Razões para conhecer Olhos D’água, o novo refúgio brasiliense

Foto de Zuleika de Souza

Renato Alves (texto), Zuleika de Souza e Bruno Peres (fotos)

Imagine uma Pirenópolis menor, menos movimentada, menos barulhenta, mais rústica, mais perto de Brasília, e, acima de tudo, mais barata. Esse lugar existe. E alguns brasilienses já o descobriram. Houve até quem se mudou para lá. Outros, compraram terrenos ou casas nele para passar os fins de semana. Trata-se de um povoado de Alexânia (GO), a 100km de Brasília. O nome? Olhos D’água.

Por anos, o lugarejo era conhecido apenas pelo estereótipo de destino hippie e pela tradicional Feira do Troca. Agora, faz fama internacional com o rico artesanato e atrai muito trabalhador e aposentado cansado da correria da cidade grande. Gente que habita os casarões coloridos da vila, onde os vizinhos são acolhedores e fazendas próximas conservam cachoeiras inexploradas.

Como qualquer arraial, Olhos D’água não tem tantas atrações turísticas padrões, como museus, nem opções de hospedagem e todas as comodidades de destinos mais badalados. Mas a maioria dos que para lá vão procura justamente o sossego e a simplicidade da gente e de suas construções. Esses apelidaram o vilarejo de Zóin, que em sua sede tem cerca de mil habitantes.

Fotos de Zuleika de Souza

Em Olhos D’água, o artesanato é único, feito com elementos da região, como a comida dos seus restaurantes. Já os bares mantêm os antigos balcões de madeira e as garrafas de pinga na prateleira, sempre com alguém disposto a prosear. Mas, na vila, há também energia elétrica em todas as casas, sinal de celular, internet banda larga, estabelecimentos sofisticados com páginas nas redes sociais.

Tempo de sobra

Edelvais Jeker trocou um apartamento na 405 Sul por uma casa antiga com quintal imenso, em Olhos D’água, há 11 anos. Até então, levava uma vida frenética, conciliando as funções de servidora pública na Esplanada dos Ministérios e da empresa de bufê que comandava. “Ganhava muito dinheiro, mas não tinha tempo para gastá-lo como queria”, conta, aos 59 anos.

Com a aposentadoria, ela reformou a casa no povoado de Alexânia e passou a se dedicar ao artesanato e à sua pequena pousada, onde ainda funciona uma loja de produtos feitos por artistas locais. “Aqui, descobri a vida. Na cidade, não via os passarinhos cantarem, os ninhos dos passarinhos. Não via as borboletas, seus casulos”, observa.

Além de fazer oratórios e enfeites para jardins, se especializando no cultivo de plantas suculentas, Edelvais, que virou Dedé em Olhos D’água, se envolve em projetos culturais e sociais da comunidade. Ela e outros forasteiros de Brasília fazem de tudo para estimular os nativos a conservarem seus costumes e a se sustentar com sua cultura, sem agredir o meio ambiente.

Foto de Zuleika de Souza

No momento, Edelvais e outros brasilienses tentam convencer os vizinhos a construir, reformar ou reconstruir suas casas com paredes de adobe, portas e janelas de madeira de antigos imóveis abandonados. Marlene Maria da Silva, 59 anos, ergueu uma casa com esses materiais e a decorou apenas com produtos encontrados em meio ao cerrado ou no lixo. Por dentro, o imóvel é um luxo só.

Como Edelvais, Marlene abandonou Brasília. Ela se mudou de mala e cuia para Olhos D’água há dois anos, após ganhar a aposentadoria da Secretaria de Educação do DF e ficar livre da rotina pesada de professora. “Estava estressada. Foram 30 anos de sala de aula”, lembra ela, que lecionava artes. Marlene deixou para trás a capital, mas não a vida artística.

Pés descalços

No distrito de Alexânia, a mulher que morou em casas do Lago Sul e Park Way, passa o dia descalça, fazendo obras de arte com pedaços de madeira encontrados na mata. Também dá aulas gratuitas de artes plásticas a crianças, jovens e idosos. Gostou tanto dessa vidinha que convenceu o irmão e o filho dela a também se mudarem para o vilarejo, com a mãe, de 84 anos.

Há três meses, Odilon de Oliveira, 50, o irmão de Marlene, alugou duas casas em uma chácara, ao custo de R$ 600 mensais. A exemplo da irmã, ele, que já teve três restaurantes e uma casa noturna ao mesmo tempo, em Taguatinga, se dedica ao artesanato e ensina o ofício ao sobrinho. Estudante de engenharia civil, Pedro, 24 anos, faz casinhas de barro inspiradas nas residências de Olhos D’água.

Os trabalhos dele e da mãe são expostos na Casa Verde, loja montada na sala-quarto da casa de Rodrigo Moreira, 39 anos. O brasiliense de nascença e criação aportou em Olhos D’água há 14 anos, após morar na 713 Sul, trabalhar como bancário, em uma loja de móveis da família e ter o próprio comércio, em Alexânia. Na vila, descobriu o artesanato, casou e teve três filhos.

Mesmo separado, Rodrigo pensa em nunca mais deixar o lugarejo. “Um dia que passo no trânsito de uma cidade como Brasília, volto estressado. Aqui, enquanto trabalho, vejo os meus filhos brincando na rua”, ressalta o artesão. Ele, que tem quase todos os parentes morando na capital, vive da venda de cerâmicas e de esculturas feitas de ferro, além de aulas de artes em projetos sociais.

Sonho realizado

O casal Paulo César Machado, 58 anos, e Ana Nunes Barbosa, 46, também não quer mais sair de Olhos D’água. Ele deixou as redações de rádio e TV de Brasília e, ela, a Câmara dos Deputados, onde trabalhou como fotógrafa por 20 anos. Ambos começaram a construir o casarão de adobe e madeira, no povoado goiano, há quatro anos. Há seis meses, o imóvel é a residência e o restaurante dos sonhos deles.

Sonho que pretendiam consolidar em Pirenópolis, onde tiveram uma creperia na Rua do Lazer entre 2001 e 2003. Interromperam os planos por causa da alta dos preços dos imóveis e do custo de vida no município que se tornou o principal destino turístico brasiliense nos fins de semana e feriados prolongados. “Aqui, nosso maior patrimônio é a tranquilidade”, comenta Paulo César.

O jornalista aposentado divide o tempo entre a carpintaria e o restaurante, aberto somente de sexta-feira a domingo e em feriados, como a maioria das lojas do vilarejo. Ana, hoje tem a fotografia como hobby. Seus registros de paisagens e personagens do cerrado ganham molduras rústicas, feitas pelo marido. Já quando o restaurante está aberto, ela faz as vezes de atendente e ele, de chefe de cozinha.

Ao mesmo que ajudam no desenvolvimento de Olhos D’água, onde não há mais fome nem desemprego por motivos diversos, os brasilienses inflacionam o povoado. “De dois anos para cá, os preços dos imóveis subiram até 10 vezes”, conta Paulo César. Uma tia brasiliense de Edelvais, por exemplo, pagou recentemente R$ 170 mil por uma casa, valor inimaginável no lugar, até três anos atrás.

Sabores locais

Lázara Izabel Costa Lima, 48 anos, é uma típica nativa de Olhos D’água. Grande parte dos seus hábitos levou para o restaurante e a pousada simples que levam o seu nome. Sua experiência como comerciante começou com venda de doces caseiros. Todo dia, ela pegava um ônibus para Brasília, onde passava o dia batendo interfone nos blocos residenciais do Plano Piloto oferecendo as guloseimas. Com o dinheiro do trabalho de ambulante, que durou dois anos, montou o restaurante em sua terra natal.

Ela começou a cozinhar na casa de seu pai, na roça. Como era um pouco longe do povoado, alugou uma casa em frente à praça da igreja. Depois atraiu seus clientes à sua própria residência e lá transformou pés de abacate em pés de mesa e fez de portas antigas o apoio, onde as pessoas podiam saborear o bom gosto. Hoje, em mesas com bancos de madeira e uma cozinha onde trabalham até nove ajudantes de uma vez, ela faz e oferece os mais legítimos pratos da culinária goiana. “Minha comida é simples como a minha casa e a minha cozinha”, avisa. O que tem de simples, ela tem de saborosa.

Como quase todos os restaurantes de Olhos D’água, o da Lázara só abre nos fins de semana e feriados. Já os ateliês dos artistas podem ser visitados durante todo o ano. Como o do premiado Lourenço Silva, que tem suas bonecas de barro espalhas pelo mundo. Também reconhecida, a Fatinha das Fibras faz santas, pequenas bailarinas, anjos, com a palha do milho, sementes, flores e folhas do cerrado. E boa parte dessas obras de arte é exposta nas manhãs de sábado, em bancas ao redor da igreja, na praça principal, com uma feira de agricultura orgânica.

Alfajor e sabonete

No mesmo local, ocorre semestralmente a Feira do Troca, onde, entre tantos artesão, batem ponto a socióloga Jussara Nascimento, 62 anos, e o filho Leonardo, 35. Ambos fazem em casa dois produtos originais de Olhos D’água. Ela, inventou o Alfajor de Goiás, que segue a receita argentina mas leva alguns ingredientes brasileiros. Já ele, fabrica artesanalmente o Sabonete do Cerrado Bem Brasileiro.

O produto de higiene pessoal foi inventado por um das duas irmãs de Leonardo, hoje morando em Portugal. Ligada a ONGs ambientalistas, após muita pesquisas, ela começou a fazer sabonetes com substâncias e aromas de flores e frutos do cerrado, como a aroeira e o pequi. Natural de Goiânia, Leonardo se mudou para Olhos D’água e assumiu a marca há dois anos, vindo de São Paulo.

Fotos de Bruno Peres

Na capital paulista, o goiano ganhou dinheiro como corretor de imóveis, mas acabou estressado, doente. “Aqui, me recuperei e descobri a importância do tempo para a gente. Trabalho em casa, com algo que gosto, ao lado da minha família”, comenta ele, que agora estuda planos de expansão para o pequeno negócio. Por enquanto, os sabonetes são vendidos apenas em feiras e pela internet.

A mãe dele, se refugiou no vilarejo há mais tempo. Quinze anos atrás, pediu demissão do instituto para o qual trabalhava, em Brasília, e mudou-se de vez para Olhos D’água, onde sempre ia quando havia uma Feira do Troca. “Comecei a construir a casa para passar o fim de semana com a família, mas fui ficando. A casa ainda não está totalmente pronta, mas me sinto feliz”, frisa.

Números acanhados

Sem pressa de crescer, Olhos D’água tem números tímidos no universo do turismo. Opções de hospedagens para o público em geral são cinco: três pousadas e dois hotéis-fazenda. A maioria dos visitantes ainda fica em casas de fim de semana de parentes ou amigos. Para se ter uma ideia, em Pirenópolis, há cerca de 100 pousadas e hotéis, que abrigam mais de mil pessoas.

Restaurantes e bares em Olhos D’água não passam de 10. Ruas pavimentadas, são apenas seis. O único transporte público é uma charrete, que cobra R$ 5 por pequenos fretes. A maioria da população se locomove de bicicleta e a cavalo. Ainda há carros de boi nas pequenas propriedades da região, cada vez em menor número por causa das grandes fazendas de grãos.

Fotos de Zuleika de Souza

DICAS

Como chegar

São 100km do Plano Piloto até Olhos D’água. O motorista pega a BR-060 (Brasília-Goiânia) até Alexânia, percorrendo 85km. Entra na principal avenida comercial da cidade goiana e roda até o último balão, onde começa a GO-139. Segue 10km pela rodovia estadual, até um trevo, onde há uma placa indicando Olhos D’água. Dali até o povoado são mais 5km.

Onde comer

Quintal Doce da Lázara: tradicional comida goiana feita e servida em fogão a lenha, que inclui frango caipira e carne de porco. Almoço à vontade por R$ 15, incluindo doces caseiros como sobremesas.

ComTradição: mais sofisticado restaurante, mistura pratos das culinárias indígena, africana e portuguesa. Tem ainda a tradicional galinhada goiana e pizzas com ingredientes locais, como linguiça e costelinha de porco. Pratos variam de R$ 35 a R$ 50. Pizzas saem a partir de R$ 22. (62) 3322-6211

Toca do Alemão: petiscos — sanduíche de pernil; linguiça de porco caseira, acebolada, acompanhada de pão, entre outros — e bebidas, frias e quentes, com música o vivo. Abre de quinta-feira a sábado, das 20h à meia-noite. (62) 3322-6206 / www.tocadoalemaoolhosdagua.com

Onde dormir

Pousada da Lázara: a mais simples e barata hospedagem, fica na casa da dona, que lhe dá o nome. Quarto a partir de R$ 40 a diária (sem café). 

Pousada dos Ipês: montada em uma chácara, tem três quartos e um banheiro, com churrasqueira. Diária R$ 150. Reservas pelo telefone (62) 3322-6272.

Pousada Coisas de Olhos: também com três quartos e um banheiro, fica de frente à praça principal. Móveis e prédio são em estilo colonial. Diária vão de R$ 50 (meio de semana) a R$ 80 (fim de semana e feriado). Mais informações: (62) 3322-6202 e (62) 3322-6304 /www.facebook.com/CoisasDeOlhos

Pousada Professor Armando: espécie de mini hotel-fazenda, com seis apartamentos, dois chalés, piscina, campo de futebol, playground e outros atrativos. Diária a R$ 100 (casal), incluindo café da manhã. Contatos: (62) 3322-6176 / www.facebook.com/pousadaprofessorarmando

Hotel-fazenda Cabugi: mais completo da região, fica a 5 km de Olhos D’Água. Diária a partir de R$ 429, quarto para casal. Preços promocionais para pacotes de quatro diárias. (61) 3963-8070, (62) 3336-1199, (62) 3336-3210 / www.hotelfazendacabugi.com.br www.facebook.com/hotelfazendacabugi

O que comprar

Alfajor de Goiás: feito de forma caseira, segue a receita argentina. Tem nos sabores chocolate ao leite, chocolate branco e chocolate meio-amargo. Encomendas pelo telefone (62) 3322-6248.

Sabonete do Cerrado Bem Brasileiro: produzido também de maneira artesanal, contem substâncias e aromas de flores e frutos do cerrado. Encomendas: (62) 3322-6146 / www.sabonetebembrasileiro.negociol.com

Artesanato: bonecas, anjos e santos feitos de palha de milho são os mais típicos do povoado. Também há muitas peças feitas de barro, que vão de potes, vasos a figuras sacras. Lojinhas vendem ainda bonecos de pano, quadros de pintura a óleo, tapetes, bolsas entre outros itens feitos por artistas locais. Os preços variam de acordo com os detalhes e o tamanho da peça.

HISTÓRIA

Fugindo da ditadura

Com 79 edições, a Feira do Troca surgiu da iniciativa uma professora da UnB, Laís Aderne, que se deparou com a pobreza dos moradores e tiveram a ideia de, com amigos de Brasília, juntar roupas e utensílios. Em vez de doar, propuseram trocar por artesanato ou produtos agrícolas para incentivar a produção local. A feira é realizado duas vezes por ano, mas não tem mais só troca. Os artesãos da cidade passam seis meses confeccionando peças para serem vendidas nessa época. “Ela (Laís) mostrou para a população a importância do artesanato produzido, e, em 1974, criou a Feira do Troca, em que a população e quem mais quisesse, poderia trocar artigos como objetos de casa, vestimentas, frutas, artesanatos. Um impulso para a comunidade resgatar suas tradições e desenvolver-se economicamente. Laís Aderne tinha como objetivo valorizar e melhorar as condições de vida dos artesãos que ali viviam, por este motivo, criou o mutirão das fiandeiras e a Feira do Troca. É inegável a importância dela na área educacional e cultural do Centro-oeste. Sua morte em 2007 foi uma grande perda na região”, destaca a leitora Rosângela Corrêa.

Promessa a santo

Olhos D’água surgiu de uma promessa religiosa, feita por uma moradora da região, de construir uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua. Em torno da pequena igreja, fundada em 1941 em terras doadas por dois cunhados fazendeiros, cresceu o povoado de Santo Antônio de Olhos D’água. Na época, subordinado a Corumbá de Goiás, as suas terras foram repartidas pela Igreja Católica em pequenos lotes, vendidos a quem quisesse se estabelecer.

Os homens trabalhavam como meeiros para os fazendeiros da região. Plantavam milho, feijão, arroz e mandioca e mantinham pequenas criações. Além disso, produziam, para seu uso, utensílios de barro, como panelas, potes e artigos de tecelagem. Com o isolamento do povoado, a população criou um modo de vida próprio. Era autossuficiente em gêneros de primeira necessidade, fiava e tecia sua roupa e fazia seus utensílios — gamelas, colheres de pau e cestas.

O modelo de arquitetura das casas veio pelas mãos dos mestres de construção de Corumbá, que conservaram as mesmas características das antigas casas da região, dando a impressão do vilarejo hoje ser mais antigo do que aparenta. Com o nome de Olhos D’água, ele acabou emancipado em 14 de novembro de 1958, virando um município. Mas, dois anos depois, a sede municipal passou para os povoados de Alexânia e Nova Flórida. Em 1963, a cidade ganhou de vez o nome de Alexânia, tornando Olhos D’água um distrito dele.

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Brasília Colonial — Nos tempos do ouro

Renato Alves (texto) e Monique Renne (fotos), do Correio Braziliense

Esqueça os candangos e os grandes empreiteiros dos anos 1950. Muito antes dos caminhões cruzarem a poeirenta Brasília em construção, portugueses se apoderavam das terras hoje ocupadas pelo Distrito Federal e pelos municípios goianos do Entorno. Seus escravos africanos erguiam casas, lojas e igrejas. Eles eram a base de uma sociedade que tinha no topo os ricos donos de imensas fazendas e suas submissas mulheres.

As propriedades rurais, tomadas por gado e cana-de-açúcar, alimentavam pequenas cidades e vilas, habitadas por padres, militares, comerciantes, artesãos e funcionários públicos. Os núcleos populacionais estavam ligados por trilhas e raras estradas de terra, percorridas por tropeiros em lombo de burro e carros de boi. Muitos viajavam em busca de ouro.

Cenário comum a Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Pernambuco e ao Rio de Janeiro dos séculos 18 e 19. Porém, no quase isolado Planalto Central, a vida era mais difícil, principalmente para quem tinha poucas posses. Realidade pouco alterada até o começo da construção de Brasília, mas ainda desconhecida da maioria dos brasilienses e dos demais brasileiros.

Para recuperar essa parte da história do país, uma equipe do Correio passou uma semana visitando cidades e fazendas centenárias dos arredores da capital. Percorreu mais de 1 mil km em estradas de asfalto, de terra e em trilhas. No caminho, encontrou os originais de documentos datados de até 300 anos, casarões centenários intactos e em ruínas, povoados e fazendas que parecem ter parado no tempo, descendentes de poderosos latifundiários e de escravos, pesquisadores e moradores que lutam para preservar a memória da região.

O resultado dessa apuração o leitor confere a partir de hoje, na série Brasília colonial. As reportagens vão revelar a riqueza secular dessas terras e o que ainda resta delas. Tesouro pouco explorado turisticamente pela maioria dos atuais donos e ainda nem mapeado completamente pelo governo ou pela comunidade científica.

Em seu levantamento, o Correio contou ao menos 390 edificações com mais de 100 anos e em estilo colonial, em um raio de até 200km de Brasília. São igrejas, casarões, presídios desativados e antigos armazéns. No DF, os prédios ficam em Planaltina e no Park Way. Em Goiás, eles estão nas áreas rurais e urbanas de Cidade Ocidental, Corumbá, Formosa, Luziânia e Pirenópolis.

Em busca de ouro

Os primeiros povoamentos ao redor do atual Distrito Federal surgiram em função da colonização das terras dos índios da etnia Goyá (grafia antiga) e da corrida ao ouro no Brasil. Mais antigo dos núcleos urbanos da região, Pirenópolis (casarão acima), distante quase 140km de onde seria erguida a nova capital do país, começou a ser ocupado em 1727, quando um grupo de bandeirantes portugueses, vindo de São Paulo, ali fundou as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte.

Os desbravadores já sabiam da existência do ouro, tanto que, logo após montar acampamento, se lançaram à cata do precioso metal no leito do Rio das Almas. Eles passavam o dia revirando e lavando o cascalho das margens até poder apurar o ouro com bateia, em um dos mais antigos métodos de garimpagem.

Oriundos do norte de Portugal, região do Porto, e da Galícia, em sua maioria, os portugueses logo trataram de construir casas e igrejas, formando um arraial. A ainda imponente Igreja Matriz, cartão-postal do município, eles construíram por volta de 1728 a 1731.

No mesmo período, bandeirantes rumavam para o que viria a ser Corumbá, a vizinha mais próxima de Pirenópolis.

Também atraídos pelo ouro, fixaram acampamento na margem esquerda do Rio Corumbá e, em 8 de setembro de 1730, fundaram o arraial de Nossa Senhora da Penha do Corumbá. Ergueram ranchos de pau a pique, com chão de terra batida e cobertura de palhas de buriti. Um deles virou capela. Os outros serviam de moradia aos bandeirantes e a seus escravos.

Coube aos negros plantar roças de cereais para abastecer o arraial. Acima dessas plantações, havia uma clareira na mata ciliar, onde hoje está a Praça da Matriz, que servia de pasto aos cavalos dos pioneiros de Corumbá.

Igrejas separadas

Uma década depois, à procura de novas minas de ouro, o bandeirante Antônio Bueno de Azevedo partiu de Paracatu (MG), acompanhado de amigos e escravos, em direção a Goiás. Mas não tinha direção certa.

Em 13 de dezembro de 1746, enquanto descansava às margens de um córrego, viu pepitas de ouro. No dia seguinte, ergueu um cruzeiro e dedicou as minas e o povoado à Santa Luzia, futura Luziânia.

A notícia logo se espalhou. Em menos de um ano, o arraial tinha mais de 10 mil habitantes. Uma enormidade para a época.

Como em Pirenópolis, a primeira grande edificação de Luziânia foi a Matriz, que começou a ser erguida em 1765, sendo inaugurada em 1767. Mas só a população branca podia frequentá-la. Com isso, os negros começaram a erguer, em 2 de junho de 1769, a Igreja do Rosário (foto anterior).

Os dois templos continuam de pé, mas apenas o dos negros mantém a estrutura original. Após um ano de trabalho, o prédio foi reaberto, completamente restaurado, em setembro do ano passado. Ele fica no ponto mais alto da Rua do Rosário, onde se concentram os prédios históricos da cidade, hoje com mais de 160 mil habitantes.

Mas, muito antes de atingir essa população, Luziânia viveu uma fuga em massa, devido ao declínio dos garimpos. A população caiu de 10 mil habitantes, no pico da mineração, para pouco de mais de 2 mil, ao fim da exploração do ouro.

A minoria branca ficou nas poucas casas do vilarejo e nas sedes das fazendas, que viviam da produção de cana-de-açúcar e da criação de gado. Os escravos que não trabalhavam nas propriedades rurais formaram comunidades em volta delas. A mais famosa, a do Mesquita, fica na área rural da Cidade Ocidental, a cerca de 50km de Brasília e a 25km de Luziânia, onde descendentes dos senhores de engenho e dos escravos conservam a cultura dos ancestrais.

Fogão a lenha

Em pequenas chácaras e ainda grandes fazendas, brancos e negros criam galinhas e porcos soltos, fazem doces e todo tipo de comida em fogões a lenha. “Não gosto da cidade, gosto das coisas antigas”, afirma Benedito Gonçalves Soares (foto principal), 78 anos, herdeiro de uma das mais tradicionais famílias da região.

Ele e dois dos seus irmãos mantêm duas fazendas com características originais. Em ambas, os casarões, com mais de 200 e 300 anos, foram recentemente restaurados. As propriedades ficam no limítrofe de Goiás com o DF, ao lado de onde surge um dos mais modernos e caros condomínios da capital.

A fim de satisfazer o marido, Benedito, Zilda Rodrigues Gonçalves (foto anterior), 76 anos, acorda cedo para fazer, diariamente, bolos e biscoitos, sempre no fogão alimentado a lenha. “Gostaria de morar na cidade, mas meu marido não sai daqui por nada”, pondera ela, descendente de uma das mais poderosas famílias de Luziânia. “Meus bisavós tinham uma fazenda grande, com um casarão de 300 anos e uma senzala, mas depois venderam e acabaram com tudo”, lembra.

Zilda, Benedito e os filhos contam com a ajuda de descendentes de escravos para manter a casa e toda a propriedade em ordem. Os negros, em sua maioria, moram no povoado Mesquita, reconhecido recentemente como área remanescente de quilombo.

Os encantos de Corumbá de Goiás

Corumbá - Cavalhadas

Flávia Maia, do Correio Braziliense

Quem passa pela BR-414 partindo de Brasília geralmente tem destino certo: a cidade histórica goiana de Pirenópolis (GO). No caminho, o Salto de Corumbá chama a atenção pela grandiosidade e pela beleza, levando muitos turistas a parar no mirante à beira da estrada antes de seguir viagem. Mas a região de Corumbá de Goiás tem outros atrativos além da cachoeira. Vale a pena dar um esticadinha e fazer o passeio completo.

Para começar, na mesma fazenda em que está o salto, existem outras seis cachoeiras, como a do Ouro, a do Rasgão e a da Gruta. Já Monjolinho e Sonho meu são exemplos de quedas d’água nas redondezas, mas fora da propriedade. Os fãs dos esportes radicais podem aproveitar as curvas do Rio Corumbá para praticar rafting — e os paredões das cachoeiras para escaladas e rapel. O terreno acidentado vira atração de quem gosta de ciclismo.

Além das opções relacionadas ao ecoturismo, Corumbá é um atrativo para quem gosta de história. A cidade faz parte do ciclo do ouro goiano, como a Cidade de Goiás, Pirenópolis, Cocalzinho, Jaraguá e Abadiânia. O conjunto arquitetônico é do século 18 e está bem conservado, principalmente a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França e o Cine Teatro Esmeralda, reinaugurado no início do mês, após restauração.

A matriz foi a primeira construção de alvenaria da cidade e exibe, no teto, um afresco retratando uma aparição de Nossa Senhora dos Pirineus franceses. Isso porque a descoberta de ouro na região se deu em um dia consagrado à santa. Os bandeirantes paulistas responsáveis pela empreitada tomaram o acontecimento como uma bênção e elegeram, assim, a padroeira do incipiente povoado. Ao redor do templo, os pioneiros levantaram diversos ranchos. É esse conjunto de construções que foi tombado como patrimônio histórico e artístico nacional em 1988. Nesta época do ano, enfeites natalinos deixam o casario ainda mais bonito.

Corumbá de Goiás

O clima interiorano acaba sendo outro atrativo. A cidade é silenciosa e perfeita para quem quer descansar. O turista, porém, não encontrará uma boa estrutura de informações e de atendimento especializado. O Centro de Atendimento ao Turista ainda é recente e pouco equipado. Outra amostra da não profissionalização do turismo é o Memorial dos Imortais, na sede da Secretaria de Educação. Não existe um horário exato de funcionamento. Se quiser visitá-lo, o forasteiro terá de bater à porta da dona Maria do Carmo — é ela quem cuida do acervo de corumbaenses ilustres, como os escritores Bernardo Élis e José J. Veiga, escritores goianos nascidos em Corumbá.

Veiga nasceu em 1915 e estreou na literatura um pouco tarde, aos 44 anos. Foi reconhecido na literatura brasileira pelo livro Os cavalinhos de Platiplanto. A obra ganhou o prêmio Fábio Prado em 1959. O autor faleceu em 1999, no Rio de Janeiro. Bernardo Élis, também nascido em 1915, foi o primeiro goiano a entrar para a Academia Brasileira de Letras. Morreu em 1997. Entre as suas principais obras estão O tronco e apenas um violão.

As celebrações religiosas são um capítulo à parte. Entre 11 e 21 de janeiro, ocorre o festejo em homenagem a São Sebastião. Além das orações, há barraquinhas e cavalgada. Em setembro, é a vez das cavalhadas, tradicional encenação da luta entre cristãos e mouros.

Preciosidades naturais

Com 65m de altura e 40m de largura, o Salto do Corumbá é a principal atração turística da região. São cerca de 800m de trilha até alcançar as águas. Nos trechos de maior dificuldade, o viajante encontrará escadas de madeira e corrimão. A história do Salto também está ligada à mineração. No fim do século 19, o minerador Alferd Arene construiu um canal por onde o rio era desviado até o Córrego Rasgão. A ideia era garantir a garimpagem, secando a cachoeira. O poço de onde os minérios eram extraídos é conhecido hoje como Poço Rico.

A Cachoeira da Gruta é outro ponto interessante porque a água cai do paredão em uma gruta. A trilha é de menos de um quilômetro e é mais fácil do que a do salto.

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O parque ecológico está localizado em uma fazenda, cuja estrutura é de uma pousada. Pagando R$ 160 a diária para casal, os hóspedes têm acesso às seis cachoeiras da propriedade, ao toboágua e às piscinas de água natural. Quem preferir acampar, o mesmo pacote sai por R$ 20 por dia, nos fins de semana. O quilo da comida é R$ 18,90 e o cardápio é bem simples, com arroz, feijão, carne, frango, macarrão e salada.

O preço acessível faz com que o parque fique muito cheio aos sábados e domingos. O som automotivo é liberado e isso prejudica os turistas que preferem sossego. Outro defeito é não existir uma área específica para camping. As barracas por todo lado diminuem a beleza do clube.

Existem outras opções de pousadas na região. De um modo geral, elas oferecem bons exemplos da cozinha goiana, como frango caipira, feijão tropeiro e quitutes variados. É possível aproveitar os restaurantes sem, necessariamente, se hospedar. A Pousada Serra da Irara, por exemplo, trabalha nesse esquema. Já na cidade, as opções gastronômicas são escassas.

Serviço

» Estrada: BR-070 e BR-414. A 070 é duplicada e a 414 tem pista única. Pista bem sinalizada. Cuidado apenas com o excesso de velocidade dos outros motoristas e com os pedestres de cidades como Águas Lindas de Goiás.
» Distância de Brasília: 118km
» Tempo de duração da viagem: média de 1h20.
» Voltagem: 220V
» Sinal de celular e internet: Pouco sinal. Tim e Vivo são as operadoras com melhor sinal.
» Leitos: 349
» Média de preços dos camping: R$ 15 por pessoa
» Diária média das pousadas: R$ 90, o aposento de casal.