são expostos na Casa Verde, loja montada na sala-quarto da casa de Rodrigo Moreira, 39 anos. O brasiliense de nascença e criação aportou em Olhos D’água há 14 anos, após morar na 713 Sul, trabalhar como bancário, em uma loja de móveis da família e ter o próprio comércio, em Alexânia. Na vila, descobriu o artesanato, casou e teve três filhos.

Mesmo separado, Rodrigo pensa em nunca mais deixar o lugarejo. “Um dia que passo no trânsito de uma cidade como Brasília, volto estressado. Aqui, enquanto trabalho, vejo os meus filhos brincando na rua”, ressalta o artesão. Ele, que tem quase todos os parentes morando na capital, vive da venda de cerâmicas e de esculturas feitas de ferro, além de aulas de artes em projetos sociais.

Sonho realizado

O casal Paulo César Machado, 58 anos, e Ana Nunes Barbosa, 46, também não quer mais sair de Olhos D’água. Ele deixou as redações de rádio e TV de Brasília e, ela, a Câmara dos Deputados, onde trabalhou como fotógrafa por 20 anos. Ambos começaram a construir o casarão de adobe e madeira, no povoado goiano, há quatro anos. Há seis meses, o imóvel é a residência e o restaurante dos sonhos deles.

Sonho que pretendiam consolidar em Pirenópolis, onde tiveram uma creperia na Rua do Lazer entre 2001 e 2003. Interromperam os planos por causa da alta dos preços dos imóveis e do custo de vida no município que se tornou o principal destino turístico brasiliense nos fins de semana e feriados prolongados. “Aqui, nosso maior patrimônio é a tranquilidade”, comenta Paulo César.

O jornalista aposentado divide o tempo entre a carpintaria e o restaurante, aberto somente de sexta-feira a domingo e em feriados, como a maioria das lojas do vilarejo. Ana, hoje tem a fotografia como hobby. Seus registros de paisagens e personagens do cerrado ganham molduras rústicas, feitas pelo marido. Já quando o restaurante está aberto, ela faz as vezes de atendente e ele, de chefe de cozinha.

Ao mesmo que ajudam no desenvolvimento de Olhos D’água, onde não há mais fome nem desemprego por motivos diversos, os brasilienses inflacionam o povoado. “De dois anos para cá, os preços dos imóveis subiram até 10 vezes”, conta Paulo César. Uma tia brasiliense de Edelvais, por exemplo, pagou recentemente R$ 170 mil por uma casa, valor inimaginável no lugar, até três anos atrás.

Sabores locais

Lázara Izabel Costa Lima, 48 anos, é uma típica nativa de Olhos D’água. Grande parte dos seus hábitos levou para o restaurante e a pousada simples que levam o seu nome. Sua experiência como comerciante começou com venda de doces caseiros. Todo dia, ela pegava um ônibus para Brasília, onde passava o dia batendo interfone nos blocos residenciais do Plano Piloto oferecendo as guloseimas. Com o dinheiro do trabalho de ambulante, que durou dois anos, montou o restaurante em sua terra natal.

Ela começou a cozinhar na casa de seu pai, na roça. Como era um pouco longe do povoado, alugou uma casa em frente à praça da igreja. Depois atraiu seus clientes à sua própria residência e lá transformou pés de abacate em pés de mesa e fez de portas antigas o apoio, onde as pessoas podiam saborear o bom gosto. Hoje, em mesas com bancos de madeira e uma cozinha onde trabalham até nove ajudantes de uma vez, ela faz e oferece os mais legítimos pratos da culinária goiana. “Minha comida é simples como a minha casa e a minha cozinha”, avisa. O que tem de simples, ela tem de saborosa.

Como quase todos os restaurantes de Olhos D’água, o da Lázara só abre nos fins de semana e feriados. Já os ateliês dos artistas podem ser visitados durante todo o ano. Como o do premiado Lourenço Silva, que tem suas bonecas de barro espalhas pelo mundo. Também reconhecida, a Fatinha das Fibras faz santas, pequenas bailarinas, anjos, com a palha do milho, sementes, flores e folhas do cerrado. E boa parte dessas obras de arte é exposta nas manhãs de sábado, em bancas ao redor da igreja, na praça principal, com uma feira de agricultura orgânica.

Alfajor e sabonete

No mesmo local, ocorre semestralmente a Feira do Troca, onde, entre tantos artesão, batem ponto a socióloga Jussara Nascimento, 62 anos, e o filho Leonardo, 35. Ambos fazem em casa dois produtos originais de Olhos D’água. Ela, inventou o Alfajor de Goiás, que segue a receita argentina mas leva alguns ingredientes brasileiros. Já ele, fabrica artesanalmente o Sabonete do Cerrado Bem Brasileiro.

O produto de higiene pessoal foi inventado por um das duas irmãs de Leonardo, hoje morando em Portugal. Ligada a ONGs ambientalistas, após muita pesquisas, ela começou a fazer sabonetes com substâncias e aromas de flores e frutos do cerrado, como a aroeira e o pequi. Natural de Goiânia, Leonardo se mudou para Olhos D’água e assumiu a marca há dois anos, vindo de São Paulo.

Fotos de Bruno Peres

Na capital paulista, o goiano ganhou dinheiro como corretor de imóveis, mas acabou estressado, doente. “Aqui, me recuperei e descobri a importância do tempo para a gente. Trabalho em casa, com algo que gosto, ao lado da minha família”, comenta ele, que agora estuda planos de expansão para o pequeno negócio. Por enquanto, os sabonetes são vendidos apenas em feiras e pela internet.

A mãe dele, se refugiou no vilarejo há mais tempo. Quinze anos atrás, pediu demissão do instituto para o qual trabalhava, em Brasília, e mudou-se de vez para Olhos D’água, onde sempre ia quando havia uma Feira do Troca. “Comecei a construir a casa para passar o fim de semana com a família, mas fui ficando. A casa ainda não está totalmente pronta, mas me sinto feliz”, frisa.

Números acanhados

Sem pressa de crescer, Olhos D’água tem números tímidos no universo do turismo. Opções de hospedagens para o público em geral são cinco: três pousadas e dois hotéis-fazenda. A maioria dos visitantes ainda fica em casas de fim de semana de parentes ou amigos. Para se ter uma ideia, em Pirenópolis, há cerca de 100 pousadas e hotéis, que abrigam mais de mil pessoas.

Restaurantes e bares em Olhos D’água não passam de 10. Ruas pavimentadas, são apenas seis. O único transporte público é uma charrete, que cobra R$ 5 por pequenos fretes. A maioria da população se locomove de bicicleta e a cavalo. Ainda há carros de boi nas pequenas propriedades da região, cada vez em menor número por causa das grandes fazendas de grãos.

Fotos de Zuleika de Souza

DICAS

Como chegar

São 100km do Plano Piloto até Olhos D’água. O motorista pega a BR-060 (Brasília-Goiânia) até Alexânia, percorrendo 85km. Entra na principal avenida comercial da cidade goiana e roda até o último balão, onde começa a GO-139. Segue 10km pela rodovia estadual, até um trevo, onde há uma placa indicando Olhos D’água. Dali até o povoado são mais 5km.

Onde comer

Quintal Doce da Lázara: tradicional comida goiana feita e servida em fogão a lenha, que inclui frango caipira e carne de porco. Almoço à vontade por R$ 15, incluindo doces caseiros como sobremesas.

ComTradição: mais sofisticado restaurante, mistura pratos das culinárias indígena, africana e portuguesa. Tem ainda a tradicional galinhada goiana e pizzas com ingredientes locais, como linguiça e costelinha de porco. Pratos variam de R$ 35 a R$ 50. Pizzas saem a partir de R$ 22. (62) 3322-6211

Toca do Alemão: petiscos — sanduíche de pernil; linguiça de porco caseira, acebolada, acompanhada de pão, entre outros — e bebidas, frias e quentes, com música o vivo. Abre de quinta-feira a sábado, das 20h à meia-noite. (62) 3322-6206 / www.tocadoalemaoolhosdagua.com

Onde dormir

Pousada da Lázara: a mais simples e barata hospedagem, fica na casa da dona, que lhe dá o nome. Quarto a partir de R$ 40 a diária (sem café). 

Pousada dos Ipês: montada em uma chácara, tem três quartos e um banheiro, com churrasqueira. Diária R$ 150. Reservas pelo telefone (62) 3322-6272.

Pousada Coisas de Olhos: também com três quartos e um banheiro, fica de frente à praça principal. Móveis e prédio são em estilo colonial. Diária vão de R$ 50 (meio de semana) a R$ 80 (fim de semana e feriado). Mais informações: (62) 3322-6202 e (62) 3322-6304 /www.facebook.com/CoisasDeOlhos

Pousada Professor Armando: espécie de mini hotel-fazenda, com seis apartamentos, dois chalés, piscina, campo de futebol, playground e outros atrativos. Diária a R$ 100 (casal), incluindo café da manhã. Contatos: (62) 3322-6176 / www.facebook.com/pousadaprofessorarmando

Hotel-fazenda Cabugi: mais completo da região, fica a 5 km de Olhos D’Água. Diária a partir de R$ 429, quarto para casal. Preços promocionais para pacotes de quatro diárias. (61) 3963-8070, (62) 3336-1199, (62) 3336-3210 / www.hotelfazendacabugi.com.br www.facebook.com/hotelfazendacabugi

O que comprar

Alfajor de Goiás: feito de forma caseira, segue a receita argentina. Tem nos sabores chocolate ao leite, chocolate branco e chocolate meio-amargo. Encomendas pelo telefone (62) 3322-6248.

Sabonete do Cerrado Bem Brasileiro: produzido também de maneira artesanal, contem substâncias e aromas de flores e frutos do cerrado. Encomendas: (62) 3322-6146 / www.sabonetebembrasileiro.negociol.com

Artesanato: bonecas, anjos e santos feitos de palha de milho são os mais típicos do povoado. Também há muitas peças feitas de barro, que vão de potes, vasos a figuras sacras. Lojinhas vendem ainda bonecos de pano, quadros de pintura a óleo, tapetes, bolsas entre outros itens feitos por artistas locais. Os preços variam de acordo com os detalhes e o tamanho da peça.

HISTÓRIA

Fugindo da ditadura

Com 79 edições, a Feira do Troca surgiu da iniciativa uma professora da UnB, Laís Aderne, que se deparou com a pobreza dos moradores e tiveram a ideia de, com amigos de Brasília, juntar roupas e utensílios. Em vez de doar, propuseram trocar por artesanato ou produtos agrícolas para incentivar a produção local. A feira é realizado duas vezes por ano, mas não tem mais só troca. Os artesãos da cidade passam seis meses confeccionando peças para serem vendidas nessa época. “Ela (Laís) mostrou para a população a importância do artesanato produzido, e, em 1974, criou a Feira do Troca, em que a população e quem mais quisesse, poderia trocar artigos como objetos de casa, vestimentas, frutas, artesanatos. Um impulso para a comunidade resgatar suas tradições e desenvolver-se economicamente. Laís Aderne tinha como objetivo valorizar e melhorar as condições de vida dos artesãos que ali viviam, por este motivo, criou o mutirão das fiandeiras e a Feira do Troca. É inegável a importância dela na área educacional e cultural do Centro-oeste. Sua morte em 2007 foi uma grande perda na região”, destaca a leitora Rosângela Corrêa.

Promessa a santo

Olhos D’água surgiu de uma promessa religiosa, feita por uma moradora da região, de construir uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua. Em torno da pequena igreja, fundada em 1941 em terras doadas por dois cunhados fazendeiros, cresceu o povoado de Santo Antônio de Olhos D’água. Na época, subordinado a Corumbá de Goiás, as suas terras foram repartidas pela Igreja Católica em pequenos lotes, vendidos a quem quisesse se estabelecer.

Os homens trabalhavam como meeiros para os fazendeiros da região. Plantavam milho, feijão, arroz e mandioca e mantinham pequenas criações. Além disso, produziam, para seu uso, utensílios de barro, como panelas, potes e artigos de tecelagem. Com o isolamento do povoado, a população criou um modo de vida próprio. Era autossuficiente em gêneros de primeira necessidade, fiava e tecia sua roupa e fazia seus utensílios — gamelas, colheres de pau e cestas.

O modelo de arquitetura das casas veio pelas mãos dos mestres de construção de Corumbá, que conservaram as mesmas características das antigas casas da região, dando a impressão do vilarejo hoje ser mais antigo do que aparenta. Com o nome de Olhos D’água, ele acabou emancipado em 14 de novembro de 1958, virando um município. Mas, dois anos depois, a sede municipal passou para os povoados de Alexânia e Nova Flórida. Em 1963, a cidade ganhou de vez o nome de Alexânia, tornando Olhos D’água um distrito dele.

Feira do Troca em Olhos D’água (GO)

Olhos Dagua 1

Renato Alves e Zuleika de Souza (fotos)

Ocorre neste primeiro fim de semana de dezembro a 79ª Feira do Troca de Olhos D’água, distrito de Alexânia (GO), a 100km de Brasília. O tradicional evento é realizado duas vezes por ano. A feira é palco de troca, escambo e aquisição de produtos nativos, artesanato, gastronomia, vestuário e antiguidades a preços muito baixos.

Olhos Dagua 2

Zoim é como alguns brasilienses, que foram morar lá em busca de sossego, chamam o lugarejo. E muitos só ouvem falar daquelas bandas a cada seis meses, quando tem a famosa Feira do Troca. Armando e Laís, professores da UnB, que, na década de 1970 foram se refugiar no lugar, se depararam com a pobreza dos moradores e tiveram a ideia de, com amigos de Brasília, juntar roupas e utensílios. Em vez de doar, propuseram trocar por artesanato ou produtos agrícolas para incentivar a produção local.

Olhos Dagua 3

Os artesãos da cidade passam seis meses confeccionando peças para serem vendidas nessa época. Guardam o melhor mel para trocar. Tem muito artesanato em palha e de barro. As famosas bonecas de pano da região estarão em várias barracas. Quem optar por passar o fim de semana tem à disposição pequenas pousadas.

A Feira  do Troca deu certo e, já não é mais como o casal pioneiro pensou. Ficou muito grande e, hoje, atrai vendedores de bebidas e de produtos importados, que descaracterizam a ideia. Mas o artesanato continua sendo uma atração para o lugar.

Durante todo o ano, é possível visitar as casas e ateliês dos artistas. Como o famoso Lourenço Silva, que tem suas bonecas de barro espalhas pelo mundo.

A Fatinha das fibras, superpremiada e reconhecida pelo Brasil afora, continua morando e fazendo suas lindas santas, pequenas bailarinas, anjos, espíritos santos, com a palha do milho, sementes, flores e folhas do belo cerrado de Olhos.

Don’Ana, que recebe os visitantes com um largo sorriso, faz divertidos bonecos de pano e conta muitas histórias do lugar.

Edelvais Jeker, que é uma espécie de consulesa da comunidade brasiliense em Olhos D’Água, tem a Oficina do Bem, que faz oratórios e enfeites para jardins, reaproveitando tudo: uma sapateira virou jardim suspenso de plantas suculentas.