Fazendinha JK, última morada de Juscelino, reabre ao público

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Renato Alves (texto) e Marcelo Ferreira (fotos)

Uma relíquia da história e da arquitetura nacional está em reforma para ser reaberta ao público, após quase cinco anos fechada. Última moradia do ex-presidente Juscelino Kubitschek, morto em 1976 em um acidente automobilístico, a Fazendinha JK receberá convidados em uma festa programada para setembro, quando o antigo dono faria 114 anos.

O imóvel conserva todos os móveis, artigos pessoais e itens de decoração de quando a família do político vendeu a propriedade, em 1984, a um ex-deputado paranaense, aliado dele. Além disso, localizada em Luziânia, distante 13km do centro da cidade goiana e a 60km de Brasília, a residência é a única obra de Oscar Niemeyer na zona rural.

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Juscelino comprou o imóvel em 1972, após ter o mandato cassado pela ditadura militar e de ser proibido de entrar em Brasília. Queria um lugar onde pudesse passar os dias, reunir os amigos e, de lá, ao entardecer, ver as luzes da capital que ergueu no Planalto Central. Encantou-se com a Fazenda Santo Antônio da Boa Vista. Decidiu comprá-la e a apelidou de fazendinha. Virou a Fazendinha JK.

Ali, Juscelino se tornou produtor rural. Usou modernas práticas de irrigação. Plantou soja, arroz, café, eucalipto, na intenção de provar que o solo do cerrado era fértil.

Quando JK adquiriu a propriedade, ela tinha 310 alqueires e nenhuma moradia. O casarão só seria inaugurado em 12 de setembro de 1974. No quintal, o ex-presidente costumava reunir os amigos para almoçar ao redor de uma mesa de pedra.

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Na sala de jogos e na discoteca, Juscelino organizava festas regadas a pinga e embaladas por violeiros. A mesa de pôquer, com 11 cadeiras, continua intacta. As prateleiras são enfeitadas por presentes, como uma porcelana japonesa e uma licoeira com os traços do Palácio do Alvorada.

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Mineira e moderna

Com janelas grandes, o casarão parece uma antiga casa de fazenda mineira, mas com características modernas de Niemeyer. “Como Juscelino havia sido cassado pela ditadura e não tinha dinheiro algum, ela foi construída com doações de amigos. Por isso, é feita de materiais baratos, como o piso de ardósia da varanda. No entanto, a pedido de Niemeyer, a ardósia foi colocada como uma obra de arte, um jogral”, ressalta uma das administradoras da propriedade, Rosana de Queiroz Servo, 48 anos.

As grossas paredes de concreto também receberam um tratamento artístico. Com uma intervenção em baixo-relevo, ela ficou parecendo ser feita de tijolo. Todo o exterior é pintado nas cores branca e azul.

Dentro, ficam as maiores preciosidades. Entre outras coisas, os cômodos abrigam presentes dados a JK por chefes de Estado. Também guardam móveis luxuosos e de traços modernistas e raridades colecionadas pelo fundador de Brasília, como 1,8 mil livros expostos em sua biblioteca e organizados conforme a cor da capa. A maioria tem dedicatórias dos autores para o presidente.

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Nos quartos, além das camas originais e dos forros delas, há curiosidades da arquitetura, como a banheira da suíte de Juscelino e da mulher dele, dona Sarah. Na verdade, uma parte do piso de concreto liso, um desnível sob o chuveiro. Uma moderna banheira econômica. Joia de Niemeyer.

Os vidros envelhecidos e o tom alaranjado estão por toda parte. Eram moda na época. Uma lareira divide as salas de estar e jantar, de onde é possível ver o jardim com estilo de bosque e uma das três represas da fazenda, todas com água potável. Nas paredes, há pinturas de diversas cidades brasileiras, principalmente das mineiras Ouro Preto e Diamantina.

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Por um corredor de carpetes verdes, chega-se às quatro suítes. Três são iguais: armários revestidos com papel de parede floral, banheiros brancos e duas camas de solteirão, com colchões semiortopédicos sob um colchonete de 3cm de espessura — exigência de dona Sarah.

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O quarto dela e de JK tem uma cama de casal de pelo menos 80 anos, um crucifixo e um terço pregados na parede, e uma maleta de pôquer. Na cozinha, fogão industrial de seis bocas e panelas de pedra-sabão.

Compromisso

Com a morte do presidente, o imóvel ficou para a família Kubitschek. Oito anos mais tarde, ela o vendeu a Lázaro Servo, deputado estadual pelo Paraná e amigo de Juscelino, e à mulher dele, Walkíria Ganassin Servo. Na negociação, Sarah pediu aos novos donos para manter a casa e, principalmente, os móveis e objetos pessoais do marido dela como originais. Era um acordo verbal, mas Lázaro e Walkíria seguiram o desejo.

Sarah se mudou com as filhas para o único imóvel da família, um apartamento no Rio de Janeiro. Os seis filhos, os 13 netos e os quatro bisnetos de Lázaro e dona Walkíria, hoje com 82 anos, cresceram naquele ambiente de história viva.

Morando na Fazendinha, Lázaro morreu de infarto, em 1999. Tempos depois, quatro dos seis filhos dele decidiram fracionar parte da propriedade. Sobraram 78 alqueires, incluindo a área onde ficam os lagos a mansão e uma ermida — também projetada por Niemeyer, é uma réplica reduzida da capela do Palácio do Alvorada, com vitrais de Marianne Peretti, a autora dos vitrais da Catedral de Brasília.

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Desde então, Antônio Henrique Belizário Servo, caçula de Lázaro, e a mulher dele, Rosana, se dedicam a preservar o imóvel e a memória de JK, com o aval da matriarca Walkíria. Eles buscaram apoio, fizeram treinamentos e abriram a fazenda à visitação, em 2009, após ampla reforma. Mas as visitas guiadas, com média de mil pessoas por ano, foram insuficientes para manter a casa. Com isso, o casal encerrou a atividade em 2012.

Seresta

Agora, com a ajuda dos três filhos, Antônio e Rosana se preparam para retomar o tour turístico, com maior oferta de serviços. Após obras de manutenção, principalmente em função de vazamentos no casarão, ocorrerá a festa de reabertura, em 17 de setembro. Com uma seresta, celebrará também o nascimento de JK. A partir de então, a família Servo passará a receber grupos pré-agendados, de, no mínimo, 20 pessoas.

“Elas poderão escolher, ainda, tomar um café da manhã na varanda, almoçar, fazer um lanche da tarde ou mesmo todas as refeições, em um dia inteiro de visitação”, adianta Rosana. O preço, segunda ela, vai variar de acordo com a quantidade de visitantes e dos serviços contratados.

Além da visita guiada pelo interior da casa, que deverá durar duas horas, será possível fazer caminhada pela mata preservada da fazenda, conhecer e apreciar frutas típicas do cerrado, subir o morro onde está a ermida de Niemeyer e ainda ver — e até entrar — na Mercedes Benz 1963 usada na campanha presidencial de JK. Restaurado pelo Exército, o veículo luxoso conserva pneus originais, bancos de couro e volante de osso. Ele fica guardado em uma garagem coberta da Fazendinha JK.

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SERVIÇO
Grupos interessados em conhecer a Fazendinha JK mesmo em obras, ou em agendar o tour para a partir de setembro podem entrar em contato com os organizadores pelos telefones  (61) 98199-9206, 98247-0397 e 99845-9030, ou pelo e-mail rosana.servo@gmail.com

NÃO DEIXE DE CONFERIR

1,8 mil livros
Incluindo coleção rara de medicina, da época em que Juscelino fez pós-graduação em Paris

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Mercedes Benz 1963
Usada na campanha presidencial, com os pneus originais, bancos de couro e volante de osso

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Cadeira de JK
Ele usou quando governou Minas Gerais

Duas máquinas de escrever Olivetti
Também usadas pelo ex-presidente

Caixa de pôquer
Com a inscrição “20/11/1971” na tampa de madeira, dia em que JK estava jogando e fez um royal de copas

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Mesa de pôquer
Com 11 cadeiras intactas

Presentes de embaixadores
Ficam nas prateleiras da sala de jogos, como uma porcelana japonesa e uma licoeira com os traços do Palácio do Alvorada

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Quadros de fotos
Em preto e branco, da época da construção de Brasília, de JK e de dona Júlia, mãe de Juscelino

Roupas de cama
Todas originais

Pratarias, louças e cristais
Tudo também original

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Mesa de jantar
Com tampo de vidro

Cadeiras
Forradas com veludo alemão

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Palácio do Alvorada abre à visitação todos os dias, em janeiro

Fachada e interior do Palácio da Alvorada.

As visitas ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, serão realizadas todos os dias da semana durante este mês de janeiro. A determinação foi da própria  presidente Dilma Roussef. Anteriormente, as visitas só aconteciam às quartas-feiras. Uma das novidades da ampliação do horário é que os passeios não serão suspensos se a presidente estiver em casa.

O palácio estará aberto para o passeio entre 15h e 17h. Um guia acompanha grupos formados por 30 pessoas por vez. As senhas para o passeio são distribuídas a partir das 14h.

Os grupos são formados por ordem de chegada, que assistem a um vídeo institucional de 9 minutos, explicando a restauração realizada de dezembro de 2004 a março de 2006, mostrando a cozinha, o auditório e outras dependências que não estão no roteiro da visita. Após o vídeo o profissional de relações públicas acompanha o grupo, explicando a estrutura arquitetônica do Palácio da Alvorada, seu conteúdo histórico e as obras de arte que compõe a ambientação. A duração das explanações é de, aproximadamente, 40 minutos.

Sala de Jantar do Palácio da Alvorada

A permissão é para que 300 pessoas façam o roteiro diariamente. A visita passa pela área externa, hall, salas de reunião, biblioteca e o espaço reservado para as recepções do palácio.

Os quartos e os ambientes reservados não estão no roteiro da visita. Uma das atrações é a capela que foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

No local, estão painéis de Athos Bulcão que são folheados a ouro. Os jardins e a piscina do palácio  também estão abertos aos visitantes.

Curiosidades

Desde fevereiro de 2011, Dilma divide os 7,3 mil metros quadrados do monumento com a mãe, Dilma Jane, e a tia Arilda. A filha Paula e o neto da presidente, Gabriel, com certa frequência também a visitam. Mas, apesar da beleza do Palácio, tanta suntuosidade não agrada muito à família Rousseff.


A mãe de Dilma já reclamou que o Palácio não tem cara de casa por ser muito impessoal e disse preferir a Granja do Torto, uma espécie de sítio da Presidência, também em Brasília. A própria presidente assumiu a preferência em uma entrevista concedida à falecida apresentadora Hebe Camargo.

– Morar no Palácio não é muito bom. Ele não foi feito para as pessoas morarem e sim para visitarem. Mas, pela minha representação, tenho que morar aqui (Alvorada). Mas sempre que posso fujo para o Torto, que é mais aconchegante.

Outro motivo que deve incomodar as três moradoras do Alvorada é a lenda de que a casa é mal assombrada. Soldados do Exército que fazem a segurança do local comentam ter ouvido sons misteriosos por ali à noite. Na mesma entrevista, Dilma ironizou a história de que fantasmas frequentavam a região.

– O sol de Brasília é muito forte e o concreto trabalha de noite (a estrutura física dilata com o calor e se acomoda ao volume normal quando o tempo esfria) . Aí de noite todo mundo escuta o concreto trabalhando. Mas, até onde eu vi, te asseguro que não encontrei ninguém.

Programa de visitação escolar

Programa destinado às crianças do ensino fundamental do DF e regiões próximas. A visita à residência oficial da Presidenta, oferece orientação cívica, além de transporte e lanche. Abrange crianças de escolas públicas e privadas das 3ª e 4ª séries do Ensino Fundamental, pois neste período a grade curricular abrange estudos sobre a estrutura governamental do País. Estas crianças visitam as dependências do Palácio, tendo toda a orientação e desenvolvimento lúdico voltado para o público infanto-juvenil. Nesta visitação a média é de 42 alunos e 03 professores.

Para participar dos programas é necessário oficializar o pedido através do e-mail da COREP (corep@presidencia.gov.br) ou Fax: 3226-0321

Roteiro para ficar por dentro traços de Niemeyer no Brasil e na Europa

Ataíde de Almeida Jr., do Correio Braziliense

“Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito.” A frase de Oscar Niemeyer ficou marcada nas diversas obras arquitetônicas que deixou como herança em vários lugares do mundo. Mas não são apenas as fachadas dos prédios que chamam a atenção. Esses locais oferecem atrações imperdíveis no interior, seja em Belo Horizonte, Niterói oto), Espanha, Itália etc. O Turismo preparou um roteiro para que você fique, literalmente, por dentro da genialidade do arquiteto:

BH, Diamantina, Ouro Preto e Cataguases

“E tudo começou quando iniciei os estudos de Pampulha (foto abaixo) — minha primeira fase —, desprezando deliberadamente o ângulo reto tão louvado e a arquitetura racionalista feita de régua e esquadro, para penetrar corajosamente nesse mundo de curvas e formas novas que o concreto armado oferece”, reconheceu Oscar Niemeyer em sua autobiografia As curvas do tempo. O início da nova etapa era nada mais que um protesto à arquitetura marcada pelas linhas retas, monótonas e repetidas, como ele mesmo definiu. Depois do conjunto arquitetônico em Belo Horizonte, seu traçado se tornou predominantemente curvilínio e nunca mais foi o mesmo.

Niemeyer - Pampulha
Antes de descobrir sua verdadeira vocação, o arquiteto percebeu que poderia dar um toque modernista às cidades históricas de Minas Gerais. Quem visita as antigas igrejas de Ouro Preto poderá conferir e se hospedar no Grande Hotel de Ouro Preto, construído em 1940. Apesar de ter passado por algumas modificações — que não agradaram Niemeyer —, o prédio mantém suas características construtivas que, de longe, se diferenciam dos casarios coloniais do século 18.

Rio de Janeiro e São Paulo

Com quase 80 anos de trabalho, o arquiteto mais conhecido do Brasil deixou marca em várias cidades. Uma delas é a capital carioca, com diversos edifícios projetados por Niemeyer, principalmente no começo da carreira, entre elas a Passarela do Samba, um dos principais cartões-postais, e a casa onde morou, na beira da Floresta da Tijuca. São Paulo não fica de fora. A metrópole também abriga os característicos prédios modernistas, com destaque para os do Parque Ibirapuera. Outras construções estão espalhadas pelo Norte, Nordeste e Sul do país. Que tal incluir algumas dessas obras no seu próximo roteiro de viagem?

#Obras de Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro
Entre todos os lugares que abrigam as obras do arquiteto mais famoso do Brasil, não poderia faltar sua cidade natal. Foi no Rio, também, que Niemeyer concluiu sua graduação pela Escola Nacional de Belas Artes, em 1934. Três anos depois, projetou a Obra do Berço (uma instituição de caridade sem fins lucrativos), no bairro da Lagoa, que foi seu primeiro trabalho de impacto, oferecido gratuitamente, e é um dos bens tombados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (INEPAC-RJ).

Região Sul e Nordeste

Para quem viaja de ônibus (e principalmente para quem vê de cima do avião), é difícil não prestar atenção no suntuoso Terminal Rodoviário de Londrina, no Paraná. Apesar das modificações que sofreu, razão pela qual Niemeyer não assinou o projeto, ainda tem “a cara” do arquiteto. A construção é feita toda de zinco (sendo que originalmente deveria ser de concreto) e em formato circular. No centro possui uma abertura e um jardim.

Crédito: Kadu Niemeyer/Divulgação. Museu Oscar Niemeyer em Curitiba.
Descendo até Curitiba, no Paraná, fica o Museu Oscar Niemeyer (MON), que completou 10 anos de atividade. São 12 salas que recebem diversas mostras nacionais e internacionais, além do acervo permanente, que conta com o pátio de esculturas, exibindo artistas como Erbo Stenzel, Amélia Toledo, Ângelo Venosa, Bruno Giorgi, Emanoel Araújo, Marcos Coelho Benjamin, Sérvulo Esmeraldo, Tomie Ohtake e, claro, Niemeyer. O MON tem o formato parecido com um olho.

Espanha e França

“Quando fui à Europa pela primeira vez, fui de navio. Eu ia daqui para a França, então no meio da viagem estourou o golpe. A polícia, como tinha que ser, invadiu meu escritório, o meu apartamento, se divertiram. Quando cheguei à Europa, o André Malraux (ministro da Cultura da França) compreendeu essa mudança. Ele arranjou com De Gaulle um decreto para eu poder ficar na França como arquiteto francês”, lembra Oscar Niemeyer em entrevista dada ao Correio no ano passado.

Niemeyer - Espanha
E foi durante esse tempo, longe da ditadura militar, que o gênio dos traços que ganharam o mundo deu vida a várias obras na Europa. Uma das mais conhecidas, e que pode ser vista em Paris, é a sede do Partido Comunista Francês. O conjunto arquitetônico, um prédio de aço e vidro e a sala de congressos de forma abobadada, foi concluído no início da década de 1970.

A reportagem completa está publicada na edição de 12 de dezembro de 2012 do caderno de Turismo do Correio Braziliense

Quais são, onde ficam e como estão as obras de Niemeyer no DF

Interior da Catedral Metropolitana de Brasília/Foto de Gustavo Moreno

Gizella Rodrigues, do Correio Braziliense

Para ser apresentado ao legado do arquiteto que desenhou curvas no concreto e revolucionou a arquitetura brasileira, é preciso subir a Plataforma Superior da Rodoviária do Plano Piloto. Lá de cima, é possível compreender a concepção da cidade estruturada sob dois eixos que se cruzam exatamente ali, no local construído para permitir os encontros dos brasilienses e das pessoas que a capital acolheu tão bem. Do alto, também se tem uma primeira e deslumbrante vista da Esplanada dos Ministérios, com seus monumentos projetados por Oscar Niemeyer. Descendo e caminhando a pé em direção ao Congresso Nacional, estão obras primas da arquitetura moderna, como o Museu Nacional, a Catedral, os ministérios e o Itamaraty. Ao chegar na Praça dos Três Poderes e admirar as colunas do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF), o visitante entende porquê Brasília é uma cidade única em todo o mundo.

O percurso é óbvio e encanta turistas e brasilienses que não se cansam de contemplar a beleza da capital da República. Mas as obras de Niemeyer vão além, estão espalhadas por todos os cantos do Plano Piloto e também podem ser vistas em outras regiões administrativas, como Ceilândia e Sobradinho. Além de monumentos, Niemeyer fez prédios que nem de longe se parecem com as suntuosas edificações erguidas ao longo do Eixo Monumental, como edifícios comerciais no Setor Comercial Sul e residenciais nas superquadras 107 e 108 Sul. Projetou igrejas, casas, hospital, palácios, museus. Uma infinidade criativa que se estendeu até meses antes de sua morte. O último projeto dele construído em Brasília foi a Torre de TV Digital, concebida em 2008, quando Niemeyer já tinha 101 anos.

Ninguém sabe ao certo quantos projetos o arquiteto fez em Brasília, mas estima-se que são mais de 100. Alguns deles já sumiram, como as residências geminadas das quadras 707, 708, 711 e 712 Sul. Outros são descaracterizados aos poucos, estão em reforma e ou em péssimo estado de conservação. Com ajuda do livro Brasília 50 anos: guia de obras de Oscar Niemeyer, de Silvia Ficher e Andrey Schlee, publicado em 2010 pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e pela Câmara dos Deputados, o Correio Braziliense listou 25 obras e percorreu todas elas para mostrar como está a manutenção de cada uma.

Catetinho/Foto de Gustavo Moreno

Estação Rodoferroviária

Oscar Niemeyer quis fechar o Eixo Monumental com um edifício-barra baixo, simplesmente elevado do solo servindo de pórtico para quem chegava ou saía de Brasília. Com um desenvolvimento longitudinal acentuado – como boa parte das grandes estações ferroviárias, o prédio é marcado pela repetição das 44 aberturas quadradas no pavimento superior e pela sequência dupla de cinco pilares que apoiam a construção. O edifício foi inaugurado em 28 de abril de 1981. Originalmente, a obra servia à rede federal de estradas de ferro, mas foi adaptada para abrigar o terminal de ônibus interestaduais, antes localizado na Plataforma Rodoviário. Atualmente, o edifício é sede de órgãos do GDF já que, em 2010, a parada dos ônibus interestaduais foi transferida para a nova Rodoviária, em frente ao ParkShopping. Com a mudança, várias obras foram feitas no local. A fachada foi mantida, mas o interior do edifício foi completamente descaraterizado. O vão que antes era livre para a passagem dos passageiros está fechado por um vidro fumê que tampa toda a lateral do prédio.

Catedral Rainha da Paz

As curvas feitas com o concreto lembram uma barraca de acampamento. Inaugurada em 12 de dezembro de 1994, a Rainha da Paz, foi construída a partir da estrutura do palco montado para missa celebrada na segunda visita do Papa João Paulo II ao Brasil, em outubro de 1991. O altar da cerimônia foi desenhado por Niemeyer, que fez uma base retangular coberta no formato de uma tenda militar, estrutura que foi desmontada após a missa, mas inspirou o projeto da Catedral, em ótimo estado de conservação ainda hoje, 18 anos depois da inauguração. Ângelo Nascimento, 49 anos, faz serviços voluntários em obras sociais e visita a igreja quase diariamente. Devoto de Nossa Senhora, ele vai à catedral para rezar, mas também admira as curvas de Niemeyer. “Ele fez tudo com a alma, por isso é tão bonito”, elogia.

Quartel General do Exército

De todas as obras de Niemeyer construídas durante o regime militar, o Quartel General do Exército (1967-1972) é a mais representativa. Há quem conte que o general Teixeira Lott teria perguntado ao arquiteto se os prédios do Exército seriam modernos ou clássicos e que Niemeyer, sorrindo, retrucara: “Numa guerra, o senhor prefere armas modernas ou clássicas?” Para construir o quartel rapidamente, Niemeyer foi buscar na Universidade de Brasília (UnB) um sistema de pré-fabricação que havia sido desenvolvido por João Filgueiras Lima, o Lelé. Assim foram erguidos os nove edifícios pavilhonares que abrigam as atividades administrativas e burocráticas do Exército. A arquitetura do local encantou os turistas Floraci de Oliveira Dutra, 74 anos, Anadete Marques de Jesus, 64, e Lourival Oliveira Santos, 73, que vieram à Brasília pela primeira vez visitar parentes e conhecer a capital federal. “Já tínhamos visto imagens pela televisão, mas pessoalmente me surpreendeu. É ainda mais bonita”, disse Lourival. “Niemeyer é um dos brasileiros que tínhamos orgulho de ter. Mas ele viveu o tanto que mereceu.”

Memorial JK

Funcionários do espaço, privado e administrado pela neta de Juscelino Kubitschek, Anna Christina Kubitschek, arregaçam as calças e entram nos espelhos d’água para limpa-los. O cuidado com um dos monumentos mais visitados de Brasília pode ser visto pela conservação do local, todo revestido em mármore. O memorial foi reformado em 2000, o que incluiu reconstrução do auditório e a restauração do espelho d’água e suas cascatas, há muito tempo desativadas. Em 21 de abril de 2001, foi inaugurada a nova iluminação externa do memorial que, além de promover uma rigorosa revisão nas instalações elétricas e hidráulicas, valorizou mais as formas da arquitetura do monumento. O projeto foi idealizado em 1980 e inaugurado em 12 de setembro de 1981, data em que JK teria completado 79 anos. O monumento foi realizado para homenagear a memória do ex-presidente e abrigar definitivamente seus restos mortais, antes depositados em um túmulo também desenhado por Niemeyer no cemitério Campo da Esperança. JK vigia a cidade em cima de uma torre de 28m de altura na frente do memorial dedicado a ele.

Memorial Jk - Brasília

Memorial dos Povos Indígenas

A construção circular de 70m de diâmetro e dois pavimentos é inspirada na forma de uma maloca Yanomami. O espaço do memorial, aberto ao público em 1999, inclui uma área livre para exposições e um grande terreiro livre, como as praças das adeias bororós. Assim, o coração do museu é o pátio interno onde são realizadas as apresentações e rituais indígenas, parcialmente coberto por uma casca de concreto em balanço. Por fora, o prédio é totalmente branco, assim como outros monumentos de Niemeyer. A gerente do memorial, Tânia Primo, servidora da Secretaria de Cultura, diz que o edifício recebe uma mão de tinta esporadicamente, para que o branco não fique marrom. Este ano, por exemplo, ele foi pintado em março quando a administração preparava o espaço para receber a atual exposição, que vai até o fim do ano que vem. Na ocasião, também ocorreram mudanças na iluminação, reposição do piso e reparos hidráulicos. Ano que vem deve ocorrer uma reforma no telhado. “Branco é terrível. A gente pinta e seis meses depois tem que pintar de novo. Mas estamos sempre cuidando para não ficar tão ruim”, afirma Tânia.

Touring Clube do Brasil

Quando Lucio Costa fez o projeto do Plano Piloto, destinou as áreas contíguas ao cruzamento dos dois Eixos (Monumental e Rodoviário) ao chamado centro de diversões da cidade. O Teatro Nacional ocupou o lado norte e Niemeyer projetou o edifício sede do Touring Clube do Brasil, obra que durou de 1964 a 1967. Lucio Costa desejava um pavilhão baixo “debruçado sobre os jardins do setor cultural” e Niemeyer desenhou uma pequena edificação avarandada, organizada em dois pavimentos. O piso inferior foi ocupado por um posto de gasolina, já abrigou moradores de rua e usuários de crack e, atualmente, a Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) aluga salas no prédio pertencente à iniciativa privada. O edifício está em péssimas condições e o Iphan questiona a venda. Os funcionários convivem com goteiras, fios expostos, teto de gesso quebrado e pintura descascada. Em 2001, Niemeyer sugeriu que o Touring fosse demolido para a construção de um centro de novas mídias no local.

Complexo Cultural da República

Desde a inauguração da capital houve várias propostas para a ocupação do local, previsto por Lucio Costa como forma de complementar o setor de diversões, mas nenhuma delas foi executada. Em 1999, Niemeyer apresentou o projeto do complexo cultural, com museu, biblioteca e restaurante (do lado sul). Uma grande praça de 91 mil metros quadrados, recebeu os três prédios. Inaugurado em 2007, o Complexo Cultural da República, formado pelo Museu Nacional e pela Biclioteca Nacional, é uma das mais recentes obras de Niemeyer em Brasília, está pronto há apenas cinco anos, mas já demanda manutenção. O forro do teto da Biblioteca Nacional está cheio de infiltrações, estufado, buracos e goteiras. A pintura está manchada, assim como a do Museu Nacional. A alça lateral do museu, que servia para a passagem dos visitantes, está fechada e cheia de rachaduras que ameaçam comprometer a estrutura. A Secretaria de Cultura tenta conseguir que a construtora faça os reparos nos edifícios, pois a obra ainda estaria na garantia de cinco anos.

Brasília, Museu da República/Foto de João Campello

Catedral Metropolitana

A estrutura da igreja – 16 colunas curvas de concreto que quase se encontram no alto – lembram duas mãos se unindo em oração. A Catedral Metropolitana de Brasília foi o primeiro monumento a ser criado na capital. O projeto é de 1958 e a igreja é uma das mais famosas expressões artísticas de Niemeyer, que era declaradamente ateu. Essa foi uma das obras que fez Brasília ser reconhecida como ícone do modernismo arquitetônico brasileiro. A catedral tem elementos típicos da arquitetura de Niemeyer: concreto armado aparente, simplicidade, curvas harmoniosas, ousadia estrutural e formas arrojadas. Cada um dos pilares da igreja pesa nove toneladas. A beleza do templo é completada por dois mil metros quadrados de vitrais azulados e esverdeados instalados no teto, obra realizada por Marianne Peretti. No centro da catedral, ficam três anjos, suspensos por cabos de aço. Nas paredes, há cerâmicas pintadas por Athos Bulcão. A via-sacra é uma obra de Di Cavalcanti. Atualmente, a igreja está em reforma: ganhou investimento de quase R$ 25 milhões, custeados pelo Governo do Distrito Federal e pela Petrobras. Mesmo assim está aberta todos os dias para visitas, à exceção dos horários de missa.

Ministérios

Em 1957, Lucio Costa desenhou o Eixo Monumental, definindo a disposição de cada prédio da Esplanada dos Ministérios. Determinou que o Ministério da Justiça e o das Relações Exteriores ocupassem os cantos inferiores contíguos ao Congresso Nacional e que os demais ministérios assumiriam um formato padrão e seriam ordenados em sequência. Em 1958, Niemeyer projetou o ministério modelo a ser reproduzido 11 vezes. Os prédios têm 10 pavimentos, é feito de uma estrutura de aço, com planta livre de base retangular. A obra é caracterizada pelas longas fachadas envidraçadas protegidas por brise-soleil – cuja tradução literal seria quebra-sol – um dispositivo arquitetônico utilizado para impedir a incidência direta de radiação solar nos interiores de um edifício. Ao todo, foram executados sete ministérios-padrão do lado sul e 10 do lado norte da Esplanada. Hoje, alguns ministérios estão reformados, mas outros estão em mau estado de conservação, com os brise-soleil, que são verde, esbranquiçados.

Igrejinha

Igreja Nossa Senhora de Fátima

Primeiro templo de alvenaria erguido no Plano Piloto, a Igrejinha também é conhecida pelos brasilienses e turistas por causa dos azuleijos de Athos Bulcão, que recobrem a fachada. O templo foi construído rapidamente para integrar a primeira unidade de vizinhança na Asa Sul. A pedra fundamental foi lançada em 26 de outubro de 1957 e inaugurada em 28 de junho de 1958, com a celebração do casamento da filha do engenheiro Israel Pinheiro e o batizado do filho de um operário, que teve como padrinho Juscelino Kubitschek. A Igrejinha tem planta triangular e cobertura em laje inclinada levemente curva. Em 2009, um incêndio destruiu pelo menos 60 azuleijos e a igreja foi toda reformada. Ano que vem deve ocorrer a pintura das colunas projetadas por Niemeyer. O pioneiro Sebastião Portela, 82 anos, mora desde 1961 na 308 Sul. Ele veio transferido do Rio de Janeiro, era servidor do Tribunal de Contas, e, ao contrário de alguns colegas, se apaixonou pela nova capital. “Todos torciam para a capital voltar para o Rio de Janeiro. Eu não. Sempre pus muita fé na cidade. Juscelino e Oscar Niemeyer construíram uma cidade linda, as obras eram muito avançadas para a época e ainda hoje é tudo muito bonito”, diz.

Superquadras 107/108 Sul

As quadras 107 e 108 Sul foram executadas pela Novacap para abrigar funcionários públicos que seriam transferidos do Rio de Janeiro por ocasião da mudança da capital. Projetadas integralmente por Oscar Niemeyer, deveriam servir de referência para as que viriam a ser construídas no futuro. Os prédios, muitos dos quais já foram bem alterados por reformas, são característicos do racionalismo carioca. Apresentam fachada principais em cortina de vidro protegidas por brise-soleil e fachadas secundárias vedadas por cobobós. Os edifícios são protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O projeto de reforma do bloco K, por exemplo, ficou dois anos para ser aprovado pelo órgão responsável por proteger o patrimônio brasileiro. Mesmo assim, a aprovação faz uma série de restrições às modificações planejadas pelos moradores, como o fechamento da área existente entre um andar e outro, hoje fechada apenas por uma grade e conhecida como pombal. “É uma questão de saúde pública. Os pombos dormem ali, fazem barulho, transmitem piolhos e doenças”, reclama o síndico do bloco, José Lopes, 70 anos. “Faço de tudi para preservar o patrimônio, mas isso é uma arbitrariedade”, completa.

Cine Brasília

Atualmente fechado para reforma, o Cine Brasília faz parte do conceito de unidade da vizinhança pensado por Lucio Costa que previu que na confluência de quatro superquadras ficariam as igrejas e as escolas e que, na parte da faixa de serviço fronteira ao eixo rodoviário, ficariam os cinemas, para serem acessíveis a quem procedesse de outros bairros. O único cinema construído nesses moldes foi o Cine Brasília com mais de mil lugares. A restauração do Cine Brasília começou em 2011 e será entregue à população em abril do ano que vem. Diferentemente do que ocorreu nas décadas passadas, não se trata de passar apenas uma mão de tinta. O cinema está sendo completamente restaurado. Dividida em três etapas, a obra começou com a impermeabilização e a instalação de para-raios. Na segunda fase está prevista a troca das instalações elétricas, hidráulicas e mecânicas, além da substituição do sistema de ar-condicionado. A última etapa será a construção do prédio anexo, projeto original de Oscar Niemeyer, ainda em fase de detalhamento. O custo total será de R$ 8 milhões e a modernização do Cine Brasília vai manter as características importantes do projeto original. A sala de projeção, que conta com dois equipamentos de 35mm para rodar filmes em película, ganhará dois projetores digitais.

Ermida Dom Bosco

A capela foi projetada em 2004 a pedido do GDF e inaugurada dois anos depois no parque de preservação da Ermida Dom Bosco. Preocupado com a proximidade dos condomínios, Niemeyer optou por fazer sua capela em um terreno alto, protegido por densa vegetação. Só é possível chegar ao local à pé. Talvez por isso a pequena igreja esteja tão abandonada. A capela é de baixa altura, redonda, toda coberta com vidros escuros, mas faltam vidros inteiros, que parecem ter sido roubados. O local também está sujo e a parede do altar foi pintada para cobrir pichações aparentemente, mas o serviço não foi feito em toda a parede, que é cinza em uma metade e branca em outra. Um arco curvado passa em cima da capela e ele está sujo. A localização da capela permite uma vista privilegiada de toda a cidade, em especial do Palácio da Alvorada.

Igreja Ortodoxa São JorgeIgreja Ortodoxa São Jorge

Niemeyer é conhecido pelas igrejas católicas que projetou. Mas uma imponente igreja ortodoxa chama a atenção na QI 9 do Lago Sul. O concreto pintado de branco e as curvas da igreja dão uma dica de que aquela é mais uma obra do arquiteto para quem observa o trabalho dele. Niemeyer projetou o templo em 1986. Trata-se de um grande edifício cilíndrico, com trinta metros de diâmetro e sete de altura, coroado por uma cúpula. A construção tem dois níveis. O espaço de culto se localiza no primeiro pavimento e é acessado por uma rampa curva externa. O térreo foi reservado para o salão paroquial e tem acesso independente. Uma viga une o companário ao prédio principal, gerando uma espécie de pórtico que, além de marcar a entrada, tem função estrutural. Como é toda pintada de branco, a pintura do templo está visivelmente gasta.

Casa do Cantador

O próprio Oscar Niemeyer deu um puxão de orelha em Rosália Alves Bezerra, administradora da Casa do Cantador em 2007, em Ceilândia, quando ela pintou as paredes do local, originalmente brancas, de verde, amarelo e laranja para “alegrar” o espaço. Na época, ela disse que voltaria as paredes para o tom original, mas ainda hoje elas são coloridas. E o pior: a tinta está descascando, velha, assim como todo o edifício que também sofreu outra intervenção de um dos administradores anteriores. Ele fechou um vão livre com uma parede de cimento e janelas de vidro e retirou uma porta corrediça que isolava a área de refeitório. A única obra de Niemeyer em Ceilândia e uma das poucas do arquiteto fora do Plano Piloto, o espaço projetado como ponto de encontro para os imigrantes nordestinos está fechado à espera de reforma, que vai resgatar as características originais do edifício. Hoje apenas o anfiteatro ainda funciona e recebe eventos, como festivais de repentistas e encontros mensais dedicados à música nordestina. Inaugurada em 1986, a Casa do Cantador nunca passou por uma reforma completa. Os telhados foram trocados na segunda quinzena de novembro porque estavam dando infiltração e uma reforma completa do local, orçada em R$ 1,7 milhões, está prevista para 2013.

Teatro Nacional

Único elemento do setor cultural cuja localização foi definida por Lucio Costa, em 1957, o Teatro Nacional fica em localização privilegiada no Eixo Monumental, diretamente conectado ao Setor de Diversões Norte e próximo da Rodoviária. A edificação tem forma semelhante a uma pirâmide com dois dos seus lados cobertos por blocos de cimento, obra de Athos Bulcão, e os outros dois marcados pela sequência de grandes vigas aparentes que se elevam do solo até o cume do prédio. O teatro começou a ser construído em 1960, foi oficialmente inaugurado em 1979 e reinaugurado em 1981. Em seus 50 mil metros quadrados, estão três salas de espetáculos. No governo passado, a fachada do teatro foi restaurada, apensar de ainda existir pichações na fachada, e o GDF pretende reformar todas as instalações do local ano que vem, obra que custará R$ 96 milhões e será realizada com recursos do governo federal.

Palácio do Itamaraty

As colunas emblemáticas projetadas por Niemeyer que adornam o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Palácio do Planalto ficaram reservadas para o Executivo e o Judiciário. Para a sede do Ministério das Relações Exteriores, Niemeyer criou outro marco: o clássico e nobre arco pleno, numa referência à antiga sede da diplomacia nacional no Rio de Janeiro. As obras do Itamaraty levaram oito anos, de 1962 a 1970. O interior do palácio é espetacular: no térreo há um imenso hall sem colunas de 2,8 mil metros quadrados de área e nos demais pavimentos há uma sucessão de salas suntuosas esplendidamente decoradas além de jardins de Burle Marx. O cuidado com a concepção do prédio existe até hoje com a manutenção do local. Funcionários limpam os espelhos d’água diariamente e o edifício está impecável.

Congresso Nacional

Projetado em 1958, o Congresso Nacional é uma edificação-chave na concepção espacial e simbólica do Eixo Monumental de Brasília e uma das mais importantes obras de Niemeyer. Resultado de uma concepção assimétrica de grande audácia, a concepção plástica do edifício é simultaneamente simples e revolucionária. De sua inauguração aos dias de hoje, o Congresso Nacional recebeu inúmeras reformas e ampliações, a maioria delas projetadas pelo próprio Niemeyer. Segundo vários depoimentos de Oscar, o Congresso Nacional é sua realização preferida na capital. E também a do mecânico Francisco Ângelo da Silva, 46 anos. Morador de Ceilândia, ele mora em Brasília desde 1989 e sempre desce do carro para fotografar o Congresso quando vai ao Plano Piloto. “É bonito demais, ainda mais na época da chuva, quando está tudo verde”, diz.

Concha Acústica

O mato está alto na Concha Acústica, que já foi palco de grandes shows na capital na década de 1980 e hoje está completamente abandonada. Localizada às margens do Lago Paranoá, foi inaugurada oficialmente em 1969 e doada pela Terracap à Fundação Cultural de Brasília. Projetada por Niemeyer para ser uma arena de espetáculos realizados ao ar livre formada por um palanque com cobertura em forma de concha. Foi o primeiro grande palco da cidade, mas hoje não é considerada própria para receber eventos culturais pela Secretaria de Cultura. “Em respeito à produção cultural da cidade, não colocamos a Concha Acústica à disposição para shows e outros eventos da maneira que ela está hoje”, reconhece o subsecretário do Patrimônio Cultural do DF, José Delvinei Santos. A Conha Acústica está à espera de recursos para a reforma, prevista para o ano que vem.

Brasília PalaceBrasília Palace

Logo na primeira viagem que Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer fizeram ao sítio da nova capital, em 1957, foi dado início à elaboração dos projetos do Palácio da Alvorada e do Hotel de Turismo, depois batizado de Brasília Palace. Com cerca de três mil metros quadrados, o edifício foi concebidopor Niemeyer segundo o seu repertório tradicional. Um prédio barra longo erguido sob pilotis com janelas protegidas por brise-soleil. Foi destaque na hotelaria e na vida social da capital até 1978 quando um incêndio destruiu o hotel, que passou décadas abandonado. Reaberto em 2006, o Brasília Palace tem 135 dormitórios e é hoje uma das mais luxuosas opções de hospedagem em Brasília. O local está muito bem preservado.

Edifício Oscar Niemeyer

Uma boa opção para conhecer a face menos monumetal e formalista de Niemeyer, o edifício de escritórios se encontra no Setor Comercial Sul e tem arquitetura como a dos outros prédios do local. Como os demais, tem planta com base retangular, subsolo, térreo, sobreloja e mais 15 pavimentos. A fachada leste é toda envidraçada e a fachada oeste recebeu um grande painel de brises verticais fixos de concreto. Vertical, sem curvas, o edifício é muito diferente dos monumentos da Esplanada dos Ministérios. Tão diferente que o projetista Hermínio Arantes Leão, 53 anos, que trabalha no prédio há um ano, não sabia que o projeto era de Niemeyer. “Por causa do nome do prédio, achei que era uma homenagem”, defende-se. “Esse prédio tem o mesmo padrão dos outros do Setor Comercial. Pouco luxo e funcionalidade. O que é meio padrão aqui”, acrescenta.

Fundação Educacional de Brasília

Uma das cinco obras de Niemeyer na Universidade de Brasília (UnB), o prédio foi projetado para abrigar o Instituto de Teologia da UnB que, apesar de vinculado à ordem dos dominicanos, tinha orientação ecumênica e fazia parte da estrutura universitária. Em 1964, com o golpe militar, o edifício foi vendido para a Fundação Educacional do DF e hoje funciona como sede da Secretaria de Educação do DF. O prédio de concreto aparente está mal cuidado, com pichações na fachada lateral, marcas de papel nas paredes e vidros manchados. Além desse edifício, Niemeyer projetou, na UnB, os Pavilhões de Serviços Gerais, o Centro de Planejamento, batizado em sua homenagem, O Instituto Central de Ciências, conhecido como Minhocão, e o Protótipo Habitacional, uma célula habitacional em concreto armado que ainda hoje é preservado no local.

Torre de TV Digital

Ponto Turístico mais visitado de Brasília, o monumento projetado em 2008 para ser inaugurado como marco dos 50 anos de Brasília levou quatro anos para ser construído, foi ameaçado pelo escândalo que tirou o governador José Roberto Arruda do poder e pela crise política que se instalou sobre Brasília e só foi entregue à população em 21 de abril deste ano, aniversário de 52 anos de Brasília. Fica em Sobradinho e é um dos poucos monumentos de Niemeyer fora do Plano Piloto. Em oito meses, a torre de 182 metros de altura, já virou point de brasilienses e turistas que vão ao local para apreciar o belo pôr do sol do Planalto Central. Ela fica no ponto mais alto do DF e recebe 3 mil pessoas no sábado e também no domingo, dias de funcionamento

Praça dos 3 Poderes

De um lado, o Palácio do Planalto. Do outro, a sede do Supremo Tribunal Federal (STF). Nos fundos, o Congresso Nacional. Três das muitas obras primas de Niemeyer que abrigam, cada uma, as sedes dos Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo. Elas se juntam ao Museu da Cidade, ao Pombal, ao Panteão da Liberdade, ao Espaço Lucio Costa, ao marco Brasília Patrimônio da Humanidade e ao Monumento a Israel Pinheiro, todos projetados por Niemeyer, e formam uma harmoniosa praça com piso de mosaico português branco no final da Esplanada dos Ministérios. Embora descaracterizada, a Praça dos 3 Poderes segue sendo um dos melhores exemplos da integração existente entre Niemeyer e Lucio Costa.

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Palácio da Alvorada

O Palácio da Alvorada é uma das obras-primas de Oscar Niemeyer. Residência oficial do presidente da República, foi projetado entre 1956 e 1957, antes mesmo da escolha do plano urbanístico para a cidade. Primeira edificação definitiva construída na nova capital, seu elemento distinto está nas famosas colunas externas de mármore branco que emolduram as fachadas, que se tornaram o símbolo de Brasília, são conhecidas em todo o mundo e serviram de inspiração para as colunas feitas no Palácio do Planalto e na sede do STF. Completamente restaurado entre 2005 e 2006, o Alvorada destaca-se também pelo cuidado em todo o detalhamento do projeto e na escolha dos materiais do acabamento. O arquiteto também desenhou uma capela construída ao lado do Palácio que tem formas consideradas revolucionárias.

As araras do Palácio do Alvorada

Luiz Calcagno, do Correio Braziliense

Todos os dias, brasilienses e turistas visitam o Palácio da Alvorada pela manhã para tirar fotos e tentar ver um aceno da presidente da república, Dilma Rousseff. Eles nem imaginam, porém, que vão se deparar mais facilmente com moradores exuberantes: um casal de araras, macho e fêmea, ocupa os jardins da residência oficial e atrai olhares curiosos.

Pintadas de verde-amarelo na cabeça e na barriga, cores que inspiraram Joaquim Osório Duque Estrada a escrever o Hino Nacional Brasileiro, se exibem para fotos enquanto grasnam sobre as árvores, de galho em galho, na fachada do prédio amplo e plano desenhado por Oscar Niemeyer. Estão naquele local desde o governo Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 1998 e de 1999 a 2002). Segundo funcionários, existem outras nos jardins, mas que não se aventuram fora dos muros do palácio.

Confira mais fotos das araras

Os vitrais de Brasília

Renato Alves e Gustavo Moreno (fotos)

Quase todos conhecem a Catedral Metropolitana de Brasília, nem que seja por fotos. Ela está na área central da capital, é um dos seus cartões postais. Mas a cidade tem outros prédios abertos ao público com vitrais tão ou mais belos que os da sua mais famosa igreja. E eles não estão apenas em templos religiosos. Enfeitam também museus, palácios e tribunais. Valem a visita e muitas fotos.

Alguns dos mais belos vitrais de Brasília, mas quase desconhecidos dos turistas, estão no Santuário Dom Bosco, à margem da W3 Sul. O templo erguido em homenagem ao padroeiro da capital é todo cercado por vidros com 12 tonalidades de azul e pontilhados brancos. Eles ficam entre as 80 colunas de concreto com mais de 15m de altura, unidas no alto em arcos góticos.

Os 2,2 mil metros quadrados de vitrais azuis com pontos branco dão uma impressão do visitante estar em meio a um céu estrelado. Obra de Claudio Naves e do belga Hubert van Doorne, que colocou na prática a ideia do brasileiro.

Acesso limitado

Alguns dos mais famosos e elaborados vitrais da capital são obra da mesma artista, Marianne Peretti, 85 anos. Coube a ela levar luz e cores a prédios do arquiteto Oscar Niemeyer, como a Catedral, o Palácio do Jaburu, o Panteão da República, o Memorial JK e o Superior Tribunal de Justiça (STJ). No entanto, nem todos esses prédios são acessíveis ao público em geral.

O Panteão está fechado por causa de uma interminável obra. O Palácio do Jaburu é a residência oficial do vice-presidente da República. No STJ, a obra fica no Tribunal Pleno, onde há uma série de regras para adentrar. Tanto o Jaburu quanto o tribunal superior não têm programa de visitas turísticas expontâneas, diferentemente do Palácio da Alvorada e do Supremo Tribunal Federal (STF).

O Alvorada, aliás, preserva um dos raros vitrais assinados por Athos Bulcão, o artista dos azulejos e painéis em alto relevo de Brasília. Ele também experimentou a técnica com vidro em casas particulares, especialmente no Lago Sul.

ROTEIRO

Caixa Econômica Federal
O conjunto localizado no piso térreo do edifício-sede da Caixa Econômica Federal (foto principal), no Setor Bancário Sul, representa os estados brasileiros. Cada vitral conta a história da vida, do povo, da cultura, do folclore e da economia das regiões, por meio de símbolos e cores diferentes. Obra do alemão naturalizado brasileiro Lorenz Heilmar.

Capelinha do Alvorada
Obra rara de Athos Bulcão, mais conhecido por seus azulejos, os vitrais da capela do Palácio do Alvorada se destacam pelas cores fortes: laranja, azul, lilás, rosa e violeta. Como o palácio, o templo leva a assinatura de Oscar Niemeyer.

Catedral de Brasília
Os 2 mil m² de vitrais instalados no teto da Catedral são a maior obra realizada por Marianne Peretti em mais de cinco décadas de trajetória artística. Escolheu as cores azul e verde simplesmente porque gosta e as formas abstratas, ela garante, não representam nada. Mas criam várias interpretações.

Igreja Dom Bosco
Montado na década de 1960, o vitral tem pequenos detalhes em que a luz fica mais clara, um recurso para reforçar a sensação de céu estrelado. No meio do teto, há um lustre com 7,4 mil pequenas peças de vidro Murano, totalizando 3 toneladas, 3,5m de altura e 5m de diâmetro. Tanta luz ajuda a destacar detalhes como o altar, um bloco maciço de mármore rosa de 10ton.


Igreja Perpétuo Socorro
Obra do paulista radicado em Goiânia Duda Badan, o vitral com a imagem de Nossa Senhora é bastante colorido. Mas, para conhecê-lo, é preciso descer as escadas ao lado do altar do templo localizado no Lago Sul. A obra fica atrás do altar da capela.

Igreja Rainha da Paz
Outra obra de Duda Badan. Com duas figuras sacras em um vidro jateado e incolor, é a mais simples delas. O templo fica no meio do Eixo Monumental, entre o Setor Militar Urbano e o Sudoeste Econômico.

Mercado Municipal
Os vitrais compõem o cenário do mercado instalado na 509 Sul, à margem da avenida W3, que tem grades, portões, arcos, muitos com mais de 100 anos e vindos da Inglaterra, São Paulo, Rio de Janeiro, Santos. O espaço exibe ainda azulejos de Athos Bulcão.

Panteão da Pátria
O vitral de Marianne Peretti fica no terceiro pavimento do prédio localizado na Praça dos Três Poderes. Obra de Oscar Niemeyer, o edifício conta ainda com o Mural da Liberdade, de Athos Bulcão; o Painel da Inconfidência Mineira, de João Câmara; e o Livro de Aço dos Heróis Nacionais.

Paróquia Imaculado Coração de Maria
O templo erguido na Quadra 5 do Park Way, de frente para Águas Claras, exibe vitrais multicoloridos em todas as paredes. Sobre o altar, eles retratam os sete dons do Espírito Santo. O conjunto é assinado pelo Atelier São Francisco, de Paranã (TO).

Paróquia Nossa Senhora do Rosário
Em tons de azul, os vitrais retratam Nossa Senhora carregando o menino Jesus no colo. Em formato vertical, eles ficam nas laterais do altar e dos fundos do templo localizado na Área Especial da QI 26 do Lago Sul.

Superior Tribunal de Justiça
Outra obra da franco-brasileira Marianne Peretti, o vitral do plenário do edifício-sede do Superior Tribunal de Justiça (STJ), tem 32 metros quadrados. Intitulado Mão de Deus, ele simboliza o olho aberto testemunhando os trabalhos desenvolvidos no STJ.

Câmara dos Deputados
Também criado por Marianne Peretti, o vitral fica no Salão Nobre ou Salão de Recepções, ao lado do Salão Negro, que tem ainda um painel do artista plástico Athos Bulcão e móveis de Ana Maria Niemeyer. O espaço serve como cenário para lançamentos de livros e solenidades variadas.

Memorial JK
O teto da cripta de Juscelino Kubitschek no Memorial JK é mais uma criação de Marianne Peretti. O prédio fica no centro do Eixo Monumental, perto da Câmara Legislativa e do Palácio do Buriti. O ingresso custa R$ 10 e R$ 5 (meia entrada).

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Casa de chá na Praça dos Três Poderes