Todo o charme de Punta Arenas

Praça de Armas Muñoz Gamero, em Punta Arenas

As argentinas Ushuaia e El Calafate e as chilenas Puerto Natales e Punta Arenas servem de base para quem pretende conhecer a Antártida e a Patagônia. A última tem o principal aeroporto da região, por isso tornou-se um dos destinos mais escolhidos pelos turistas.

Centro de Punta Arenas

Banhada pelo Estreito de Magalhães, a região foi descoberta em 1520 pelo navegador português Fernão de Magalhães, o que o fez ganhar um monumento na praça central de Punta Arenas e emprestar seu sobrenome ao principal estreito da Patagônia.

Punta Arenas vista do mar

Próxima à Antártida, Punta Arenas é porto seguro para exploradores há seculos.

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Líder da primeira equipe a invernar no continente gelado (1897-1899), o belga Adrien de Gerlache parou na cidade chilena.

O mesmo fez o britânico Ernest Schackleton quando foi resgatado da expedição que tentou cruzar o continente austral entre 1914 e 1916.

Tradição

Para conhecer a Patagônia, não é preciso enfrentar os perrengues da Antártida.

Muitos animais e outras atrações do continente gelado, como glaciares, podem ser visitados em passeios de ônibus ou pequenos cruzeiros por canais calmos, que saem de Punta Arenas ou passam por lá. Passeios que podem ser adquiridos em pacotes comprados previamente ou em pequenas agências instaladas no centro da cidade chilena.

Praça de Armas Muñoz Gamero, em Punta Arenas

Praça de Armas Muñoz Gamero, em Punta ArenasA maioria das hospedarias de Punta Arenas, que vão de hotéis de luxo a baratos albergues, estão no centro da cidade de 150 mil habitantes.

A principal referência é a Praça de Armas Muñoz Gamero. No meio dela, há um enorme monumento a Fernão de Magalhães, com a imagem de um do índio aónikenk. Dizem que se você beija o pé dele voltará a visitar a Patagônia.

Todos os dias, a praça é ocupada por uma legítima feira de artesanato. Muitas das peças a venda são produzidas ali mesmo pelos artistas locais.

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Eles oferecem de gorros de lá a miniaturas em pedra e pinguins de pelúcia, de todos os tamanhos e preços. Vale pechinchar.

História

Perto dali, fica o Museu Regional de Magalhães, onde, no subsolo, há uma cafeteria onde antes era o lugar dos serviçais do antigo palácio em art nouveau. Visite as exposições artísticas e a coleção de objetos e móveis de época da casa, que o empresário Mauricio Braun mandou construir em 1903, apenas com madeira vinda da Europa.

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Outra atração parecida é o Museu Naval e Marítimo, na rua Pedro Montt. Entre suas 1,6 mil peças históricas, há restos de navios como a corveta inglesa Doterel, afundada a 15m de profundidade e a 300m do cais do porto local.

Centro de Punta Arenas

Agora, se quer conhecer uma beleza de características mais melancólicas, você pode percorrer os silenciosos caminhos do Cemitério Municipal, considerado um dos mais belos da América do Sul. Seus túmulos cuidadosamente enfeitados, seus mausoléus, jardins e as extravagantes tumbas se misturam aos restos de imigrantes e marinheiros que fizeram de Magalhães o destino final de suas vidas.

Casario

O período áureo de Punta Arenas e seu porto está marcado na arquitetura. A cidade tem prédios de traços clássicos, muitos palacetes. Também há muitas casas mais simples, mas igualmente belas, feitas de madeiras e cobertas por metais — para aquecer o interior — com as fachadas coloridas. Tudo em ruas extremamente limpas e seguras.

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Em muitos dos edifícios clássicos, funcionam charmosas cafeterias. Em uma cidade em que a temperatura não passa dos 16ºC e permanece negativa durante todo o inverno, nada melhor que um café ou outra bebida quente, como chocolate. Esses estabelecimentos também oferecem delícias como tortas doces e salgados, além de tostados.

Cafeteria em Punta Arenas

São ao menos 20 cafeterias no centro de Punta Arenas, que, reza a lenda, tem ainda 100 casas noturnas voltadas ao público masculino. Além delas, há alguns pubs e um cassino, à beira-mar.

Cafeteria em Punta Arenas

Artesã na praça principal de Punta ArenasPara saber mais

Ligação importante

Fernão de Magalhães foi quem navegou pela primeira vez nas águas abrigadas do estreito, ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Colonizada no século 19, a localização fez de Punta Arenas a principal rota de comércio entre os dois oceanos até a construção do Canal do Panamá, em 1914.

Zona Franca

Punta Arenas é uma zona franca, onde há lojas com produtos livre de impostos. Mas, se você quer levar presentes ou comprar bebidas e eletrônicos para o seu uso, precisa andar uns 10km de carro na direção do aeroporto, onde ficam os galpões com essas lojas. Só lá estará livre das taxas do governo.

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Regras ditam ritmo de visitas à Antártida

Pinguins na Antártida

Um tratado internacional regula o turismo na Antártida. Ele inclui uma série de normas: antes de desembarcar, lavar as botas com desinfetante; nas ilhas, só se pode andar nas trilhas; os bichos têm prioridade e é proibido retirar qualquer coisa da Antártica, menos gelo. Enfim, um cruzeiro no continente gelado deve ser encarado como uma expedição e uma aula de bons modos em um ambiente e de populações especiais.

Embora o navio tenha uma programação dia a dia, ela pode não se concretizar por causa do clima. É ele quem manda na Antártida. Visitas ou desembarques podem ser suspensos por causa de péssimas condições, como nevascas ou ventos fortes, que impedem os botes infláveis de navegar com segurança. Mas o pessoal de bordo tem sempre uma carta na manga, com outra opção de passeio ou desembarque sem riscos.

O controle de entrada e saída do barco é eletrônico, feito com um cartão de identificação, com foto e código de barras. É proibido o uso de sapatos. Os expedicionários usam botas de borracha, desinfetadas exteriormente tanto na saída como na chegada. Fumar só é permitido em certos lugares do barco. Nem pense em jogar a bituca no mar. Não leve suvenires da natureza, como pedras, areia e conchas.

Por que tal restrição? O material usado pelos pinguins para fazer seu ninhos é justamente a pedra, por exemplo. Além da memória, as melhores lembranças da viagem são fotografias e vídeos de paisagens e seres exuberantes. Suvenires são vendidos nas bases dos países ou na loja do navio, além de centenas de lojas e bancas de feiras em Ushuaia e Punta Arenas, as cidades argentina e chilena, respectivamente, de onde parte a maioria dos cruzeiros.

Não toque

Já em terra, recomenda-se não fazer barulho que perturbe a paz dos animais nem dar de comer a eles. Tocá-los, manejá-los, nem pensar. Pode até matá-los de estresse. Também não é aconselhável ficar perto demais deles ou fazer algo que modifique seu comportamento. Tenha ainda cuidado ao pisar nas rochas. Sempre veja se não há algum tipo de vegetação nela, como líquen ou musgo — indícios de que a vida está lutando para crescer ali, e isso leva tempo, anos.

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Os ambientalistas não escondem a preocupação com o impacto do turismo na Antártida. “Se respeitadas todas as normas, o turismo na Antártida é um instrumento importante para divulgar a pesquisa e a conservação do local”, comenta o glaciólogo gaúcho Jefferson Simões, 54 anos. Desde 1990, já esteve no continente 21 vezes. Entre 1º de dezembro de 2008 e 13 de janeiro de 2009, liderou a expedição Deserto de Cristal, a primeira incursão brasileira ao interior do continente antártico.

Sujeira

Cientista com doutorado no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Simões é o primeiro brasileiro a especializar-se em glaciologia, a ciência do gelo em todas as suas formas e seu papel no sistema ambiental. Portanto, entende como poucos as peculiaridades da Antártida. “Barcos naquela região com mais de 150 pessoas, além de isolar o turista do ambiente antártico, podem trazer impactos indesejáveis à região”, alerta. Um dos impactos é lixo, que demora muito mais tempo para se decompor no clima seco e frio do continente.

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De acordo com as normas internacionais, todos os resíduos produzidos na Antártida devem retornar, dentro dos navios, ao país de origem para serem, enfim, descartados. Portanto, além de não jogar nada na terra gelada, quem se aventura por lá é orientado a recolher qualquer sujeirinha que encontrar pela frente.

Educação 

O turismo na Antártida começou no fim dos anos 1950, quando o Chile e a Argentina levaram mais de 500 turistas às Ilhas Shetlands do Sul, mas a atividade somente se estabeleceu em 1966, quando o tema educação ambiental foi incorporado ao slogan “você não pode proteger o que você não conhece”. Acreditava-se que vivenciar a Antártida levaria as pessoas a uma consciência ecológica, uma vez que passariam a compreender o papel importante que o continente tem no ambiente global.

Heróis mundiais

Neste mundo gélido, desbravadores como o inglês R. F. Scott e sua equipe perderam a vida no início do século passado. E outros, como o norueguês Roald Amundsen — primeiro homem a chegar ao Pólo Sul, em 14 de dezembro de 1911 – e o inglês Ernest Shackleton, encontraram a glória.

Shackleton é conhecido por qualquer velejador. Após seu navio, o Endurance, ser esmagado pelo gelo antártico e naufragar, sua tripulação sobreviveria por mais de um ano em situações precárias, com combustível, alimento e abrigos precaríssimos. Shackleton então protagonizou um dos maiores feitos da história da navegação, cruzando 1,3 mil km do violento mar da região em um pequeno bote-salva vidas adaptado em busca de socorro até as Ilhas Geórgias do Sul.

Chegando lá e após uma épica travessia pelas montanhas da ilha, conseguiu alcançar a uma estação baleeira e organizar o resgate de seus companheiros. Todos os homens de sua tripulação sobreviveram.

Emoção do começo ao fim em águas geladas

Navio brasileiro Ary Rongel na Antártida

Com pacotes a partir de US$ 5 mil por pessoa, algumas operadoras oferecem roteiros em que o turista vê a Antártida apenas do navio, sem a possibilidade de pisar no gelo. Nos mais interessantes (e caros), as embarcações aguardam na água, em meio a alguma baía, enquanto os turistas visitam a terra firme, duas vezes ao dia, com o auxílio de botas, três camadas de roupa, luvas, gorros, além dos botes infláveis. Os visitantes passam as manhãs e tardes andando pelo gelo e voltam ao navio para almoçar, jantar e dormir.

Navio brasileiro na AntártidaQuem quer que se aventure a explorar a Antártida deve estar disposto a enfrentar grandes desafios. Com todas suas terras localizadas ao Sul do Paralelo 60oS, o continente é o local mais inóspito do planeta. Somente 0,5% de toda a área fica descoberta de gelo ou neve e, ainda assim, isso só ocorre no verão. No restante do ano, tudo é simplesmente branco. Uma clareza impressionante, que reflete 80% da luz solar que incide no território e, assim não permite que ele se aqueça.

A maioria das excursões sai dos portos de Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile. Com a ajuda do tempo — o que nem sempre acontece — chega-se até a península antártica em menos de dois dias. Aqui pode-se ter uma excelente ideia dos encantos da região, que vão de termas vulcânicas a simpáticos pinguins, de focas tomando sol à desoladora beleza do gelo. Aliás, são tantos tons e formas que as máquinas fotográficas não param de disparar.

Já na travessia entre o navio e a terra, algo em torno de 500m, doses extras de adrenalina. Com a água a 0ºC, o tempo de sobrevivência para quem cai nela não passa de um minuto e meio. Pode-se morrer em muito menos, como 30 segundos, alertam os guias. Portanto, são muitos os avisos de segurança antes de trocar a embarcação maior pelo bote (foto acima). Para compensar, a caminhada pela península costuma ser muito agradável e cheia de boas surpresas.

Vida animal

Para a maioria, a Antártida é um enorme vazio. Um lugar repleto de gelo e com quase nenhuma vida. De fato, se comparada com outros biomas, a natureza não é generosa em diversidade na região. Espécies de aves, por exemplo, são apenas 60. Quase nada se comparadas às 1.840 conhecidas apenas no Brasil.

Pinguins na Antártida

Pinguins na AntártidaA baixa diversidade é compensada pela enorme quantidade de representantes de cada espécie. A população de albatrozes, por exemplo, chega à marca de 60 milhões em suas várias espécies. Quando falamos nos simpáticos pinguins, apenas os pinguins-de-penacho-amarelo chegam a 4 milhões de aves somente na Ilha Geórgia do Sul.

Mas a maior emoção está reservada na volta para casa. Entre a América do Sul e a Antártida está a Passagem de Drake. Desafio em forma de mar, onde rajadas de vento acima de 100 km/h e ondas de 10m são comuns. Caminho obrigatória de todas as jornadas dos navios que rumam ao continente gelado. Nele se encontram dois grandes oceanos: o Pacífico e o Atlântico.

“Inferno no mar”

Ao longo dos séculos, o Drake tem sido o terror dos navegadores e ainda hoje é um desafio atravessá-lo, mesmo para os navios mais modernos. É como passar dois dias em uma montanha-russa, sem poder descer do brinquedo. Alguns navegadores se referem a ele como “O inferno no mar”. O repórter do Correio conheceu o Drake a bordo do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, da Marinha do Brasil.

Desde 1994, quando participou da primeira de suas 19 Operações Antárticas (Operantar), a embarcação brasileira conduz pesquisadores e materiais através da passagem de cerca de 900km. A travessia, ocorrida em uma sexta-feira e um sábado, durou 41 horas. Todas com bastante balanço, com o navio inclinando até 40 graus.

O Drake assusta e castiga até os mais experimentados navegantes. “Não foi a mais calma das travessias do Drake. Foram 41 horas bem complicadas”, comentou o capitão de mar e guerra Marcelo Seabra, comandante do Ary Rongel, há dois anos cruzando a passagem.

No fim do mundo

A vantagem é que, depois do Drake, vêm os canais chilenos. Geralmente, com águas tão calmas como as de uma lagoa, cercadas por montanhas e geleiras e tomadas por pinguins e golfinhos, que se exibem com saltos em frente e ao lado dos navios. A visão do paraíso começa ao passar o Cabo Horn, último pedaço de terra habitado ao sul das Américas. Para muitos, o fim do mundo.

Reserva da Biosfera pela Unesco, o Cabo Horn cultiva um mito por seu difícil acesso. Desde 1616, quando foi descoberto, é uma rota de navegação importante para as embarcações que navegam entre os dois oceanos, mas extremamente perigosa. Os ventos ali podem chegar até 200km/h e derrubar até o navio mais bem equipado. Nas imediações, há mais de 100 embarcações naufragadas.

Talvez por isso, alcançar o Cabo Horn atrai tantos aventureiros. Uma das poucas opções oferecidas ao turista é integrar a expedição do Cruzeiro Australis, que tem em sua rota uma parada no “fim do mundo”. O navio parte de Ushuaia e de Punta Arenas, visitando algumas ilhotas da Terra do Fogo, como Isla Magdalena e Baía Wulaia. O ponto alto é mesmo o Cabo Horn.

O desembarque só é feito se a velocidade do vento não ultrapassar os 60km/h. É preciso estar pronto para caminhar e se molhar, antes de ouvir a mensagem autorizando o embarque em bote inflável e seguir ao Cabo Horn. Certamente, a travessia entre o navio e o cabo será em mar revolto.

O bote é considerado seguro, mas não tem como escapar das ondas nem da água que espirra nos passageiros ou mesmo entra nele. Por isso, só roupas e calçados impermeáveis são aconselhados para o tour, que inclui a subida dos 160 degraus de uma escadaria íngreme até o topo do cabo. Para muitos, uma fria. Para outros tantos, a glória.

Deserto branco
Apesar de todo o gelo, a Antártida é, na verdade, um gigantesco deserto, cuja precipitação média anual é quase nula, variando de 30ml a 70ml. Para se ter uma idéia do que isso significa, a precipitação média em Brasília, famosa por sua secura, fica entre 1.200ml e 1.800ml nos meses de março a outubro.