As cavernas escondidas de Vila Propício (GO)

Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Guia turistica, Maria Augusta, na Caverna Samambaia, em Garganta no municipio de Vila Propicio em Goiás.

Renato Alves

O Parque Estadual da Serra dos Pirineus preserva muito mais que as famosas cachoeiras de Pirenópolis (GO), principal destino turístico dos brasilienses nos fins de semana e feriados. Cidades da região guardam cavernas e grutas com riquezas inexploradas até pelos habitantes locais. Só em Vila Propício são cerca de 50, um dos maiores complexos do país. A maioria fica escondida sob morros tomados por mata nativa em propriedades rurais do município de 5 mil habitantes.

Distante 195km de Brasília, Vila Propício era distrito de Pirenópolis. Formada por famílias de fazendeiros e trabalhadores rurais, fica entre a cidade histórica e Padre Bernardo (GO), município do Entorno do Distrito Federal. Suas cavernas estão espalhadas em um raio de 60km. Mas, sem placas indicativas, estradas ou mesmo trilhas que levem até a maioria delas, apenas seis têm a visitação recomendável, com um guia da região e equipamentos básicos, como bota e lanterna.


Uma das cavernas mais visitadas fica no distrito Dois Irmãos, mais próxima da sede de Padre Bernardo do que de Vila Propício. Ela leva o nome de Tubarão por causa das formações no teto de um dos seus salões, que lembram o predador marinho com a boca aberta e os dentes afiados para fora. Até pouco tempo atrás, o aventureiro que quisesse visitá-la tinha que deixar o carro na entrada da fazenda onde está escondida e caminhar quase 1km me meio à mata fechada. Mas, recentemente, o dono da propriedade abriu uma estrada até 100m da atração, para facilitar a vida dos exploradores.

Ainda assim, para chegar até ela, é aconselhável a contratação de um guia no Dois Irmãos. Não há profissionais no lugarejo, mas gente como a conselheira tutelar Maria Ferreira de Freitas Andrade, 57 anos, que engorda a renda com o conhecimento sobre as trilhas que levam às cavernas da região e os caminhos mais seguros dentro delas. “Aqui no Tubarão, por exemplo, aconselho o turista sempre a entrar com lanterna, bota, calça e blusa de mangas compridas, por causa do grande número de moscas”, alerta. O serviço varia de R$ 30 (uma caverna) a R$ 70 (o dia inteiro) pelo grupo, independentemente do número de pessoas. Além de estudantes, goianienses e alguns poucos brasilienses, Maria já guiou estrangeiros. “Recentemente, recebi um grupo do Japão”, conta.


Formações milenares

Na Tubarão, encontram-se  formações calcárias variadas de estalactite — extremidade que parte do teto em direção ao solo — e estalagmite — extremidade que vai do solo ao teto–, formadas por quedas de gotas de águas ao longo de milhares de anos. Nela e nas demais grutas da região há vários outros elementos, como pérolas, travertinos, cortinas e helictites, todos originários da formação por conta de minerais, como a calcita, nascida do processo de dissolução do calcário, somado à ação da gravidade, do vento e das diferenças de pressão no interior das cavernas.

Próximas da sede de Vila Propício, as cavernas mais visitadas são as das Samambaias e a Três Marias. A primeira, a 20km da cidade, tem acesso íngreme e de difícil aproximação. Após adentrar um pedaço de cerrado nativo, o visitantes desce por uma escada natural, se apoiando em um corrimão de ferro e em árvores. Essa escada leva à entrada, onde é preciso agachar para encontrar o primeiro salão. Nele, há outra escada, mais íngreme, menos segura, feita de ferro, com 6m metros de altura. E, depois, outra, do mesmo material e mesma altura. O esforço é recompensado com uma vista deslumbrante de salões iluminados por luz natural, vinda do de brechas bertas no teto de pedra.

Por meio de uma dessas fendas, mais larga, aventureiros praticam rappel, a descida por cordas. A caverna ganhou tal nome porque, com a luz e muita umidade, tornou-se um viveiro natural de samambaias, algo raro nesse espaço. Mas, para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a atração chama-se Caverna da Garganta, em função de receber toda a água vinda da chuva. Por isso, em dia de chuva, ela fica inacessível, pois correm enxurradas fortes por entre suas trilhas de pedras, formando imensos lagos no interior.

Visitar a Três Marias é menos arriscado, por ter um piso mais plano, com poucas barreiras. Portanto, mais recomendável a crianças e idosos. Distante 24km da sede da Viola Propício, ela tem dezenas de formações de estalactites unidas às estalagmites em seus 249m de comprimento sob uma uma serra. “Temos outras cavernas, que eu e outros moradores visitamos. Mas temos evitado por causa de perigos diferentes, inclusive a presença de onças e muitas cobras ao redor”, explica a professora aposentada Maria de Freita, 62 anos, a guia mais experiente da Vila Propício.

Acesso difícil

Com suas terras tomadas pela agricultura, principalmente o plantio de grãos e o cultivo de cana-de-açúcar, Vila Propício ainda engatinha na exploração do seu potencial turístico. Com apenas uma pousada e um hotel, não conta com estrutura para receber grande número de turistas. Os visitantes chegam à cidade para visitar as cavernas principalmente por meio de excursões bate e volta, organizadas por colégio e universidades. Outros vão por meio de vans, em passeios organizados por empresas especializadas em turismo de aventura, que partem de Brasília, Goiânia e Pirenópolis.

Sem placas indicativas, controle de entrada e qualquer infraestrutura, como passarelas, iluminação artificial interna e lanchonetes e banheiros nos acessos — diferentemente do que oferecem as mais famosas grutas turísticas do país, localizadas em Minas Gerais, como a Maquiné –, as cavernas de Vila Propício ficam expostas ao vandalismo. Há vários rabiscos nas paredes, com nomes dos visitantes. Muitos deixam lixo no interior dos ambientes. E, o que é pior, alguns quebram estalactites e estalagmites para levar de recordação o que a natureza leva milhares de anos para formar e só tem valor onde nascem e crescem.

Serviço de guia

Para contratar guias em Vila Propício, a referência é a Secretaria Municipal de Turismo: 62 3320-0190 / 0192. Em Dois Irmãos, o interessado deve ligar na Subprefeitura: 62 3404-1052

Para saber mais

Das 5.695 cavernas cadastradas no país pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), 979 estão na região Centro-Oeste, sendo 718 em Goiás. Alguns desses ambientes estão entre os maiores da América do Sul, como é o caso do Conjunto de São Mateus, do Conjunto Angélica Bezerra e do Complexo de Terra Ronca, no Parque Estadual de Terra Ronca, em São Domingos, Nordeste do estado. Outras localidades da região, como Mambaí, Posse, Simolândia, Campos Belos, Butirinópolis, Sitio D’Abadia e Alvorada do Norte também são ricas em cavidades subterrâneas naturais, com formações rochosas que datam de 1,8 bilhão de anos.

Cocalzinho, no Entorno, abriga a Gruta dos Ecos, com o maior lago subterrâneo da América do Sul. Há ainda o conjunto Espeleológico de Cocal, em Niquelândia, além de locais inusitados como a Gruta do Imbé e o Buraco do Dendê, em Padre Bernardo e a gruta da Fazenda Jenipapo, em Anicuns.

Em Formosa, o Buraco das Andorinhas e o Buraco das Araras estão entre os ambientes mais profundos de Goiás. Serranópolis abriga importantes sítios arqueológicos, com inúmeras grutas trazendo pinturas rupestres e vestígios de ocupação humana. Em Caiapônia, a Caverna do Morcego encanta os espeleólogos.

Anúncios

As quase desconhecidas 82 cavernas de Brasília

Ana Pompeu e Carlos Moura (fotos), do Correio Braziliense

Nem só de patrimônio arquitetônico e histórico vive a capital federal. Escondidas em áreas de pouco destaque turístico, o Distrito Federal possui um conjunto de cavernas que são um tesouro natural da região. São cavidades próximas ou distantes da cidade, que guardam belos cenários pouco aproveitados pela comunidade local. Os brasilienses não sabem que têm à disposição opções entre grutas e abismos, e seguem em busca das belezas do estado vizinho, Goiás, sem perceber que, às vezes, não é preciso ir muito longe para se encontrar com a natureza.

Até hoje, 82 cavernas foram catalogadas em terras brasilienses. A maioria dessas estruturas estão localizadas no leste e no norte do DF — regiões com predominância de formação rochosa de calcário ou dolomitos. Apesar do potencial turístico que possuem, poucas pessoas têm conhecimento dessa riqueza. Quase sempre quem visita e aproveita esses locais são espeleólogos e escaladores.

O maior complexo de cavernas do DF está na Fercal. A região, rica em calcário, possui 33 cavidades. Desde 1987, foi adotada como campo-escola por quem se interessa e estuda essas estruturas. No Morro da Pedreira, localizado na divisa com Goiás, está o abismo Fodifica, o maior do DF, com 49 metros de profundidade. O local também é conhecido por Morro dos Urubus, por servir de abrigo para muitas dessas aves.

As pedras parecem ter sido esculpidas pela ação das águas e dos ventos há milhares de anos. Irregulares e pontudas, dificultam a chegada ao fundo do abismo. É preciso o acompanhamento de um profissional para a visita e de roupas e equipamentos adequados. A reportagem do Correio conheceu o local com o guia de ecoaventura Maurício Martins. Segundo ele, a única forma de se atingir o fundo é com a ajuda de uma corda. O mesmo meio também é a única opção para voltar. Com grandes lances, ele possibilita o treinamento e a aplicação de técnicas verticais de espeleorresgate.

Depois de percorrer 12 quilômetros de estrada de terra, o visitante deve passar pela sede da fazenda Flor da Terra e deixar uma contribuição de R$ 5 para seguir caminho. O Morro da Pedreira fica dentro da propriedade do Valdemar Neves da Silva, 68 anos. A fazenda foi herança deixada pelo pai. Pioneiro na Fercal, ele não sabe dizer se aquela é uma Área de Proteção Ambiental (APA). “Se é, ninguém veio me avisar”, diz. Valdemar sabe que não pode explorar a pedreira, mas reclama de não ter nenhum amparo do governo para preservar o patrimônio local.

“Não deixo derrubarem uma árvore aqui. Reclamo quando vem um escalador que sai com uma muda. Meus filhos não matam passarinho, que eu também não permito, porque sei que o que eu tenho aqui não tem preço. Mas eu preciso sobreviver. A gente poderia ter alguma mensalidade para conseguir preservar a área sem ter prejuízo”, sugere o fazendeiro.

Ele está preocupado com o futuro. Valdemar acrescenta que a barragem feita para o gado beber água já está seca. Costumava durar até setembro. Há alguns anos, ele recebeu uma proposta de venda da área para um empresário, que tinha interesse em construir ali uma fábrica de cimento. Na década de 1990, o abismo 1, então o maior do DF, próximo ao Fodifica, foi implodido para a mineração.

Além da entrada cobrada, ele está montando uma lanchonete e construindo banheiros para receber os visitantes, que são frequentes — chegam a 50 por dia no fim de semana. Tudo o que faz é por conta própria. Nem todos os proprietários de terras que incluem esses atrativos se sentem à vontade em aceitar que seus terrenos sejam transformados em destino turístico.

Visitação

O guia Maurício Martins acredita que o governo poderia intermediar o contato com os proprietários. “O relacionamento com os donos poderia ser mais fácil com a ajuda dos órgãos ambientais, mesmo que delimitassem apenas uma operadora de turismo para organizar os passeios. Não existem planos de manejo, não se sabe a capacidade de suporte de cada área, não se fiscaliza a segurança”, enumera. Ele também defende uma integração maior entre órgãos de turismo e meio ambiente para valorizar o potencial de ganho das cavernas.

Considerada uma das mais belas do DF, a Gruta do Sal está fechada tanto por proibição do dono da terra quanto, mais recentemente, dos órgãos ambientais, que identificaram a contaminação por histoplasmose — o mesmo fungo que fechou a Gruta dos Ecos, em Cocalzinho (GO), uma das cavernas mais procuradas pelos brasilienses e onde se encontra o maior lago subterrâneo da América Latina.

A Secretaria de Turismo do Distrito Federal não tem nenhum roteiro que englobe essas áreas e muito menos um acordo com os fazendeiros. As cavernas brasilienses não têm grande extensão ou muitas ornamentações — estalactites, estalagmites, cortinas —, o que geralmente chama a atenção das pessoas. Também não há registro de muitos resquícios arqueológicos. Essas riquezas estão concentradas no Entorno do DF e em cidades próximas, como Formosa (GO), Chapada dos Veadeiros (GO) e Unaí (MG). Nem mesmo elas são exploradas turisticamente ou têm estrutura para visitas.

A pouca procura tem um benefício: a degradação desses locais é baixa. De acordo com o presidente do Espeleo Grupo de Brasília (EGB), Bernardo Menegale Bianchetti, da preservação das cavernas depende a existência de ecossistemas e animais específicos. “Se acabarem, tiramos o hábitat dos morcegos e aí desestabilizamos uma população importante para revegetação”, exemplifica. Além disso, destroem um ambiente de esporte e lazer.

Os tesouros das cavernas de Unaí

Renato Alves e Ronaldo de Oliveira (fotos), do Correio Braziliense

Muito antes dos integrantes da Missão Cruls, dos fazendeiros e dos candangos, homens, mulheres e crianças já exploravam o Planalto Central. Essa gente começou a chegar à região há mais de 10 mil anos. Vivia da caça de pequenos animais e da coleta de frutos, como o ainda abundante pequi. Buscava abrigo em grutas, onde também expressava sua arte e deixava seus mortos. As cavernas ocupadas por nossos ancestrais ainda são pouco conhecidas dos homens modernos. Muitas delas, com seus desenhos e até ossadas, ficam em meio a propriedades rurais de Unaí (MG), distante 160km de Brasília.

Em terras do município mineiro de 80 mil habitantes, pesquisadores identificaram ao menos 10 cavernas com formações geológicas milenares, lagos transparentes e pinturas feitas por alguns dos primeiros habitantes do centro do país. Os homens das cavernas também deixaram gravuras em paredões e pedras encravadas no cerrado. Museus pré-históricos explorados por poucos cientistas, minguados adeptos de esportes radicais e quase nenhum turista, por falta de informação e infraestrutura para a visitação. O Correio percorreu a região em busca desse tesouro esquecido.

As pinturas das cavernas de Unaí estão bem nítidas, levando-se em conta o desgaste sofrido ao longo de tanto tempo de exposição. As mais expressivas ficam na Gruta do Gentio II, a 30km do centro da cidade. Ela começou a ser ocupada há cerca de 10.250 anos, de acordo com pesquisas realizadas nas décadas de 1970 e 1980. Os arqueólogos levantaram a data a partir dos pingos de tinta no solo original. Vestígios de um ponto cerimonial, com pinturas em vermelho no teto e nas paredes, onde depositaram corpos parcialmente cremados.

Nesses estudos do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), encontraram os restos mortais de uma criança que ali viveu há 9 mil anos. Ela tinha entre 9 e 10 anos e estava envolta em uma rede de algodão. A conservação do corpo indicou que o sepultamento teve características de ritual funerário e possível embalsamamento. A criança integrava uma comunidade de coletores, que, naquela região, se alimentava de coquinhos de guariroba e pequi. Por meio de objetos e das pinturas, os pesquisadores concluíram ainda que pequenos grupos habitaram a gruta entre 7.350 e 8.250 anos atrás.

A caverna voltou a ser habitada por um grupo que ali desenvolveu pequenas hortas. Esse povo viveu na região entre 3,5 mil e 1 mil anos atrás. A Gruta do Gentio II é naturalmente bem iluminada e seca, o que permitiu a preservação de exemplares arqueológicos em bom estado apesar da sua antiguidade. Nas três últimas décadas, os pesquisadores encontraram e recolheram na caverna uma grande variedade de objetos milenares, como artefatos de pedra, de cerâmica, de osso, restos de fios de algodão e cestaria, além de alguma poucas peças de madeira. Neste sítio arqueológico também localizaram a mais antiga cerâmica em território brasileiro, fora da Amazônia, com cerca de 3,5 mil anos.

Água milagrosa

Enquanto a Gentio II era usada para funerais dos homens das cavernas, a Lapa do Sapezal, distante 25km do centro da cidade, hoje serve de cenário para manifestações religiosas. Nos dias 1º, 2 e 3 de maio, peregrinos vão à lapa, em meio a uma mata, exaltar a Santa Cruz e São José Operário. A festa mobiliza parte da população residente nas comunidades próximas e de municípios mineiros vizinhos, como Paracatu, Vazantes e Buritis. Todos acreditam haver poderes divinos na caverna.

Durante a festa, no entorno da lapa são construídas barraquinhas de comidas. A capela sedia orações, batizados, missa e dela parte uma procissão. No interior da Sapezal há um lago de origem freática onde são jogadas moedas, acompanhadas de pedidos. Muitos acreditam em um poder curativo dessas águas. Há ainda no interior da lapa uma abstrata figura de uma Nossa Senhora a se formar em escorrimentos de calcita sem que haja, contudo, referências a milagres seus ou culto a uma Nossa Senhora da Lapa.

Um lago cristalino também é uma das grandes atrações da Gruta do Tamboril. No entanto, não é fácil chegar até as águas e o acesso à caverna é controlado pelos órgãos de saúde, por causa da suspeita de um foco de histoplasmose no local, nunca comprovado nem estudado. Assim como na maioria das grutas, por causa da ausência de sinalização, iluminação e os riscos do solo acidentado, a visita ao Tamboril só deve ser feita na companhia de guias especializados e equipamento adequado.

Com cerca de 4km de extensão, a caverna tem sete salões ornamentados por estalactites e estalagmites, sendo o último coberto pelo lago totalmente limpo e transparente. Até lá, porém, gasta-se pelo menos uma hora e meia de caminhada, com descidas e subidas em pedras pontiagudas e escorregadias. Mas se não quer tanta aventura nem correr o risco de adquirir uma doença, a entrada no primeiro dos sete salões é o suficiente para uma prova das maravilhas da gruta.

Ajuda de moradores

Como Unaí não dispõe de política para exploração do turismo nem sequer placas que indiquem a localização das suas grutas e cachoeiras, os visitantes precisam da ajuda de moradores para chegar aos atrativos. Gente simples e prestativa como o vaqueiro Ademir da Silva Leite, 32 anos (foto abaixo). Desde que começou a trabalhar na Fazenda do Gentio, há 10 anos, ele serve de guia aos cientistas vindos de todo o país para estudar a caverna com o mesmo da propriedade rural, onde se cria gado nelore.

Mas Ademir começou a entender por que aquela gente vinha de tão longe para embrenhar-se na mata e passar o dia numa caverna somente há seis anos, quando teve a atenção chamada por uma professora da Universidade de São Paulo (USP). “Mostrei pra ela o meu nome escrito na caverna e ela disse para eu nunca mais fazer aquilo. Hoje, não deixo ninguém escrever lá”, conta. Apesar da consciência do vaqueiro, ainda há vândalos escrevendo sobre pinturas milenares.

Outro que faz as vezes de guardião das cavernas é o estudante de biologia Emmanuel Nicodemos, 25 anos. Ele e colegas da unidade da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) em Unaí montaram um grupo de espeleologia para explorar as grutas e divulgar a beleza e importância delas. “Além de passeios para esportes de aventura, como rappel, estamos catalogando cavernas ainda não estudadas. Mas temos algumas barreiras, como fazendeiros, que impedem o acesso às grutas”, conta.


SAIBA MAIS
http://www.limiteverticalunai.blogspot.com
Guias para visitação: Emmanuel Nicodemos, 38-9847-4017

Tesouros escondidos em grutas de Unaí

Muito antes dos integrantes da Missão Cruls, dos fazendeiros e dos candangos, homens, mulheres e crianças exploravam o Planalto Central. Essa gente começou a chegar à região há mais de 10 mil anos. Vivia da caça de pequenos animais e da coleta de frutos, como o ainda abundante pequi. Buscava abrigo em grutas, onde também expressava a sua arte e deixava os seus mortos. As cavernas ocupadas por nossos ancestrais ainda são pouco conhecidas dos homens modernos. Muitas delas, com desenhos, ficam em meio a propriedades rurais de Unaí (MG), a 160km de Brasília.

Em terras do município mineiro de 80 mil habitantes, pesquisadores identificaram ao menos 10 cavernas com formações geológicas milenares, lagos transparentes e pinturas feitas por alguns dos primeiros habitantes do centro do país. Os homens antigos também deixaram gravuras em paredões e em pedras encravadas no cerrado. Esses locais se apresentam hoje como museus pré-históricos explorados por poucos cientistas, minguados adeptos de esportes radicais e quase nenhum turista, por falta de informação e de infraestrutura para a visitação.

As pinturas das cavernas de Unaí continuam nítidas, levando-se em conta o desgaste sofrido ao longo de tanto tempo em exposição. As mais expressivas ficam na Gruta do Gentio 2, a 30km do centro da cidade. Ela começou a ser ocupada há cerca de 10.250 anos, de acordo com pesquisas realizadas nas décadas de 1970 e 1980. Existem ainda vestígios de um ponto cerimonial, com pinturas em vermelho no teto e nas paredes, onde foram depositados corpos parcialmente cremados.

Nos estudos do Instituto de Arqueologia Brasileira, foram encontrados os restos mortais de uma criança que ali viveu há 9 mil anos. Ela tinha entre 9 e 10 anos e estava envolta em uma rede de algodão. A conservação do corpo indicou que o sepultamento teve características de possível embalsamamento. A criança integrava uma comunidade de coletores, que se alimentava de coquinhos de guariroba e pequi.

A Gruta do Gentio 2 é naturalmente bem iluminada e seca, o que permitiu a preservação de exemplares arqueológicos em bom estado, apesar da sua antiguidade. Nas três últimas décadas, os pesquisadores encontraram e recolheram na caverna uma grande variedade de objetos milenares, como artefatos de pedra, de cerâmica, de osso, restos de fios de algodão e cestaria, além de poucas peças de madeira. No sítio arqueológico, também localizaram a mais antiga cerâmica em território brasileiro, fora da Amazônia, com 3,5 mil anos.

Água milagrosa

Enquanto a Gentio 2 era usada para funerais dos homens das cavernas, a Lapa do Sapezal, a 25km do centro da cidade, hoje serve de cenário para manifestações religiosas. Nos dias 1º, 2 e 3 de maio, peregrinos vão à lapa, em meio a uma mata, exaltar a Santa Cruz e o São José Operário. A festa mobiliza parte da população residente nas comunidades próximas e de municípios mineiros vizinhos, como Paracatu, Vazantes e Buritis. Eles acreditam haver poderes divinos na caverna.

Durante a festa, no entorno do local são construídas barraquinhas de comidas. No interior da Sapezal, há um lago de origem freática, onde são jogadas moedas, acompanhadas de pedidos. Muitos acreditam no poder curativo dessas águas. Há ainda no interior da lapa uma abstrata figura de uma Nossa Senhora a se formar em escorrimentos de calcita sem que haja, contudo, referências a milagres ou a culto a uma Nossa Senhora da Lapa.

Um lago cristalino também é uma das grandes atrações da Gruta do Tamboril. No entanto, não é fácil chegar até as águas e o acesso à caverna é controlado pelos órgãos de saúde, por causa da suspeita de um foco de histoplasmose no local, nunca comprovado ou estudado. Como na maioria das grutas, por causa da ausência de sinalização e iluminação e dos riscos do solo acidentado, a visita só deve ser feita na companhia de guias especializados e com equipamento adequado.

Com cerca de 4km de extensão, a caverna tem sete salões ornamentados por estalactites e estalagmites, sendo os últimos cobertos pelo lago, totalmente limpo e transparente. Até lá, porém, gasta-se pelo menos uma hora e meia de caminhada, com descidas e subidas em pedras pontiagudas e escorregadias. Mas se o visitante não quer correr tanto risco, a entrada no primeiro salão é o suficiente para uma prova das maravilhas da gruta.

Cura espontânea
Causada por um fungo disperso no solo rico em fezes de morcegos e de aves, a doença é contraída quando a pessoa inala esse material suspenso no ar. Ela causa febre, que pode durar alguns dias, e tende à cura espontânea. Desde 1967, há relatos da ocorrência de casos suspeitos de histoplasmose associada à visitação a cavernas no DF e no Entorno, sendo os mais recentes ocorridos em 2004, numa visita de estudantes de Taguatinga à Gruta do Tamboril.