Lagolândia, a vila esquecida perto de Pirenópolis

Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Moradores e casarões antigos em Lagolândia,  em Goiás.

Renato Alves e Minervino Júnior (fotos)

Os brasilienses buscam o sossego em Pirenópolis, a 150km do Distrito Federal. Mas poucos sabem que há ainda mais tranquilidade em uma vila da cidade histórica. Distante 43km da sede do município, o distrito de Lagolândia parou no tempo. Com 500 habitantes, o lugarejo conserva hábitos do início do século passado, um conjunto de casas centenárias, uma natureza selvagem e uma das mais intrigantes histórias de fé e messianismo do país.

Lagolândia, que um dia foi município mas perdeu o status por ver a sua população decrescer por causa da migração para os grandes centros em função da falta de emprego, não oferece serviços de internet nem de telefonia móvel. A comunicação com outras localidades ainda é feita pelos antigos telefones fixos e serviços dos Correios, como cartas e telegramas.

Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Moradores e casarões antigos em Lagolândia,  em Goiás.

Além de um posto da estatal, o povoado conta com um posto de saúde, uma escola — apenas com o ensino fundamental –, meia dúzia de bares e um mercadinho. Dessa forma, os jovens nascidos ou criados em Lagolândia vão deixando a terra natal em busca de melhores oportunidades nas cidades próximas, como Pirenópolis, Anápolis e Goiânia. Quem fica não reclama.

O ex-lavrador Benedito Moura, 69 anos, viu os filhos seguirem tal caminho, mas preferiu continuar em Lagolândia justamente por causa do marasmo. “Movimento aqui, só no fim de semana, por causa do povo que mora em Brasília, Goiânia e Anápolis e vem descansar em suas casas no povoado. Prefiro assim, mesmo dependendo de gente para ganhar meu dinheirinho”, ressalta ele, dono de um dos bares do lugarejo.

Cidade fantasma

O fenômeno descrito por Benedito faz com que a maioria das casas antigas de Lagolândia permaneça fechada durante a semana, dando ares de cidade fantasma ao povoado. Mesmo em dias de sol é difícil encontrar alguém nas poucas ruas do lugar, pois os poucos postos de trabalhos ficam no campo, em fazendas da região. Carro é objeto tão raro quanto aparelho celular. Cavalos, charretes e bicicletas sãos mais presentes nas vias de pedras centenárias, o que dá um ar ainda mais bucólico.

Minervino Junior/CB/D.A Press. Brasil. Moradores e casarões antigos em Lagolândia,  em Goiás.

Nesse ambiente Angélica Siqueira Santos, 25 anos, decidiu criar os filhos Bharyan, 3 anos, e Bhredd, nascido há duas semanas. Ela e o marido, pedreiro, decidiram trocar Anápolis por Lagolândia há quatro meses. Compraram uma casa antiga em frente à única praça do arraial por R$ 60 mil. “Essa casa tem uns 100 anos. Meu marido não quis reformá-la nem por forro porque a acha bonita assim, com os telhados à vista”, contou ela, destacando ainda as portas e janelas de madeira grossa e pesada. “A gente veio para cá por causa dos nossos filhos. Aqui eles podem crescer sem medo de violência e sem aprender as maldades da cidade grande”, completou Angélica.

Técnico de enfermagem do posto de saúde local, Ubiratan Wictovik, 54 anos, também mora em uma das casas coloniais em torno da praça. Nascido em Lagolândia, preferiu viver para sempre lá, ao lado dos pais. Ele foi o único dos 11 filhos do casal de goianos a fazer tal escolha. “Gosto dessa calmaria. Só sinto falta da internet e de um celular”, comenta. “Pois essa é a nossa maior felicidade (morar com o filho). O lugar mais longe que fui é São Paulo. Não gosto de barulho tumulto”, diz a mãe, Maria Wictovik, 76 anos.

A paz em Lagolândia é constatada também por meio das estatísticas policias. O último assassinato registrado no distrito ocorreu há 12 anos. Agora, os locais temem apenas o crescimento desordenado, por causa do asfaltamento dos 7km de estrada ainda não pavimentada, na direção à Pirenópolis. A benfeitora fez explodir os preços dos imóveis antigos do lugarejo. Os casarões localizados em frente à praça chegam a R$ 200 mil. Até dois anos atrás, não passavam de R$ 100 mil. E a tenência é aumentar mais.

O mito de Dona Dica

Na muito arborizada e bem cuidada praça de Lagolândia estão enterrados dois corpos, o de uma mulher considerada santa pelos locais e o do marido dela. A mulher é conhecida como Santa Dica de Goiás, tema do filme A República dos Anjos (1991). O busto de Santa Dica lidera o espaço dividido entre bancos, flores, imagens de Nossa Senhora e o sepulcro sombreado da Santa.

Nascida em 17 de janeiro de 1903, na Fazenda Mozondó, à 40km de Pirenópolis, Dica foi batizada como Benedita Cipriano Gomes. Reza a a lenda que, aos 7 anos, ela adoeceu, tendo perda total dos sinais vitais. Durante o banho do defunto, no entanto, os familiares teriam notado que Dica suava frio e muito. Com receio de enterrá-la, mantiveram o velório e, após três dias, Dica ressuscitou.

A história logo se espalhou pela região como um milagre. Romarias de fervorosos e crédulos roceiros migravam para pedir-lhe a benção e conseguir graças. Em poucos anos, já adolescente, Dica comandava legiões de adoradores que seguiam suas ordens com fiel devoção e em torno de sua casa formou-se povoado, Lagolândia .

Dica instituiu sistema de uso comum de solo e aboliu o uso de dinheiro. A ela eram atribuídas curas milagrosas. Dica dizia receber os espíritos do Dr. Fritz, da Princesa Silveira e de um comandante. Esperava a vinda do Messias para a libertação das doenças e pobrezas.

Nova Canudos

Dica também rezava missas e dava conselhos. Pregava a igualdade, abolição de impostos, a distribuição de terras. Dizia que a terra era de propriedade do Criador e foi feita para todos. Em sua fazenda não havia cercas e todos os recursos, oferendas e colheitas eram revertidos à comunidade.

Com o tempo, a influência de Dica começou a incomodar os políticos e os coronéis goianos. Eles temiam um episódio semelhante a Canudos, o povoado criado pelo messiânico Antônio Conselheiro no sertão da Bahia. Tal como em Canudos, não havia cobrança de tributos nem diferença de classes em Lagolândia, que virou uma espécie de comunidade socialista.

E, como fez com Canudos, o Estado decidiu agir contra os seguidores de Dica, quando eles já eram 15 mil, sendo 1,5 mil homens capacitados para o uso das armas e cerca de 4 mil eleitores. Em 14 de Outubro de 1925, a guarda estadual atacou o povoado e suposta santa mandou os devotos se lançarem nas águas do Rio do Peixe. Segundo o mito, anjos aparavam as balas que castigavam o povoado para protegê-los. E Dica reteu as balas com os longos cabelos negros.

O certo é que Dica acabou presa e levada para a capital do estado na época, Goiás Velho. Mas a prisão dela durou só seis meses. Pressionados pela população e sem provas criminatórias, o governo acabou cedendo. Dica ingressou na política, seus seguidores votavam em quem ela mandasse. Formou exército e recebeu a patente de cabo do Exército Brasileiro. Em 1928, casou com o jornalista carioca Mário Mendes, eleito prefeito de Pirenópolis em 1934. Eles tiveram cinco filhos e adotaram mais dois.

O exército de Dica participou da Revolução Constitucionalista de 1932 indo guerrear, com 150 homens, em São Paulo de onde voltou sem nenhuma baixa, resultado atribuído aos milagres da líder.  Dica morreu em 9 de novembro de 1970, em Goiânia, e foi sepultada, conforme seu desejo, debaixo de uma gameleira em frente à sua casa em Lagolândia.

12 comentários em “Lagolândia, a vila esquecida perto de Pirenópolis

  1. Nasci em Lagolandia um lugar muito tranquilo. Mas muito mito pra minha inteligência. Graças a Deus sai cedo de lá e não pretendo voltar a morar. Ainda vou muito a passeio, isso se deve aos meus pais que moram lá.

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  2. fui registrada lá também,meus pais moram na região até hoje,eu morei até os quinze anos, estudei em lagolândia da primeira a quarta série e da quinta a oitava em goianópolis(maiadô) mudei pra goianésia em 2003 ,más de vez em quando vou lá na festa do doce matar a saudade…

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  3. Muito me orgulho de ser moradora de Lagolandia . Um lugar comum , povoada por pessoas comum. Muito hospitaleira a pequena comunidade acolhe todos os turistas e romeiros que vem de todos os diversos lugares do país.
    Lugar de paz .
    Christiane florencia (Kika Bastos)

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  4. Se há um lugar q tenho saudades de dar aperto
    No coração, é este Lagolândia.

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  5. Ainda não conheço o povoado, mas pretendo visitá-lo em breve.
    Meus planos são de chegar pela manhã, conhecer a cidade e suas histórias, e ainda na parte da tarde iniciar uma caiacada pelo rio do peixe.

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  6. Tambem nasci em lagolândia e tenho orgulho disso.Meus pais optaram de vir para capital depois da queda do municipio mas ficou um elo muito grande entre nós…Amo aquele vilarejo.

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  7. Morei em Lagolândia quando criança e tive o privilégio de conhecer Dona DICA MULHER ABENÇOADA.Cidade pequena mas bem aconchegante,povo maravilhoso.

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  8. sou neta da senhora DICA minha grande avo e mulher digna de todo respeito uma guerreira com qualidades e defeitos por ser um ser humano que e digna de toda a admiraçao, me ensinou a ser lutadora e sempre olhar para os menos esclarecidos obrigada por vc ter enxergado a nossa lagolandia que nos traz muitas saudades

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  9. Minha mãe Joana Maria conhecida como Bernarda, apelido este que foi dado pela Santa dica. Minha mãe foi uma das moças que Santa dica criou. Mas a três anos já falecida.

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  10. Minha mãe dona Magdalena da Silva Dias foi professora da rede pública por muitos anos em Lagolândia. Lá nasceram 4 dos seus 6 filhos. Tenho recordações tristes do assassinato de um filho da dona Dica (os moradores a chamavam de Madrinha e não Santa como dizem.) Santa foi apelido pejorativo. Ela era muito generosa e nunca ouvi dizer que cobrasse pelas “curas” que dizem ter feito. Sua vida era um mistério para mim que estudava em colégio de freiras e não queria acreditar naquilo que diziam. Lagolândia agora será mais do que lembrada por causa dos turistas que a visitam. O povoado é bem gostoso pra se viver…

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  11. Me orgulho de ter sido registrado nos livros do cartório do Distrito de Lagolândia. Como também, todos os meus nove irmãos. Na época, pelas mãos de Olavo Wictovik…..

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