Guia completo de Goiás Velho, onde moram a cultura e a culinária goiana

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Centro histórico de Goiás Velho (Foto de Renato Alves)

Goiás tem duas cidades históricas que valem uma visita. A mais famosa é Pirenópolis. Certamente, por estar mais perto de Brasília (150km). A outra (a 310km de Brasília e 140km de Piri), no entanto, tem muito mais atrações.

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Ponte de madeira em frente à Casa de Cora Coralina (Foto de Renato Alves)

Mais conhecida como Goiás Velho, a Cidade de Goiás foi a primeira capital do estado. Desde 2001, ostenta o título de Patrimônio Mundial, concedido pela Unesco. Ela conserva mais de 90% de sua arquitetura barroco-colonial original. Uma vitrine do Brasil do século 18. Tudo em meio a um vale envolvido pelos morros verdes e ao sopé da lendária Serra Dourada.

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Sem a agitação de Piri, Goiás tem uma atmosfera bucólica. Suas ruas silenciosas e o seu casario colonial bem conservado convidam para longas e prazerosas caminhadas, sem roteiros pré-definidos. Feitas de pau a pique, sem muros ou grades e unidas umas às outras, as casas centenárias do centro histórico chamam a atenção de quem está acostumado com asfalto e arranha-céus.

O calçamento de pedra – construído com o suor e o sangue de escravos – e a arquitetura são testemunhas de outros tempos, iniciados com o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva. Mais conhecido como Anhanguera, ele liderou um grupo de desbravadores do Brasil Central que capturavam índios e buscavam ouro para enriquecer os colonizadores portugueses.

Goiás cresceu às margens do Rio Vermelho, se tornando um dos primeiros municípios fundados no Brasil colonial. A cidade foi a capital do estado de Goiás por mais de 200 anos. Perdeu o posto com a inauguração de Goiânia, em 1933.

“Goiás é o Brasil Colônia nos casarões, nas ruas de pedra, no jeitão de Cora Coralina. Um jeito de Brasil furioso, doido pra crescer, querendo se libertar.”
Lima Duarte, ator

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A cidade de Goiás, que originalmente se chamava Vila Boa, também oferece aos turistas riquíssima arte sacra nas seculares igrejas e nos museus. De todos, o mais visitado é o Museu Casa de Cora Coralina, também conhecido como Casa Velha da Ponte. Ele fica à margem do Rio Vermelho e é a antiga casa da poetisa Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina.

Famosa pelos inúmeros versos sobre a cidade de Goiás (1889-1985). Após a morte da poetisa, amigos e parentes se reuniram e criaram, em 1989, o museu em sua homenagem. A família doou o acervo: objetos pessoais, fotos, utensílios domésticos, livros e imóveis.

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Empadão e doces

Além do casario, dos museus e das belezas sacras, em relação a Pirenópolis, Goiás Velho tem como atrativo os preços. Em relação a Pirenópolis, as diárias de Goiás chegam a custar quase metade em hospedarias com estruturas equivalentes. Restaurantes e lanchonetes de Goiás cobram bem menos pelas bebidas e pelos quitutes e pratos do que os oferecidos em Piri.

Devido ao menor fluxo de turistas (o que barateia tudo), as opções para comprar, almoçar e jantar em Goiás Velho são poucas. Algumas casas transformadas em lojinhas vendem quitutes e artesanatos. Outras poucas abrigam restaurantes, lanchonetes e cafés. As mesas são colocadas nos cômodos, na calçada e no quintal.

Quando chega a fome, o visitante pode experimentar as comidas regionais como o empadão goiano, a pamonha ou o bolo de arroz, encontrados na maioria dos estabelecimentos, onde o turista desembolsa de R$ 20 a R$ 40 por um prato farto. O Mercado Central é outra opção. Lá, o turista encontra de comida típica a lojinhas de artesanatos.

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Comida goiana servida em restaurante de Goiás Velho (Foto de Renato Alves)

Aliás, nenhuma outra cidade goiana oferece o legítimo empadão goiano, criado em Goiás Velho, onde tem a receita original seguida à risca (com seu substancioso recheio que mistura linguiça, palmito, frango, queijo e um tipo de palmito amargo, a guariroba).

Outra antiga tradição da cidade são os alfenins, doces de origem portuguesa, preparados com açúcar e polvilho com simpáticos formatos de animais. Os doces de frutas cristalizadas também são famosos e se pode acompanhar o trabalho das doceiras.

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Nos doces e nas manifestações religiosas, como a impressionante Procissão do Fogaréu da Semana Santa (confira o calendário de eventos da cidade), permanecem as raízes culturais do passado. Para quem gosta de curtir a natureza, são organizadas caminhadas na reserva ambiental da Serra Dourada, que se ergue em um dos lados da cidade.

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Praça do Coreto

A Praça do Coreto é passagem e parada obrigatória em Goiás Velho. No meio do Centro Histórico, ela abriga a mais famosa sorveteria local e uma dezena de bancos. A sorveteria não tem placa e fica embaixo do coreto (este, não tem como não ser visto).

A loja oferece os mais diversos sabores de picolés e sorvetes produzidos em grande parte com frutas do cerrado goiano. Entre as opções, estão de murici, cajá, graviola, jabuticaba, cagaita e pitanga. Tudo por R$ 2,50 a unidade ou a bola. É escolher o seu e desfrutá-lo sentado em um dos bancos de madeira, vendo a gente e a vida passarem.

Na praça também acontece a maioria dos eventos de Goiás Velho. Rodeada de casarões e bares, o local é bastante conhecido por receber, entre outros, um dos mais famosos festivais de cinema ambiental do país, o Fica, que atrai turistas e cineastas de todo o mundo.

Estilo de vida

A estrutura em termos de pousadas e restaurantes é adequada a uma cidade que deseja ser turística mas não quer mudar seu estilo de vida. Goiás Velho se modificou bem menos que Pirenópolis, Ouro Preto ou Tiradentes, por exemplo.

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Em caso de feriados e datas comemorativas, reserve a hospedagem com bastante antecedência para não correr o risco de ficar sem opções. A cidade atrai muitas pessoas por ser um dos poucos locais turísticos da região.

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COMO CHEGAR

De avião – O aeroporto mais próximo fica em Goiânia e a partir de lá há duas opções: alugar um carro no aeroporto ou pegar um ônibus, com saídas diárias (dê preferência aos horários diretos).

De carro – Por Brasília (320 km): saia em direção a Anápolis pela BR-060. Depois pegue a GO-222 até Inhumas. Então siga pela GO-070 até Goiás. // Por Goiânia (136 km): saia de Goiânia pela GO 070 e siga sempre por esta rodovia, passando por Itaberaí até chegar à terra de Cora Coralina.

ONDE FICAR

Pousada Serra Dourada – Próxima da cidade. Piscina, lago e chalés. (62) 8412-0018.

Pousada do Sol Simples,mas decente. Centro .(62) 3371-1717 e (62) 3372-1344.

Pousada do Ipê – Melhor custo-benefício da cidade. Aconchegante, no centro histórico. Ambientação rústica (foto abaixo), café da manhã tradicional. Grande área verde, piscina e bar. Quartos comuns e chalés.

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Pousada Casa da Ponte Hotel – No centro, em frente à Casa de Cora Coralina. Quartos com TV de tela plana e banheiro privativo.

Pousada Chácara da Dinda No centro, tem piscina, terraço ao ar livre e jardim, quartos com ar-condicionado e Wi-Fi gratuito.

Pousada Colonial – Com estrutura simples, na entrada da cidade, a 1km do centro da cidade. Av. Dr. Deusdete Ferreira de Moura, 21 Tel: (62) 3372-1237.

Hostel Dedo de Prosa – Algumas unidades têm área de estar. Quartos com banheiro compartilhado e TV. Cozinha de uso comum na propriedade.

Hotel Atlanta – Bem distante do centro. Oferece piscina e é dividido em hotel e pousada. Setor Bacalhau, com entrada pela rodovia. (62) 3372-1658.

Hotel Vila Boa O mais tradicional da cidade, com piscina  e bons serviços, porém, com instalações antigas. Fica na entrada da cidade. (62) 3371-1000.

Hotel Fazenda Manduzanzan – A mais confortável e completa opção de hospedagem da cidade, mas a 9km do centro de Goiás Velho e com tarifas salgadas. Piscina, sauna e cachoeira particular na área ao ar livre.

O QUE VISITAR, VER E FOTOGRAFAR

Becos – Eles inspiraram a poesia de Cora Coralina e os versos e canções.

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Rio Vermelho – Corta a cidade, passando também pelo quintal de casas antigas.

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Cruz do Anhanguera um dos símbolos da Cidade de Goiás. A relíquia foi transferida para a antiga Vila Boa por Luiz do Couto, em 1918, que a reencontrou depois de ter sido levada, juntamente com a igreja da Lapa, pela enchente de 1839. Nova tempestade no final de 2001 destruiu mais uma vez a cruz, que será reconstruída nos mesmos moldes da original.

Casa de Cora Coralina – O casarão onde viveu a poetisa e doceira fica na cabeceira da ponte sobre o rio Vermelho. Uma das primeiras construções de Goiás, é uma típica residência do século 18 e inspirou alguns de seus poemas. Em uma parte da casa foi montado um pequeno museu que homenageia a mais famosa das filhas de Goiás.

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Espaço Cultural Goiandira do Couto – Outra celebridade local é a artista Goiandira do Couto, prima de Cora Coralina. Ela usava uma técnica de pintura com areias. São mais de 500 tonalidades encontradas na Serra Dourada. Na pequena galeria, estão expostos alguns quadros e amostras de areias. Rua Joaquim Bonifácio, 19, atrás da Igreja N. Sra. D’Abadia.

Igrejas –  A Igreja da Boa Morte (1779) é a única que apresenta elementos típicos do barroco na fachada (foto abaixo). Abriga o Museu de Arte Sacra, com destaque para as imagens de Veiga Valle, escultor local, que viveu no século 19. Igrejas São Francisco de Paula (1761), N.S. do Carmo (1786), N.S. da Abadia (1790) e de Santa Bárbara (1780) – com uma linda vista da cidade, esse é um dos pontos turísticos imperdíveis. Pequena e antiga, fica no alto do morro. Ela só é aberta na festa da padroeira em dezembro. Para chegar até ela, é preciso subir cerca de 100 degraus.IMG_4751.JPG

Museus  – No grande prédio construído em 1761, onde funcionaram a cadeia, a câmara e a justiça, fica o Museu das Bandeiras, que expõe objetos usados na exploração do ouro. O Palácio Conde dos Arcos (1755), onde há um museu, foi construído para acomodar o governador da capitania. Todos os anos, no aniversário da cidade, abriga a sede do governo, que se transfere de Goiânia por alguns dias (foto abaixo).

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Outras construções históricas – Outras construções significativas são o Quartel do 20 (obra de 1747, serviu de hospital durante a Guerra do Paraguai e atualmente seu pátio interno serve como local de festas populares), a Casa do Bispo, os chafarizes da Boa Morte, o Fonte da Carioca e a Casa de Fundição (1752, onde se fundia o ouro extraído das minas).

O QUE ASSISTIR

Semana Santa – Na quarta-feira, procissão do fogaréu, simbolizando a busca e a prisão de Jesus. Os fiéis saem com tochas na mão ao som de tambores e de músicas barrocas chamadas “motetes dos passos” compostas em 1855. Na igreja do Rosário ocorre a ceia do Senhor. Depois, na igreja de S. Francisco, encena-se a crucificação.

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ONDE NADAR

Balneário Cachoeira Grande – Queda do Rio Vermelho, abriga praia e piscinas naturais. Estrada para Jussara, 6km do Centro.

Cachoeira das Andorinhas – Queda de 9m de altura, entre rochas que abrigam andorinhas.  Seu acesso é feito por estrada de terra com saída pela lateral do morro de Santa Bárbara. Tem água limpa que forma poços piscosos. Local: Fazenda Manduzanzan, 6km do Centro.

PARA EXPLORAR

Furna da Bandeirinha – túnel escavado provavelmente por escravos, com 2m de altura, no Morro da Bandeirinha. Dá acesso a vários salões. As visitas só podem ser feitas com acompanhamento. Saída para Aruanã, a 500m do Centro.

O QUE COMER 

A culinária goiana une ingredientes locais, sabores indígenas e a influência dos paulistas, que buscaram ouro em Goiás no século 18, para criar receitas típicas.

O pequi, fruto do Cerrado, é usado na galinhada e na composição de um licor servido após as refeições (cuidado ao consumi-lo, pois o fruto esconde espinhos abaixo da polpa).

Outras receitas comuns: empadão goiano (frango, carne de porco, linguiça, palmito de guariroba e queijo), peixe na telha, arroz-de-puta-rica (com carnes defumandas), arroz com suã (espinha de porco), angu (milho verde ralado e cozido na água até engrossar) e leitão a pururuca.

O bolinho doce de arroz é a especialidade da cidade – servido na Lanchonete da Dona Inês.

ONDE COMER 

Braseiro – Comida goiana, no fogão de lenha. Pça. do Chafariz, 3 (Centro Histórico). Todo os dias, 11h às 15h. R$ 20.

Flor do Ipê – Pratos diversos. Pça. Boa Vista, 32-A (Centro Histórico). 3ª  feira às sábado, das 12h às 15h e 19h à 0h, domingo, das 12h às 16h. De R$ 26  R$ 50.

Dalí – Restaurante e confeitaria. Casa antiga transformada em restaurante que serve, entre outros pratos, o famoso empadão goiano e o delicioso doce Melado de Banana. Rua 13 de maio, 26.

Sorveteria do Coreto – É  imperdível, por exemplo, experimentar os sabores da Sorveteria do Coreto. Sorvetes e picolés com sabores tradicionais e exóticos, como tamarindo e castanha do barú. Tudo por R$ 2,50 (uma bola ou um picolé).

O QUE COMPRAR

Arte – Telas produzidas por Goiandira Ayres do Couto, a partir de 551 tons diferentes de grãos de areia coloridos da Serra Dourada. Pinta principalmente casarões e paisagens. O endereço é r. Joaquim Bonifácio, 19. Tel. (62) 371.1303 .

Doces – Entre os endereços mais conhecidos estão os de Dona Augusta (R. Eugênio Jardim, 23, 62/3371-1472), Dona Zilda (R. Bartolomeu Bueno, 3, 62/3371-2114), Dona Doris (R. d’Abadia, 17, 62/3371-4605) e Dona Divina (Travessa do Carmo, 2, 62/3371-1484). Cada uma tem um doce caseiro de sua especialidade e todas merecem uma visitinha.

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Igreja de 235 anos e conjunto de prédios do século 19 são restaurados em Goiás Velho

Museu de Arte Sacra

Dois dos prédios mais importantes da Cidade de Goiás – também conhecida como Goiás Velho – serão reabertos à visitação no próximo sábado (25/7), após serem restaurados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Museu de Arte Sacra e a Escola de Artes Plásticas Veiga Valle compõem o centro histórico do município de 25 mil habitantes, distante quase 300km de Brasília e considerado Patrimônio Histórico e Cultural Mundial.

A primeira etapa da obra do Museu de Arte Sacra da Boa Morte estava em andamento desde novembro de 2014. A obra custou R$ 500 mil, oriundos do Fundo Nacional de Cultura.

Entre os trabalhos executados no Museu de Arte Sacra estão ações emergenciais, como drenagem e reforços estruturais. Ainda, serviços essenciais, como revisão das instalações elétricas, substituição de reboco, recuperação das esquadrias e repintura.

A Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte foi construída em 1779, com arquitetura religiosa e fachada com elementos característicos do barroco. O templo foi tombado pelo Iphan em 1950 e passou a museu em 1968, com nome de Museu da Boa Morte.

Seu acervo inclui os altares da igreja, diversas imagens sacras do escultor goiano Veiga Valle, além de uma Nossa Senhora do Rosário de origem portuguesa, único bem móvel tombado individualmente pelo Iphan em Goiás. O Museu de Arte Sacra também tem pratarias e telas de cunho religioso, terços e coroas dos séculos XVIII e XIX, mobiliários do século 19, entre outros.

Salas de música

A segunda obra a ser entregue é a Escola de Artes Plásticas Veiga Valle, que reabre as portas após 10 meses em obras de restauro e requalificação. O Iphan foi o responsável por conduzir os trabalhos, que contaram com recursos de R$ 1,3 milhão. Entre os serviços executados estão o reordenamento das atividades de aula no bloco principal do edifício, a instalação da direção e copa no bloco que abrigava a cadeia da cidade, e a execução de um novo anexo, para receber as salas de música e de modelagem, além de adequadas instalações sanitárias. Novos espaços de permanência também foram propostos, melhorando a interligação da escola e resguardando sua integridade.

A escola é parte do conjunto tombado na cidade de Goiás e oferece diversos cursos, como desenho, escultura, pintura, gravura e história da arte, já tendo recebido entre seus professores alguns dos maiores nomes das artes plásticas em Goiás. Ela é formada por edifícios do século 19, com características da arquitetura vernácula de Goiás, e foi transformado em escola de artes em 1968.

Aniversário

As obras serão entregues no sábado, durante as comemorações do aniversário de Goiás Velho e da festa de Sant’Ana, padroeira da cidade. Na ocasião, o Governo do Estado de Goiás transfere a sua administração para Goiás Velho, primeira capital goiana.

Fundada em 1732, a Cidade de Goiás recebeu, em 2001, da Unesco, o título de Patrimônio Histórico e Cultural Mundial, por sua arquitetura barroca peculiar, por suas tradições culturais seculares e pela natureza exuberante que a circunda.

Semana Santa em Goiás Velho

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Patrimônio Mundial, a Cidade de Goiás, também conhecida como Goiás Velho, prepara uma intensa programação para a Semana Santa de 2015. Um dos destaques do programa é a Procissão do Fogaréu, que atrai, anualmente, centenas de turistas para a cidade, mas as celebrações religiosas ocorrem já desde 15 de março, com o início da Semana dos Passos, que remonta os passos de Jesus Cristo, da Morte à Ressurreição.

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Já no dia 23, começa a Semana das Dores, que tem Maria como sua figura principal. As duas semanas brindam o final do período da Quaresma, preparando a comunidade católica da antiga Vila Boa de Goiás para a celebração da Páscoa.

A Semana Santa tem início no Domingo de Ramos, dia 29 de março, com missas e a Procissão de Ramos. Na Quarta-Feira Santa, dia 1º de abril, as celebrações contam com a participação das crianças, que integram a Caminhada pela Paz e o Fogareuzinho.

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Durante a noite, a encenação da Via Sacra antecede a Procissão do Fogaréu, que começa à meia noite. Missas, caminhadas, vigílias e celebrações continuam até o Domingo de Páscoa, que celebra a Ressurreição de Cristo.

Procissão do Fogaréu

As atividades da Semana Santa envolvem a população em torno da crença e das tradições religiosas do calendário católico. Foram identificadas no Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) do município, concluído recentemente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Ministério da Cultura em parceria com a Prefeitura Municipal de Goiás. O INRC elenca a Semana Santa como uma das referências culturais mais significativas do município.

Entre as atividades artísticas programadas para o período na antiga capital do Estado, destaca-se a realização do Concerto de Páscoa, que será realizado no Sábado Santo (4), na Igreja do Rosário, com apresentação da Academia dos Renascidos. O grupo fundado pelo tenor Alberto Pacheco e a pianista Andrea Luisa Teixeira apresenta um repertório vocal luso-brasileiro.

Outro destaque vai para a Exposição Fotográfica Itinerante Um Círculo do Ciclo, que apresenta fotografias e desenhos que retratam quatro municípios goianos durante o ciclo do ouro.

Procissão do Fogaréu

A Procissão do Fogaréu é uma antiga tradição vilaboense, introduzida ainda no século 18 e retomada pela população em 1965, por iniciativa da Organização Vilaboense de Artes e Tradições.

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A procissão encena a perseguição a Jesus por seus inimigos, antes de ser preso e crucificado. No formato atual, estes inimigos são representados por 40 farricocos, homens descalços, vestidos com túnicas e encapuzados, portando tochas acesas.

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O trajeto começa e termina na frente da Igreja da Boa Morte, passando pela Igreja do Rosário e pela Igreja de São Francisco de Paula, tendo seu ritmo ditado pela fanfarra que, com diferentes tipos de toques, impõe a marcha dos farricocos. A procissão ocorre sempre à meia noite da Quarta-Feira de Trevas e é um dos símbolos que representa a cidade para os seus visitantes.

A Fonte da Carioca goiana

Renato Alves

Patrimônio da Humanidade, a Cidade Goiás recebeu de volta uma das suas relíquias. Principal ponto de encontro dos moradores até meados do século passado, a Fonte da Carioca foi entregue toda restaurada e jorrando água de nascentes, como há 230 anos. Durante as obras de recuperação, arqueólogos encontraram o calçamento original do espaço e material dos séculos 18 e 19, utensílios de cozinhas coloniais.

Distante 270km de Brasília, a Cidade de Goiás, mais conhecida como Goiás Velho, foi fundada em 1727. A Fonte Carioca data de 1772. Erguida à margem do Rio Vermelho, que corta o centro histórico do município de 25 mil habitantes, ela abastecia, além dos moradores, viajantes e tropeiros que ali chegavam pela Estrada Real nos tempos em que o lugar se chamava Vila Boa de Goiás. O fornecimento de água foi, há algumas décadas, interrompido por causa dos aterros para a construção da GO-070.

Além da fonte, no local há outros dois bens culturais de grande importância para a história de Goiás, a Estrada do Nascente — uma das estradas reais que cruzavam o estado — e a Usina de Força e Luz Ratto & Guedes — primeira usina termoelétrica do estado de Goiás. “Isso faz daquela área um museu histórico e arqueológico a céu aberto”, destaca a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Goiás (Iphan-GO), Salma Saddi.

Nascida e criada em Goiás Velho, Saddi lembra que a Fonte da Carioca foi, por muito tempo, o centro de convivência da população do município, primeira capital do estado de Goiás. “Ali se encontravam as carregadeiras de água, as lavadeiras, os tropeiros, a criançada ou quem necessitasse de água, fossem livres ou escravos”, conta. Devido à sua importância, a fonte foi tombada individualmente em 1978, muito antes da cidade ganhar o título de Patrimônio da Humanidade.

Gravuras

No trabalho de restauração da Fonte da Carioca, que levaram oito meses e custaram R$ 300 mil, técnicos do Iphan recorreram a desenhos feitos pelo botânico inglês William John Burchell. Ele passou por Goiás em 1828, em viagem do Rio de Janeiro (RJ) a Belém (PA). “As gravuras contém detalhes da fonte, que eram desconhecidos por nós. Só conseguimos recuperá-los por causa do trabalho do William Burchell”, ressalta Salma Saddi.

Nas escavações arqueológicas, realizadas antes da restauração, encontraram pedaços de vasilhames de cerâmica, fragmentos de objetos de louça importada, garrafas de bebida, moedas do Brasil Império, além de vários objetos de uso pessoal como anel de cobre, contas de colar e uma significativa quantidade de cachimbos decorados. Objetos que contam detalhes sobre os usos e costumes dos antigos moradores da Cidade de Goiás, conhecidos como vilaboenses.

Na cerimônia de entrega da Fonte da Carioca restaurada, masrcada para as 10h de sexta-feira, será inaugurada também a exposição O Eco Museu Fonte da Carioca, resultado da pesquisa arqueológica. A exposição visa sensibilizar o público a perceber esse sítio histórico como um espaço de memórias, vivências e de usufruto da comunidade. Ela ficará permanentemente, próximo à fonte, em um local transformado em balneário.

Casario colonial

Fundada em 1727 pelo filho do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, Goiás Velho conserva o cenário de quando o Brasil ainda era uma colônia portuguesa. Quase todas as residências do município, hoje com 25 mil habitantes, mantêm as paredes feitas de barro. As ruas são pavimentadas com pedras, como há três séculos. A cidade ainda teve fundamental importância para os integrantes da Missão Cruls, o primeiro grupo de cientistas a explorar as terras que formariam o Distrito Federal. Em função da importância histórica e do conjunto arquitetônico, a Cidade de Goiás foi reconhecida em 2001 pela Unesco como Patrimônio Histórico e Cultural Mundial.

Além da arquitetura colonial, Goiás Velho é terra de arte e de artistas. A poeta Cora Coralina, que morreu em 1985, aos 95 anos, é sua mais célebre representante. A memória dela está preservada na casa onde nasceu e morou. O imóvel está como Cora o deixou, com seus móveis, roupas e objetos pessoais. Na cozinha, ficaram os utensílios usados por ela para fazer doces cristalizados.

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